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Parte II Texto XII Ressuscitado para nossa salvação
(Rm. 4,25) Síntese do capítulo sob este título do livro de Andrés T. Queiruga – Recuperar a salvação: por uma interpretação libertadora da experiência cristã - São Paulo: Paulus, 1994. Texto complementado com citações de outros capítulos do mesmo livro. Os Evangelhos de Mateus e Lucas começam pela infância de Jesus. Os Evangelhos de Marcos (o primeiro) e o de João (o último) pelo início de sua pregação. Na realidade os quatro são escritos do final, a partir da ressurreição; são a vida do ressuscitado. A ressurreição iluminou e deu novo sentido à vida, aos gestos e às palavras de Jesus de Nazaré. Se Jesus de Nazaré não tivesse ressuscitado teria sido reduzido a ser uma das tantas personagens – trágicas ou sublimes, grandes ou miseráveis – que se estilhaçam, com toda boa vontade, contra o muro frio da história. Porém, não: Jesus ressuscitou, e tudo se fez único e diferente nele. As narrativas evangélicas não se interessam pela ressurreição como se fosse um fenômeno “objetivo”, interessante pelo que tem de insólito e extraordinário. A ressurreição interessa porque é para nós, como disse Paulo (Rm. 4,25): “ressuscitado para a nossa salvação”. Entenda-se salvação como realização plena do ser humano. A salvação é total e o horizonte do ser humano aparece libertado de todos os limites e tropeços, pois até mesmo o insuperável “último inimigo, a morte” foi vencido para sempre (1 Cor. 15,26). 1 - Como podemos conceber o Ressuscitado em relação ao próprio Cristo? Por estar além da nossa capacidade de compreensão – fora de nosso marco espaciotemporal de referência – chamamos a ressurreição de mistério. O que não nos dispensa de tentar entendê-la. Nada mais equivocado – embora frequente – do que conceber a ressurreição como “reanimação de um cadáver”: um morto que retorna à vida. Paulo recorre a uma denominação paradoxal: Cristo ressuscitado é um “corpo espiritual” (1 Cor. 15,44). Corpo, para indicar que continua o de sempre, um de nós, Jesus de Nazaré. (Na antropologia bíblica, ou seja, no entendimento de Paulo, corpo não é oposto de alma, mas a totalidade do ser humano). Espiritual, por que o corpo de Jesus está totalmente transpassado pela divindade, é pura transparência espiritual, liberdade absoluta, presença ilimitada. Paulo, em suas cartas, insiste em nos fazer sentir que Cristo não é mais algo a nossa frente, fora de nós mesmos, mas sim alguém que penetra em cada um de nós, fundindo a todos nós em comunidade: somos “em Cristo“, segundo a fórmula constantemente repetida. Cristo ressuscitado é individualidade viva, original, libertada de todo limite, que tudo penetra e com tudo pode identificar-se. É um tu irrepetível, a quem se pode falar e amar; mas é também um tu que vem ao nosso encontro em qualquer outro tu, em qualquer outra realidade. É presença plena, intimidade que integra, multiplica e potencializa quando se dá a alguém, cria abertura e comunhão com os outros, com todos. As narrativas evangélicas, com seu jeito mais simbólico e imaginativo, já haviam dito a mesma coisa: o Ressuscitado “aparece”, “deixa-se ver”, “deixa-se tocar”, “causa estranheza”, não está sujeito a tempo e espaço. 2 - Como podemos conceber o Ressuscitado com relação a seu significado para nós? Na ressurreição realizam-se, afinal, as mais concretas e ambiciosas aspirações do ser humano, desde a sonhada perfeição dos mitos primogênitos, até os mais elaborados projetos da filosofia social. Cristo como “utopia realizada” é síntese e recapitulação de tudo, a comunhão sem entraves nem fronteiras, o amor universalmente realizável, a vida que, uma vez por todas, vence a morte… Por isso é utopia: de um lado concretização da mais alta perfeição pressentida; do outro, não se situa em nenhum lugar, nem no tempo. Ele é o “Espírito vivificante” (1 Cor.15,45), isto é, comunhão plena, “carne esquecida de si mesma”, segundo a magnífica expressão de Santo Irineu; generosidade total, fonte de vida e de graça, entrega transbordante (Rm.5, 9,10,15, 17: “muito mais”). Ele é o homem novo, ou “homem genérico” – de que fala J.I González Faus – em que a realização própria deixa de ser privada, possessiva, individualista, para se fazer social, partilhada, universal. Ele é o “homem essencial” não corrompido por nenhuma das tremendas alienações da existência, mas plenamente reconciliado consigo mesmo, com os seres humanos, com o mundo e com Deus. Ele é, na expressão de Paulo, o “segundo Adão”, o primeiro novo homem, plenamente identificado com Deus. O que Deus quer de verdade para o ser humano: sua salvação, sua realização plena, sua felicidade total. Como disse Karl Barth “Cristo ressuscitado é futuro para si mesmo”. Isto significa que, em sua realidade mais plena, Cristo é, contudo, espera constitutiva e essencial: espera de que em todos nós se realize o que nele teve lugar. A salvação é – afinal – a ruptura do limite, a “infinitização” da criatura, o fim da tristeza mais frontal e terrível: aquela da finitude. De forma concisa, Paulo expressa a “divinização” do ser humano: “Deus tudo em todos” (1 Cor.15,28). Então não oferecerá mais dúvida o que hoje constitui nosso véu e nosso tormento: se Deus criou o ser humano, foi única e exclusivamente para isto: para transformá-lo com sua glória, para cumulá-lo com sua felicidade, para submergi-lo no mar sem fundo de seu gozo e de seu amor.
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