Apresentação
Fale Conosco
Veja Também:
Capítulo XII A BOA NOTÍCIA Chegamos a Nazaré, o povoado onde Jesus havia se criado. Eu fiz a viagem com ele desde Cafarnaum. Era sábado, dia de descanso. Na primeira hora da manhã os nazarenos se apertaram na pequena e dividida sinagoga. Os homens vinham envoltos em seus mantos de listas negras e brancas. Alguns entravam mascando tâmaras para matar a fome, embora isso fosse proibido. As mulheres ficavam de um lado, segundo o costume, atrás da grade trançada. Ali, entre as demais aldeãs, estava também Maria, a mãe de Jesus. Todos: Escuta Israel / o Senhor é nosso Deus / só ele é o Senhor. / Amarás o Senhor teu Deus / com todo o teu coração / com toda a tua alma e com toda a tua força. / Fiquem gravadas estas palavras que eu te mando hoje... Começávamos a cerimônia rezando em coro a oração da manhã. Depois vinham as dezoito preces rituais. Quando chegou o momento da leitura, o velho rabino fez um sinal para Jesus, que estava ao meu lado. Jesus abriu passagem entre seus vizinhos e se aproximou do estrado onde estavam guardados os livros santos... Um jovem abriu a caixa de madeira de sândalo e tirou os pergaminhos. Naqueles rolos estava escrita, em letras vermelhas e pretas, a Lei de Deus. Era a Santa Escritura onde os sábios de Israel, ao longo de mil anos, haviam esquadrinhado cada palavra, detrás de cada sílaba, a vontade do Senhor. Jesus tomou o livro do profeta Isaias. Desenrolou o pergaminho, o levantou ao alto com as mãos e começou a ler aos tropeções, como lêem os camponeses que não tiveram muita escola... Jesus: O espírito do Senhor está sobre mim.
O Espírito do Senhor me chamou e me envia aos pobres
para dar-lhes a boa notícia que tanto esperam: sua libertação!
Os corações feridos serão curados,
os escravos sairão livres,
os presos verão a luz do sol.
Venho apregoar o Ano da Graça do Senhor,
o Dia da Justiça de nosso Deus:
para consolar a todos os que choram,
para pôr sobre suas cabeças humilhadas uma coroa de triunfo,
vestidos de festa em vez de roupa de luto,
cantos de vitória em vez de lamentações.” Jesus acabou de ler. Enrolou o pergaminho, o devolveu ao ajudante da sinagoga e se sentou em silêncio. Todos tínhamos os olhos cravados nele, esperando o comentário daquelas palavras. Jesus também parecia esperar alguma coisa. Com a cabeça entre as mãos, se notava que estava muito nervoso. Ficou assim alguns momentos. Depois se pôs em pé e começou a falar... Jesus: Vizinhos... Eu... Eu... Na verdade, eu não sei falar diante de tanta gente... Perdoem-me se... se não sei falar como os sacerdotes ou os doutores da Lei... Bem, eu sou um camponês como vocês e não tenho muitas palavras... De qualquer modo, eu agradeço ao rabino por me convidar a comentar a Escritura... Rabino: Não fique nervoso, rapaz! Diga qualquer coisa que lhe ocorrer. E depois, conte-nos um pouco o que aconteceu em Cafarnaum, aquela história do leproso... As pessoas andam dizendo muitas coisas estranhas... Jesus: Bem, vizinhos, eu queria dizer-lhes que... Que estas palavras do profeta Isaias são... São algo muito grande. Estas mesmas palavras eu as escutei do profeta João lá no deserto. João dizia: “Isto vai mudar. O Reino de Deus se aproxima”. E eu pensava: sim, Deus traz algo entre as mãos, mas... Mas o quê? O que é que tem de mudar...? Por onde começa o Reino de Deus?... Não sei, mas agora, quando acabo de ler estas palavras da Escritura, me parece que compreendi do que se trata. O cheiro de suor dos nazarenos se misturava com o incenso queimado e quase não se podia respirar. O ar quente da sinagoga começou a tomar conta de tudo. Jesus também suava muitíssimo... Jesus: Vizinhos... Escutem-me... Eu... Eu... Anuncio-lhes uma alegria muito grande: nossa libertação. Nós os pobres, temos passado a vida dobrados sobre a terra, como animais. Os grandes nos puseram um jugo muito pesado sobre os ombros. Os ricos nos têm roubado o fruto de nosso trabalho. Os estrangeiros se apoderaram do país e até os sacerdotes se passaram para o bando deles e nos ameaçam com uma religião feita de leis e de medo. E assim estamos, como nossos avós no Egito, nos tempos do Faraó. Temos comido um pão amargo, temos bebido já muitas lágrimas. E tantas pancadas nos deram que chegamos a pensar que Deus já se esqueceu de nós. Não, vizinhos, o tempo se cumpriu e o Reino de Deus está perto, pertíssimo. O velho Ananias, dono do lagar e do moinho de azeite, dono das terras que margeavam a colina de Nazaré e se estendiam até Caná, levantou seu bastão como se fosse um longo dedo acusador: Ananias: Escute aqui, rapaz, filho da Maria, que loucura é esta que você está dizendo? Você quer me explicar o que é que tem de mudar? A quem você está se referindo? Jesus: Tudo tem que mudar, Ananias. Deus é um pai e não quer ver seus filhos tratados como escravos, nem mortos de fome. Deus pega o nível, como o pedreiro, para nivelar o muro: nem ricos, nem pobres, todos iguais; nem faraós nem escravos, todos irmãos; Deus desce do andaime do céu e se põe do nosso lado, os pisoteados deste mundo. Não ouvimos sempre que Deus ordenou o Ano da Graça? Não acabamos de escutar isso?... Deus quer que a cada cinquenta anos haja um ano de trégua. Que a cada cinquenta anos se quebrem todos os títulos de propriedade, todos os papéis de dívidas, todos os contratos de compra e venda. E que a terra seja dividida em partes iguais entre todos. Porque a terra é de Deus, e de Deus também tudo o que existe nela. Que não haja diferenças entre nós. Que a ninguém sobre e a ninguém falte. Isso foi o que Deus ordenou a Moisés faz mil anos, e, no entanto, está esperando porque ninguém o cumpriu. Nem os governantes, nem os proprietários de terra, nem os usurários quiseram cumprir o Ano da Graça. E já é hora de que ele se cumpra! Todos estávamos em silêncio, com a boca aberta, assombrados de quão bem se expressava o filho do operário José, o filho da camponesa Maria... Um vizinho: Essas palavras soam bonitas, Jesus. Mas com palavras não se come. “Libertação, libertação”. Mas, para quando, diga-me, para a outra vida, para depois da morte...? Jesus: Não, Esaú. Na outra vida seria muito tarde. O Ano da Graça é para esta vida. O Reino de Deus começa nesta terra. Outro vizinho: Quando então? Quando os ricos amolecerem o coração e nos repartirem o dinheiro que têm acumulado? Jesus: As pedras não se amolecem por dentro, Simeão. Faz falta um martelo. Suzana: Quando então, Jesus, quando vai se cumprir essa profecia que você acaba de ler? Jesus: Hoje, Suzana. Hoje mesmo. Hoje vamos começar. Claro que não é luta de um dia. Uma rocha não se rompe com uma martelada só. Talvez passemos outros mil anos como Moisés. Ou dois mil. Mas nós também cruzaremos o Mar Vermelho e seremos livres. Hoje nos pomos em marcha! Jesus já não tremia. Com suas duas mãos, grandes e calejadas, agarrou-se fortemente à borda do estrado e respirou fundo como quem toma impulso quando vai dar um salto... Ia dizer algo importante. Jesus: Eu queria dizer-lhes... Eu sinto na minha garganta, apertadas como flechas na mão de um guerreiro, as vozes de todos os profetas que falaram antes de mim, desde Elias, aquele valente do Carmelo, até o último profeta que temos visto entre nós: João, filho de Zacarias, a quem aquela raposa do Herodes mantém preso em Maqueronte. Vizinhos, a paciência de Deus se esgotou! Esta Escritura que lhes acabo de ler não é para amanhã: é para hoje. Vocês não percebem? Está se cumprindo diante dos olhos de vocês. O velho rabino coçou o cocuruto com ar preocupado... Rabino: O que você quer dizer com isso de que se está cumprindo diante dos nossos olhos? Diante dos meus olhos eu tenho o Livro Santo da Lei, bendito seja o Altíssimo. E junto do Livro está você, comentando o que leu nele. Jesus: Eu faço minhas as palavras que estão escritas neste Livro... Perdoem se lhes falo assim, vizinhos, mas... Jesus se deteve. Olhou-nos a todos lentamente como que pedindo permissão para dizer o que ia dizer... Jesus: Quando o profeta João me batizou no Jordão, eu senti que Deus me chamava para proclamar esta boa notícia. E por isso, eu quero hoje... Um vizinho: Tome cuidado com o que diz, Jesus! Quem você pensa que é? Do jeito que fala parece que está se comparando com o profeta Elias e com João o batizador! Jesus: Eu não me comparo com ninguém. Eu só anuncio a libertação para nós, os pobres. Um ancião, com uma dupla corcunda como os camelos soltou uma gargalhada. Um velho: Médico, cura-te a ti mesmo! Jesus: Por que me diz isso de médico cura-te a ti mesmo? Velho: Como por quê? Porque se nós estamos mal, você está pior!... De que miséria você vai nos tirar, se você é o maior esfarrapado de Nazaré? Olhe sua mãe aí, atrás da grade... Vamos, dona Maria, não se esconda, que todos a conhecemos aqui. E seu pai José, que descanse em paz, quem foi? Um pobre diabo como todos nós. E olhe aqui seus primos e suas primas... Pelos cabelos de Abraão, de que é que você vai nos livrar se não tem nenhum cobre no bolso? Uma vizinha: Eu acho que a fumaça subiu à cabeça desse moreno! Rabino: Esperem, irmãos, deixem-no falar. Deixem-no falar! Vizinho: Chega de palavrório! Faça um milagre! Vizinha: Isso mesmo, um milagre! Vizinho: Conte-nos o que aconteceu em Cafarnaum! Se você aprendeu alguma bruxaria para limpar leprosos e curar as viúvas com febres ruins! Vizinha: Foi você, dona Maria quem ensinou seu filho a fazer esses truques? Rabino: Um momento, um momento! Jesus, você está ouvindo o que dizem? Eles têm razão, filho! Você vem nos falar de libertação? Comece aqui no seu povoado, pois uma boa caridade começa em casa. Vizinho: Se você curou os leprosos de Cafarnaum, cure os daqui! Vizinha: Vamos, o que está esperando?... Olhe como tenho as pernas cheias de feridas!... Jesus: A história se repete, vizinhos. A história se repete. Nos tempos do profeta Elias havia muitas viúvas necessitadas, mas Elias foi enviado à cidade de Sarepta, uma terra estrangeira. E nos tempos de Eliseu havia muitos leprosos em Israel e o profeta curou a Naaman o sírio, que também era um estrangeiro. Vizinho: Ei, escute aqui, você: o que está querendo dizer com isso? Jesus: Nada, que acontece sempre o mesmo. Que nenhum profeta é bem recebido em sua terra. Está bem, eu vou de volta para Cafarnaum. Os nazarenos começaram a vaiar e assobiar contra Jesus... Vizinho: É melhor que você volte mesmo para Cafarnaum... Nunca se viu charlatão maior que você... Todos: Charlatão!... Embusteiro!... Tirem-no daí!... Fora, fora!... Os homens com os punhos fechados, se lançaram sobre o estrado onde estava Jesus, enquanto as mulheres gritavam por trás da grade. A briga havia começado e as velhas pedras da Sinagoga estremeceram com a gritaria dos Nazarenos. Em Nazaré, a aldeia onde havia se criado, Jesus faz a primeira proclamação pública da boa notícia que Deus anuncia aos pobres. Neste texto aparece, sobre a base da promessa feita setecentos anos antes pelo profeta Isaias, um resumo do que será a vida de Jesus e do que é, em essência, o Evangelho: Libertação para os oprimidos. Esta é uma passagem básica e central para a compreensão da fé cristã. Na atual Nazaré, conserva-se uma pequena sinagoga construída sobre os restos da do tempo de Jesus. Aquela deve ter sido uma construção ainda menor da que vemos hoje, pelo fato de a aldeia ter tão poucos habitantes. Como todas as sinagogas, estava orientada de tal forma que, ao rezar, o povo olhava para o Templo de Jerusalém, centro religioso do país. Na sinagoga, as mulheres não se misturavam com os homens. Destinava-se a elas um lugar separado por uma grade. Tampouco na sinagoga as mulheres podiam ler em público as Escrituras nem fazer seu comentário. Quando o povo se reunia aos sábados na sinagoga começava sempre a oração com a recitação da “Shemá” (“Escuta, Israel...”, Dt 6,4-9). Uma das preces preferidas da piedade judaica. Depois vinham outras 18 preces rituais que precediam a leitura das Escrituras. O lugar mais sagrado da sinagoga se encontrava na parede que se orientava para Jerusalém. Ali se guardavam os pergaminhos da Torá (Lei), onde estavam escritos os livros que hoje lemos na Bíblia (Antigo Testamento). Não eram livros como os atuais, mas pergaminhos enrolados. Eram guardados em caixas de madeira lavradas artisticamente. Jesus, como todos os israelitas de seu tempo, falava em aramaico. O aramaico é uma língua do mesmo tronco linguístico que o hebraico, e ainda é falado em algumas aldeias da Síria. Era utilizado em todo o país de Israel como língua familiar e popular desde uns cinco séculos antes do nascimento de Jesus. A partir daquela época, o hebraico se limitou a ser a língua dos doutores da Lei. Em hebraico também se escreviam as Escrituras. O rolo em que Jesus leu na sinagoga era escrito em hebraico. Daí a dificuldade de Jesus, nada familiarizado com essa língua culta e, como camponês, homem de pouca leitura. O costume era que qualquer dos homens presentes na sinagoga lesse um fragmento da Escritura e depois o comentasse segundo sua inspiração, diante dos patrícios. Essa era uma missão dos leigos, não exclusiva dos rabinos. O texto que Jesus lê e comenta é Isaias 61,1-3. A decisão com que Jesus fala do Reino de Deus, da libertação, incomoda seus vizinhos, que nem aceitam nem podem acreditar que um pobre coitado saído dentre eles possa vir a libertá-los de alguma coisa. É muito frequente que tenhamos resistência em admitir como “salvador” alguém próximo, simples e busquemos sinais grandiosos, salvadores que venham de fora, que sejam extraordinários, superiores, diante de quem rendamos admiração. Mas o plano de Deus é todo o contrário. Ele se revela no mais pobre, no mais humilde. O ano da Graça era uma instituição legal muito antiga que remontava aos tempos de Moisés. Chamava-se também Ano do Jubileu, porque era anunciado pelo toque de um instrumento chamado, em hebraico, “yobel”. Esse Ano da Graça devia cumprir-se a cada cinquenta anos. Ao chegar essa data, as dívidas deviam ser anuladas, as propriedades adquiridas deviam voltar a seus antigos donos (com a finalidade de evitar acumulações excessivas), os escravos deviam ser postos em liberdade. Essa lei era uma forma de proclamar que o único dono da terra é Deus. E do ponto de vista social essa lei ajudava a manter unidas as famílias com um patrimônio suficiente para uma vida digna. Era também um memorial da igualdade original que havia ao chegar os filhos de Israel à terra prometida, quando nada era de ninguém e tudo era de todos (Lv 25, 8-18). No mesmo sentido existia também o Ano Sabático, que devia ser celebrado a cada sete anos. Estas instituições legais eram entendidas como leis de libertação. Assim o proclama Jesus. E, fiel à tradição de seu povo, Jesus se refere ao Ano da Graça como ponto de partida para iniciar uma mudança urgente no país, dada a grande diferença que existia entre pobres e ricos. Em Nazaré, na sinagoga do seu povoado, Jesus dá um passo importante na maturação de sua consciência. O aplicar-se a si mesmo a frase de Isaias “O espírito do Senhor está sobre mim” era uma forma de reconhecer-se profeta na linha de todos os profetas que o haviam precedido. Depois da ressurreição, a Igreja Primitiva acumulou sobre Jesus títulos para descrever sua missão: “Senhor”, “Filho de Deus”, “Cristo”... A história a que recorrem os evangelhos deixa ver, no entanto, que o título com que foi aclamado unanimemente pelo povo e por seus discípulos, foi o de profeta. O profeta se define em oposição à instituição. Jesus não deve ser considerado como um teólogo ou mestre profissional mais radical que os demais, mas sempre dentro da instituição. Não podia sê-lo: faltava-lhe o que fazia os mestres de seu tempo: os estudos teológicos. A formação dos mestres era rigorosa, durava muitos anos, começava desde a infância. Quando chamaram Jesus de “rabi” (mestre, senhor) estavam aplicando a ele um tratamento que no seu tempo era familiar e corrente e que não deve ser traduzido como mestre no sentido de teólogo. Pelo contrário: Jesus foi acusado de ensinar sem ter autoridade (Mc 6,2). Quando fala na sinagoga não o faz tampouco como teólogo ou como mestre, mas como profeta leigo. (Mateus 13, 53-58; Marcos 6,1-6; Lucas 4,16-28)
Capítulos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV XXXVI XXXVII XXXVIII XXXIX XL XLI XLII XLIII XLIV XLV XLVI XLVII XLVII XLIX L LI LII LIII LIV LV LVI LVII LVIII LIX LX LXI LXII LXIII LXIV LXV LXVI LXVII LXVIII LXIX LXX LXXI LXXII LXXIII LXXIV LXXV LXXVI LXXVII LXXVIII LXXIX LXXX LXXXI LXXXII LXXXIII LXXXIV LXXXV LXXXVI LXXXVII LXXXVIII