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Capítulo XIII DEUS ESTÁ DO NOSSO LADO O texto das bem-aventuranças - um dos mais conhecidos e usados de todo o evangelho - condensa como nenhum outro o essencial da pregação e da atividade de Jesus: o anúncio da boa notícia aos pobres. As bem-aventuranças não são uma coleção de normas de conduta (“devemos” ser pobres, “devemos” ser misericordiosos...). São uma alegre notícia, que têm por destinatários os pobres, os oprimidos, os que sempre perdem. O chamado “monte das bem-aventuranças”, ou “colina das sete fontes” está situado a uns três quilômetros de Cafarnaum. Embora seja de pouca altura - uns 100 metros - do seu cimo se abarca todo o lago da Galileia, numa vista realmente formosa. Em 1937 construiu-se ali a igreja das bem-aventuranças, com oito lados, recordando as oito bem-aventuranças, que cita o texto do evangelho de Mateus. Em demasiadas ocasiões, as bem-aventuranças foram usadas como uma fórmula de consolo. Os que choram, os famintos, não devem se desesperar. Deus secará suas lágrimas, acalmará sua fome, os fará felizes... No mais além. Embora na terra tudo seja sombrio para eles, depois da morte sua sorte mudará. Essa adulteração do evangelho parte da falsa interpretação de que o Reino de Deus que Jesus anunciou aos pobres é equivalente ao reino “dos céus” no sentido de uma promessa para a outra vida. Mas o evangelho é uma mensagem histórica. Se Jesus chama de felizes os pobres, se diz para eles se alegrarem, é porque vão deixar de sê-lo, porque chegará o reino da justiça aqui na terra. As bem-aventuranças são um anúncio de que Deus intervém já: proclama-se uma esperança que porá em marcha uma mudança da história em favor dos oprimidos. O evangelho não é uma forma de resignação ou de consolo para os desgraçados, mas um dinamizador de compromissos, uma chamada a “levantar a cabeça porque a libertação se aproxima” (Lc 21,28). Em vez de dizer: “Felizes vocês os pobres”, Jesus diz: “Felizes nós os pobres”. “Nós que choramos, nós que temos fome...”. Jesus foi pobre, tão pobre, tão oprimido como seus vizinhos de Cafarnaum a quem proclamou as bem-aventuranças. Isso é esquecido com demasiada facilidade. E se faz de Jesus uma espécie de mestre religioso que se “faz pobre”, se disfarça de pobre para que os pobres o entendam melhor. O faz por apostolado, como sinal de condescendência divina com os miseráveis. Ao pensar assim, falseamos não uma parte, mas a essência mesma do evangelho. E desvirtuamos o projeto de Deus, que quis revelar-se de forma definitiva em um camponês pobre de Nazaré, e que até o dia de hoje se revela na vida e nas lutas dos pobres. Também se especulou muito sobre quem são os pobres aos quais se referem as bem-aventuranças. E se falou talvez em excesso dos “pobres de espírito”. O texto de Lucas diz: felizes os pobres. O de Mateus: Os pobres de espírito. (Em outras traduções: os que sabem ser pobres, os que escolhem ser pobres). Seguramente a tradição de Lucas é mais primitiva. Os pobres aos quais se dirige Jesus são os que realmente não têm nada, os que têm fome, os que não comem. E esse “espírito” que mais tarde acrescentou Mateus está na linha das fórmulas dos profetas do Antigo Testamento, que falam com frequência do “espírito humilde”, do “espírito abatido” dos “anawim” (pobres). Esta palavra “anawim” chave nos textos bíblicos, é o equivalente de: desgraçados, oprimidos, indefesos, desesperançados, homens e mulheres que sabem que estão à mercê de Deus, porque são rechaçados pelos poderosos. Lucas acentua do pobre o aspecto da opressão exterior, Mateus o aspecto de necessidade interior (sempre típico dos que padecem opressão exterior). Mateus e Lucas escreveram para públicos diferentes. A Igreja à qual se dirige Lucas estava composta majoritariamente por homens oprimidos dentro da poderosa estrutura do império romano: escravos, habitantes das cidades nas quais existiam enormes diferenças sociais, explorados por duras condições de vida... Mateus escreve para uma Igreja judaica, que tinha ainda a tentação do farisaísmo: consideram bons os “decentes”, os que cumpriam as leis morais, etc. Seus “pobres de espírito” são os imorais, os pecadores, os de má fama... Apesar de toda essa diferença de matiz, Lucas e Mateus deixam bem claro o sentido profético das palavras de Jesus: Deus presenteia seu Reino para os pobres do mundo. Embora Mateus recolha oito bem-aventuranças - Lucas só quatro (com seus correspondentes “ais” contra os ricos) - não se deve entender os textos como um catálogo que apresenta diferentes tipos de pessoas. Tanto em um como em outro evangelista, trata-se de um modo de falar de uma só realidade: “Feliz o pobre”. Assim se resumem todas as bem-aventuranças. Todas podem ser reduzidas a uma única fórmula. Feliz o pobre porque Deus se põe do seu lado e vai deixar de sê-lo. E não feliz porque se “porta bem”, mas porque “é pobre”. Sua situação de oprimido e explorado é que ganha a simpatia de Deus. Deus não prefere o pobre porque seja “bom”, mas porque é pobre. Esta mensagem de Jesus é absolutamente revolucionária: Além de dizer que a norma moral como critério da benevolência de Deus não conta para nada, anuncia de que lado está Deus no conflito histórico: do lado dos de baixo. O significado de “pobreza” pode ser equívoco. A pobreza como situação de opressão, é na Bíblia, um estado escandaloso que vai contra a vida e, portanto, contra a vontade de Deus. A pobreza deve ser rechaçada, combatida, eliminada. Não é uma fatalidade, é a consequência do abuso de alguns homens sobre outros. Diante dessa pobreza, a atitude cristã não pode ser outra que a do próprio Deus: rechaço desta situação, opção pelos pobres. Uma opção que não se esgota na simples denúncia, nas palavras de condenação. As antigas leis mosaicas não ficavam em palavras. Eram leis sociais que tratavam precisamente de evitar a pobreza e de defender o pobre. Toda tentativa de combater a pobreza, de suprimi-la, é, pois, um passo que faz avançar o Reino de Deus, embora muitos dos que assim atuem não creiam nem em Deus nem em Jesus. A pobreza não deve ser apresentada, então, como um ideal cristão. Escolher a pobreza - nas atuais situações de injustiça que padecem nossos países - é um gesto cristão unicamente quando é solidariedade com os pobres para lutar contra a pobreza. Numa outra ordem de coisas estaria a pobreza entendida como “infância” diante de Deus: atitude de não orgulho, de não poder, de não ambição. Esta pobreza-infância está numa linha também bíblica de interpretar a pobreza. Embora seja evidente que uma pessoa que acumule riquezas e privilégios às custas de seus irmãos jamais poderá ser um pobre neste sentido se não se despojar antes de seu dinheiro e de seu poder. (Mateus 5, 1-12; Lucas 6, 20-26)
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