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Capítulo XI UM LOUCO QUER ENTRAR Nos tempos de Jesus, como durante muitíssimos séculos, na antiguidade, a falta de conhecimentos científicos, a ignorância sobre o funcionamento do corpo humano, fazia com que se atribuísse aos demônios algumas enfermidades. Isso acontecia, sobretudo, com os transtornos psíquicos, as enfermidades mentais, nas quais o modo de agir do enfermo (gritos, falta de controle dos movimentos, ataques...) era o que mais chamava a atenção. Dizer “louco” era o equivalente a dizer endemoniado. E, por isso, era o mesmo que dizer “impuro” (dominado ou possuído por um “espírito impuro”, o diabo). A maioria das religiões antigas consideraram que no mundo há pessoas, coisas, ou ações impuras. Umas e outras “contagiam”. Essa impureza não tem nada a ver com a sujeira exterior. Nem a pureza com a limpeza. Tampouco tem a ver com a moral, “o bom” ou “o mal”. O “impuro” é o que está carregado de forças perigosas e desconhecidas, como o “puro” é o que tem poderes positivos. Quem se aproxima do impuro, não pode aproximar-se de Deus. A pureza-impureza é uma ideia fundamentalmente “religiosa”. Desde os tempos antigos, a religião de Israel havia assinalado esta forma de pensamento mágico e existiam muitas leis sobre pureza que se referiam: a) Ao ato sexual (menstruação e hemorragia eram formas de impureza);
b) A morte (um cadáver é impuro);
c) Algumas enfermidades (a lepra e a loucura tornam impuro);
d) Alguns alimentos e animais (o abutre, a coruja, o porco eram, entre muitos outros, animais impuros). A maioria dessas leis eram conservadas no livro do Levítico. À medida em que o povo foi evoluindo de uma religião mágica para uma religião de responsabilidades pessoais, essas ideias foram caindo em desuso. No entanto, alguns grupos as observam com todo o rigor, donde advém as longas lavagens ou purificações para fazer-se agradáveis a Deus. Jesus lança por terra esses costumes mágicos e com sua palavra e suas atitudes apaga a fronteira entre o puro e o impuro da velha religião. A boa notícia é que a pureza verdadeira está unicamente no coração do homem e na atitude de justiça que tenha para com seus irmãos. O sinal de Jesus se realiza no interior da sinagoga de Cafarnaum. Uns quinhentos anos antes de Jesus, quando o templo de Jerusalém foi destruído e o povo de Israel foi deportado, os judeus começaram a construir “sinagogas”, casas de oração onde reuniam-se para rezar e ler as Santas Escrituras. Nos tempos de Jesus, embora já houvesse um novo Templo em Jerusalém, existiam muitíssimas sinagogas em todo o país. Em Cafarnaum havia uma pequena, sobre a qual foi construída, quatro séculos depois, outra maior, da qual se conservam ainda hoje ruínas de grande valor histórico. Na sinagoga se reunia todo o povo aos sábados para assistir à oração e escutar o rabino ou qualquer outro patrício que quisesse fazer o comentário dos textos da Escritura que se havia lido. A sinagoga não é o equivalente exato de nossos templos atuais. É um lugar mais familiar, mais popular e mais leigo, já que nela se podia falar livremente, interromper, e não era necessária a presença de nenhum ministro sagrado. O rabino era um mestre-catequista (não sacerdote). Sem querer chegar ao conceito “puro-impuro” dos tempos antigos, muitos enfermos do tipo subnormais, loucos, etc., estão hoje marginalizados da comunidade. Os sadios se safam deles, querem escondê-los como uma vergonha familiar, não se lhes dão oportunidades de reabilitação para que possam contribuir para a sociedade. Eles são, como Bartolo, os novos impuros. O sinal de Jesus neste episódio é sinal de que a casa de Deus, a comunidade cristã, está aberta também para esses homens e mulheres diminuídos. É sinal de Libertação: Deus valoriza e tem para eles um lugar e uma missão. (Marcos 1, 21-28; Lucas 4, 31-37) A sogra de Pedro Pedro tinha sogra, portanto, era casado. Esse é um dado do evangelho. A composição de sua família (sua mulher Rufina e seus quatro filhos) é uma elaboração do relato. Os discípulos de Jesus não foram homens desencarnados de uma história pessoal. Tinham uma profissão, uma família, uma casa, uma psicologia bem diferente uns dos outros. De Simão, por sobrenome Pedro (no relato também é chamado de “atira-pedras”), é de quem mais dados nos oferece o evangelho para reconstruir sua maneira de ser. Protagonista em muitos episódios da vida de Jesus, Pedro aparece com um homem vital, impulsivo, algo estouvado, afetuoso, cheio de generosidade e ligado a Jesus por uma profunda amizade. A casa de Pedro, onde Jesus se encontra com a velha Rufa, é um dos lugares com maior autenticidade histórica entre as lembranças materiais da vida de Jesus. Da casa de Pedro se conservam os alicerces e, neles, o portal de entrada. Com toda a certeza, Jesus o cruzara centenas de vezes. Esses alicerces deixam ver um espaço reduzidíssimo onde a família de Pedro viveria mais que pobremente. Nos tempos de Jesus havia menos anciãos que hoje em dia. A vida do homem era mais curta porque havia poucos conhecimentos médicos. A maioria dos homens e mulheres morria jovem, comparativamente a hoje. Os anciãos eram muito queridos e sua presença inspirava respeito na família. Eram também os responsáveis por transmitir a história familiar, as tradições culturais, etc. Jesus se faz tudo a todos, se aproxima da avó Rufa na atitude com que devemos nos acercar sempre dos anciãos: fazendo-os sentir que ainda são úteis, dando-lhes esperança para enfrentar suas dolências com ânimo e preparando-os para a hora da morte com serenidade e confiança em Deus. Este “milagre” de Jesus é sinal do amor de Deus pelo velho que a sociedade atual, às vezes, rechaça e marginaliza como inútil. (Mateus 8,14-15; Marcos 1,29-31; Lucas 4,38-39) Um leproso no bairro A lepra, que na Bíblia englobava outras enfermidades da pele (erupções, equimose, manchas, caroços, etc), era uma enfermidade muito temida. Era sempre considerada um castigo de Deus e obrigava o leproso a separar-se de sua família e da comunidade e viver isolado. O leproso era, além de um doente repugnante, um impuro do ponto de vista religioso e, por isso, eram os sacerdotes que tinham de determinar tanto a doença, como a cura, se esta se produzisse. No Antigo Testamento, é muito extensa e pormenorizada a legislação sobre a lepra. Por ser uma enfermidade tão horrível, era crença popular que a lepra desapareceria quando chegasse o Messias. Os leprosos deviam viver separados, em grutas. Não podiam aproximar-se das cidades e, quando iam por um caminho, tinham que gritar sua impureza para prevenir os sadios. Esse isolamento não era só pelo contágio que podia produzir a enfermidade, mas pelo caráter religioso, de “amaldiçoado por Deus” que tinha o doente. O fato de Jesus aproximar-se de um leproso e tocá-lo, além de ser um gesto de compaixão, era uma voluntária violação da lei religiosa que tornava culpável quem tocasse num impuro (Lev 5,3). É um sinal de que, com Jesus se apagaram as fronteiras do puro e do impuro e que o Deus que ele vinha revelar não levava em conta essas distinções externas, nem tampouco castigava ou amaldiçoava alguém valendo-se da doença. Nem a lepra, nem qualquer outra doença, por terrível que fosse, é castigo ou vingança de Deus sobre o homem. Elas têm sempre sua explicação em causas naturais e é a medicina a encarregada de determinar sua origem e combatê-la. A bactéria que produz a lepra só foi descoberta em 1868. Hoje em dia a lepra não é uma doença incurável, no entanto, há muitos leprosos no mundo. A falta de higiene e de cuidados preventivos quando começa a enfermidade é a causa de a lepra estar ainda tão espalhada. Os atuais leprosos vivem também em comunidades separadas, ainda que se saiba que a lepra não é um mal contagioso se se tomam algumas mínimas precauções. Os quatro evangelistas atribuem a Jesus cerca de 41 milagres. Mateus é o que cita a maior quantidade: 24. E João, o que cita a menor: 9. As narrações de milagres estão ligadas estreitamente ao que os próprios evangelistas contam sobre a atividade e missão de Jesus. Neste sentido, pode-se dizer que são essenciais ao evangelho. A maioria desses fatos milagrosos são curas de diferentes enfermidades. Mesmo os críticos mais severos admitem que Jesus seria um homem com certos poderes para curar enfermos, para aliviá-los, para fortalecer sua fé de que podiam curar-se. Poderes que são difíceis de precisar hoje, há dois mil anos de distância. Do ponto de vista teológico, deve-se sempre ver o fato milagroso na narração evangélica, não como uma demonstração de algo “extraordinário”, mas como um sinal de libertação. Deus envia seu filho como libertador, Jesus anuncia a Boa Notícia desta libertação e realiza paralelamente sinais que indicam que esta libertação já chegou. (Mateus 8,1-4; Marcos 1, 40-45; Lucas 5, 12-16) A rua dos jasmins Não só pela “impureza” de seu ofício, mas por sua condição - uma das mais baixas na estrutura social daquele tempo -, as prostitutas eram mulheres marginalizadas, desprezadas por todos. Não por Jesus, que falou delas, colocando-as como modelo de abertura à mensagem libertadora e, portanto, primeiras destinatárias do Reino de Deus (Mt 21,32). Esta palavra de Jesus, e também sua atitude de acolhida para com as prostitutas - Maria Madalena fez parte do grupo de seus seguidores -, constituíram um gravíssimo escândalo para os homens religiosos do seu tempo. E uma das maiores originalidades do Evangelho foi a boa notícia para os marginalizados, para os “sem moral”, a quem as leis da época trancavam a sete chaves qualquer possibilidade de aproximação de Deus. O Deus que Jesus proclama, e esta é a novidade, sente preferência por esses “pecadores”. Jesus não só abre as portas do Reino para estas mulheres, como se aproximou especialmente de uma delas, a tal ponto que os evangelhos farão de Maria de Magdala, o primeiro testemunho da ressurreição. A condição de Maria e a relevância que lhe dá o Evangelho, deram origem em alguns romances e filmes a uma interpretação de sua relação com Jesus, como um namoro frustrado. Sem entrar ou sair desta hipótese - sem qualquer outra base além da literária -, o que se deve ressaltar é a enorme capacidade que tinha Jesus para fazer-se amigo e dar esperança a quem, por ser objeto de desprezo de todos, menosprezavam também a si mesmos. O perdão de Deus que Jesus traz, não é um perdão de palavra, à distância, mas se traduz em ações. Neste caso, aproximar-se da casa da prostituta e conversar com ela de igual para igual, prescindindo do que dirão e escandalizando os “decentes” com esses gestos. Ao agir assim, Jesus está cumprindo a promessa dos profetas: Deus sai em busca dos perdidos (Ez 34,16). Naquele tempo, as casas eram iluminadas com lâmpadas de azeite. Eram feitas, normalmente, de argila, com duas aberturas, uma para colocar a mecha e outra para derramar o azeite. Essas lâmpadas ardiam, às vezes, a noite toda: era uma forma de espantar os maus espíritos. Por isso, sempre foram encontradas muitas lâmpadas no interior das sepulturas da época. Um tema frequente nas parábolas de Jesus é o da vigilância. Deus pode chegar a qualquer momento e é preciso estar preparado para recebê-lo. Deus surpreende, é um visitante inesperado. O homem deve viver em atitude expectante, sem dormir à sombra dos louros, nem deitar para descansar. Nesta linha vão as comparações do criado vigilante, do ladrão e da lâmpada (Lc 21,35-40), que Jesus empregou para falar do Reino de Deus. Maria Madalena, que tinha um “ofício noturno”, habituada a velar, podia compreender melhor que ninguém uma comparação como esta.
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