Apresentação
Fale Conosco
Veja Também:
Capítulo VI OS NOIVOS DE CANÁ Três dias depois houve um casamento em Caná da Galileia, o povoado de onde era Natanael. Estava se casando seu vizinho, o lenhador Sirim, com Lídia, uma menina pobre de uma aldeia próxima. Para a festa convidaram Maria, a mãe de Jesus. E também convidaram a todos nós... Felipe: Aí vem a noiva! Todos: Viva! Viva! O momento mais importante da celebração era a chegada da noiva. Trazia o rosto coberto por um véu azul e, na cabeça, uma coroa de flor de laranjeira. O noivo saiu para recebê-la e todos entramos com eles no pátio da casa onde começavam a brilhar muitas lampadazinhas de azeite... Jesus: Olhe, mamãe eu não pensei que viesse tanta gente para a festa... Somos muitos... Maria: Sim, Jesus. Os pais de Sirim sempre foram muito pobres, mas também muito generosos. Se têm dois pães, lhe darão a metade. Veja só, nós nem o conhecemos tanto e mesmo assim fomos convidados. Em Caná da Galileia conhecemos Maria, a mãe de Jesus. Era uma camponesa baixinha, com a pele tostada e o cabelo muito preto. Teria uns quarenta e cinco anos. Suas mãos eram grandes e cheias de calos, como as de quem trabalha muito. Não era uma mulher bonita, mas seu olhar era vivo e simpático. Quando falava tinha o sotaque dos galileus. Ao sorrir, se parecia muito com Jesus... Jesus: Bem, mamãe, vamos nos divertir!... Festa como essa a gente tem que aproveitar bastante!... Pedro: Já estão saindo os salgados. Ao ataque, companheiros! João: Espere um pouco, Pedro, deixe que lhe sirvam. Pedro: É que estou morrendo de fome, João... João: É, o negócio agora é encher bem a pança, porque depois vem o baile! Pedro: Já fazia muito tempo que eu não vinha a um casamento. Isso é o melhor da vida! Baile, comida, vinho! Que mais se pode pedir? Para celebrar o casamento de Sirim e Lídia, seus pais haviam feito um grande sacrifício. Assaram alguns cabritos e algumas galinhas e compraram tâmaras e azeitonas em quantidade. Também compraram vinho, o vinho de Caná, que era famoso em toda a Galileia, e que subia muito depressa à cabeça... João: Aos noivos! Felipe: Para que vivam mais anos que Matusalém! Maria: À noiva! Mulher: Para que dê mais filhos a Sirim do que os que Lia deu a Jacó! Pedro: Ao noivo! João: Para que de sua família nasça o Messias que esmague os romanos! Depois de brindar várias vezes com as jarras transbordando de vinho, começou o baile no pequeno pátio da casa. Os homens formaram uma roda. E as mulheres, outra. Todos nos esquecemos dos pequenos e grandes problemas que tínhamos. Com o vinho, a alegria da festa havia se aninhado coração a dentro... João: Agora você, Felipe, ao meio! Felipe: Aos noivos de Caná \ eu quero falar agora \ esta festa está tão boa \ que eu já não quero ir embora! Pedro: Sua vez, Jesus, sua vez! Jesus: Que bonita está a noiva \ e que honrado seu marido \ e que saboroso o vinho \ que os dois nos têm servido! Todos: Muito bem! Muito bem! Uma mulher: Este é o casamento, leré \ que viva o noivo, leré, leré \ Viva a noiva, leré \ que sejam felizes, leré, leré \ Se o casamento durar, leré \ por toda a vida, leré, leré \ a vida inteira, leré \ não me cansaria de estar nela... Outra mulher: Ei, Maria, já fazia muito tempo que a gente não dançava tanto, não?... Maria: Uff!... Não aguento mais! Não aguento mais! Maria parou de dançar um pouco e foi à cozinha. Queria ver como a mãe de Sirim preparava as tortas de mel... Maria: Como vão as tortas, Joana? O cheirinho já está chegando lá fora...! Joana: Uff, eu não imaginava que casar um filho desse tanto trabalho. Você vai ver, Maria, como é a coisa quando chegar a vez do seu... Maria: Ui, esse aí...! O que falta para que eu veja esse dia! E por Deus do céu, aí sim é que eu iria dançar com mais gosto que nunca...! Joana: Nada disso. Você teria que ficar na cozinha, assim como eu... Maria: Bem, posso dar uma mãozinha em alguma coisa? Joana: Samuel foi buscar mais vinho no pátio. Quando voltar, ajude a encher as jarras... Está ficando boa a festa, não é mesmo, Maria? Maria: Está sim, Joana. Há muita alegria. Joana: Fizemos de tudo para poder dar uma festa assim aos meninos. Depois, pouco a pouco iremos saindo das dívidas, não acha? Um dia é um dia, puxa vida!... Ah, veja, o Samuel vem vindo... Samuel: Mulher, o pessoal está bebendo demais e só nos restam três quartos de barril. Se continuar assim, daqui a pouco não teremos mais nenhuma gota de vinho. Joana: Mas, o que você está dizendo? Não pode ser, velho. E os outros barris, você olhou direito? Samuel: Claro que olhei. Os outros barris estão mais secos que o deserto da Judeia. Já beberam tudo. Joana: Acho que você não olhou direito, velho. Tem que haver mais. Samuel: Ai, que mulher mais desconfiada! Estou dizendo que só tem um tanto assim. E que dentro de uma hora não terá mais. Joana: Mas, Samuel, o que faremos então? Diga-me, Maria, o que vamos fazer agora? Ai, meu Deus, que vergonha, como vamos dizer às pessoas que não tem mais vinho para brindar, que vão embora já... Quando tudo estava só começando... Como pode acabar uma festa assim, meu Deus! Samuel: Pois eu não sei o que fazer. Eu não posso ir comprar mais vinho. Já estamos devendo esses três barris. Não vão me dar fiado nenhum outro. Joana: A culpa é sua por convidar o bairro inteiro! Nós pobres não podemos fazer festa, velho, veja só que hora para se acabar o vinho! Samuel: Calma, mulher, não grite tanto que vão ouvir de lá do pátio! Maria: Jesus, venha cá um momento... Jesus! Um homem: Ei, Jesus, olha sua mãe lá na porta. Está te chamando. Jesus: Eu volto já! Maria: Jesus, veja só o que está acontecendo. Jesus: O que aconteceu? Cansou de dançar? Está se sentindo mal? Maria: Não, filho, é outra coisa. Jesus: Mas então, por que essa cara de velório, mamãe? Isto é um casamento. Maria: Jesus, não tem mais vinho. Já bebemos quase tudo. Jesus: Bem, e daí: Você quer que eu vá comprar mais? Não tenho dinheiro, verdade!... Maria: Não, filho, não é isso. Jesus: Então é o que? Por que você está dizendo isso pra mim? Maria: E a quem eu vou dizer, Jesus? Você não tem nenhuma ideia? Jesus: Não sei, assim de repente... Tem certeza de que acabou o vinho? Maria: Veja e pergunte à mãe de Sirim que está chorando lá na cozinha como uma carpideira... para ela acabou a festa! Jesus: O que acontece, Samuel? Samuel: Nada, meu filho, é que o vinho acabou. O que vamos fazer! Paciência e resignação... e esta mulher que não para de chorar... Maldição! Cale-se de uma vez, que eu fico mais nervoso! Maria: Não grite assim, Samuel. Ela também está nervosa, coitada! Jesus: Mas você tem certeza que não há mais vinho? Acabou tudo? Samuel: Venha ver, Jesus. Só resta um quarto no barril. Não tem mais. O que eu vou fazer agora? Não posso fazer milagres. Não tem mais vinho. Vocês beberam tudo. Então agora não venham reclamar. Joana: Tão linda que estava ficando a festa, tão bonita... E como vai acabar! Samuel: De novo a mesma ladainha, mulher? Jesus: Está pensando alguma coisa, Samuel? Samuel: Sim, dizer pra todo mundo ir embora, que isto aqui se acabou. Se não quiserem ir, que bebam água. Eu não tenho outra coisa para oferecer: que bebam água como as rãs. Jesus: Eu não tenho nenhum tostão, Samuel, não posso ajudar a comprar mais vinho. Samuel: Eu sei, Jesus. E os que estão dançando, muito menos. Todos os que vieram à minha casa são uns mortos de fome como eu. A quem vou pedir? Não posso fazer mais nada. Querem continuar dançando, se divertindo? Que bebam água e que a adocem com um pouco de mel, se preferirem. Que mais posso fazer, Jesus, diga? Jesus: Pois é isso mesmo que você está dizendo, Samuel, claro que sim. Venha, vamos tirar água do poço e encher alguns barris... Ou senão, pegamos as vasilhas de lavar as mãos. São grandes e há umas cinco ou seis perto da porta, não? Joana: Mas, o que vocês vão fazer, velho? Estão loucos os dois? Como vão servir água? Ai, Maria, que vergonha, que vergonha! Samuel: O que você acha, Maria? Maria: Sim, faça o que Jesus diz. Qual outro remédio? E explique às pessoas o que aconteceu. Joana: Ai, meu Deus, não me faça passar esta vergonha! Jesus e Samuel, o pai do noivo, foram encher as vasilhas com água do poço. A casa estava cheia de gente. O baile havia terminado. O cheiro de suor e vinho se misturava com o perfume das mulheres e o azeite queimado das lâmpadas. Todos estávamos esperando que nos servissem outras jarras de vinho para brindar... Maria: Ai, Jesus, filho, não sei o que vai acontecer quando as pessoas virem que só tem água nas jarras... Jesus: A festa vai continuar, mamãe! Não se preocupe, a festa vai continuar! E a festa continuou... João: Caramba, homem, este vinho está melhor que o outro! E que guardadinho eles o tinham, heim? Venha outro copo! Pedro: Este Samuel é um sujeito especial, faz tudo ao contrário. Quando já estamos meio bêbados, serve o melhor vinho! Felipe: Vivam os noivos! Vivam Sirim e Lídia! Samuel: Mas, onde é que você foi buscar esse vinho, rapaz? De quem você comprou? Jesus: Você não se preocupe, Samuel. Não vê que a festa continua? Isso é o que importa! Samuel: Prove um pouco, mulher! Joana: Ai, que coisa mais gostosa, que delícia...! Bem que eu desconfiava que você o tinha escondido, velho! Mas por que me fez passar aquele susto tão grande? Ah, meu velho!... Maria: Jesus, mas o que é isso? Jesus: Que a festa continue, mamãe, Deus quer que a festa dos pobres dure para sempre! Na casa de Sirim, a alegria continuou naquela noite, na outra e na outra. Aquele vinho alegrou nosso coração. E uma jarra ia e outra vinha. Muito tempo depois soubemos que aquele vinho novo havia sido antes água do poço da casa de Sirim. Foi Maria que nos contou. Nos contou também que naquele dia se deu conta, pela primeira vez, que Jesus trazia algo entre as mãos, algo muito difícil de entender para ela, mas tão alegre como uma festa de casamento. Os casamentos em Israel eram festas que duravam sete dias. O vinho era um elemento indispensável neles. Em Israel, o vinho era a bebida mais usada e era também o símbolo do amor. Tomava-se, sobretudo, vinho tinto. Em todos os casamentos se comia, se bebia, se dançava e se convivia durante uma semana. Era preciso preparar muita comida e suficiente vinho para não decepcionar os convidados que esperavam o dia do casamento como o mais destacado do ano. Nos ambientes populares, entre as pessoas pobres, o casamento exigia grande esforço econômico das famílias dos noivos. As bodas de Caná, embora alguns quadros as pintem como celebradas entre gente elegante e endinheirada, tiveram que desenvolver-se num ambiente popular a que pertenciam Jesus e seus amigos. Um ambiente de folguedo, de muito alvoroço, típico das festas orientais, e mais acentuado nas classes baixas. Somente João narra as bodas de Caná. A estrutura própria do seu evangelho, seu estilo, fazem com que este relato seja uma síntese teológica da mensagem de Jesus na qual cada elemento da história tem um significado simbólico. A tradição de Israel, sua poesia, os escritos dos profetas, haviam pintado o dia da chegada do Messias, como um dia de casamento. No festim messiânico correria vinho em abundância (Is 25,6). Em Caná, Jesus muda a água em vinho: A água representava as purificações que as leis judaicas ordenavam e que faziam com que a religião se centrasse, para muitos, no cumprimento de normas externas. Isto termina com Jesus; a água é mudada para vinho, símbolo da festa, da liberdade interior, da eucaristia que é repartir. Não a lei opressora, mas a vida comunitária, o sinal de que o Reino de Deus chegara. Temos de ler esse relato, portanto, não como história de um ato de magia maravilhoso, mas como o anúncio do plano de Deus: chegou o dia da festa para os pobres, de uma festa sem fim. A alegria não teria término porque Deus sempre teria mais e mais vinho para brindar. Jesus foi um homem alegre, expansivo, que cantou, dançou e bebeu com seus patrícios. Não foi um expectador de festas, que unicamente assistia a elas para abençoá-las com sua presença, mas como um participante a mais da alegria coletiva. Para encontrar a Deus não é necessário ir ao templo ou a um lugar silencioso. Deus está no meio da agitação, do banquete e do baile. Inclusive, ele mesmo organiza estes festejos: Jesus comparou várias vezes o céu que Deus prepara para seus filhos como uma festa de casamento. A intervenção de Maria neste momento da vida de Jesus foi empregada muitas vezes como argumento para reforçar a ideia teológica de que precisamos da mediação de Maria para obter de Deus as graças que pedimos: Maria as pediria a Jesus e Jesus a Deus. A tradição cristã, no entanto, insiste com vigor que o único mediador entre Deus e os homens é Jesus, Senhor da História por sua ressurreição (carta aos Hebreus). A presença de Maria nas bodas de Caná, e sua intervenção diante de Jesus é, por um lado, um símbolo: O Israel fiel (representado em sua mãe) reconhece que nas vasilhas de pedra (que representavam a lei mosaica escrita em taboas de pedra) “já não tinha vinho”. Isto é, a Lei tinha perdido o seu valor, estava vazia de sentido. Por outro lado, é uma prova de que a vida de Maria foi como a de Jesus. Ela participou com suas vizinhas do trabalho cotidiano, dos problemas de seu povo, e também de suas alegrias, como qualquer outra mulher, em nada diferente das demais por nenhum sinal maravilhoso. Ao que comumente chamamos milagre, João sempre se refere em seu evangelho com a palavra grega “semeion” (sinal). Isto pode servir-nos de pista para não reduzir o fato milagroso a um simples prodígio mais ou menos espetacular. O milagre é sempre um sinal de que Deus liberta o homem: da enfermidade, do medo, da tristeza, da morte... Em cada um dos relatos de sinais de Jesus é preciso ver sinais de quê eles são, que libertação significavam e que atualização podem ter para nós. E não dar tanta importância ao fato de se aconteceu ou não aconteceu algo extraordinário. (João 2,1-11)
Capítulos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI XXXII XXXIII XXXIV XXXV XXXVI XXXVII XXXVIII XXXIX XL XLI XLII XLIII XLIV XLV XLVI XLVII XLVII XLIX L LI LII LIII LIV LV LVI LVII LVIII LIX LX LXI LXII LXIII LXIV LXV LXVI LXVII LXVIII LXIX LXX LXXI LXXII LXXIII LXXIV LXXV LXXVI LXXVII LXXVIII LXXIX LXXX LXXXI LXXXII LXXXIII LXXXIV LXXXV LXXXVI LXXXVII LXXXVIII