Apresentação
Fale Conosco
Veja Também:
Capítulo XIV A OVELHA PERDIDA Pedro: Mas, Jesus, por favor, abre os olhos! Você não percebe?... Mateus é um vendido aos romanos, um puxa-saco de Herodes! Jesus: Mateus é um homem, Pedro. Um homem como você e como eu. Tiago: Que se dane esse homem e você também! Mateus é um traidor. Os publicanos são traidores. E aos traidores tem de se esmagar a cabeça como a cobras! Pedro, Tiago e eu estávamos com Jesus na taverna do embarcadouro, junto ao lago. Na noite anterior, Jesus havia entrado na casa de Mateus, o cobrador de impostos de Cafarnaum e havia jantado com ele. João: Você nunca reparou que esse Mateus sempre vai sozinho, como um leproso? Ninguém da cidade quer se aproximar dele. Ninguém chega perto. Pedro: E sabe por quê? Porque ele empesteia. O bafo dos traidores a gente sente a sete léguas de distância. João: E um tipo desses, você convida para o grupo, Jesus? Mas o que é que você está querendo? Que ele vá nos denunciar ao capitão romano? Tiago: Eu digo o mesmo que André. Se essa carniça vier com a gente, eu vou embora. Eu não me junto a traidores. Pedro: E eu muito menos. Que aquele que está no céu me arrebente as tripas se algum dia eu renegar os meus! Jesus: Eu não diria que é um traidor, Pedro. Mas, tudo bem, é um traidor. É um vende-pátria, quem não sabe disso? Mas eu acho que todos juntos podemos conseguir que Mateus mude. João: “Eu acho... eu acho...” E se ele der com a língua nos dentes e todos nós cairmos na arapuca por causa da sua imprudência?... Sinto muito, Jesus. Você não tem estofo político. Não tem olfato. Ninguém cai na besteira de colocar um lobo no meio das ovelhas. Jesus: E quem disse que Mateus é um lobo? Os lobos são outros, João. Mateus era um dos nossos. Agora ele está fazendo o jogo dos de cima sim, está certo. Mas os dentes de Mateus não são de lobo. Pedro: Ah, não? E são de quê então? Jesus: Não sei, mas quando vi Mateus sentado naquela guarita, sozinho, manchado de tinta, me lembrei de uma história que o velho Joaquim me contou, lá em Nazaré, quando eu era menino... Joaquim: Era uma vez um pastor que tinha cem ovelhas. Pela manhã, ao nascer do sol, se levantava também o pastor e saía com seu rebanho para o monte, onde o capim era mais verde e a água mais fresca... Todas as ovelhas estavam sadias e fortes, limpas e cuidadas. Todas, menos uma. A de sempre. A que nasceu doente, com uma pata mais curta que as outras. A ovelha que sempre ia atrás, mancando. Desde pequenina as outras a desprezavam. Ninguém fazia caso dela. Nem brincavam, nem comiam com ela. Nenhuma se aproximava dela. Sempre ia sozinha aquela ovelha... Aconteceu que um dia iam pelo monte o pastor e seu rebanho. E começou a chover... O pastor saiu correndo e as ovelhas atrás dele, de volta para o curral. A ovelha doente tentou imitar suas companheiras, mas não podia alcançá-las. Tropeçava, se levantava, e tornava a cair... O rebanho e o pastor se perderam numa curva do caminho. A névoa e os raios lhe fecharam a estrada. E a ovelha doente se perdeu. Arrastava sua perna coxa procurando as pegadas de suas companheiras. Mas a água apagou os rastros do caminho e não soube mais onde estava nem para onde seguir. Deu muitas voltas, andou daqui para lá no meio da chuva. Mas cada vez se afastava mais das outras. E começou a escurecer... Enquanto isso, o pastor havia chegado ao curral seguido de seu rebanho. Como sempre, fez as ovelhas passarem pela porta de agulha para contá-las uma a uma... Pastor: “... 94... 95... 96... 97... 98... 99... O que aconteceu? Me falta uma. Não pode ser. Seguramente contei errado.” Joaquim: E começou a contar outra vez... Pastor: “... 95... 96... 97... 98... 99 apenas! Eu perdi uma ovelha! Seguramente é aquela doente, da pata coxa. Puxa vida, onde terá se metido essa desgraçada?”... Joaquim: “Bah, não se preocupe com ela. Está doente mesmo. Não sabe andar. Não serve para nada. Que durma no pasto. E que os lobos a comam”... Disseram-lhe os outros pastores. E se fez noite fechada. A ovelha da pata coxa continuava dando voltas pelo monte, sozinha e perdida. Gritou, mas ninguém respondia. Gritou mais forte, mas escutou apenas, lá longe, sobre as montanhas, os uivos dos lobos famintos... A ovelha perdida sentiu medo. Um medo muito grande. Então saiu correndo às cegas e caiu num barranco... Rolou sobre as pedras afiadas, deu mil cambalhotas sobre os espinhos, escorregou até lá em baixo, até o fundo onde a terra é lamacenta. E começou a se afundar... O pastor estava deitado em sua esteira de palha, bem quente. Tentava dormir, mas não conseguia. Pensava na ovelha que havia perdido. Pastor: Hum... Puxa, perder-se assim, numa noite tão feia!... Por que tem de ser sempre a última? Por que tem de andar sempre sozinha? Uff... Bom, o que se vai fazer. Ela procurou. Que se arranje como pode. Eu vou dormir. Joaquim: A ovelha da pata coxa tinha ainda uma chispa de vida. Fez um último esforço para sair daquele barranco, mas se afundou ainda mais. O lodo a ia engolindo pouco a pouco... O pastor lá em sua cabana bem quente, por fim conseguiu dormir... E enquanto dormia tranquilamente, a ovelha perdida se afundou mais e mais no barranco escuro. O lodo foi cobrindo toda sua lã, subiu até a boca, entrou pelo seu focinho... Já não podia gritar nem mover-se. Estava morta. Pedro: E o que aconteceu depois? Jesus: Nada. Acabou-se a história. João: Como acabou-se a história?! Jesus: Sim, acabou. Pedro: Mas, como vai acabar assim, Jesus?... E o pastor, não fez nada?... Deixou-a morrer? Jesus: Bem, o pastor fez o que pôde... Pedro: O que pôde!... Por que não saiu para procurá-la, vamos, diga? Jesus: Isso é fácil falar, Pedro, mas já pensou, sair à meia noite e chovendo daquele jeito... João: Mas era só se jogar um manto em cima, caramba! Jesus: E as outras? Como ficariam? Ele preferiu ficar vigiando o rebanho... Pedro: Ele ficou foi dormindo, grande safado!... Jesus: Ele tinha de cuidar das noventa e nove ovelhas... João: Bah, essas se cuidam sozinhas. Você não disse que elas estavam sadias e fortes? A outra, porém era uma infeliz... Jesus: Bem, João, também não precisa exagerar. Afinal, uma a mais, uma a menos... João: Não, não, não, isso não está certo, Jesus. Essa história me deixou com um tarugo entalado na garganta. Eu não gosto nem um pouco deste final. Pedro: Muito menos eu. Jesus: Pois eu não entendo vocês por que... Esse é o final que vocês mesmos quiseram pôr... Pedro: Nós? Mas essa história quem contou foi você, caramba! Jesus: Não, vocês o puseram. Você, João, e você, Pedro, e você cabelo de fogo. Mas por sorte, Deus coloca um outro final. Sim, Deus conta a história de outra maneira. Escutem, aconteceu que quando o pastor chegou ao curral e se pôs a contar as ovelhas... Pastor:... 95... 96... 97... 98... 99... Caramba, rapaz, perdi uma. Vou procurá-la agora mesmo! Joaquim: Mas seus companheiros lhe diziam: “Como você vai sair assim?... Está chovendo muito. Já é noite. Não poderá encontrá-la. Ela é uma só. Vai deixar as noventa e nove?...” Mas o pastor não fez conta, pegou o bastão, jogou-se um manto em cima e saiu com pressa, no meio daquela escuridão para procurar a ovelha doente que havia se perdido... Pastor: Estrelinha!... Estrelinha!... Onde você está?... Estrelinhaaaa!... Joaquim: Chamou-a pelo nome, correu de um lado para o outro, subiu e desceu a colina, gritou até ficar rouco... Não lhe importava a chuva, nem o frio, nem a noite, nem o cansaço... Só sua ovelha que estava em perigo. Tinha de encontrá-la antes que fosse tarde demais... Pastor: Estrelinha! Estrelinha! Joaquim: Era sua ovelha. E ainda estava com vida!... O pastor saiu correndo para o barranco, desceu até o fundo e a tirou dali... Estava salva! Depois carregou-a sobre os ombros, cobriu-a com seu manto e, mais do que depressa voltou ao curral. Quando chegou, fez curativos nas feridas e a deitou junto com suas irmãs, sobre a palha quente. E o pastor estava tão contente naquela noite que saiu para despertar seus vizinhos... Pastor: Amigos, eu a encontrei, eu a encontrei!... Estava perdida, estava quase morta... E eu a encontrei! Alegrem-se comigo, camaradas! Venham, vamos beber um par de jarras de vinho... Eu convido. Quero que todo mundo esteja alegre nesta noite! João: Bom, assim está bem melhor, caramba, mas... Tiago: Mas, afinal de contas, a troco de que você contou essa história, heim? Jesus: Não sei, Tiago... Às vezes... Às vezes penso que Deus fica mais contente vendo um perdido como Mateus que volta e quer mudar de vida, do que quando vê os noventa e nove que se creem bons e justos. Seis séculos antes, o profeta Ezequiel havia escrito em seu livro: “Assim diz Deus: meu rebanho anda solto, e não há quem se ocupe dele. Por isso, aqui estou eu. Eu mesmo cuidarei do rebanho e velarei por ele. Eu trarei as ovelhas de todos os lugares por onde se dispersaram no dia das nuvens e da bruma. Buscarei a ovelha perdida, farei voltar a desgarrada, cuidarei da ferida e sararei a enferma. E a todas elas encaminharei na justiça”. A amizade de Jesus com o publicano Mateus, cria no grupo apostólico o primeiro conflito sério. Os outros discípulos não sabem interpretar esse gesto e sua intolerância acaba prevalecendo. Se o evangelho chama a uma radical igualdade entre os homens, provocará necessariamente conflitos na sociedade e também no interior da própria comunidade cristã. Eliminar preconceitos, aceitar o outro como irmão, superar toda discriminação é difícil. É um processo longo e às vezes, doloroso. Porém, bem canalizadas, essas tensões podem dar lugar a uma autêntica crise de crescimento e maturidade dentro da comunidade. A parábola da ovelha perdida é do tipo de parábolas nas quais Jesus quer explicar como Deus é. Torna-se surpreendente, já de entrada, que Jesus compare o sentimento e atitude de Deus com os de um pastor. Junto com os publicanos e outros ofícios desprezíveis (agiotas, cambistas...), os pastores haviam chegado a ser nos tempos de Jesus, gente de muito má fama, contados, sem discussão, entre os “pecadores”. Eram suspeitos de levar seus rebanhos a campo alheio e de andar misturados com todo tipo de trapaças e roubos. Na Palestina, os pastores têm até hoje o costume de contar seu rebanho ao entardecer, antes de guardá-los no redil, para terem a segurança de não haver perdido nenhum animal. O pastor da história de Jesus tem 100 ovelhas. Para quem era daquele tempo, isso era considerado um rebanho de média importância. Entre os beduínos, os rebanhos tinham ordinariamente, entre 20 e 200 animais, tratando-se de ovelhas ou cabras. Um rebanho de 100 ovelhas era cuidado exclusivo de um só pastor que, por sua posição econômica, não podia permitir-se contratar nenhum assalariado para ajudá-lo. Os dados do texto evangélico em seu conjunto, e principalmente o detalhe do pastor, ao encontrar sua ovelha, ter tido que levá-la aos ombros, fazem pensar que este era um animal especialmente fraco. Isso é básico na narração para o retrato que Jesus faz de Deus. Não é o valor do animal que impulsiona o pastor a procurá-lo. Basta que a ovelha seja sua e a quer com carinho de predileção, por sabê-la tão desvalida. Também a conhece: sabe que sozinha, não encontrará nunca o caminho de volta. O bom pastor - dirá Jesus em outra ocasião - conhece cada uma de suas ovelhas e as chama pelo nome (Jo 10, 1-22). Esta parábola fala essencialmente de um sentimento de Deus: sua alegria ao encontrar o perdido. É uma alegria que se manifesta plenamente no final da história. Quando chegar a hora de prestar contas, Deus se alegrará mais anunciando o resgate de “um dos pequenos” do que comprovando a salvação de muitos justos. Deus quer a salvação dos que se dão por perdidos. Dói-lhe muito vê-los errantes, solitários, desprezados durante sua vida. E se alegrará imensamente quando os trouxer definitivamente para junto de si. Jesus fala de uma alegria que define Deus: A alegria de poder resgatar, de perdoar. Em seu modo de agir, Jesus faz o mesmo que Deus: os fracos, os desprezados, têm sua preferência. Nas palavras e nas obras de Jesus vemos como é Deus. Nisso se resume toda a teologia cristã. Jesus compara Deus com um pastor. E diz outro tanto de si mesmo: no Evangelho de João, Jesus aparece como o Bom Pastor. Estas comparações têm vários precedentes no Antigo Testamento. O texto do Profeta Ezequiel (34, 1-31) no qual se anunciavam os tempos messiânicos, é a fonte mais direta em que Jesus se inspirou para esta parábola. E tanto impressionou os discípulos esta imagem, que o pastor com a ovelha perdida sobre seus ombros é, junto com o peixe e os pães, o símbolo mais frequentemente usado na arte dos primeiros cristãos. Encontramos a imagem do bom pastor em esculturas, em sepulcros, em altares, nas paredes das catacumbas nas quais os cristãos perseguidos se reuniam para orar e celebrar sua fé. (Mateus 18,12-14; Lucas 15, 3-7)
Capítulos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV XXXVI XXXVII XXXVIII XXXIX XL XLI XLII XLIII XLIV XLV XLVI XLVII XLVII XLIX L LI LII LIII LIV LV LVI LVII LVIII LIX LX LXI LXII LXIII LXIV LXV LXVI LXVII LXVIII LXIX LXX LXXI LXXII LXXIII LXXIV LXXV LXXVI LXXVII LXXVIII LXXIX LXXX LXXXI LXXXII LXXXIII LXXXIV LXXXV LXXXVI LXXXVII LXXXVIII