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Parte II Texto X Ressurreição: realizou-se uma utopia humana Síntese do capítulo sob este título do livro de Leonardo Boff: Jesus Cristo Libertador: ensaio de cristologia crítica para nosso tempo – Petrópolis, Vozes, 2012. Texto complementado com algumas citações do mesmo autor extraídas de Cristianismo: o mínimo do mínimo – Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. A ressurreição não é um fato histórico qualquer susceptível de ser captado pelo historiador. É um fato só cabível na fé. Ninguém viu a ressurreição. O Evangelho apócrifo de São Pedro (surgido por volta de 150 d.C.), que numa linguagem fantástica narra como Cristo ressuscitou, foi rejeitado pela Igreja. Há dois dados determinantes nos relatos acerca da ressurreição de Jesus: o sepulcro vazio e as aparições aos discípulos. Segundo os melhores estudos de exegetas católicos e protestantes circulavam entre os primeiros cristãos, autonomamente e sem referência mútua, os dois relatos. Mais tarde, quando os Evangelhos foram compostos, juntaram-se os dois relatos. Marcos, o mais antigo dos Evangelhos, redigido pelos anos 60, fala do sepulcro vazio e da ressurreição, sem mencionar visões e aparições. Os relatos de visões e aparições constantes hoje do Evangelho de Marcos são vistos pela crítica como um acréscimo posterior, feito no século II, resumindo o que está nos outros evangelhos. O fato do sepulcro vazio não é para nenhum evangelista prova da ressurreição. Ele é um sinal ambíguo, sujeito a várias interpretações, uma das quais poderia ser a ressurreição. A fé de que o Senhor ressuscitou – é aqui que reside a razão do sepulcro vazio – é expressa na linguagem da época, colocando a explicação na boca de um anjo: “O Nazareno ressuscitou. Não está aqui. Olhai o lugar onde o depositaram” (Mc 16, 6). O que realmente levantou a ambiguidade do sepulcro vazio e deu origem a exclamação de fé dos apóstolos – “Ele ressuscitou verdadeiramente!” – foram as aparições. Elas não são visões subjetivas, produtos de fé da comunidade primitiva, mas realmente aparições transsubjetivas, testemunho de um impacto que lhes impôs de fora. Nisto concordam todos os exegetas hoje, protestantes e católicos, mesmo os mais radicais. Os apóstolos foram surpreendidos e dominados por tal impacto que estava fora de suas possibilidades de explicação. Sem isto, jamais teriam pregado o Crucificado como sendo o Senhor. Estudos sérios dos exegetas nos permitem afirmar que as aparições na Galileia (narradas por Marcos e Mateus) são historicamente seguras. As de Jerusalém seriam as mesmas da Galileia, porém transferidas, por motivos teológicos, para Jerusalém. A morte, a Páscoa e Pentecostes se deram aí, o que é explorado teologicamente por Lucas e João. Quanto ao modo destas aparições são descritas como uma presença real e carnal de Jesus. A Páscoa de Cristo, na interpretação mais antiga, testemunhada em At.2,5; em Lc. 24,26; e em Fil.2,6-11, não foi concebida ainda em termos de ressurreição, mas de elevação e glorificação do justo e sofredor. Não se falava ainda em ressurreição. Somente mais tarde, por razões apologéticas, face aos cristãos vindos da cultura helenista, começa-se a falar em “ressurreição”. A expressão ressurreição vem com um sentido novo, não simplesmente como reanimação de um cadáver. Textos mais recentes, como Lucas e João, demostram uma materialização cada vez maior, culminando nos Evangelhos apócrifos de Pedro aos hebreus e na Epístola Apostolorum. Os relatos de vivências do Ressuscitado por pessoas particulares, como Maria Madalena (em Mateus e João), os discípulos de Emaús (em Lucas) são cercados de motivos teológicos e apologéticos, dentro do esquema literário das legendas, para deixar bem claro aos leitores a realidade do Senhor vivo e presente na comunidade. A ressurreição trouxe uma reviravolta total nos apóstolos. Ganharam um horizonte novo e novos olhos com os quais podiam ler de forma absolutamente nova a realidade humana do passado, do presente e do futuro. Pela ressurreição, Deus reabilitou Jesus diante dos homens: “A pedra rejeitada pelos homens foi feita pedra angular!”. A ressurreição é esperança e certeza de vida eterna para todos e para o mundo. A comunidade palestinense aos poucos foi interpretando a morte de Cristo como a forma extrema de serviço à humanidade. Esta interpretação foi possível porque nos ambientes do judaísmo tardio e helenístico circulava a ideia de que a morte de mártires e até de crianças inocentes poderiam assumir caráter representativo e redentivo em favor dos pecadores. Um passo adiante se deu quando se interpretou a morte de Jesus como expiação sacrifical pelos pecados do mundo. Outra explicação da morte de Cristo é articulada por Paulo: a cruz significa o fim da lei. Todas estas interpretações da Igreja primitiva são tentativas, utilizando o material representativo e seu modo próprio de ver a realidade, de dar sentido à morte de Cristo. A interpretação da morte de Cristo como sacrifício é uma entre tantas. Os próprios textos do Novo Testamento não permitem que ela seja absolutizada, como foi na história da fé, dentro da Igreja latina. A ressurreição significa a escatologização da realidade humana, a introdução do homem corpo-alma no Reino de Deus, a realização total das capacidades que Deus colocou dentro da existência humana. A esperança humana se realizou em Jesus ressuscitado e já está se realizando em cada homem. O homem-corpo transforma-se de carnal em espiritual (isto é, repleto de Deus). À pergunta: “que será do homem?”, a fé cristã responde com toda alegria: ressurreição com total transfiguração da realidade humana espírito-corporal. Paulo insiste: “É preciso que este corpo (homem) corruptível se revista de incorrupção e que este ser mortal (homem-corpo) se revista de imortalidade (1 Cor. 15, 53). Como a morte é passagem para a eternidade, onde não há tempo, nada repugna admitir que já se realiza a escatologia final com a ressurreição dos mortos. A parusia final revelaria o que já se verificou no fim do mundo pessoal. Origenes (de Alexandria, ou Origens de Cesareia - 185-253 d.C.), talvez o maior teólogo do cristianismo, expressou com exatidão o sentido da ressurreição de Cristo como antecipação da nossa: ela é a realização do Reino de Deus na pessoa de Jesus. A ressurreição ainda está em curso, ela se mostra nos bens do Reino e da ressurreição como no amor, na solidariedade, na dignidade, da defesa dos vulneráveis e no cuidado da casa comum, a terra.
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