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Parte I Texto XVI Torturado, morto e sepultado Os súditos do Império Romano estavam sujeitos a três penas consideradas as mais terríveis e vergonhosas, pelo enorme sofrimento: ser condenado às feras, ser queimado vivo e a pior, a crucificação, pelas torturas que a acompanhavam e pela lenta e dolorosa agonia. Cícero qualifica-a como “o suplício mais cruel e terrível". O historiador Flávio Josefo (37 a 100 d.C.), conterrâneo e quase contemporâneo de Jesus, considerava a crucificação “a morte mais miserável de todas". Os cidadãos romanos não podiam ser punidos com esta pena a não ser quando necessárias para manter a disciplina militar. Pragmáticos, os romanos conseguiram estabelecer um “modus vivendi" com Israel que garantia poder à elite local, liberdade de culto, mas pesados impostos e rígido controle da ordem pública. A elite local, pelos acordos estabelecidos com o Império, era avalista da ordem. Cabia a ela cuidar das disputas e conflitos cotidianos. Se a insatisfação irrompesse em distúrbio e revolta, os romanos intervinham com toda força e crueldade. Chegavam a montar toda uma logística para preparação e transporte do madeiro necessário à crucificação, onde ela se fizesse necessária. Paus verticais (stipes) preparados para receber a travessa horizontal (patibulum) -no caso de crucificação- eram fixados à entrada das cidades para deixar bem claro que os romanos mandavam ali e podiam crucificar qualquer súdito que ousasse perturbar a “pax romana”. Flávio Josefo conta que Varo, Governador da Síria, mandou crucifixar cerca de 1.000 judeus nas imediações de Jerusalém. Jesus tinha cerca de 10 anos quando isso aconteceu. Qualquer judeu da época sabia o que significava ser crucificado. O jovem Jesus de Nazaré, tão esperançoso no “reinado de Deus", que ele vira nascer e crescer, principalmente entre os mais necessitados, por mais preparado que estivesse, deve ter ouvido a sentença aterrorizado: “Irás para a cruz" (Ibis ad crucem). Ele sabia o que o esperava. Este era um castigo corriqueiro que os romanos aplicavam amplamente à população local sob seu domínio. O cidadão romano, julgado, tinha direito à defesa e não podia ser crucificado. Proferida a sentença, começava imediatamente sua execução, pela entrega do condenado à sandice dos soldados romanos. Estes eram recrutados entre os samaritanos, sírios e nabateus que não gostavam dos judeus. Era costume divertir-se à custa dos condenados, humilhando-os à vista de todos. O ritual de execução da sentença começava, normalmente, com a flagelação, um ato público conduzido pelos soldados no pátio do palácio. A flagelação cumpria a função de enfraquecer o condenado, anular sua resistência ao ser levado pelas ruas e apressar sua morte na cruz. Jesus é completamente desnudado. amarrado a uma coluna e flagelado com um chicote curto, com bolas de metal e ossos de carneiro na ponta. Terminada a flagelação, Jesus, como os demais condenados à mesma pena, quase sem forças, com o corpo todo machucado, mal consegue se manter em pé. A flagelação era tão cruel que não raro o condenado morria ali mesmo. Não há tempo para descanso, uma vez que pelo menos três condenados teriam que ser crucificados antes do por do sol. Um pequeno pelotão de 4 soldados romanos conduzem os condenados do Palácio do Prefeito para o Gólgota (lugar do crânio, ou Calvário), a uma distância de cerca de 500 metros. Os condenados conduzem nas costas o “patibulum”, ou travessa horizontal, onde serão pregados. Plauto (254 a.C.?- 184 a.C.), dramaturgo romano, descreve a seguinte cena: “Eles te conduzirão pelas ruas, o patíbulo na nuca, aguilhoando-te”. Cada um levava, dependurada no pescoço, uma pequena tábua, onde, de acordo com o costume romano, era escrita a causa de sua condenação. Na tábua de Jesus estava escrito, em latim, hebraico e grego: “rei dos judeus”. Uma ironia, um escárnio e uma intimidação dirigida aos judeus de Jerusalém e aos peregrinos, muitos dos quais falavam grego. Narram os três primeiros Evangelhos que no caminho do Gólgota um passante foi requisitado para ajudar Jesus, com a finalidade exclusiva de garantir a execução da sentença. O lugar reservado às crucificações, onde já se encontravam bem fixados, vários paus verticais, prontos para receber a travessa horizontal, era uma antiga pedreira de cerca de 12 metros da altura. Jesus, como os demais condenados, ao chegar ao local, foi completamente desnudado, para degradar ainda mais sua dignidade e pregado pelos pulsos à travessa. Esta foi, então, elevada e fixada ao pau vertical cuja altura era pouco mais de 2 metros, de forma que os pés do crucificado, cravados um sobre o outro na haste, ficassem menos de 50 cm do chão. Não havia suporte para os pés, apenas um gancho de madeira no meio da trave pra sustentar o corpo e prolongar o suplício. (A arte cristã, ao longo dos séculos, muitas vezes, disfarçou o horror e crueldade da cena). Esta proximidade do solo facilitava o trabalho dos soldados executantes da sentença e o pasto dos cães selvagens, quando os condenados estivessem mortos. Embora um caminho muito frequentado passasse perto do Gólgota, os observadores não podiam se aproximar dos condenados. As vestes dos condenados, como era costume, foram repartidas entre os 4 soldados, como despojos, deixando claro que aqueles já não pertenciam ao mundo dos vivos. Jesus foi pregado na cruz entre as nove da manhã e as doze horas. Os crucificados morriam de asfixia, na impossibilidade crescente de respirar, o que poderia demorar horas. Pagola descreve a cena: ”O corpo vai se deformando, cresce a angústia de sua asfixia progressiva. Pouco a pouco vai ficando sem sangue e sem forças. Os olhos quase não enxergam mais nada. Do exterior só lhe chegam algumas zombarias e os gritos de desespero e raiva dos que agonizam ao lado dele. Logo lhe sobrevirão as convulsões. Depois, o estertor final” (op. cit. p. 475). Para apressar a morte os romanos costumavam quebrar as pernas dos condenados, o que os asfixiava ainda mais. Parece que isto não foi necessário, no caso de Jesus. Cada evangelista conta, a seu modo e conforme sua fonte, os últimos momentos de Jesus e suas últimas palavras. Como os familiares e amigos não podiam se aproximar dos condenados, não há registros históricos confiáveis dos fatos. Contudo os historiadores registram um fato que chama a atenção pelo inesperado: Jesus, pouco antes de morrer, dá um grito e as palavras então articuladas, em aramaico, seriam uma citação do Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes”. O inesperado de um “grito de desespero e horror, de quem quase não tem mais fôlego, lhe dá mais credibilidade histórica”. Algo que ninguém esquece. São as únicas palavras mencionadas por dois evangelistas (Marcos e Mateus). Jesus, morrendo, teria sentido o limite da solidão, o horror do abandono dos amigos e de Deus e o vazio de seu anúncio do reinado de Deus. Segundo os evangelistas, Jesus teria entregue seu espírito a Deus, confidente, mas sem entender os desígnios de seu Pai. Jesus morreu, segundo os especialistas, provavelmente no dia 07 de abril do ano 30, com cerca de 34 a 36 anos. (Alguns estudos publicados sobre a causa fisiológica da morte de Jesus são hipóteses médicas interessantes, que pecam por se basear em detalhes evangélicos de valor teológico, mas não histórico.) Os romanos, geralmente, deixavam os cadáveres sem sepultura e sob guarda, expondo os corpos aos abutres e “alimento dos corvos”, como descreve Petrônio (27 - 66 d.C.), o que repugnava aos judeus. Os Evangelistas contam que um membro do Sinédrio obteve de Pilatos a autorização para retirar o corpo de Jesus e enterrá-lo rapidamente, sem as exéquias habituais, mesmo porque as comemorações da Páscoa já se aproximavam.
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