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Capítulo XXI ACONTECEU EM NAIM Naqueles tempos, foi grande a miséria em todo Israel. Como uma mancha de azeite que se espalha, a fome chegou a todas as cidades das margens do lago e a todos os povoados do campo, entrou nas casas dos pobres e ficou ali como amarga companheira de cada dia e de cada noite. Noemi: Tome, filho. Contente-se com este pão e. Abel: Contente-se, contente-se! Maldição de vida, trabalhar de sol a sol como um animal para isso, um pedaço de pão duro! Noemi: Ai, filho, o que eu vou fazer se não tem mais que isso?! Estamos devendo para todo mundo, ninguém quer nos emprestar um centavo sequer, eu não posso. Abel: Não é você, mamãe, não estou dizendo isso para você. É que ninguém aguenta mais isso. E amanhã acontece a mesma coisa, continuar a encher os armazéns desse maldito Eliazim, e voltar pra cá de noite para mastigar um pedaço de pão duro. Isto não é vida, maldição, isto não é vida! Noemi: Abel, filho, não amaldiçoe assim, que Deus pode nos castigar. Abel: E mais isso ainda! A gente passa uma vida desgraçada e ainda vem Deus para castigar-nos. Pois que nos castigue o tanto que quiser, que pouco me importa! Ao diabo com Deus e com Eliazim e com todo mundo. Ai! Ai! Esta dor! Noemi: Filho, filho, o que há com você? Abel: Nada. Não é nada, mamãe. Deixe pra lá, vou me deitar. Noemi: Está se sentindo mal, filho? Abel: Estou cansado, como se me tivessem moído a pauladas. e um frio pelo corpo todo. Noemi: Ai, meu Deus, Senhor! Quando te lembrarás de nós, quando? Uma vizinha: Deixe-me dar uma olhada, vizinha. Puxa, este menino está ardendo de febre. e está com uma cara nada boa. Noemi: Ai, Santo Deus! O que eu faço agora? O que eu faço? Vizinha: Não se desespere, vizinha. Olhe, vou agora mesmo pra casa e lhe preparo um chá de limão amargo e você vai ver como ele melhora. Noemi: Você acha mesmo, vizinha? Vizinha: Você verá que sim. Bem, e se não, o que vamos fazer? E você não se angustie, Noemi, que o que está destinado para alguém, nem Deus tira, nem o Diabo põe. Naquela noite veio o médico. Médico: O rapaz está grave, senhora. Estas febres negras enrijeceram todo o corpo dele. Noemi: Faz dois dias que ele não diz uma palavra, doutor. Já nem sabe quem sou eu. Ai, meu filho, meu filho! Médico: Não posso fazer nada por ele. Noemi: Ele vai morrer? Médico: Saber de morte é coisa de Deus e não de nós médicos. Noemi: Se ele morrer, o que eu vou fazer? Ele é o único que eu tenho, o único. O único filho que Noemi tinha era aquele rapaz. Fazia vários anos que seu marido havia morrido. Desde então, para criar seu filho, Noemi havia trabalhado no campo, tirando forças de onde podia. Suas mãos estavam cheias de calos e seu rosto, ainda jovem, cheio de rugas. Naquele ano, como em tantas outras casas de Israel, a fome havia chegado à casa de Noemi. E com a fome, a doença. Na madrugada daquele dia chegou a morte. Noemi: Abel, filho! Abel! Abel! Uma vizinha: Não chame por ele, Noemi. O menino está morto! Noemi: Não pode ! Não pode ser! Vizinha: Conforme-se, mulher. Deus o deu, Deus o tirou. Noemi: Mas eu precisava tanto dele! Era o único que eu tinha! Eu vivia para ele! Agora, para que vou querer viver? Para quê? Vizinha: Conforme-se, Noemi, tenha paciência. Noemi fechou os olhos de seu filho Abel e, ajudada por suas vizinhas, lavou seu corpo e o envolveu num lençol branco e limpo. Pouco depois apareceram por lá as carpideiras, aquelas mulheres que choravam nossos defuntos e avisavam a todos com seus cantos tristes a chegada da morte. Em todas as casas do pequeno povoado de Naim, ouviram-se seus gritos de dor. E os amigos de Noemi foram consolá-la e preparar o enterro de seu filho. Uma vizinha: Ai, Noemi, e saber que o Abel estava até há uma semana atrás trabalhando com você no campo. Assim, tão de repente! Noemi: Foi a febre negra. Faz quatro dias que caiu de cama e não se levantou mais. Ai, ai, meu Deus! Ai, meu Deus. Noemi revolvia os cabelos e arranhava o rosto, chorando, sem consolo. Junto ao morto, as carpideiras faziam o mesmo. Alguns homens tocavam em suas velhas flautas a música triste dos velórios. Enquanto isso, outros preparavam a rede onde iam colocar o rapaz para levá-lo a enterrar. Outra vizinha: É o destino, Noemi. O destino de cada um está escrito no livro do céu. Por mais que você chore, suas lágrimas não poderão apagar. Conforme-se. Noemi: Estou sozinha agora! Fiquei sozinha! Não tenho marido que me dê outros filhos! Nem tenho outros filhos que me deem netos! Para que me servem meu ventre, meus peitos e minhas mãos? Para nada! Vizinha: Conforme-se, mulher, é o destino! Noemi: Por que? Por que comigo? Era o único que eu tinha! Vizinha: As febres negras são febres muito más! Noemi: Mas ele era muito jovem. Não tinha que morrer! Não tinha que ter morrido! Vizinha: Conforme-se, mulher, conforme-se. Por aqueles dias de fome, Pedro e eu fomos com Jesus até Nazaré. Jesus queria levar à Maria, sua mãe, um pouco de dinheiro e ver como estava. Antes de regressar a Cafarnaum, passamos por Naim. Ali vivia um primo de Jesus e Maria nos havia dado um recado para ele. Naim é um povoado pequeno, pegado à encosta do monte Gabial e guardado muito de perto pela altura do Tabor. Quando nos acercávamos de Naim, escutamos ao longe a música triste das flautas e os lamentos das mulheres. Pedro: Maldição! Já é o terceiro defunto que encontramos por esses caminhos. Desde que saímos de Cafarnaum, não fazemos outra coisa que topar com enterros. João: Deve ter sido outra vez essas febres negras. Deve ser uma epidemia. Jesus: Que epidemia! É a fome, João, a fome. Os pobres estão morrendo de fome. Não houve colheita, os preços subiram, os impostos também. Como essa gente não vai morrer? E a isso chamamos febres negras.! Pelo caminho que sai do povoado, o enterro se aproximava de nós. Na frente de todos, as carpideiras, vestidas de saco, golpeavam com força o peito desnudo e arrancavam os cabelos enquanto gritavam angustiadamente. Atrás, sustentado em uma rede por quatro homens, vinha o morto. Ia envolto em um lençol branco. Então o vimos. Era um rapaz jovem. Não tinha ainda barba no rosto. Ao lado, a que devia ser sua mãe, com o rosto cheio de arranhões, chorava e rasgava as vestes levantando seus braços ao céu. Acompanhavam-na muitos homens e mulheres do povoado. Quando o cortejo passou perto de nós, nos unimos a ele. Uma vizinha: Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Pobre Noemi! Pobre Noemi! Pobre Noemi! João: Quem é o morto, mulher? Outra vizinha: Abel, o filho da Noemi. Sua mãe é viúva já faz seis anos. Este era o único filho que tinha. Que desgraça! Morrer tão jovem! Jesus: Este rapaz não tinha que morrer! Vizinha: Claro que tinha de morrer! Foram as febres negras. Essa doença não perdoa. Ai, meu Deus! Ai, Senhor! O cortejo ia pelo caminho estreito e empoeirado que ladeia a colina de Naim e sai ao fundo, onde ficava o pequeno cemitério. Vizinha: Morreu esta manhã, quando o sol ia nascendo. Jesus: Não morreu, mulher. Não diga que morreu. Diga melhor, que o mataram. Sim, sim. Quem matou este rapaz foram os que subiram os preços do pouco trigo que as chuvas nos deixaram! Mataram-no os que continuam se enriquecendo enquanto os filhos de Israel morrem de fome! Os que iam ao final do cortejo, voltaram para olhar Jesus, que havia dito aquelas palavras, levantando sua voz por cima dos lamentos e das flautas. Naquele momento, a agitação foi se estendendo no meio daquele cortejo e, os que levavam o morto se detiveram também. Todos nos olhavam. Um vizinho: Mas, o que estão gritando esses forasteiros aí atrás? Mais respeito, caramba! Uma vizinha: Este homem disse que mataram Abel, que não foram as febres negras nem nenhuma outra febre, mas que morreu de fome. Outra vizinha: E o que importa isso? O morto, morto está! Noemi: Meu filho! Meu filho! Ai, meu filho! Vizinho: Sigam em frente! Chega de conversa fiada! Vamos lá! Continuem tocando as flautas! Noemi: Deus meu, por que o tiraste de mim? Por quê? Jesus, sem dizer uma palavra mais, começou a abrir caminho entre os tocadores de flauta e os camponeses de Naim. Pedro e eu o seguimos. Quando chegamos junto à mãe do rapaz, Jesus se deteve e começou a rezar em voz baixa a ladainha pelos mortos de Israel. Ao seu lado, as carpideiras continuavam chorando, cumprindo seu ofício. Noemi: Meu filho! Meu filho morreu! Era o único que eu tinha! Vizinha: E vocês, o que está acontecendo com vocês que vêm estorvar o enterro? Jesus se aproximou da mãe do rapaz. Jesus: Vamos, mulher, não chore mais. Os olhos de Noemi, rasos de lágrimas, deixaram de olhar o céu fechado e escuro e se voltaram para Jesus. Noemi: Eu perdi tudo o que tinha! Tudo! Tudo! Vizinha: Vamos, Noemi, conforme-se. Noemi: Não quero que ele tenha morrido! Não quero, não quero, não quero.! Jesus: Deus tampouco quer que seu filho tenha morrido. Deus tampouco se conforma. João: Venha, Jesus, vamos sair daqui agora mesmo. Não podemos fazer nada. Jesus: Não, João, deixe-me vê-lo. Então Jesus se aproximou da rede onde levavam o rapaz morto e ficou olhando-o. Também ele tinha lágrimas nos olhos. As carpideiras rodearam o cadáver, com seus cabelos revoltos e seus gritos de dor. Não paravam de lamentar-se. Jesus: Como se chamava seu filho? Noemi: Abel, chamava-se Abel. Jesus: Claro, Abel. A história continua se repetindo. Abel. Onde estão os Cains que o mataram? Até quando, Deus de Israel? Até quando estarás surdo ao grito de tantos filhos teus que morrem de fome? Até quando nossas mães chorarão seus filhos que morrem antes do tempo? O sangue deste Abel clama a Deus desde a terra. Este rapaz não tinha que morrer, não pode morrer. Abel, levante-se, Abel. Jesus se inclinou sobre o rapaz morto, o tomou por um braço e o apertou a si. E Abel abriu os olhos muito grandes e assustados, como se despertasse de um longo pesadelo. Noemi: Filho, meu filho. Ao ver aquilo, os homens que levavam a rede a deixaram cair no chão e largaram a correr, enlouquecidos. Atrás deles, corriam também as carpideiras e os tocadores de flauta e os vizinhos de Naim. Corriam e gritavam espantados. Pedro estava branco como o pó do caminho e minhas pernas tremiam. Conosco só ficou a mãe que olhava seu filho com os olhos cheios de lágrimas, sem atrever-se a tocá-lo. Noemi: Abel, Abel, meu filho. Jesus parecia cansado, como quem acaba de lutar uma dura batalha. Em toda a Galileia soube-se muito depressa o que havia acontecido em Naim. E as pessoas diziam: “Temos um profeta entre nós. Deus veio ajudar seu povo”. A fome é um magnífico caldo de cultura para a maioria das doenças. Ao agravar-se a fome em épocas de seca ou de perda das colheitas, produziam-se autênticas epidemias (peste, febres), das quais não se sabia bem a origem nem muito menos o modo de combatê-las. Naim é uma pequena cidade, situada a 15 quilômetros de Nazaré. Seu nome significa “Bonita”. Está situada nas encostas do Monte Gabial e guardada de perto pela altura do monte Tabor. Atualmente, uma pequena igreja franciscana recorda a passagem de Jesus por esta aldeia. Os israelitas expressavam sua dor diante da morte com diferentes gestos. Rasgavam as vestes, soltavam os cabelos, golpeavam o peito, jogavam cinza na cabeça. Desde que se tinha notícia da morte de alguém, até o enterro do cadáver, chorava-se o morto com um pranto ritual, às vezes escandaloso. Não só o choravam seus vizinhos e parentes, mas também acorriam as carpideiras, que tinham por profissão chorar os mortos e, inclusive, recebiam dinheiro por fazê-lo. O velório e o enterro eram acompanhados por tocadores de flautas. As carpideiras choravam, gritando ou cantando as “lamentações”, que quase sempre começavam com um “ai”. Mesmo depois do enterro, esses lamentos se repetiam ao longo de sete dias, que era o tempo que durava o luto em Israel. Quando Jesus responde a João Batista sobre o que está fazendo na Galileia, enumera cinco sinais da chegada do Reino de Deus: Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem e os mortos ressuscitam (Mt. 11,1-6). Todos eles são sinais dos tempos messiânicos. Lucas incluiu esse episódio no seu Evangelho. A boa notícia que Jesus veio trazer-nos é também esta: Deus se rebela diante da morte de seus filhos. Deus não aceita que a morte seja considerada um destino fatal. Ele é Deus de vivos e por isso luta contra a morte. Neste episódio, o filho da viúva de Naim se chama Abel. É uma forma de indicar que se está falando de um “tipo” de morte. Abel, o segundo filho de Adão e Eva assassinado por seu irmão Caim, será sempre o tipo de homem justo assassinado injustamente. Também morrer de fome é morrer injustamente, é um assassinato. Deus não quer que nenhum de seus filhos morra assim. O sinal de Jesus levantando Abel da morte não é, pois, um gesto de pura compaixão, mas a expressão firme de Deus que se rebela diante desta morte injusta e, como no Gênesis, continua nos perguntando hoje diante do faminto: “O que você fez com seu irmão?” (Gen 4,9). Diante da morte por fome de milhões de homens, ninguém pode dizer: Não sou responsável, nada tenho a ver com este problema, eu não posso fazer nada. A fome é atualmente o problema número um deste mundo. Porque duas de cada três pessoas que vivem no planeta padecem de fome ou desnutrição em qualquer de suas formas. Atrás da fome, não vem somente a morte, mas uma longa lista de enfermidades – algumas hereditárias – e de problemas familiares incontáveis. Em muitos países se passa fome. Em uma sociedade onde a fome é uma estrutura que aprisiona a maioria, o Reino de Deus começará quando esta situação desaparecer e começar a abrir caminho para a vida por meio de uma boa alimentação. Se ser viúva e ver morrer o único filho é realmente uma situação extrema de dor, não existe socialmente situação de mais extrema injustiça do que a morte por fome em um mundo no qual uns poucos países se empanturram e estragam cada dia a comida, cegos diante da miséria de seus irmãos. A morte é o final natural da vida. Sempre é mais dolorosa quando chega antes do tempo: quando alguém é jovem, quando nem teve a oportunidade de viver como um ser humano. Há países latino-americanos – Haiti, por exemplo – em que a expectativa de vida não passa dos quarenta anos. (Nos países desenvolvidos chega a setenta e cinco anos). Nos países do terceiro mundo pode-se afirmar que milhões de homens e mulheres morrem “antes do tempo”. Os que morrem de fome, ainda que morram em sua cama, são mortos-matados. Seu sangue, como o de Abel, clama a Deus desde a terra. (Lucas 7,11-17)
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