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Parte II Texto II Da morte e da ressurreição A pena de crucificação para os romanos era um completo ritual de humilhação, de sofrimento e difamação do condenado. Não era um rito privado, mas social, de punição exemplar e intimidação. Normalmente o corpo nu do crucificado, com as pernas quebradas, era deixado no local para servir de alimento para bestas selvagens e aves de rapina. Temos hoje mais dificuldades de entender a humilhação e a desonra familiar do não sepultamento. Podemos imaginar, por mais presente, a dor dos familiares de mortos insepultos, vitimas de regimes ditatoriais…. A tradição cristã diz que o corpo de Jesus – por piedade pessoal, ou dever comunitário, não sabemos muito bem – foi entregue pela autoridade romana a um elemento da elite de Israel, José de Arimateia, que o sepultou às pressas, sem velório e sem as lamentações de praxe por parte das mulheres. Apesar dos milhares de judeus crucificados no século I ao redor de Jerusalém, ossos de apenas um homem foram encontrados até hoje o que reforça a tese do inusitado da tradição cristã. O sepultamento de Jesus teria sido uma exceção. Devemos imaginar que a maioria dos discípulos de Jesus, que fugiram quando de sua prisão, continuava a imaginar – ou não querendo imaginar – o corpo de Jesus exposto à execração pública e à voracidade dos animais selvagens, enquanto todo o povo de Israel começava a se preparar para comemorar sua libertação, a Páscoa. Jesus morreu na cruz, segundo os especialistas, poucas horas antes do início da comemoração da Páscoa. Seu corpo teria sido colocado num túmulo típico da época, de alguém de recurso: um buraco esculpido na rocha calcária, com uma antecâmara, que se abria para um cômodo contendo diversos nichos profundos, nos quais o corpo era colocado em ângulo reto com o cômodo, conforme descreve John Dominic Crossan (op. cit. 576.). O túmulo de Jesus deveria ser velado por três dias, o tempo necessário para, de acordo com a concepção da época, o morto ser considerado seguramente morto. Jesus precisaria estar morto para entrar no “sheol” e, então, de acordo com as primeiras narrativas cristãs, “destruir para sempre o poder da morte”. De quem e de quando são as primeiras referências escritas à morte e ressurreição de Jesus? O primeiro dos Evangelhos, o de Marcos, foi escrito por volta de 65-70. Sabe-se que ele se baseou na tradição oral de sua comunidade e em escritos anteriores – veremos isto mais adiante -, os quais não chegaram até nós. A primeira menção à morte e ressurreição de Jesus é do apóstolo Paulo e se encontra na primeira carta aos Coríntios, escrita em Éfeso no inverno de 53 ou 54. Nela se diz: “Cristo morreu por nossos pecados”, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas (Pedro) e depois aos doze, a seguir apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez: a maioria ainda vive… É interessante observar que ele fala de uma boa notícia, que ele já havia transmitido e denota fórmulas de proclamação (kerigma) e profissão de fé já consolidadas. Paulo, convertido em 35, ou até em dois ou três anos antes – 2 a 5 anos depois da morte de Jesus – leva para Corinto, em sua primeira estada na cidade, por volta do ano 50 - tudo que ele aprendera e vivenciara nas comunidades de Jerusalém e Antioquia. Trata-se, portanto, das narrativas mais antigas de que se tem notícia sobre o sofrimento, a morte e a ressurreição de Jesus. Diz Paulo: “o evangelho que vos anunciei… transmiti-vos… aquilo que eu mesmo recebi… (1 Cor.15;3-6). Paulo não parece interessado nos fatos históricos, mas no significado deles, lidos através das Escrituras: Jesus é o “servo sofredor “a que se refere o Profeta Isaias (Is. 53;3-6) e ressurreto está entre nós. Qualquer um de nós que já perdeu alguém muito querido, depois de algum tempo esquece datas e fatos e guarda o que a pessoa significou e significa no presente, além de algumas frases ditas por ela, em alguma circunstância. Na perspectiva de Paulo e, portanto das primeiras comunidades cristãs – o nome cristão surgiu na comunidade de Antioquia – a ressurreição de Jesus não é um privilégio único e pessoal, nem tão pouco um fato passado: ”Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou… pois se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou”, (1 Cor.15-13-16). Como disse o historiador romeno, Mircea Eliade (1907-1985), especialista em história das religiões: “Não há dúvida de que a pregação de Jesus, e talvez até seu nome, se teriam perdido no esquecimento sem um episódio singular e incompreensível, exterior à fé: a ressurreição do supliciado... A fé em Jesus Cristo ressuscitado transformou o pugilo de fugitivos desmoralizados num grupo de homens decididos e certos de serem invencíveis. Pode-se dizer que também os apóstolos conheceram a prova da desesperança e da morte espiritual, antes de renascerem para uma vida nova e de se tornarem os primeiros missionários do Evangelho”. (op. cit. p. 295). Há consenso entre os especialistas de que o que chegou até nós sobre a paixão e ressurreição são narrativas, detalhadas a partir de padrões bíblicos e não lembranças históricas. Cada um dos Evangelhos foi escrito (todos depois da morte de Paulo) a partir de uma comunidade e se dirigia principalmente a ela - o que veremos mais adiante. Eles estão interessados não em fatos passados, mas no significado de Jesus vivo e presente entre os membros da comunidade. O interesse moderno pela História é que leva os pesquisadores a buscar, nos textos e em todas as fontes disponíveis, os fatos históricos. Como o tema – morte de Jesus de Nazaré e vida de Jesus Cristo - é complexo, optamos por apresentar, resumidamente, o ponto de vista, a leitura e/ou a interpretação de vários especialistas contemporâneos. Antes uma observação /alerta do teólogo Joseph Ratzinger, que se encontra no livro Jesus de Nazaré, da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, publicado já como Papa Bento XVI: “Quem se aproxima das narrações da ressurreição com a ideia de saber o que é ressurreição dos mortos não pode deixar de interpretar de modo errado tais narrações, acabando depois por pô-las de parte como coisa insensata”. (Op. Cit. p.219).
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