Apresentação
Fale Conosco
Veja Também:
Capítulo XVII DIZEM QUE ESTÁ LOUCO A história das espigas arrancadas na fazenda de Eliazim, correu de boca em boca por toda a Galileia. Nosso grupo já era conhecido em Cafarnaum e as pessoas cochichavam sobre nós no mercado e na praça. Os mexericos andavam por todas as cidades do lago e, seguramente, chegavam também a Nazaré... Suzana: Maria, Maria, comadre Maria! Maria: O que foi, Suzana? E vocês? Mas, digam-me o que aconteceu? Algum dos meninos está doente, primo Simão? Simão: O meu não. O seu! Não está sabendo ainda? Maria: Sabendo de quê? O que aconteceu com Jesus? O que fizeram com meu filho? Suzana: O que vão fazer se você não o amarrar com uma corda curta! Maria: Mas, pelo santo Deus, digam de uma vez o que aconteceu... Simão: Ele e esse grupo de baderneiros que anda com ele, invadiram a fazenda do Eliazim, o fazendeiro mais poderoso de todo o Norte... Você conhece o velho Ananias daqui, não? Pois esse é um gatinho manso diante de um leão, se comparar com o Eliazim! Maria: Mas eles invadiram a fazenda para fazer o que? Simão: Pois imagine só, prima Maria. Para arrancar espigas. Para roubar. Seu filho é um ladrão! Maria: Mas, o que é isso...?! E o que vai ser agora? Simão: É como você vê. E o pior não é isso. Para cúmulo de tudo, ainda o fizeram no dia de Sábado. Suzana: E Jesus disse no tribunal que ele não cumpre o Sábado porque não tem vontade e as leis são para ele e não ele para as leis e que ele se limpa o nariz com as taboas de Moisés! Maria: Não pode ser, não pode ser... Simão: Está louco, Maria, seu filho ficou louco! Eu acho que desde aquela pedrada que o filho da Raquel deu nele, alguma coisa afrouxou na moleira de Jesus... Suzana: Não, homem, não. A coisa começou quando ele foi ao Jordão para ver aquele cabeludo que batizava no rio. Foi aí que ele deu o escorregão. Eu bem que lhe avisei, Maria, esse moreno veio muito mudado de lá... Simão: Dizem que ele falou que os de cima virão para baixo e os de baixo irão para cima. Está agitando os pobres contra os ricos. Uma vizinha: Então não está louco, puxa vida! É bem isso que está fazendo falta por aqui, virar a torta de cabeça pra baixo! Simão: Mas, na cabeça de quem passa gritar isso aos quatro ventos, heim? Eliazim foi ao quartel de Cafarnaum para denunciá-lo. E ele já foi fichado. Suzana: Comadre Maria, você tem que fazer alguma coisa, e logo! Maria: Mas eu não posso acreditar no que vocês estão dizendo: eu nunca ensinei essas coisas para o meu filho... Vizinha: Pois então ele as aprendeu todas juntas quando saiu daqui! Suzana: Dizem ainda que o viram pela rua dos jasmins, e você sabe, é onde moram aquelas tipinhas. Hum, hum... Simão: Além disso, o viram embriagando-se na taverna do cais com Mateus, o publicano, maldito ele e maldito quem está perto dele! Vizinha: E acho que ele deve ter alguma coisa com a mulher do Mateus, porque me disseram que ele vai muito àquela casa e fica lá até as tantas da noite, e que um dia ele disse... Maria: Já chega, já chega! Não pode ser, Jesus não é assim. Deve estar doente. Vizinha: Doente: Rá! Eu não sabia que sem-vergonhice era nome de doença! Simão: O que tem é muita conversa e muita vagabundagem. Bater papo e não trabalhar, é isso a única coisa que ele tem feito desde que saiu daqui de Nazaré. É só ver: quanto dinheiro ele já lhe mandou, heim, Maria? Dez denários para as lentilhas? Não se preocupa nem com a própria mãe! Suzana: Também não é assim, Simão, o que acontece é que... Simão: O que acontece é que seu filho anda muito suspeito, prima Maria. Se não perdeu o juízo, perdeu a vergonha. E se ele não é um vagabundo, acabou se juntando com um bando de vagabundos, o que no fundo dá no mesmo. Você quer um conselho? Vai buscá-lo agora mesmo! Suzana: Isso, Maria, vai buscá-lo e traga-o de volta a Nazaré. E não deixe mais que ele saia. Aqui ele se criou e que aqui fique. Você vai ver como logo abaixa essa febre de messias e de libertação e ele acaba voltando às suas ferraduras e aos seus tijolos. Isso agora é com você. Você é a mãe, não? Você ele há de respeitar. Vai buscá-lo em Cafarnaum. Maria: Mas, Suzana, como vou andar sozinha por esses caminhos? Suzana: Seus primos irão junto, não é mesmo, Simão? Simão: É lógico, Maria, iremos com você. Vou avisar meu irmão Jacó... Suzana: Eu também vou. E quando vir esse moreno, vou ajustar as contas com ele, você vai ver! Esse aí vai se lembrar de mim pelo resto da vida, porque vou lhe dizer umas poucas e boas... Não, não, ele não tem direito de se portar dessa maneira! Na manhã seguinte, antes que o sol esquentasse a planície do Esdrelom, o grupo de nazarenos se pôs a caminho de Cafarnaum para buscar Jesus. Iam seus primos. Ia Suzana, a comadre. Iam também alguns vizinhos que não queriam perder nenhum detalhe daquela pendenga. E, entre todos, engolindo as lágrimas, ia Maria, a mãe de Jesus, aquela camponesa pequena de rosto moreno. Maria: Mas, por quê? Por que, meu filho, você me faz passar essa vergonha? Deus meu, por quê? Simão: Não se preocupe, prima Maria. Por bem ou por mal a gente o traz de volta a Nazaré!... Fique tranquila. Deixe-o por nossa conta. Agora esse malandro vai aprender a obedecer a sua família, diabos! Eia, apresse o passo, Maria. O caminho se lhes fez curto pela raiva que os impulsionava. Quando chegaram a Cafarnaum e atravessaram a Porta do Consolo, perguntaram na primeira casa do bairro... Simão: Escute, dona, por favor... Onde está morando um moreno alto e barbudo, meio pedreiro e meio carpinteiro. Um que veio do interior, faz alguns meses? Uma mulher: De quem vocês estão falando? De Jesus, de Nazaré? Maria: Esse mesmo. Você o conhece, senhora? Mulher: Mas é claro! E quem não conhece Jesus por aqui? Está morando lá, na casa de Zebedeu, perto do embarcadouro. A Salomé cuida dele melhor que uma mãe. Maria: Pois sua mãe sou eu. Mulher: Não me diga! E então? Veio visitá-lo? Simão: Viemos buscá-lo. Nosso primo está meio biruta. Mulher: Biruta não! O que acontece é que este moreno não tem papas na língua e diz a verdade ao rabino, ao fazendeiro e até ao governador romano se estiver na frente. Eu digo que ele é um profeta. Um homem: Um o quê? Um profeta? Profeta esse camponês? Outra mulher: É como dizem: de profeta a louco, só falta um pouco. Se vocês são a família dele, é melhor que o levem embora. Desde que esse bruxo chegou aqui, aconteceram coisas muito estranhas na cidade! Mulher: Mas, o que é que você está dizendo, sua intrometida? Jesus é uma boa pessoa. Não curou o Bartolo, heim? Não se lembra mais? Outra mulher: Curou? Por que você não diz esconjurou? O nazareno deve ter algum pacto com o diabo. Mulher: Ah, é mesmo? E Caleb, o pescador? Não limpou a lepra dele? E não esticou a mão do fruteiro Asaf, heim? Pelas quatro asas dos querubins, esse Jesus é um bom curandeiro! Homem: Curandeiro? Agora sim vou dar uma boa risada, uma gargalhada! Pelas oito patas desses querubins que você conjurou, eu lhe digo que a única cura que esse aí sabe fazer é roubar trigo em campo alheio. E se não, vai perguntar ao velho Eliazim! Mulher: Mas você é um linguarudo mesmo! O nazareno é uma pessoa decente. Simão: Decente ou indecente, nós somos sua família e vamos tirá-lo daqui agora mesmo e levá-lo para sua casa. Quem de vocês pode me dizer onde ele está? Outra mulher: Venham comigo, eu os levarei até a casa de Zebedeu! Homem: Ei, rapazes, não percam essa!... Corram, corram, isso aqui vai pegar fogo! A notícia correu de porta em porta. As mulheres deixaram o fogão e a vassoura e se uniram aos nazarenos. Os homens sem trabalho que esperavam na praça, se levantaram e também foram para lá. Os meninos, como sempre, iam na frente, brincando e alvoroçando pela estreita rua que cheirava a cebola e peixe podre... João: Mas que balbúrdia é essa, caramba! Será que mataram o rei Herodes? Uma mulher: Escute aqui, João, vieram buscar o forasteiro! João: O que aconteceu? Vai ver que são os soldados que vieram com esse safado do Eliazim. Homem: Soldado nada! É a mãe dele que viajou a pé desde Nazaré. E seus primos. Veio a família toda! Jesus: O que acontece, João? Quem é? João: Não está ouvindo o que estão gritando, Jesus? Que lá fora estão sua mãe e seus parentes. Jesus: Minha mãe? Mas, o que será que aconteceu? Mulher: Venha aqui fora, nazareno, estão procurando você! Jesus: Mas que gritaria é essa? Morreu alguém em Nazaré? Suzana: É você que nos vai matar de desgosto, Jesus. Parece mentira que você tenha feito isso com sua mãe. Jesus: Mas, do que você está falando, Suzana? Mamãe, a troco de que esse alvoroço todo? Ficaram malucos? Suzana: Você é que ficou maluco. Pode-se saber quem o ensinou a roubar trigo, heim? E a andar agitando o povo, heim? E a andar revolucionando os pobres contra os ricos, heim? E a andar se embriagando com os publicanos e visitando a mulherada, heim? Quem lhe ensinou a viver como um vagabundo e um perdulário, heim? Vamos, diga. Simão: Deixe isso para depois, Suzana. Os trapos sujos da família a gente lava em casa. Venha, Maria, diga a seu filho que junte suas coisas, que agora mesmo regressamos a Nazaré. Maria: Jesus, filho, vamos. Volte com a gente para Nazaré. Seu primo tem razão. Desde que saiu de casa você só tem feito loucuras. Venha, vamos embora. Mas Jesus não deu um passo. Nem sequer pestanejou. Suzana: Você está surdo? Não está escutando o que sua mãe está dizendo? Jesus: Minha mãe? Sinto muito, Suzana. Esta mulher que diz que aquilo que estamos fazendo é uma loucura, essa não pode ser minha mãe. O rosto parece dela, mas não pode ser ela. Minha mãe nunca fez conta dos mexericos. Minha mãe sempre foi valente, e me falou sempre de um Deus que quer ver todos os seus filhos de pé, com a testa bem erguida. Ela me ensinou a ser responsável sem me preocupar com o que dizem os outros. Essa mulher não é minha mãe. Estes tampouco são minha família. Não conheço nenhum deles. Simão: Eu não lhe disse, prima Maria? Está avariando! Agora diz que não nos conhece! Jesus: Não, de fato, não sei quem são vocês. Minha mãe e meus irmãos e minha família são outros, os que lutam pela justiça e não vocês que vêm estorvar essa luta. Simão: Já chega de estupidez! Alguém de vocês tem umas cordas para me emprestar? Nosso parente ficou louco. E aos loucos não resta outro remédio senão amarrá-los! Jesus: Está perdendo seu tempo, primo. A verdade não se amarra com cordas. A palavra de Deus é como o vento. Não existem correntes nem cordas que possam detê-la. E os mensageiros desta palavra devem ser livres também, livres como o vento. O que é preciso dizer, o diremos sobre os telhados. E o que é preciso fazer, o faremos em pleno dia. Nem uma só daquelas palavras convenceu os nazarenos. Raivosos e despeitados ficaram ali, diante da nossa casa, decididos a continuar aquela pendenga. A verdade é que naqueles meses e mesmo depois chamaram Jesus de tudo. E chamaram-no de louco. E também de bêbado, comilão e arruaceiro. Muitos não chegaram a entendê-lo nunca. É que quando o remendo é de pano novo, não adianta colocá-lo em tecido velho. E quando o vinho é muito recente não se pode colocá-lo em odres já usados. Jesus escandalizou seus vizinhos na sinagoga de Nazaré quando lhes falou com tanta convicção do Reino de Deus e da libertação. Mas não foram só eles. Sua própria família - sua mãe, seus primos - não compreendiam nem sua atitude nem suas palavras. E acreditaram realmente que ele tivesse ficado louco. A liberdade com que Jesus violava as leis, se enfrentava com as autoridades e discutia sobre costumes antigos de seu povo, foi um escândalo para seus familiares, educados numa sociedade camponesa muito tradicional. Aquela liberdade não podia ser para eles outra coisa que uma perigosa loucura. Marcos e Mateus, falam em seu evangelho dos “irmãos e irmãs” de Jesus. Inclusive dão os nomes de quatro desses irmãos: Simão, José, Judas e Tiago (= Jacó) (Mt 13,55). Com certeza a palavra grega empregada pelos evangelistas é “irmão”, mas em tradução literal desta mesma palavra em aramaico. Temos de levar em conta que na língua de Jesus este “irmão” abarca também parentes mais distantes: sobrinhos, primos segundos etc. Tanto é assim que quando o evangelho de João quer dizer que Pedro era irmão de André – filhos dos mesmos pais – ele o especifica acrescentando a “irmão” outra palavra que permite traduzir por “irmão carnal”, com o que não resta dúvida sobre o parentesco (Jo 1,41). Uma ampla quantidade de dados dos evangelhos e da tradição, de forma unânime, nos transmitiram que Jesus era filho único de Maria. Neste episódio se apresenta Simão, um destes primos de Jesus. Assim como a oposição de Maria ao que seu filho está fazendo, é, sobretudo, emocional, fruto do temor de que ele corra perigo, a atitude do primo é mais ideológica. Simão é um homem pobre, mas interesseiro, que se move só por dinheiro, materialista, cético, que se nega a aceitar qualquer mudança, qualquer novidade e muito menos se quem as promove é alguém próximo e conhecido. O conflito, realmente sério, que Jesus enfrentou com sua família, há que realçá-lo também no ambiente de mexericos típico dos povoados pequenos, onde tudo o que rompe o estabelecido é julgado com severidade e a falta de acontecimentos de importância, agiganta qualquer notícia. O texto evangélico do enfrentamento de Maria com seu filho, foi apenas levado a sério. É bem pouco conhecido e não se prega a respeito dele. É, no entanto, um texto mariano de decisiva importância. Nos aproxima de Maria, nos faz ver nela a mãe que teme por seu filho, que não o compreende e inclusive se lhe opõe quando toma um caminho diferente do que ela havia desejado. Como qualquer outra mãe, Maria se angustia quando vê que as autoridades estão contra Jesus e tem medo de perdê-lo. Esta foi a Maria real. Maria fez um longo e difícil caminho de fé, no qual sofreu obscuridades e vacilações. O começo da atividade de Jesus em Cafarnaum foi para ela um momento especialmente difícil, que lhe custou aceitar. Tanto lhe custou, que três dos evangelistas dão conta deste conflito, embora saibam que, para seus leitores, pudesse resultar surpreendente ou escandaloso. A família era uma instituição de grandíssima importância para o povo de Israel. Os vínculos familiares eram muito fortes, duravam toda a vida. A veneração e o respeito que os filhos deviam a seus pais, pertenciam à tradição mais arraigada no povo. E apesar de tudo isso, a fidelidade à causa da justiça é para Jesus a principal das obrigações. E a antepõe firmemente às razões familiares. Se este episódio põe em relevo a fragilidade humana de Maria, destaca também a liberdade que sempre caracterizou Jesus. (Mateus 12, 46-50; Marcos 3, 20,21; Lucas 8, 19-21)
Capítulos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV XXXVI XXXVII XXXVIII XXXIX XL XLI XLII XLIII XLIV XLV XLVI XLVII XLVII XLIX L LI LII LIII LIV LV LVI LVII LVIII LIX LX LXI LXII LXIII LXIV LXV LXVI LXVII LXVIII LXIX LXX LXXI LXXII LXXIII LXXIV LXXV LXXVI LXXVII LXXVIII LXXIX LXXX LXXXI LXXXII LXXXIII LXXXIV LXXXV LXXXVI LXXXVII LXXXVIII