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Capítulo XVIII OS FILHOS DE EFRAIM (Do Filho Pródigo) Um par de lamparinas iluminava a casa de Pedro, enchendo de sombras as paredes. Naquela noite, como em quase todas, ficamos conversando depois do jantar e Jesus nos contou uma história, a história do velho Efraim. Jesus: Sim, aquele homem tinha um coração do tamanho deste lago. Chamava-se Efraim e tivera seis filhos. As quatro primeiras foram meninas e os outros dois, homens. Sua mulher morreu quando nasceu o último. Efraim ficou viúvo e teve de trabalhar duro para tocar adiante com seus seis filhos. Ele tinha um pedacinho de terra à direita da colina de Nazaré. Ali suava da manhã à noite, arando e semeando. Trabalhava como um burro velho para que seus filhos tivessem todos os dias grãos-de-bico e pão. Jesus: Passaram-se os anos, as filhas foram se casando e Efraim ficou com seus dois filhos varões, Rubem, o mais velho e Nico, o menor de todos. Vizinho: Bom dia, Efraim! Como vai essa vida, vizinho? Efraim: Pois é o que você está vendo, meu caro. Aqui, como sempre, suando em bicas! Vizinho: Mas os meninos já vêm ajudar, não é mesmo? Efraim: Claro que sim. O maior está agora enfiando o arado naquele pedaço. Já estamos quase no tempo da semeadura, vizinho. Vizinho: Ah, esse seu filho Rubem é um grande rapaz, sim senhor. Com ele se pode contar. Mas o outro, heim? Que mau pedaço se saiu, não é mesmo? Efraim: Bem, o pobre Nico. Vizinho: Não o defenda, Efraim, não o defenda, que por aqui todos sabem de que pata manca esse seu outro filho. Ele só quer saber de correr atrás de rabo-de-saia. Um vagabundo e um sem-vergonha, isso o que ele é. Você devia falar sério com ele um dia desses. Endireita essa árvore enquanto é tempo. Ela está crescendo muito torta. Efraim: Esse rapaz se criou sem mãe, vizinho. Eu tive de ser pai e mãe ao mesmo tempo, compreende? Eu o conheço bem. Não é um sem-vergonha, não. Acontece que ele anda um pouco desorientado. Jesus: Naquela noite, Nico, o filho mais novo de Efraim, demorou muito a chegar em casa. Efraim: Onde terá se metido? É estranho, seu irmão chega sempre para comer. Rubem: É, para isso ele sabe chegar a tempo. É um cara de pau. Não dobra o lombo para trabalhar, mas come que nem um boi. Bem, papai, já acabei. Eu vou dormir. Efraim: Eu não posso dormir antes dele chegar, filho. Vou ficar esperando mais um pouco! Jesus: Nico chegou passada a meia noite. E seu pai, o velho Efraim, o estava esperando. Nico: Viva a vida, viva o amor! Hip! Ei, papai, ainda está acordado? Hip! Efraim: Filho, por que chegou tão tarde? Estava preocupado. Nico: Ah, velho. A gente tem de viver a vida! Hip! Eu estava com uns amigos. Temos planos, sabe? A gente vai embora desse povoadinho. Isso aqui é muito aborrecido, papai. Muito aborrecido, aborrecidíssimo. Já não aguento mais. Efraim: Mas, moleque, o que você está dizendo? Nico: Que vou embora. Amanhã mesmo eu me mando. Não vou ficar aqui plantado que nem uma árvore. Quero conhecer o mundo. Efraim: Nico, meu filho, você bebeu muito vinho. Não sabe o que está dizendo. Nico: Escute, papai, eu sei que você tem aí guardado um dinheirinho da colheita anterior. Dê-me a parte que me toca. Eu vou gozar a vida. Viva a vida, viva o amor! Jesus: Na manhã seguinte, o velho Efraim tirou de um buraco do pátio as moedas que havia economizado da última colheita e separou as que tocavam por direito a seu filho, que já tinha idade para reclamá-las. Embrulhou-as num lenço e lhe deu. Até o último momento confiava que Nico não iria. Efraim: Bem, filho, se é o que você decidiu. Nico: O que é isso, meu velho, não seja tão sentimental. O dinheiro não é para ficar escondido, mas para se gozar com ele. Efraim: E para onde você vai? Nico: Para qualquer lugar! Onde houver ambiente! Efraim: Filho, mande-me alguma notícia sua com os mercadores que passam por aqui. Nico: Mas ninguém passa por aqui, papai, isso aqui é um povoado morto. E eu estou até o nariz disso tudo, de você e de todos. Vou indo, papai, adeus! Jesus: Efraim viu seu filho afastar-se pelo caminho, sem que volvesse uma só vez a cabeça. Seguiu-o com os olhos cheios de lágrimas até que ele se perdeu no horizonte, por entre as oliveiras do caminho. Rubem: Maldição, papai! Você deu a esse vagabundo um dinheiro que ele não trabalhou! Efraim: Seu irmão é livre, filho. Se ele queria ir. Eu não vou mantê-lo amarrado aqui como um boi. Ele não é meu escravo. É meu filho. Jesus: No porto de Jafa, Nico começou a gastar o dinheiro que seu pai lhe havia dado. E assim passaram-se os meses. Quando não eram mulheres, eram bebedeiras e, quando não, apostas nos dados. Todo o dinheiro que Efraim havia economizado trabalhando como um burro de carga, seu filho desperdiçou em muito pouco tempo. Enquanto isso, em Nazaré, seu pai não deixava de pensar nele. Vizinho: E então, Efraim? O de sempre? Efraim: Sim, vizinho, aqui vamos indo, esperando. Qualquer hora dessas passam as caravanas do sul. Se meu filho viesse em uma delas. Vizinho: Esse não volta mais, Efraim. Com todo aquele dinheiro que você lhe deu. Efraim: Não tenho nenhuma notícia dele. É como se estivesse morto. Vizinho: Isso mesmo. Considere-o morto e pare de sofrer! Esquece esse rapaz. Ainda lhe restam outros cinco e são bons. Esquece esse desatinado. Jesus: Mas, pode uma mãe ou um pai esquecer-se do filho que criou? Pode deixar de preocupar-se com quem nasceu de suas entranhas? Efraim não esquecia seu filho, ainda que seu filho tivesse se esquecido dele. Nico: Escute aqui, ô pançudo, traga outra jarra de vinho para cá, que minha garganta já está fazendo cócegas! Hip! E a menina aqui também quer continuar mamando, não é mesmo queridinha? Rá, rá, rá! Jesus: Passou outro mês, e outro e mais outro. O dinheiro que Nico havia levado de Nazaré foi se acabando. Um dia apostou nos dados as últimas moedas que lhe restavam e perdeu tudo. Nico: Maldita sorte, essa minha! Que diabos vou fazer agora, heim? Jesus: Então procurou trabalho, mas não encontrou. Em Jafa as coisas não iam muito bem. A colheita tinha sido ruim naquele ano. Havia pouco dinheiro e muita fome. Ao final, depois de muitos dias, um homem o contratou para cuidar de porcos a troco de um pagamento miserável. Nico: Nojo de vida! De boa vontade comeria as algarobas que dão aos porcos. Mas se o dono vir, me mói de pancadas! Pelos chifres de Belzebu, nunca tive as tripas tão vazias! Jesus: E assim passaram-se várias semanas. Nico morria de fome enquanto os porcos engordavam. Estava sujo, fedia mais que os porcos e não fazia outra coisa que lamentar-se. Nico: Eu aqui, feito um esfomeado e a essas horas lá em casa estarão comendo um bom prato de grãos-de-bico. Lá são pobres, mas não lhes falta comida. Tenho de voltar. Já não aguento mais isso. Direi ao velho: olhe, papai, sinto muito, me enganei, as coisas deram errado para mim. Diga-me o que quiser, pode gritar, fazer o que quiser, mas ajude-me. Acho que o velho vai amolecer e me dará algum dinheirinho. Sim, tenho de voltar. Jesus: Ele decidiu voltar. Efraim: Hoje faz quarenta luas que seu irmão foi embora. Rubem: Olhe, diga seu filho. Esse não é mais meu irmão, para mim é como se já fizesse quatrocentas luas. Efraim: Se soubesse onde ele está eu iria buscá-lo. Rubem: Você gastaria dez pares de sandálias e não o encontraria. Esse seu filho morreu. Esquece dele, papai, esquece de uma vez. Jesus: Naquela manhã, como em todas as outras há quarenta luas, Efraim foi ao caminho por onde passam as caravanas do sul, esperando notícias de seu filho. E quando o sol apareceu no horizonte, iluminando o caminho, o pobre pai viu algo que se movia lá longe. Alguém vinha vindo. O coração lhe avisou que aquele era seu filho, e o velho Efraim, como se fosse um menino, saiu correndo para recebê-lo. Efraim: Filho, filho! Jesus: Quando chegou onde ele estava, o abraçou e o beijou. Efraim: Filho, filho, você voltou! Nico: Papai, olhe, eu queria explicar. Efraim: Você não tem de me explicar nada. Você voltou e essa é a única coisa que importa! Venha, vamos! Vizinho, ajude-me, a trazer a melhor roupa que há no baú e procure por aí o anel de casamento da mãe dele para que ele o ponha no dedo, e sandálias novas também. E você, rapaz, vai matar o bezerro que está engordando. E asse-o depressa. Ele tem fome. Está muito magro, precisa comer bem. Não estava morto! Está vivo! Estava perdido e eu o encontrei! Jesus: Pouco depois, toda Nazaré estava na casa de Efraim. O velho havia corrido por todo povoado, avisando os vizinhos que Nico, seu filho, havia voltado, que estava ali outra vez. Uma vizinha: E por onde você andou, seu sem-vergonha? Por aqui todos acreditavam que você havia saído do país. Outra vizinha: Quantas namoradas você arranjou por aí? Mas, veja como seu pai está feliz hoje, olhe, Serafina, ele está dançando com dona Suzana! Nico: De fato, nunca havia visto meu pai tão contente. Uma vizinha: Ele o esperou todos os dias em que você esteve fora! Dizia sempre que voltaria! Outra vizinha: E você voltou, rapaz, você voltou! Venha, vamos dançar comigo! Jesus: Ao meio-dia, Rubem, o irmão mais velho, voltou do trabalho do campo. Quando se aproximou da casa, ouviu a música e achou estranho. Rubem: Ei, você, O que está acontecendo em minha casa, para tanto alvoroço assim? Vizinho: Não está sabendo? Seu irmão Nico voltou! Há uma grande festa! Seu pai até mandou matar o bezerro cevado para comemorar! Venha, corra! Jesus: Mas o irmão mais velho se aborreceu muito ao ouvir aquilo e não quis entrar em casa. Então foram contar a Efraim o que estava acontecendo e Efraim saiu correndo para buscar seu filho mais velho. Efraim: Rubem, filho, Rubem, seu irmão voltou! Voltou são e salvo! Venha, entre, estamos todos esperando você. Rubem: Mas papai, você sabe que este vagabundo gastou seu dinheiro com prostitutas, embebedando-se por aí, e ainda lhe dá o bezerro cevado para que ele o coma, e faz uma festa. Ficou louco, papai? Efraim: Sim, filho, estou louco. Louco de alegria. Me diziam que seu irmão estava morto, e veja, está em casa outra vez. Nós o havíamos perdido e o encontramos! Como não ficar alegre? Se eu tivesse três bezerros, eu os teria matado também para comemorar ainda melhor! Rubem: Claro, e eu que passei a vida toda junto de você, trabalhando e obedecendo-o em tudo, sequer ganhei um cabrito para comer com meus amigos. Efraim: E por que você não me pediu, filho? Você sabe que tudo o que é meu é seu também. Você sabe que eu amo os dois igualmente. Jesus: E o velho Efraim abraçou seu filho mais velho com a mesma alegria com que antes abraçara Nico. E entraram em casa. Rubem abraçou Nico e sorriu. Fazia muito tempo que não sorria. E poucos dias depois, quando suas irmãs e seus cunhados vieram de visita a Nazaré, Efraim teve todos os seus filhos ao redor da mesa, sem que lhe faltasse um só. Jesus: Esta é a história do velho Efraim, aquele pai que tinha o coração do tamanho deste lago. Quem a entende, entende como é Deus. Foi Jesus quem nos ensinou a chamar a Deus com o nome de Pai. A parábola “do filho pródigo”, deveria melhor chamar-se a “do bom pai”, porque é o pai que ocupa o lugar de verdadeiro protagonista na história de Jesus. Esta parábola pertence ao grupo das que Jesus empregou para explicar aos que o ouviam: Assim é Deus. Os sentimentos que há no coração do velho Efraim – generosidade, paciência, capacidade infinita de perdão – são a melhor imagem dos sentimentos do coração de Deus. Ao falar, Jesus não empregava uma linguagem abstrata de ideias e conceitos. Expressava-se com imagens. Nesta parábola – sem falar disso – Jesus diz como é o perdão de Deus. Ele o descreve com vários símbolos. Quando Efraim recupera o filho perdido, o veste com uma túnica nova. No Oriente, presentear alguém com uma roupa é sinal de grande apreço e, na linguagem bíblica, a veste nova é um símbolo de que chegou o tempo da salvação. Ele lhe dá também um anel e lhe calça sandálias. O anel é sinal de que se entrega ao outro total confiança; as sandálias são sinal de que o passado estava todo esquecido, sinal de plena comunhão. A partir de todas essas imagens Jesus descreve como Deus perdoa a quem se converte e volta para ele. A parábola tem duas partes. Fala de duas atitudes diante desse modo de ser de Deus: a dos dois filhos. Para os dois, o pai é o mesmo: compreensivo, disposto ao perdão. Para os dois tem os braços abertos. Mas o filho mais velho não participa da alegria. Nunca fizera mal durante sua vida, mas tampouco havia compreendido quem era seu pai. Com esta história, Jesus está fazendo um convite aos que “cumprem”, aos que se acham bons e justos, para que se alegrem vendo como os que sempre estiveram fora – os irmãos menores – se sentam também à mesa e participam da festa. Para homens como o irmão mais velho, o evangelho é sempre um escândalo. Não só queriam que, por seus méritos acumulados – orações, cumprimento dos mandamentos, sacrifícios – Deus lhe desse em troca o céu, mas parece que lhes interessa e satisfaz mais que Deus o tire dos outros, dos maus, dos pecadores. É uma atitude tristemente frequente entre muitos que se chamam cristãos. Jesus comparou Deus com o pai de grande coração desta história. E ensinou seus discípulos a chamarem a Deus com o nome de “Pai”, como ele sempre fez. Em todos os livros do Antigo Testamento se diz que Deus é Pai e que age com seus filhos os homens, como um pai, mas em nenhuma ocasião alguém se dirige a Ele chamando-o de “Meu Pai”. (Existe a invocação “Pai nosso”, mas em orações coletivas, feitas em nome de todo o povo). A confiança imensa com que Jesus se dirigia a Deus, mais do que como “pai”, como “Papai” (= abbá), usando a mesma palavra aramaica com que os filhos se dirigiam familiar e carinhosamente a seu pai, é uma característica singularíssima de sua personalidade. Em toda a extensa literatura de orações do judaísmo antigo, não se encontra nem um só exemplo em que se invoque a Deus como “Abbá”, nem nas preces litúrgicas, nem nas preces pessoais. Neste ponto, Jesus não foi herdeiro da tradição de seus antepassados, mas abriu um caminho novo, inédito, cheio de consequências teológicas que nos permitem conhecê-lo mais profundamente e, por ele, conhecer definitivamente a Deus como nosso “papai”. (Lucas 15, 11-3)
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