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Parte II Texto XV Perspectiva bíblica da ressurreição de Jesus Síntese de texto do teólogo João Batista Libânio, S.J., sob o mesmo título, que se encontra em www.jblibanio/artigos. 1 - Aparições Os textos do Novo Testamento nos relatam as aparições de Jesus. O fato mesmo da ressurreição não foi narrado. É conclusão da experiência que as pessoas fizeram da dupla realidade de Jesus - corporal/terrestre antes da morte e gloriosa viva depois da morte. O salto entre as duas se chama ressurreição. No sentido bem estrito da palavra, a ressurreição não é um fato direto histórico, porque explode a categoria de tempo e história que conhecemos. Nela se dá uma vida que escapa diretamente de toda historicidade. Ninguém viu nem vê uma pessoa ressuscitada no sentido estrito do termo. A ressurreição é inverificável. Ela se infere, isto é, chega-se a ela, pela via indireta do testemunho dos que fizeram uma experiência original, intraduzível, indescritível do ressuscitado. Ela é um fato de fé da Igreja primitiva que nos transmitiu e que assumimos na fé. Tem a certeza e firmeza da fé e não dos fatos empiricamente verificáveis, como a queda de uma ponte. A gênese da fé na ressurreição se deu no interior da comunidade eclesial primitiva. Os discípulos e outras pessoas conheceram o Jesus palestino. Seguiram-no. Perceberam a grandeza de sua vida. Viram o fracasso de seu término na cruz. Numa lógica primeira, chegariam à conclusão dos discípulos de Emaús: “nós esperávamos que ele seria o que devia libertar Israel” (Lc 24, 21). E, de fato, tudo teria terminado assim, como foi o caso de outros “messias” do tempo de Jesus. Os zelotas Teúdas e Judas, o Galileu, arrastaram centenas de pessoas consigo e foram desbaratados pelos romanos. Depois de suas mortes tudo terminou. Foi, aliás, o argumento usado por Gamaliel perante o Sinédrio. Deixem em paz os seguidores de Jesus. Tudo terminará em nada a não ser que haja uma verdadeira revelação de Deus sobre ele (At 5, 36-39). Dessa revelação o novo testamento dá testemunho. Ele está vivo. O fato da ressurreição pertence ao universo da revelação, da fé. Evidentemente a fé não se funda sobre o vazio. Tem indícios, mas não prova no sentido empírico do termo. Pertence ao outro tipo de racionalidade. Assemelha-se à racionalidade do amor. 2 - O túmulo vazio O argumento do túmulo vazio que foi usado pela apologética não constringe a inteligência a aceitar a ressurreição. O próprio evangelho de Mateus nos fala da ambiguidade interpretativa: os discípulos roubaram o corpo e o esconderam e propalaram a ideia da ressurreição ou realmente ressuscitou. Diante do túmulo vazio, a racionalidade histórica preferiria a primeira hipótese que guarda uma lógica direta e humana. “Esta história propagou-se entre os judeus até o dia de hoje” (Mt 28, 15). A essa versão dos soldados, subornados, Mateus contrapõe a da revelação. “Não está aqui, porque ressuscitou!” (Mt 28, 7). Teologicamente falando, uma vez aceita a fé na ressurreição pela revelação, o túmulo vazio reforça, simbolicamente, essa realidade. Mas não é condição necessária nem suficiente. O vazio do túmulo aponta para o mistério da vida de Cristo, não em outro lugar, mas sob outra forma. Aí está a mensagem teológica. A identidade do Jesus palestino com o Cristo glorioso não se dá pela fisicidade do mesmo corpo, porque o corpo glorioso é de outra natureza. No entanto, o corpo físico morto de Cristo desaparecido simboliza que ele foi o sinal visível na terra daquele que hoje está vivo gloriosamente. E esse sinal terreno já não existe. 3 - As aparições Aí a apologética tradicional punha toda a força. Os discípulos viram a Jesus e Tomé tocou-lhe as chagas (Lc 24, 39; Jo 20, 27), Jesus comeu peixe grelhado diante dos discípulos (Lc 24,42), as mulheres abraçaram-lhe os pés (Mt 28,9), os apóstolos ouviram-lhe a voz que transmitiu ordens (Mt 28, 18, Mc 16, 15), ele partiu o pão diante dos discípulos de Emaús depois de conversar longamente com eles (Lc 24, 13-35), ele manda lançar as redes e faz milagres (Jo 21, 6). Essa abundância de sinais visíveis dá a impressão de que os discípulos viram Jesus de uma maneira absolutamente reconhecível pelos sentidos. Uma leitura arguta dos mesmos textos descobre sinais opostos. Madalena pensa que ele é jardineiro (Jo 20, 15), a primeira impressão da aparição é de medo e de ver um espírito (Lc 24, 37), os discípulos andam com ele sem reconhecê-lo (24,16) e mais impressionante é a cena final. Jesus aparece aos onze, com os quais supostamente tivera quarenta dias de convívio, numa montanha na Galileia, aonde lhes mandara ir e dá-lhes as últimas ordens. E o evangelho acrescenta essa minúscula pericope: “mas alguns tiveram dúvidas” (Mt 28, 17). Essa observação deixa-nos absolutamente perplexos. Como é possível que alguns daqueles que viram tantas vezes Jesus, na hipótese de que as aparições foram visões sensíveis e de que o reconheceram de maneira iniludível, ainda duvidaram? Logo tudo nos leva a crer que estamos diante de um outro tipo de linguagem que a comum das descrições. Percebemos que nos evangelhos se deu um processo crescente de concretização e materialização das aparições. Constata-se desde a expressão simplíssima de que Jesus se deixou ver, apareceu, talvez mais exatamente, em linguagem de hoje, foi experimentado, até as descrições grotescas dos apócrifos passando pelas formas bem concretas de Lucas e João. Por trás se percebe um interesse apologético. Os evangelistas não traçaram descrições das aparições, mas por meio desse instrumento didático nos passaram a certeza absoluta de que tinham de Jesus estar vivo e de que o experimentaram vivo. Essa comunicação é o centro da revelação cristã. Paulo o disse de maneira contundente: “e se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e vazia também é a vossa fé” (1 Cor 15,14). E continua de maneira dramática: “acontece mesmo que nós somos falsas testemunhas de Deus, pois prestamos um testemunho contra Deus afirmando que ele ressuscitou o Cristo quando não o ressuscitou” (1 Cor 15, 15). 4 - O significado das aparições para as testemunhas do novo testamento e para nós hoje Para as pessoas da comunidade primitiva, elas foram a linguagem de que dispunham para transmitir a experiência que fizeram. Certamente eles experimentaram uma realidade. Algo aconteceu com esses testemunhas da comunidade primitiva que só é compreensível pela fé. Essa realidade se torna inacessível aos instrumentos historiográficos. O que os testemunhas viveram só se tornou explicável para eles mesmos e isso nos quiseram comunicar, se de fato Jesus ressuscitou. Sem a ressurreição de Jesus, a vida que se teceu na comunidade primitiva, a missão apostólica, os ritos que celebravam, a prática que viviam não passariam de um contrassenso total. Sem ressurreição, “seríamos os mais miseráveis de todos os homens” (1 Cor 15, 19). Pedro quando descreve a ressurreição de Jesus usa a linguagem apocalíptica de que dispunha na tradição judaica. O justo sofredor é exaltado por Deus. Esse esquema ele reconheceu realizado em Jesus. Ele, imensamente justo, foi entregue à morte. Deus não o abandonou, mas o ressuscitou. Ressoam aí tons apocalípticos do Antigo Testamento, como os de Elias e Enoque arrebatados ao céu, ou como os da elevação, glorificação e entronização do Messias. João, repetidas vezes, usa tal linguagem para falar da caminhada de Jesus. Embora essa linguagem seja mais antiga e não fale diretamente de ressurreição, no fundo, refere-se à mesma realidade. Que significa ser glorificado, exaltado, entronizado na glória por Deus senão ser ressuscitado por ele? Mais tarde se usa o modelo da ressurreição, também disponível no contexto cultural da época, para exprimir a mesma realidade. A ressurreição de Jesus antecipa a ressurreição final. Ele inaugura o tempo final, “os últimos dias”, ressuscitando todo, corpo e alma. O judeu não consegue imaginar outro tipo de ressurreição, já que não separa corpo e alma. Nesse clima escatológico, as aparições cumpriam a função de mostrar a identidade pessoal do Jesus palestino e do Cristo ressuscitado. A cena de ver e tocar as chagas carrega-se de enorme sentido simbólico. O homem das chagas é o Jesus crucificado, que aparece, mas numa nova condição. Uma bela série de imagens do Novo Testamento revela-nos a relevância da ressurreição de Jesus para a fé do cristão e da Igreja. Com a imagem da colheita, Paulo diz que Jesus “ressuscitou dos mortos, primícias dos que morreram” (1 Cor 15, 20). A tipologia de Adão oferece outra via para interpretar a ressurreição. Pelo primeiro Adão entrou a morte, pelo segundo veio a ressurreição. “Todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida” (1Cor 15, 21). A metáfora da família, tão querida e significativa para os judeus, oferece a afirmação de que “ele é o começo, o primogênito dentre os mortos” (Cl 1, 18; Apc 1, 5). O primogênito abre o seio materno e adquire privilégios. Jesus abriu o seio da morte e estendeu a toda humanidade o privilégio de ressuscitado, propiciando-nos a mesma vida eterna. Nos Atos (3, 15; 5, 31) e na epístola aos hebreus (2, 10), Cristo ressuscitado aparece sob a figura de um “chefe de fila”, condutor de um grupo, causa primeira, príncipe de uma multidão de ressuscitados que somos nós. Bela imagem. O cortejo dos glorificados com o Senhor Jesus à frente. Em outra passagem, as metáforas da âncora, do vestíbulo, e do véu do Templo nos transmitem a segurança e precedência de Jesus que penetra para além do véu e aí nos antecede (Hb 6, 19-20). A ressurreição de Jesus tornou-se o lugar central da esperança cristã, conferindo-nos a certeza de nosso futuro, porque o Senhor Jesus já o inaugurou definitivamente. Ele é a fragata ligeira a conduzir os navios atrás de si e lançou a âncora na eternidade de Deus pela sua ressurreição.
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