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Capítulo XVI A HISTÓRIA DO SEMEADOR Por aqueles dias, Jesus já era muito conhecido em Cafarnaum. As pessoas o procuravam para ouvi-lo falar do Reino de Deus. Eu creio que também vinham para escutá-lo porque tinha uma língua muito boa para contar histórias. Nós, os do grupo, estávamos cada dia mais animados. Pedro: Isso está caminhando, companheiro! O povo está abrindo os olhos! Tiago: Eu não disse, Pedro, que este moreno de Nazaré fala muito direito? Tem de bobo o que eu tenho de limpo. Eu sempre achei que com ele a gente ia chegar longe. E creio que não me enganei! Pedro: Ei, rapazes, por que não vamos até o cais? Já não estou aguentando mais ficar aqui dentro!... Vamos, Jesus! Saímos da casa de Pedro quando o sol estava se afundando no lago. O calor daquele dia havia sido insuportável. Ainda não corria nenhum sopro de ar. Sentamo-nos na orla, junto ao embarcadouro, esperando o vento fresco do entardecer. E, naquele momento, sem que ninguém os chamasse, apareceram por ali o velho Gaspar e sua mulher, os gêmeos da casa grande, meu pai, Zebedeu, o coxo Samuel e muitos pescadores mais... Uma mulher: Ei, você, nazareno! Puxa, você falou bem duro outro dia lá na sinagoga. Mas venha cá, fale claro, que aqui todo mundo é de confiança. O que é que você está querendo aprontar com tudo isso? Jesus: Eu não, patrícia. Quem quer aprontar é o lá de cima. Mulher: Como o lá de cima? Jesus: Sim, Deus que já se cansou de esperar e disse: “Preparem-se todos, que agora é minha vez!”. Um homem: Deus disse isso? Jesus: Sim, disse. E jogou no ar a semente. Homem: Que semente, você? Jesus: A do Reino de Deus, homem, o que mais poderia ser? Mulher: Se você não se explicar melhor, nem Salomão o entenderá! Jesus: Que chegou o Reino de Deus, vizinhos! Que não tem que esperar mais! Já está no meio de nós! Mulher: Pois se está, onde se meteu? Ao menos eu, não o vi em nenhum canto! Jesus: O vento também não se vê, no entanto ele sopra. O sol ainda não saiu de trás das montanhas, mas já ilumina. É assim que acontece com o Reino de Deus. Não, não tem que olhar nem para cima nem para baixo, nem sair procurando longe, porque ele está perto! Está aqui no meio de nós!... De você gêmeo, de você também, vovó, de mim... Onde houver dois ou três que queiram mudar as coisas, aí está o dedo de Deus! Homem: Se é assim, aqui está o dedo e a mão inteira. Olhe quantos somos! Jesus: Sim, agora somos um bom punhado. Mas, logo, logo acontece o que ocorreu com um tio meu lá em Nazaré. Outro homem: Aconteceu o que, com quem? Jesus: Com um tio meu que se chamava Jônatas e... Outra mulher: Daqui de trás não dá para ouvir nada! Fale mais alto, caramba! Cada vez se reunia mais gente na orla. Vinham de suas casas suados, depois de um longo dia de faina. Até alguns homens que estavam bebendo na taverna se aproximaram também dali... Jesus: Estava dizendo que com o meu tio Jônatas... Pedro: Não adianta, nem com a trombeta de Josué eles ficam quietos. Tem muita gente! Tiago: E muito calor também, maldição! Pedro: Escute, ruivo, tenho uma ideia. Olhe, a barca do Gaspar, a empurramos um pouco e da água podemos ver melhor as pessoas e todos poderão ouvir. O que você acha, Jesus? Jesus: Está maluco, Pedro? Entrar no lago a esta hora? Pedro: Não me diga que está com medo, moreno... Jesus: Não, bem... Mas esta água já está um pouco escura... Tiago: Eita! Que esses camponeses não valem nada mesmo! Têm mais medo de água que os gatos! Pedro: Venha, Jesus, deixe de melindres e vamos para a barca... Epa, rapazes, soltem a corda só alguns metros! Tiago, Pedro e eu nos metemos com Jesus na barca de Gaspar e nos separamos um pouco da margem. Uma mulher: Ei, vocês, pra onde diabos estão indo agora? Pedro: Não vamos, mulher, é para que todos possam ouvir! Com todo esse converseiro não há quem possa entender coisa alguma. Venha, Jesus, comece outra vez com aquela história do seu tio Jônatas. Jesus: Pois, então, amigos, acontece que quando chegava a primavera, um tio meu que se chamava Jônatas, saía, como todos os camponeses, para semear seu pequeno pedaço de terra... Eu era muito pequeno nesse tempo, mas me lembro que um dia, quando o vi cruzar a aldeia com seu saco de sementes ao ombro, fui correndo atrás dele... Menino: Tio Jônatas!... Tio Jônatas!... Espere, tio!... Jônatas: E onde pensa que vai esse ranhento com tanta pressa? Menino: Com você, tio, para que me ensine a semear... Jônatas: Aha?... Então você quer aprender a trabalhar a terra em vez de madeira, como seu pai? Muito bem, pois eu vou lhe ensinar a ser um bom agricultor. Venha, moleque, vamos começar por aquela ponta. Vou lhe ensinar a jogar a semente e a cantar as canções da semeadura... Escute... La, la, larará... Jesus: Chegamos ao pequeno sítio. Tio Jônatas e eu cruzamos a cerca que marcava o terreno. Então ele enfiou sua mão grande de lavrador no saco, pegou um bom punhado de sementes e as lançou. Jônatas: Essa semente é boa, rapaz! Queira Deus que chova logo para que elas peguem com força! Jesus: Tornou a pegar outro punhado e as espargiu no ar... Menino: Olhe, tio, estão caindo fora... Jônatas: O que foi, ranhento? Menino: Algumas sementes estão caindo fora. Olhe, tio, ali! Jônatas: Pois é, meu filho, sempre acontece isso. Algumas caem do outro lado da cerca, no caminho. Menino: Quer que eu as pegue, tio? Jônatas: Não, garoto, não perca tempo com isso... Deixe para os pardais que assim terão algo para meter no bucho, esses infelizes. Venha, ande, que daqui a pouco o sol se levanta e vamos suar pra valer. Lá, lá, larará... Jesus: Depois, quando fiquei maior, andei pensando que há pessoas que se parecem com essas sementes que caem nas beiradas do terreno... Alguém lhes fala que é preciso trabalhar para que este mundo seja mais justo e isso entra por uma orelha e sai pela outra... São essas pessoas que não se preocupam com nada e com ninguém. Só pensam em si. Têm o coração duro e fechado como a terra dos caminhos... O Reino de Deus não pode nascer neles... Jônatas: Agora é sua vez, Jesus. Vamos, sobrinho, enfia a mão nesse saco e pegue todas as sementes que puder e lance-as no ar como eu faço... Com força, caramba, parece que você não comeu hoje!... Menino: Eu comi, tio! Tomei uma caneca de leite antes de vir... Jônatas: Pois não parece! Vamos, atire longe as sementes! Assim! Não, para lá não. O que está fazendo? Menino: Por que para lá não, tio? Jônatas: Mas, seu pirralho, não está vendo aqueles espinhos? Se você semeia naquele lugar, as plantinhas crescem, mas os espinhos sempre crescem mais alto que elas e acabam afogando-as... Veja se aprende bem isso, ranhento. Vamos, não fique dormindo, que temos trabalho para um bom tempo ainda. Lá, lá, larará... Jesus: Quando cresci, fiquei pensando que o dinheiro, a vida cômoda são os espinhos que crescem ao nosso lado. Há gente que ouve falar de justiça e logo diz que sim, que querem fazer muitas coisas, e mudar o mundo e enchem a boca com palavras bonitas. Bem, até que lhes mexam no bolso. Até que lhes digam que têm de repartir o seu com os outros. Então eles murcham. Sim, vizinhos, o dinheiro é a praga que afoga o Reino de Deus. Menino: Aqui, tio, olhe... Aqui não tem espinho. Me dê um bom punhado para semear nesta parte. Jônatas: Sim, garoto, esta terra é boa. Mas não se engane. Depois vão dizer que eu sou desconfiado, mas é que já vi muita coisa, e é preciso andar com os olhos bem abertos. Venha cá, enfie uma estaca ali. Menino: Onde, tio? Jônatas: Ali, remove essa terra. Cavouque um pouco. Menino: Espere um pouco, tio. Ui, aqui tem muita pedra! Olhe, tio, olhe quanto cascalho... Jônatas: Está vendo, garoto, é preciso ficar esperto. As sementes que você jogar aqui nascerão e crescerão um tanto assim, mas logo, com o calor do verão, como não têm onde lançar raízes no meio dessas pedras, suas folhinhas vão murchando, murchando até secar. Vamos, sobrinho, deixe isso pra lá, que se não andarmos ligeiro, o sol vai nos queimar o cocuruto também... Lá, lá, larará... Jesus: Com o tempo, fiquei pensando que aquelas sementes que caíram no terreno pedregoso se parecem com os que começam a trabalhar por seus irmãos e põem mãos à obra com entusiasmo, e se esforçam. Mas logo, quando começam as confusões, quando os grandes começam a implicar, e a meter gente na cadeia. Quando a cabeça está em perigo, eles dão para trás, se acovardam e secam. Não tinham boas raízes. Menino: E nesta parte, tio? Jônatas: Aqui, sim, garoto, olhe bem... Olhe esta terra... Preta e fértil como aquela moreninha do Cântico dos Cânticos... Esta sim dará uma boa colheita! Menino: Jogo as sementes, tio? Jônatas: Mas é claro, homem! Com as duas mãos! Vamos, sobrinho, não seja mole! Semeie, semeie com vontade, caramba, que esta terra saberá ser agradecida, eu lhe garanto! Lá, lá, larará... Jesus: Essa é a terra boa e as pessoas boas. As que têm o coração grande, as que se metem na luta, embora tenham medo, as que arriscam seu bolso e seu pescoço, as que trabalham sem se cansar para deixar a seus filhos e a seus netos um mundo diferente deste. Essas são as que Deus precisa para levantar seu Reino! Jônatas: Puff... Já não tem mais, garoto. A terra já tem sua semente. Agora é preciso cuidar dela para que não pereça... Dentro de alguns dias, se Deus quiser e a chuva também, tudo estará coberto de folhinhas verdes. E dentro de alguns meses, as mudas estarão deste tamanho e o sol e a água irão amadurecendo as espigas. Aí você vai ver, ranhento, como esse campo vai ficar bonito... Uns pés darão espigas de 30 grãos e outros de 60 e outros de até 100, sim senhor! Menino: Eu virei com você neste dia, tio... Jônatas: Pois é claro que sim. Vamos sair bem cedo, tomaremos um bom gole de vinho para ganhar forças e lá vamos nós, a meter a foice e colher como Deus manda! Menino: E você vai me ensinar a cortar, tio? Jônatas: A cortar e a cantar, pois estou vendo que você é um garoto disposto para o trabalho, mas com a música, parece que você não se dá muito bem. Vamos lá, limpe os ouvidos, abre bem as orelhas e cante comigo... Lá, lá, larará... Jesus: Sim, amigos, vamos abrir bem as orelhas e procurar entender a história do semeador! E que cada um olhe dentro de si para ver como é o seu terreno! Quando Jesus acabou de falar, já era de noite. A maré começava a subir e movia suavemente a barca onde estávamos... Os vizinhos voltaram para suas casas cochichando pelo caminho... Nós voltamos ao embarcadouro e ficamos ainda mais um pouco falando e discutindo com Jesus... Ao final de um longo dia de calor, começava a soprar a brisa da noite sobre o largo e redondo mar da Galileia. As parábolas são talvez os textos do evangelho nos quais mais fielmente podemos “ouvir” Jesus e “ver” o ambiente em que ele cresceu e no qual se formou. Nas parábolas em que se usam imagens agrícolas, vemos o camponês que foi Jesus, acostumado a observar o trabalho do campo e a participar dele desde pequeno. Semear lançando, como faz o tio Jônatas, embora algumas sementes possam se perder, pode parecer falta de jeito do semeador, mas não é assim. A parábola do semeador descreve com detalhes o modo de semear usual na Palestina. Esta parábola pertence - como a da semente de mostarda - ao início da pregação do evangelho. Contando essa história, Jesus manifesta sua ilimitada confiança em Deus que, apesar de todas as perdas e dificuldades habituais da semeadura, dará no fim ao semeador uma abundante colheita, ao menos em uma parte do terreno. E é tanta a certeza que Jesus tem de que assim ocorrerá e tão grande sua alegria pelo plano que Deus traz em suas mãos, que exagera enormemente os frutos finais: Fala de 30, de 60 e 100 por um sobre o que foi semeado. Na Palestina se considerava que, se se obtivesse 7 ou 5 por um da colheita, já era normal. 10 por um se considerava uma boa colheita. Ao falar da generosidade de Deus, Jesus exagerou muitas vezes suas comparações. É uma maneira de dizer que essa generosidade não tem limites e que Deus sempre nos surpreende com mais do que o esperado quando concluímos nosso trabalho. Além de esta ser a parábola do “semeador infatigável”, é também a parábola “dos terrenos”. Uma antiquíssima tradição catequética, que os próprios evangelhos recolhem, tentou decifrar o significado de cada elemento desta história de Jesus. E a partir dela se fez um catálogo com quatro tipos de homens, conforme sua reação diante da mensagem evangélica (a Palavra). Nesta linha, o “escutar a mensagem”, não deve ser traduzido ou entendido como um simples conhecimento intelectual de Deus. Há pessoas que são muito “ortodoxas”, que dizem que “acreditam em tudo o que manda a Santa Madre Igreja”, mas daí não passam. De nada serve crer com a cabeça ou com a boca se não se vive a mensagem. E a mensagem evangélica repete que ninguém compreende a Deus, ninguém conhece nem aceita sua Palavra se não aceita o irmão, em particular o pobre (Tg. 2,14-23). O Deus cristão é aceito ou rejeitado através da atitude de justiça com que agimos. Medellin o formulou assim: “Ali onde se encontram injustas desigualdades sociais, políticas, econômicas e culturais, há um rechaço do dom da paz do Senhor, mais ainda, um rechaço do próprio Senhor” (Documento de Paz). Neste episódio, Jesus concretiza assim o “escutar sua mensagem”: “Trabalhar para que este mundo seja mais justo”, “compartilhar o que se tem com os outros”, “trabalhar pelos irmãos”, “arriscar o bolso e o pescoço”... São diferentes traduções da essencial fórmula bíblica “praticar a justiça”. Também os profetas traduziam em exemplos bem concretos o que era preciso fazer para ser fiel à palavra de Deus (Is 1, 10-20 e 58, 6-10). (Mateus 13,1-23; Marcos 4, 1-9; Lucas 8, 4-8)
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