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Parte II Texto XVI Quadros filosóficos compatíveis e incompatíveis com a ressurreição Síntese de texto do teólogo João Batista Libânio, S.J., sob o mesmo título, que se encontra em www.jblibanio/artigos. Qual é o núcleo da fé na ressurreição? Foi a pergunta que São Paulo respondeu em 1Cor 15. Jesus foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Cefas e depois aos Doze. E continua falando das aparições. Ou, se quisermos, S. Pedro, no sermão dos Atos, expõe-no: “Jesus, o nazareno, [...] vós o entregastes e suprimistes, fazendo-o crucificar pelas mãos dos ímpios, mas Deus o ressuscitou” (At 2, 22-24). Esse dado bíblico nuclear, que se consubstanciou nos credos rezados nas celebrações dominicais e festivas, desafiou a teologia enquanto fé que busca inteligência. No fundo, a inteligência significa aqui filosofia. As filosofias situam-se diante da fé na ressurreição sob duas formas. Umas impedem e conduzem à negação da ressurreição. A concepção que têm de ser, da Transcendência, do ser humano, do mundo se consubstancia de tal forma que o mistério da ressurreição não encontra nelas lugar. Oferecem marcos filosóficos inaceitáveis para um cristão que crê na ressurreição. Outras propõem elementos que permitem entender essa realidade teologal. 1 - Quadro filosófico incompatível com a ressurreição Toda filosofia materialista veda a intelecção do mistério da ressurreição. No princípio existe a matéria e tudo volta à matéria. O espírito não passa de mero e provisório acontecer da matéria pela força de um processo evolutivo regido pelas leis internas da própria matéria. Como pensar aí que Jesus Cristo na totalidade de seu ser superou as condições limitantes, temporárias da matéria para uma vida além da morte? Evidentemente todo materialista rejeita qualquer menção à ressurreição como mera fantasia, como puros desejos do ser humano que não suporta o próprio destino de perder-se no cosmos material sem nenhuma existência pessoal. Após a morte, o nada pessoal, o nada existencial, o nada de tudo o que fomos como história livre e consciente. Nem salva o materialismo admitir que continuamos a existir na história por aqueles e aquilo que marcamos durante a existência com as relações que cultivamos. Seremos nos outros, nas coisas tocadas por nós. Os poetas na poesia, os pintores nas pinturas, os escritores nos escritos, todos nos amores que viveram. Mas o eu mesmo desaparece definitivamente. Como entender a ressurreição de Jesus nesse quadro? Impossível. Jesus teria deixado sua mensagem e continuaria para sempre um mestre a atuar unicamente pela força interna dos ensinamentos. Tal quadro filosófico não capta o mínimo do mistério da ressurreição. A filosofia oposta, espiritualista, rejeita a definitividade da carne humana. Esta veste o espírito para o tempo em que ele viver aqui na história. Com a morte, a alma se livra totalmente de qualquer vínculo com a carne, enquanto expressão da visibilidade corpórea do ser humano. Esse espiritualismo circulou na filosofia desde o platonismo mais puro em que o ser humano é pura alma, espiritual, imortal e divina até formas populares de desprezo do corpo. O modelo de morte é Sócrates, como nos descreve Platão no Diálogo Fédon. A morte de Jesus na cruz, entregando-se ao Pai, e sendo ressuscitado por ele, não cabe, de modo nenhum, nessa filosofia. Por isso, quando Paulo falou da ressurreição no areópago de Antenas, os ouvintes ironicamente comentaram: “Nós te ouviremos sobre isso noutra ocasião” (At 17, 32). Mais espalhada entre nós é a filosofia da reencarnação. No fundo, participa de certo espiritualismo, embora fale claramente de re-en-carn-ação. Reencarnar-se significa que o espírito se livra de um corpo e pode voltar a outro. A última consistência da pessoa é o espírito. Ele carrega, por assim dizer, o núcleo pessoal onde ele for, sem nenhuma vinculação definitiva com o primeiro corpo. Pelo contrário, sucessivamente se liberta dos corpos para ir purificando-se. Reduz, no fundo, o ser humano a uma entidade espiritual que perambula por diversos corpos. A reencarnação contrapõe-se frontalmente ao mistério da ressurreição, ao menos entendida nessa maneira grosseira. Com a Nova Era tal doutrina tem vindo fortemente à baila. O povo brasileiro carrega profunda e longa tradição reencarnacionista. Penetrou-lhe a mentalidade e emerge, aqui e ali, sob diversas formas. O ponto crucial incompatível com a ressurreição de Jesus consiste em negar a unidade pessoal entre corpo e alma e a indestrutibilidade do indivíduo humano. A morte não pode ser pensada nem como perda na história (marxismo), nem no cosmos (materialismo), nem num ser vago anônimo, nirvana (hinduísmo), nem também como possíveis voltas do indivíduo à história sob outras formas. Qualquer quadro maniqueísta, que despreza a matéria, que vê o corpo como degradação, não permite entender um corpo glorioso. Isso implica admitir que a matéria tem possibilidade de ser santificada e glorificada por Deus, o que o maniqueísta não suporta. 2 - Quadro filosófico compatível com a fé na ressurreição Toda explicação teológica da ressurreição precisa dar conta de um núcleo dogmático imprescindível: a) Jesus Cristo, na corporalidade e na espiritualidade, chegou à plenitude na ressurreição, sem rejeitar nenhuma dessas duas dimensões. Continua a existir na unidade de sua pessoa - corpo e alma, espírito e matéria. A totalidade da pessoa de Jesus ressuscitou. b) Entre o Jesus palestino e o Cristo glorioso permanece a identidade de pessoa. O mesmo Jesus, que se encarnou, nasceu da Virgem Maria, foi crucificado, morto e sepultado, é o mesmo ressuscitado. Não há ruptura da identidade pessoal, mas unicamente na maneira de viver. c) A ressurreição de Cristo, apesar de significar a plenitude absoluta da realização de uma existência humana pessoal, ainda está incompleta no corpo eclesial, como São Paulo claramente ensina. Se falta algo a completar na paixão de Cristo, falta também na ressurreição (Cl 1, 24). É o aspecto social da ressurreição. Não é um ato isolado de Cristo. Implica a ressurreição de todos os mortos. São Paulo, noutro lugar, explicita esse ponto: "Se não existe ressurreição dos mortos, Cristo também não ressuscitou" (1 Cor 15, 13). Não podia ser mais claro. A ressurreição de Cristo está intimamente relacionada com a ressurreição dos mortos e vice-versa. Em outras palavras, a ressurreição de Cristo e de cada um de nós só atingirá sua plenitude no final dos tempos, como encontramos no símbolo da fé: "creio na ressurreição dos mortos no último dia". A ressurreição de Jesus é, portanto, primícias de nossa ressurreição e da glorificação do cosmos. Toda a criação participa dela já agora, tem em si germe de eternidade, e se manifestará plenamente no final dos tempos. d) A ressurreição não pertence a nenhuma força imanente do ser humano de maneira que ele continuaria existir além da morte pela sua própria natureza. Ela é um dom de Deus Pai. O verbo ressuscitar é transitivo direto e o sujeito só pode ser Deus. Deus ressuscitou a Jesus Cristo, como Pedro (At 2, 24.32) e como o uso do verbo ressuscitar na voz passiva, cujo sujeito de causa eficiente é Deus (Mc 16, 6), o mostram. e) A ressurreição de Jesus já aconteceu logo depois da morte. A Escritura usa a expressão simbólica "no terceiro dia" para dizer que ele não permaneceu no mundo dos mortos. A teologia cristã tem de levar todos esses pontos em consideração para ser plausível. Atualmente dois quadros teológicos pretendem dar conta dessa tarefa: 2.1 - Quadro tradicional A partir de uma leitura quase literal da Escritura e num horizonte filosófico pré-moderno, elaborou-se uma explicação ainda hoje mais comum e de mais fácil intelecção. Por ser muito conhecida, menciono-a resumidamente. Com a morte, a alma de Jesus se separou de seu corpo. E este ficou três dias no sepulcro à espera de reunir-se à alma. Então se deu a ressurreição pela ação de Deus que transformou o corpo morto de Jesus em corpo glorioso. Nesses três dias, ele teria descido à mansão dos mortos, como rezamos no Credo. 2.2 - Quadro da unidade radical indissociável entre corpo e alma A mudança veio por influência das ciências naturais e da filosofia moderna. A concepção evolucionista e o avanço da microbiologia diminuíram o limiar entre matéria e espírito, entre corpo e alma, tanto no processo evolutivo quanto na realidade de cada ser. A unidade é de tal modo pensada, que não se entende como pode separar-se alma e corpo na morte, já que a alma é a matéria que tomou consciência de si, e a matéria é a alma "congelada". Morre-se todo. Ou se volta ao nada, ou Deus ressuscita imediatamente o todo. Na posição tradicional, a ressurreição era entendida como a união da alma ao corpo, dando-lhe nova forma gloriosa no momento em que se une a ele. No caso de Jesus, isso aconteceu no terceiro dia. Maria, por sua vez, na hora mesma da morte, foi assunta aos céus. E nós, porém, ressuscitaremos no final dos tempos. Nessa nova leitura antropológica, a ressurreição acontece para todos - Cristo, Maria e nós - da mesma maneira quanto ao instante e não da mesma maneira no sentido histórico-salvífico. A diferença não está na prioridade temporal de Cristo e de Maria, mas na prioridade de ambos no projeto salvífico de Deus. Em Cristo, Maria foi ressuscitada. Em Cristo e em íntima comunhão com Maria, fiel seguidora de Cristo, nós todos ressuscitamos no momento da morte, como seguidores de Cristo e tendo Maria como modelo de tal seguimento. A grande virada se dá na superação do esquema temporal e espacial, para entender a ressurreição de Cristo, a assunção de Maria e a nossa ressurreição em termos de relação. Pela ressurreição estabelece-se uma relação que supera todo tempo e espaço. É outro modo de existir do mesmo eu, na sua totalidade. Corpo e alma ressuscitados adquirem outro significado. Não são partes substanciais constitutivas do ser humano que se unem (concepção) e se separam (morte) respectivamente. São expressão da unidade histórica e espírito-corporal da pessoa humana e, portanto, permanecem além da morte noutra maneira de existência, de relacionamento.
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