Quem Somos
Prólogo
Referências
Vídeos
Fale Conosco
Veja Também:
Parte II Texto VI Nós cremos que Deus o ressuscitou Síntese do capítulo sob o mesmo título do livro de Giuseppe Barbaglio, Jesus, hebreu da Galileia: pesquisa histórica, São Paulo: Paulinas, 2011. 1 - O antigo formulário da fé pascal O objeto de nosso estudo é a crença cristã no Crucificado ressuscitado e sua gênese. Quando Pedro e seus companheiros falam “crer na ressurreição” o que exatamente querem dizer? E como chegaram a crer? Pode-se concordar com Kessler: “Uma vídeo-câmera instalada no sepulcro não teria gravado nada”. Como então interpretar ou entender este evento real que não é fato histórico? O historiador não pode se abster de estudar o êxito inesperado da vida histórica de Jesus de Nazaré, após um evidente, mas aparente fracasso. Por muitos séculos os judeus viam o fim da existência humana como tenebroso e definitivo. Pelo sec. II A.C., em meio a um clima dramático de perseguição, surge a crença em um destino diferenciado dos mortos e na ressurreição no final dos tempos. No tempo de Jesus os fariseus eram defensores da esperança na ressurreição final dos mortos, crença que os saduceus rejeitavam. Na cultura greco-romana, circundante e então dominante, era comum a crença na imortalidade da alma, mas impensada a ressurreição dos mortos (quando Paulo ensaia falar de ressurreição, na Ágora de Atenas, seus curiosos ouvintes se retiram céticos e desinteressados). A crença na ressurreição do Crucificado manifesta-se com indubitáveis originalidades que fazem dela um unicum no mundo judaico da época. Os primeiros cristãos creem e proclamam que ele foi ressuscitado já agora, uma realidade consumada, não uma esperança para o futuro último. Libertação da morte, não temporária, mas para sempre. A fé na ressurreição está presente nos vários escritos das origens cristãs sob gêneros literários diversos: “cantos hínicos”, “confissões de fé”, “anúncios evangélicos”. Em todos eles a fé na ressurreição de Jesus se associa à esperança na ressurreição dos crentes. Veem em Jesus uma vida sem ocaso, nova, superior, de caráter divino. Ressuscitado por Deus – esta é a fórmula mais antiga – Jesus torna-se princípio ativo da ressurreição daqueles que acreditam nele. Vivificado pelo Espírito, Ele vivifica os outros. O Apóstolo Paulo chega a dizer: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. A ressurreição de Jesus é vista pelos primeiros cristãos como resposta de Deus à humilhação e desonra a que ele foi submetido. Deus “exalta” Jesus, “glorifica-o”, “leva-o ao céu” e “entroniza-o à sua direita”. Outras formulas apresentam Jesus como sujeito ativo dessa “ascensão “aos céu. Os textos estão cheios de símbolos e esquemas antitéticos: baixo/alto, terra/céu, humilhação/glorificação. A exaltação de Cristo culmina no Evangelho de Lucas com a narrativa rica de plasticidade e dados cronológicos e topográficos. A “ascensão” é narrada como um “arrebatamento celeste” similar a outros presentes na tradição bíblico-judaica e no mundo greco-romano. A redação de Lucas é “narrativa” e “visual”, modo plástico para afirmar um evento divino que por natureza foge ao nosso olhar sensível e também racional. A pena da cruz era para o mundo greco-romano infamante do ponto de vista político-social. Para os judeus era mais do que isto, era inclusive uma maldição divina. O fim inglório de Jesus, evangelista do Reino de Deus, o desqualificava aos olhos de todos, adversários, indiferentes e seguidores. Deus que não poupara Jesus da morte horrenda da cruz, não o abandonou, o ressuscitou, deu-lhe nova vida, introduzindo-o no seu mundo divino. Deus fez-lhe justiça e a obra que ele começou, a construção do reino de Deus, continua. Para os primeiros cristãos, a ressurreição de Cristo é a ressurreição do “primogênito de muitos irmãos” (Rm. 8,29). A ressurreição é uma certeza, pois “ele se fez ver a Simão” (1Cor.15,4-5), aos Doze e ainda, segundo Paulo, “se fez ver a quinhentos irmãos de uma só vez/ a Tiago / a todos os apóstolos / por último em absoluto… Se fez ver também a mim”. Trata-se de “alucinações”, “visões sensíveis”, “fantasias”, “percepções mentais”? O “fazer-se ver” não quer dizer nem propriamente visão sensível com os olhos, nem propriamente visão interior, mas ser superado por uma presença divina que se desvela: um existir que é um auto desvelar-se. Paulo é o único que, em primeira pessoa, fala deste encontro e a palavra utilizada pra se referir à revelação parece indicar que ele viu com os olhos da fé um “ evento apocalíptico de Jesus Cristo que se revelou aos seus olhos de fé, fazendo-o ver, compreender, vivenciá-lo como Filho de Deus. 2 - Os relatos evangélicos As fórmulas citadas anteriormente remontam aos primeiros anos do movimento cristão. Os sete relatos evangélicos sobre os acontecimentos relativos à ressurreição não são coerentes e exatos, se contradizem em relação às circunstâncias. Pela natureza literária da descrição de Marcos é claro que não se trata de uma crônica de particularidades históricas – pedra removida, túmulo vazio, mensageiro divino – mas a afirmação da fé pascal dos primeiros cristãos. Também o fato de que as mulheres fujam e não digam nada a ninguém mostra que os primeiros cristãos deviam basear-se sobre o anúncio evangélico e não sobre âncoras externas de sustentação. Mateus depende da fonte de Marcos imprimindo ali sua mão redacional. Faz coincidir alguns detalhes, omite outros e acrescenta outros, como o terremoto e o anjo que rola a pedra do sepulcro e senta-se sobre ela. Embora inverta a ordem de Marcos – primeiro o túmulo vazio, depois o anúncio – a mensagem é a mesma: Jesus não está aqui; foi ressuscitado. A redação de Mateus é claramente apologética: defende a crença cristã na ressurreição e em particular a identidade pessoal do ressuscitado com o crucificado contra boatos infamantes. Note-se, diz Barbaglio, que o túmulo vazio e a apologética cristã caminham em uníssono e por isso não é arriscado afirmar que aquela seja somente um artifício ou também um a priori de cristãos, que conectavam a ressurreição com o túmulo vazio. Mateus conclui o relato da ressurreição com a afirmação de que Jesus está vivo. Seu evangelho termina com a mensagem do Ressuscitado: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo”. Lucas, usando o que os especialistas chamam de fonte L, mas tb. Marcos e Mateus, constrói uma narração, com alguns relatos próprios, como a aparição a dois discípulos de Emaús. No caso “não se fala propriamente de visão do Ressuscitado, mas de seu reconhecimento: nenhuma visão sensível, somente reconhecimento de sua presença ativa com os olhos da fé”. Em outras descrições de Lucas, em que Jesus se faz presente no meio dos onze discípulos e de outros, o ver, tocar as chagas, comer são elementos plásticos de um texto apologético para mostrar que “verdadeiramente” Jesus, o Cristo, ressuscitou e está vivo. Na conclusão de sua obra, João depende de sua tradição ou fonte que tem em comum com Marcos o relato das mulheres que se dirigem à tumba de Jesus, mas em seguida, continua por conta própria. Não há consenso entre os estudiosos para quem Jesus se revela primeiro: para Madalena (segundo João) ou para Simão Pedro (segundo Lucas e Paulo)? João escreve para os cristãos da segunda e terceira gerações, aqueles que acreditam no anúncio evangélico sem nenhuma aparição pascal. O Evangelho de Pedro, apócrifo, não oficial, não teme em relatar com vivaz descrição a ressurreição mesma de Jesus, não vista pelos discípulos, mas pelos estranhos: os soldados que montam guarda. O relato de Pedro, como o de Mateus, tem caráter apologético (de defesa da fé). Outros relatos apócrifos, como o Evangelho dos Hebreus e a Carta dos Apóstolos, são ainda mais exagerados, em seu afã apologético. 3 - Gênese da fé cristã de Pedro e companheiros Depois da morte de Jesus os discípulos, decepcionados e medrosos, voltam para a Galileia. Pouco tempo depois, “algum acontecimento excepcionalmente encorajador”, segundo Strauss, “um novo impulso”, segundo Kessler, “uma sacudida”, segundo Schillebeeckx, leva os discípulos, convencidos da ressurreição de Jesus, a se reunirem em uma nova comunidade de crentes em Jerusalém. Esta “alguma coisa” é o núcleo histórico da fé pascal. Não há consenso, entre os estudiosos, sobre este núcleo histórico: sepulcro vazio? Visões pascais? A questão da “tumba vazia” tem gerado muita polêmica e é efetivamente um problema histórico sério. Não há unanimidade entre os estudiosos que estão divididos a respeito dos relatos evangélicos. As opiniões dos estudiosos se dividem; alguns consideram os relatos historicamente plausíveis, outros não. A pedra removida da entrada do túmulo e este vazio são mais que tudo símbolos de estrepitosa vitória sobre a morte. Como disse Kessler: “A ressurreição não tem por isso diretamente alguma coisa a ver com o cadáver e consequentemente com o sepulcro vazio. Não é parte constitutiva necessária da fé cristã na ressurreição, mas um símbolo ilustrativo”. Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios (escrita em Éfeso no ano 53 ou 54), apresenta uma concepção mais refinada do que a corrente em seu tempo a respeito da ressurreição. Para ele o ressuscitado é revestido de incorruptibilidade e imortalidade, o que não seria incompatível com um sepulcro cheio e um cadáver destinado à decomposição. A identidade da pessoa e de seu corpo, que se revela e comunica com os outros, não equivale à materialidade anterior. No final do capítulo, Bargaglio analisa as interpretações de alguns autores sobre os eventos que levaram à crença na ressurreição. E conclui: Penso que por falta de dados não se possa ir além da suposição e compartilho a opinião de Voegle: “Não somos capazes de oferecer uma resposta certa à origem da fé pascal”.
Parte I Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
Parte II Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
Parte III Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII
XXIX
XXX
XXXI
XXXII