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Parte II Texto IX Crer que Jesus ressuscitou?
Ou crer naquele que vive? Síntese do capítulo sob este título do teólogo e filólogo belga Roger Lenaers: Outro cristianismo é possível: a fé em linguagem moderna – São Paulo: Paulus, 2010. Obs.: Acreditamos conveniente uma explicação: o autor é um sacerdote jesuíta, filósofo, teólogo e especialista em filologia clássica. Convencido de que a cultura ocidental moderna representa uma verdadeira mutação humana e que ela rompe com a casca de uma visão pré-científica e, portanto, mitológica do mundo, ele se propõe neste corajoso livro introduzir o leitor no que seria o grande desafio do cristianismo hoje: rever toda a linguagem em que vem sendo expressa a fé cristã para torná-la inteligível e aceitável para o homem moderno. Crer que é um processo racional sem profundidade existencial. Crer em alguém é um processo dinâmico que emerge de nossas profundezas, supõe envolvimento e inclui compromisso, entrega e adesão. Quando, a seguir, falarmos da fé em Deus, ou em Jesus Cristo, o vivente, sempre teremos em mente essa atitude. A fé que salva e liberta é apenas aquela fé dinâmica que irradia e muda a vida. A ressurreição não é uma linguagem descritiva, mas tão somente figurativa. É um erro fazer da ressurreição corporal biológica de Jesus, saindo do sepulcro no domingo de manhã, a senha da ortodoxia. Rejeitar a fórmula ressurreição não significa de modo algum negar a boa-nova nela embutida. Para expressar no século XXI com um olhar de fé e, portanto, com sentido, o fato ocorrido a Jesus de Nazaré em sua morte, o crente da modernidade precisa de uma linguagem nova, pois a do passado, incluindo a expressão ressurreição, é o resumo de uma visão do homem e do mundo distinta da nossa. Israel não conhecia a cremação; o costume era de enterrar os mortos. A certeza de que o homem bom ali enterrado viveria novamente suscitou a imagem de que ele estaria dormindo… daí a palavra cemitério, que significa dormitório. O termo ressurreição também tem sua origem no campo semântico do dormir e despertar, deitar-se e levantar-se. A palavra ressurreição é um conceito culturalmente condicionado, que dependia da forma historicamente casual como os judeus cuidavam de seus mortos. Isso quer dizer que o conceito não tem um conteúdo absoluto com relação ao que realmente aconteceu com Jesus. Numa cultura de incineração, esse processo teria recebido um nome completamente diferente. A boa-nova de Jesus não pode consistir em que ele tenha morrido (ou dormido) numa sexta-feira à tarde e despertado antes do nascer do sol do domingo para despedir-se do sepulcro. Os relatos sobre as aparições de Jesus não são relatórios e, sim interpretações, como Paulo é o primeiro a indicar. A alusão mais antiga à ressurreição, em 1 Cor.15, emprega como confissão de fé a fórmula: “ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras “. Com esta fórmula, Paulo certamente se refere ao Antigo (ou Primeiro) Testamento, pois o Novo não existia sequer em projeto. Esse “terceiro dia” não é um dia do calendário, e sim um símbolo de que Deus agiu de maneira decisiva e salvadora na morte sem perspectiva de Jesus. A representação da ressurreição corporal de Jesus depois de permanecer por volta de 36 horas no sepulcro, para quem vive na modernidade, é uma narrativa que pertence ao domínio da fábula. O mesmo acontece ao crente moderno, para quem é difícil imaginar semelhante ocorrência. Felizmente, sua resistência é respaldada pelo caráter não histórico dos relatos das aparições, precisamente os relatos aos quais se costuma recorrer para afirmar a corporalidade da ressurreição de Jesus. Isso é importante, pois, se estes relatos narrassem fatos históricos, não teríamos outra opção a não ser acatá-los. É fácil ver que “os relatos não são precisamente atas de acontecimentos históricos”. O Evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro, não menciona nenhuma aparição; fala apenas do sepulcro vazio… Uns dez anos depois, Mateus menciona duas aparições, uma no sepulcro, outra na Galileia. Lucas narra três aparições, todas em Jerusalém. Nos Atos dos Apóstolos, escrito vários anos depois, as aparições duram 40 dias. O Evangelho de João, escrito no final do sec. I, fala de quatro aparições. Não é de estranhar que a crítica histórica conceda pouco valor histórico a esses relatos. Os relatos parecem ser um conjunto de tradições orais, narrativas, não verificadas pelos evangelistas. Mesmo entrando em muitas contradições, os Evangelistas concordam no que é verdadeiramente importante: ele foi “visto”. Qual terá sido a experiência existencial dos seguidores de Jesus após sua morte? Temos de buscar a realidade escondida por trás das palavras – da cultura judaica e helenista do séc. I – para traduzi-la para a linguagem da modernidade. A imagem de “subir aos céus” é apenas uma expressão simbólica do que ocorreu a Jesus em sua morte: ele “foi para o Pai”. “Subir aos céus”, ou “sentar-se à direita de Deus” equivalem a “ressuscitar do sepulcro”; não são indicações de acontecimentos sucessivos. Se ascensão já não é entendida literalmente, tampouco é necessário continuar entendendo a ressurreição ao pé da letra. Podemos entendê-la, hoje, tranquilamente, como um simbolismo. Aos olhos da ortodoxia isso pode parecer, talvez, uma abominação. Como, então, explicar as aparições? Os discípulos de Jesus passaram primeiro por uma terrível noite de decepção, desatino e medo, logo após a prisão e execução de seu mestre. Depois de um tempo, contudo, - talvez não exatamente “ao terceiro dia” do calendário – tiveram uma experiência muito especial. A certeza inexplicável de que Jesus por eles venerado, apesar de seu fim lamentável, não era, todavia, um perdedor, mas sim vivia e com ainda mais intensidade e plenitude do que nunca. Trata-se de uma experiência interior tão intensa da plenitude de vida de Jesus, que chegava a se projetar exteriormente. A figura daquele Jesus, que tudo significava para eles, tomava forma visível e audível. A experiência de um deles aplainou psicologicamente o caminho para que semelhante experiência fosse compartilhada por outros. Não somos espíritos isolados, e sim vasos comunicantes, mas a dotação psíquica não é a mesma em todos; neste caso, a figura que determinava sua experiência comum também era diferente. Eis uma explicação possível para algumas das contradições apontadas. “A seguir, os discípulos quiseram compartilhar com outros sua alegre experiência. Se Jesus, o justiçado, ‘vivia’- e eles mesmos eram testemunhas de que vivia, pois o haviam ‘visto’ -, isso significava, na perspectiva da antropologia judaica, que fora despertado do sono da morte e se levantado, ou seja, que ressuscitara corporalmente. A partir daí começou a crescer, progressivamente, a mensagem de sua ressurreição na tradição oral”. Para o crente moderno “a verdadeira boa-nova de Jesus de Nazaré é que dele, mesmo após sua morte, brota uma força vital que supera os limites do tempo e do espaço, tal como antes da morte. Esta força produz um melhoramento na qualidade de vida de todos aqueles que se voltam para ele e o seguem e, por isso, é fonte de salvação para eles”. A Bíblia trata Jesus como um todo. Ele é aquele que morre, mas que seus seguidores continuam experimentando como aquele que vive. Isto é tudo. Por isso, a experiência de Jesus vivente deve ser o ponto de partida de um ensaio que expresse numa linguagem autônoma (da cultura moderna) o mesmo conteúdo chamado pela linguagem do mito de ressurreição. Falamos com a Sagrada Escritura do “Deus vivente”. Neste caso “vivente significa uma realidade que supera qualquer bioquímica. Se esse mistério é amor, como confessa o crente, o ser humano que ama se torna um só ser com ele, na medida de seu amor, e participa na mesma realidade em sua riqueza de vida criadora. Este é o fundamento do conceito moderno de ressurreição. Em sua morte, Jesus tornou-se o ser humano amante, sem mais. Nela, levou até o fim a entrega de si mesmo. A essência do amor consiste precisamente na saída de si mesmo. Com isso, tentamos alcançar o limite do que as palavras podem expressar sobre o “ressuscitado”. Aí acaba toda representação, como sempre acontece quando se fala de Deus”. (O grifo é nosso). “Somos uma faísca da forma como Deus se expressa a si mesmo, ou seja Deus pertence à definição de nosso ser e que devemos olhar-nos mutuamente a partir de Deus. Só existimos segundo a medida de sua presença em nossa profundidade; portanto, segundo a medida de nosso amor”.
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