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Capítulo XIX DEPENDURADO PELO TETO Por aqueles dias, a casa de Pedro era a mais visitada de Cafarnaum. Quando o sol se escondia por trás do Carmelo, nos reuníamos nela todos os do grupo e muitos outros do bairro para conversar sobre nossos problemas... Rufa: Sim, está bem, muita justiça e que as coisas mudem e todos iguais, está certo... Mas, e o espírito, heim? Pedro: Que espírito, sogra? Rufa: Como que espírito? O seu, Pedro. O meu. A alma do homem. E se depois de toda essa confusão a gente morre e é condenado, eh, como fica então? João: Mas, velha Rufa, e por que vamos ser condenados? Rufa: Porque somos maus e temos pecados, puxa vida! E devemos nos preocupar de ter a alma limpa! Um homem: Aqui o que temos de limpo são as tripas, com esta fome que está nos matando! Pedro: Está bem, sogra. Deixe a alma para depois, porque primeiro é preciso colocar alguma coisa na pança, não acha? Eu lhe digo que o Messias vem com um saco cheio de grãos-de-bico para repartir com todos! Rufa: Pois eu digo, Pedro, que o primeiro é ter as contas claras com Deus e depois haverá muito tempo para os grãos-de-bico. Não é, Jesus, tenho ou não tenho razão? Jesus: Eu não sei, vovó, mas me parece que uma pomba precisa das duas asas para voar. Se tiver uma asa quebrada, não voa. E se é a outra, muito menos. Rufa: O que você quer dizer com isso, Jesus? Jesus: Eu creio que Deus não separa as coisas. Tudo vai junto, a alma e o corpo, o céu e a terra, o de agora e o de depois... Naquela noite soprava um vento frio do Hermon, e Rufina, a mulher de Pedro, se pôs a preparar um caldo de raízes. Todos os vizinhos sentiram o cheirinho bom e vieram beber do pote. Pouco depois, a casa estava repleta de gente... Um homem: O que é que estão dizendo, daqui não se ouve nada? Uma mulher: Eu sei lá, é coisa de uma pomba que tem duas asas para voar e... Olhe aqui, pare de empurrar, senão... Mas olhe só quem vem vindo, os filhos de Floro... e estão trazendo o velho também! Outro homem: E para que tiraram aquela raposa da sua toca, heim? Rapaz: Queremos entrar. Nós o trouxemos carregado desde a outra ponta do povoado... Outra mulher: Pois voltem por onde vieram! Não estão vendo a quantidade de gente por aqui? Quatro rapazes jovens carregavam uma maca improvisada, feita com uma rede de pescar e dois remos de barco. Sobre ela vinha um velho muito magro com os olhos vermelhos e saltados, como os dos sapos. Era Floro, o paralítico. Rapaz: Por favor, deixem-nos entrar! Homem: Mas como vão colocar este aleijado lá dentro? Aqui não cabe nem uma pulga de lado! Vão, vão embora daqui! Os filhos de Floro tentaram passar pela porta, pela cozinha, pelo pátio... Impossível. Havia gente demais. Mas Floro não estava disposto a voltar sem ver o rosto de Jesus. Foi então quando lhe ocorreu uma ideia... Rapaz: A coisa está ruim, papai. É melhor a gente ir embora... Floro: De jeito nenhum. Eu não vou sem ver o forasteiro. Rapaz: Mas, papai, o que podemos fazer? Aqui não há quem consiga entrar... Floro: Pois me coloquem por cima. Rapaz: Como por cima? Floro: Me dependurem pelo teto, caramba! Esses telhados são fáceis de levantar... Isso eu sei muito bem! Os quatro rapazes tiraram os remos, envolveram o velho Floro na rede que lhe servia de maca, puxaram-no até o teto da casa e começaram a levantar os paus cobertos de barro amassado. Enquanto isso, Jesus continuava falando do Reino de Deus... Jesus: Sim, sim, acontece com a pomba a mesma coisa que com uma barca sem os dois remos, e os dois têm de ir ao mesmo compasso para que a barca vá direito pra frente... Com o Reino de Deus é a mesma coisa, tudo vai junto, tudo... Rufina: Mas, o que está acontecendo aqui? Pedro, por Deus, venha ver isso! Estão abrindo um buraco no teto! Pedro! Pedro: O que está acontecendo, mulher escandalosa? Rufina: Olhe, Pedro, há gente trepada no teto! Pedro: Como no teto? que raios estão fazendo aí? Escutem, vocês, desçam imediatamente se não quiserem que... Mas, estão loucos? Traga-me a vassoura, Rufina, que eu vou quebrá-la na testa deles se não descerem daí... Rufina: Ai, Pedro, aaaiii! Foi questão de segundos. Os filhos de Floro escorregaram, a viga central se partiu e o teto de argila se afundou sobre nossas cabeças. Junto com os paus e a poeira do desmoronamento, apareceu no meio de todos, como um polvo apanhado na rede, o paralítico Floro. Pedro: Mas, o que é isso que vocês fizeram? Animais, velhacos, safados, filhos da cadela de Jezebel! Me estragaram todo o telhado! Quem vai consertá-lo agora, heim? Rapaz: É que o velho escorregou e... Pedro: Maldição, eu juro que vão recolher esse barro com a própria língua! Rapaz: É que os paus do teto da sua casa estão meio podres e por isso... Pedro: Isso é assunto meu e não de vocês, seus patifes. E então, quem mandou trepar no teto dos outros, heim, heim? Rapaz: Foi papai quem nos disse... Pedro: Papai! Papai! É a esse arrepio da pele do diabo, que vocês chamam de “papai”? Vagabundo, porcaria de homem! Jesus: Acalme-se, Pedro, a coisa não é para tanto... Pedro: Como não é para tanto? Mas, onde é que já se viu gente cair do céu como cocô de passarinho, heim? Se caíssem em cima da sogra Rufa, a teriam matado! Jesus: Está bem, mas não caiu... Pedro: Olhe só para isso, tudo quebrado, janela, escada, tudo quebrado! Jesus: Amanhã eu conserto isso, Pedro, fique sossegado. Tenho experiência em consertar telhados. Rufina: E este velho tem experiência em destruí-los, não é, Floro? Não, não tenha pena desta raposa velha. Sabe como ele quebrou as pernas? Pulando cercas e trepando nos telhados para roubar... Seu grande sem-vergonha, vou moê-lo a pauladas! Pedro: E pode-se saber por que demônios você pula pelo teto se há uma porta para entrar, heim? Fala, não fique calado agora. Você tem as pernas quebradas, mas a língua não... Floro: Eu sou um aleijado. Pedro: Um aleijado, sim, um aleijado, um bandido, isso o que você é. E esses seus quatro filhos, são ainda piores que você... Vamos, vamos ponham pra fora esse safado... Jesus: Espere, Pedro, faça isso... Deixe-o falar primeiro. O que acontece, Floro, por que veio aqui? Por que fez isso? Floro: Porque eu queria entrar. Então uma velha na porta me disse: “fora, fora daqui, não há lugar”. E eu queria entrar. E um outro me empurrou e disse: “fora, fora daqui, a casa esta abarrotada”. Mas eu queria entrar. Pedro: E por que não ficou escutando pela janela como os outros? Floro: Não, pela janela não. Eu queria ver de perto esse tal Jesus que veio para cidade e que cura os doentes... Tenho as pernas aleijadas. Rufina: Sua doença está nas mãos, pedaço de ladrão! Nem mesmo Deus cura você, desgraçado! Pedro: Olhe, Jesus, este velho, que você está vendo, é um ladrão de sete mãos. Agora já não pode fazer muita coisa, mas antes, quando podia andar... se eu contar você não vai acreditar! João: O velho Floro roubou o candelabro da sinagoga sem apagar as velas! Pedro: Se lhe faltar um denário, pode procurá-lo no bolso do Floro. Se lhe sumir o pão ou as azeitonas, é só procurar na pança do Floro ou na de seus filhos. Uma mulher: Ladrão e bêbado! Um homem: E jogador! Rufa: E brigão! João: Pro diabo com o Floro, as maldades deste velho são tantas quantos os filhos que ele tem! Jesus: Isso que dizem, é verdade, Floro? Floro: Sim, Senhor. Isto é verdade. Eu sou um sem-vergonha. Mas não se metam com os meus filhos. Meus filhos são bons. Outro homem: Bons? Pois olhe que quando o Floro e seus filhos passam pelo mercado é como se passasse uma praga de gafanhotos! Arrasam com tudo! Floro: Mentira! Meus filhos são honrados e decentes. Jesus: Estes quatro são seus filhos, Floro? Floro: Sim, Senhor, são os mais velhos. Dois pares de gêmeos. Jesus: Você tem mais filhos? Floro: Uhhh! Mais dez em casa. Tenho catorze. Jesus: Catorze? Caramba, mais que as tribos de Israel! Floro: É que minha mulher os pariu de dois em dois. Sempre gêmeos. Jesus: E por que você roubava? Não tinha trabalho? Floro: Sim, mas o que ganhava não dava. Catorze filhos, catorze bocas. Vão morrer de fome dizia minha mulher. Eu trabalhava de dia e roubava de noite. E não dava nem assim! Então me desesperei e maldisse a Deus. Sim, Senhor, cometi todos os pecados que a Lei proíbe. Eu não tenho perdão. Sou um sem-vergonha. Mas meus filhos não. Eu os criei e os toquei pra frente. São bons e trabalhadores. Um homem: Seus filhos são tão sem-vergonhas quanto você, velho mentiroso! Floro: Não, não, não. Não digam isso. Eles não são como seu pai. Outro homem: Filho de peixe, peixinho é! Floro: Não, não, eles... Eles são bons. Eles são bons! Pode crer, forasteiro, meus filhos têm bom coração, não são como eles estão dizendo... Jesus: Vamos, Floro, não fique assim. Acalme-se. Olhe, você tem confiança em seus filhos. E Deus tem confiança em você. No Reino de Deus todos têm um lugar, ainda que se pendurem pelo teto. Anime-se, Floro, Deus perdoa seus pecados. Acredite no que lhe digo: Deus perdoa seus pecados. O paralítico olhou surpreso para Jesus, com aqueles olhos saltados e um sorriso grande, de orelha a orelha. Todos estranhamos muito aquelas palavras que Jesus acabava de pronunciar... Homem: Como é que você disse, forasteiro? Jesus: Disse que Deus perdoou Floro. Homem: E quem é você para dizer isso? Esse velho é um canalha. Não há perdão para ele! Jesus: Você acha mesmo? Homem: Tanta certeza quanto as pernas quebradas que ele tem! Jesus: Escutem isto... Que coisa será mais fácil: dizer “seus pecados ficam perdoados” ou dizer “suas pernas ficam curadas”? Homem: Nenhuma das duas. A primeira é uma blasfêmia. A segunda é impossível. Jesus: Creio que você se engana, amigo. Para Deus nada é impossível. Não estávamos dizendo antes que no Reino de Deus tudo vai junto, a alma e o corpo...? Vamos, Floro, levante-se e volte para casa com seus filhos... Então aconteceu algo inacreditável. O velho Floro se levantou do chão, esticou as pernas com naturalidade e jogou no ombro a rede e os remos que lhe haviam servido de maca... Olhou para todos, radiante de alegria e começou a andar. Até que saiu da casa de Pedro, seguimos seus passos com medo e assombro, maravilhados com o que havia ocorrido. Nunca havíamos visto uma coisa assim. Os telhados das casas no tempo de Jesus, e ainda hoje em grande quantidade de moradias orientais, são planos, como terraços. Descansavam sobre uma base de vigas cobertas com ramos, sobre os quais se colocava uma camada de barro amassado. Nas casas comuns esta armação de vigas se fazia com madeira de sicômoro. Nos edifícios maiores tinha que ser empregada uma madeira muito mais forte. A do cedro, por exemplo. Esta forma de construção leve e provisória - o teto era levantado em tempo de maior calor - explica como o paralítico Floro pôde ser dependurado por cima, no interior da casa de Pedro. Os vizinhos que estariam reunidos naquele dia não ocupariam somente o espaço da casa, que era reduzidíssimo, mas se amontoariam no pátio comum que compartilhavam as pequenas moradias de várias famílias. No pensamento religioso está muito arraigada a ideia dualista: Fala-se de coisas, de pessoas e lugares sagrados, e por outro lado se fala de coisas, pessoas e lugares profanos. Diz-se que o homem tem, por uma parte a alma (espiritual, elevada, digna de estima) e por outra, o corpo (material, de baixos instintos, o qual temos de dominar). Fala-se do material e do espiritual, do natural e do sobrenatural, para contrapô-los. Em tempos mais recentes pretendeu-se diferenciar, assim, a salvação, da promoção humana. (Ou a libertação em Cristo, da libertação temporal). O futuro que aguarda o homem também é visto como diferente e oposto ao presente: A terra e o céu; o mais aqui e o mais além. Na realidade, nenhum desses pares de contrários encontram base na mensagem do evangelho. As palavras e a atitude de Jesus romperam para sempre estas falsas divisões, proclamando que todos os homens são iguais - todos sagrados -, que Deus enche o universo criado, e que a vida eterna começa a partir desta vida quando o homem opta por defender a vida de seus irmãos. O milagre que Jesus realiza com o aleijado Floro é um sinal de que para Deus essas diferenciações não contam. Deus liberta o paralítico, de uma vez, de sua enfermidade e do peso de sua história de debilidades, de seus pecados. Para Deus - isso diz o sinal de Jesus - vão juntos a alma e o corpo. Para Deus interessa o homem todo. Diante do evangelho já não conta nenhum desses dualismos. Tampouco o dualismo na ação: quando os homens lutam para transformar a história de miséria e injustiça em uma história autenticamente humana, estão fazendo história de salvação, construindo o Reino de Deus ou, dizendo em outras palavras, estão começando o céu. O céu começa na terra. E a Deus o encontramos no homem. Deus conhece a história pessoal de cada homem, de cada mulher. Conhece, por isso, as últimas motivações de seus atos e, como juiz justo, tem presentes todos os atenuantes que tem o “mal” que fizemos. A extrema necessidade - e esse é o caso de Floro, cheio de filhos a quem alimentar - é um grande atenuante para as debilidades humanas. Frente a Jesus, o paralítico “vê” toda sua história, a aceita como é, com todas as suas limitações, e a confessa sinceramente. Deus, por Jesus, também a vê e a aceita. Isto é, a perdoa, a limpa de todas as suas falhas e a enaltece: as contas ficam acertadas. Jesus é o mensageiro do perdão de Deus, um perdão sem limites, que leva alegria ao coração atormentado do homem. Os milagres de Jesus não devem ser “lidos” como provas de sua majestade e do seu poder. O majestoso isola. O poderio nos faz tremer, nos atemoriza. Se os sinais que Jesus realizou entre seus patrícios tivessem esse efeito, tudo teria sido contraditório com o projeto de Deus, que quis precisamente aproximar-se de nós em Jesus. Cada um daqueles sinais tornou mais próximos de Jesus os homens pobres e humildes de seu povo, que viam nele um deles, um amigo a quem querer, um líder a quem seguir: os que se distanciaram - e não precisamente por sua admiração - foram os que acreditavam que com suas orações e suas leis tinham já Deus metido no seu bolso, e não suportaram que um camponês pobre falasse com tanta intimidade das coisas religiosas e fosse capaz de pôr em pé a esperança de um povo prostrado por tantos sofrimentos. (Mateus 9, 18; Marcos 2,1-12; Lucas 5,17-26)
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