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Capítulo XIII COMO UMA SEMENTE DE MOSTARDA Depois do fracasso de Nazaré, Jesus começa sua atividade em Cafarnaum, na pequena casa do velho Zebedeu, rodeado do grupo dos primeiros discípulos e dos vizinhos do bairro. Conta-lhes a parábola do grão de mostarda. É uma história típica dos inícios do movimento de Jesus na Galileia. Uma parábola clássica do contraste: No começo é pequeno, insignificante; ao final, o formoso arbusto, será o resultado surpreendente do que Deus traz entre as mãos. A mostarda é uma planta que cresce de forma silvestre em toda a Palestina. Nas margens do lago, chegava a alcançar até três metros. A imagem de uma árvore que serve de abrigo aos pássaros e dá sombra aos que se aproximam é um símbolo da bondade e da generosidade de Deus (Ez 17, 22-24). Nos velhos ditados dos rabinos judeus, a semente de mostarda era considerada a menor das sementes conhecidas. E ainda que o arbusto da mostarda não chegue a ser uma árvore, Jesus o chama assim, exagerando, para ressaltar como os planos de Deus nos superam, nos surpreendem, são mais do que imaginamos. Quando nos lançamos em um projeto arriscado e difícil, e colocamos de nossa parte tudo o que podemos, Deus fecunda, e do menor tira o maior. O Reino de Deus nasce entre os pequenos, entre os pobres. Com eles, Deus forma sua comunidade. E é essa comunidade a chamada a protagonizar os fatos realmente importantes da história. O Reino de Deus é um vinho novo. Essa novidade é apresentada por Jesus nesses começos de sua atividade como o cumprimento das leis sociais do tempo de Moisés. Aquelas leis - o Ano da Graça entre elas - apontavam para a igualdade, para a superação das classes sociais, para evitar que alguns acumulassem em excesso à custa de outros que morriam de fome. Leis velhas que se tornavam realmente novas porque não haviam sido cumpridas. E nos tempos de Jesus as diferenças entre os israelitas haviam se aprofundado cada vez mais. O fato de existirem classes sociais, o fato de que uns sejam ricos e outros pobres, é, para muitos, “vontade de Deus”, um “destino”, um fato natural que não se pode mudar, uma realidade irremediável, impossível de ser alterada. Essa forma de pensar, que é a de Salomé, é muito frequente. Entre os ricos, é porque lhes convêm que seja assim. Entre os pobres, porque são os ricos e seus servidores (a escola, a falsa religião) os que lhes pregaram esta resignação, os que os fizeram acreditar que Deus é quem deseja que tudo continue igual e que lhes promete, na outra vida, o céu se na terra se conformarem com sua má sorte. No entanto, “no princípio não foi assim, a pobreza e a riqueza introduziram-se tardiamente na linhagem humana” como disse São Gregório Nazianzeno (Discurso 14, M.G. 35, 857-910). O Reino de Deus começa aqui em baixo, precisamente quando se apagam as diferenças entre os homens, quando os bens da terra são repartidos por igual entre todos, quando os seres humanos não estão separados em ricos e pobres, mas quando vivem como irmãos, filhos do mesmo Pai, com os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.
(Mateus, 13, 31-32; Marcos 4, 30-32; Lucas l3, 18-19) O cobrador de impostos De Mateus, um dos doze apóstolos de Jesus, sabemos pelos dados que nos dá o Evangelho, que era filho de um tal Alfeu e que sua profissão era a de cobrador de impostos no posto da alfândega de Cafarnaum - cidade de passagem das caravanas que vinham de Damasco. O evangelho de Lucas e o de Marcos o chamam também de Levi. Desde o século II ele é considerado o autor de um dos quatro evangelhos. No relato se apresenta Mateus como um homem de personalidade fraca, pessimista, cético, que busca na bebida uma espécie de refúgio diante da solidão e do desprezo a que seu ofício o condenava. Desde a época da dominação persa, Israel conheceu o pagamento de impostos a uma potência estrangeira. Mas até os tempos do império romano não se cobrava de forma sistemática. Toda província romana devia contribuir com seus impostos ao fisco de Roma, embora algumas cidades e príncipes aliados ao império pudessem cobrá-los para seu próprio proveito. Este era o caso do tetrarca galileu Herodes Antipas, que os recolhia em diferentes cidades da Galileia, entre elas Cafarnaum. Mateus era, pois, um funcionário do rei Herodes, grande colaboracionista do imperialismo romano. Os impostos eram uma dura carga para o povo e uma importante arma de controle político nas mãos dos governantes. Às somas já estabelecidas se acrescentavam quantidades de todo tipo de presentes e subornos que era preciso dar às autoridades e aos serviços administrativos. A corrupção se estendia desde os mais baixos até os mais altos postos do poder. Os cobradores, ou coletores dos impostos (= publicanos) formavam parte da categoria social mais desprezível do país, junto com os agiotas, cambistas, jogadores de azar e pastores. Neste ofício, além da estrita cobrança do tributo - já suficiente motivo para o ódio do povo - se realizava todo tipo de trapaça. Por estar baseado na fraude e por ser impossível conhecer o número de todos os fraudados ou enganados, ser publicano era uma mancha social que supunha a perda de todos os direitos civis e políticos. Na linguagem popular, os cobradores de impostos se associam sempre aos ladrões, aos pagãos, às prostitutas, aos assassinos, aos adúlteros. Eram realmente a escória da sociedade. Tudo isso põe em relevo o grande escândalo que constituiu o fato de Jesus chamar um publicano para tomar parte em seu grupo e de repetir em várias ocasiões que a Boa Notícia que trazia era destinada prioritariamente aos “publicanos e pecadores”. Mateus seria, com muita probabilidade, um homem rico, à custa das fraudes habituais de seu ofício. Mas não pertenceria a nenhuma família de prestígio, porque os cobradores da alfândega não eram mais que subarrendatários dos ricos contratantes deste ofício, que costumavam ser de classe social elevada. A vocação de Mateus foi interpretada muitas vezes como prova de que Jesus convocou para seu grupo homens de diferentes classes para significar assim a harmonia social que busca o evangelho. Não é correta esta ideia. A mensagem evangélica, evidentemente, se dirige a todos. Mas não a todos da mesma maneira. Aos pobres se anuncia uma boa notícia: vão deixar se sê-lo. Aos ricos se lhes exige que renunciem às suas riquezas se quiserem entrar no Reino. A mensagem evidencia sempre que Deus toma partido, que não fica neutro. Que Jesus se relacione com Mateus e o chame para seu grupo significa que ele rompe as barreiras religiosas e sociais dos homens “decentes” de seu tempo, fazendo-se amigo de indesejáveis e pecadores. Nos tempos de Jesus se escrevia usualmente em papiros. O papiro era um arbusto aquático, que crescia próximo aos pântanos. Era colhido ao norte do lago de Tiberíades. Com suas fibras se faziam cestas, barcos e uma espécie de papel que se enrolava facilmente. A tinta com que se escrevia sobre ele era um corante negro, bastante espesso, feito principalmente de fuligem. Muitos escreventes levavam os tinteiros pendurados na cintura. Um coletor de impostos tinha de dominar, naturalmente, a escrita. E, ordinariamente, devia ter também noções de grego, porque em seu ofício devia relacionar-se com comerciantes e traficantes de outros países. Diante desses conhecimentos que teria Mateus, a cultura de Jesus era notavelmente inferior, a de um “semialfabetizado”. Naquela sociedade, como em qualquer outra com elevado grau de analfabetismo, quem sabia escrever era um privilegiado e, de alguma maneira, tinha um certo poder sobre seus conterrâneos incultos, que dependiam de seu saber e a quem se podia, naturalmente, ajudar ou enganar.
(Mateus 9, 9; Marcos 2, 13-14; Lucas 5, 27-28) Na casa do Publicano O publicano, além de ser desprezado pelo povo, era um cidadão proscrito civilmente. Seu testemunho não tinha nenhum valor jurídico e, de alguma forma, se equiparava ao escravo, pela inferioridade em que se encontrava diante do resto de seus compatriotas. Como “pecador”, era rechaçado moralmente e isso se extremava a tal ponto que o dinheiro proveniente das caixas dos cobradores de impostos não podia ser aceito como esmola para os pobres porque era dinheiro injusto. Esse desprezo popular se estendia também à família dos publicanos. Que Jesus não só se relacionasse com um desses homens, mas que também compartilhasse a mesa com ele era um escândalo insuportável para os habitantes de Cafarnaum. Ao escândalo de tipo moral se une, para os amigos de Jesus, um escândalo de tipo político, por ser Mateus um colaboracionista dos romanos. Para medir exatamente o que Jesus fez ao comer com “pecadores”, é preciso saber que entre os orientais, acolher uma pessoa, comer com ela na mesma mesa, é uma mostra de respeito, de paz, de confiança, de fraternidade e de perdão. Compartilhar a mesa é um sinal de compartilhar a vida. Que Jesus coma com Mateus - como suas outras refeições com publicanos e pecadores - não é somente um acontecimento social através do qual expressava sua extraordinária humanidade ou sua simpatia pelos desprezados. Essas refeições têm uma profunda significação teológica. Nelas se dão a expressão mais significativa do amor de Deus que privilegia os perdidos. São refeições nas quais se antecipa o final da história, em que Deus sentará à sua mesa, nos primeiros lugares, aqueles que os “decentes” rechaçaram como os últimos. O rabino, guardião da moral da cidade, é um dos mais fortemente escandalizados pela conduta de Jesus. Não é de estranhar. Um profeta que falava de Deus como Jesus e que, por outro lado, contradizia as regras religiosas, era intolerável. O separar-se dos “pecadores” era o máximo dever de um homem piedoso, que quisesse agradar a Deus. E isso porque se pensava que o próprio Deus rechaçava o pecador e só o acolhia se este se arrependesse e mudasse de conduta. Então, e só então, o pecador era objeto do amor de Deus. Quando se transformava em justo. Jesus revoluciona esta falsa ideia religiosa: para Deus não conta a moral. Mais ainda: o processo se inverte e é Deus quem se aproxima dos imorais, demonstrando-lhes um amor especial, de preferência. Aquilo foi então - e é ainda hoje - um escândalo, a dissolução de toda “moral”. Até o final de sua vida, Jesus será acusado por pessoas decentes de uma conduta imoral, porque bebia e comia com “publicanos e pecadores”. A mensagem do evangelho é sempre anúncio de uma mudança. Exige um reajuste das relações entre os homens apontando para uma verdadeira igualdade entre eles. E também pede de cada um uma mudança de suas atitudes, uma revisão profunda de sua escala de valores, de suas opções, etc. Entre a conversão estrutural e a conversão pessoal não se deve criar nenhuma oposição, privilegiando uma à custa da outra. Ambos os aspectos da mudança-conversão se complementam e se necessitam mutuamente. O ideal evangélico fala de um homem e uma mulher novos em uma nova sociedade.
(Mateus 9, 10-13; Marcos 2,15-17; Lucas 5, 28-32)
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