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Parte I Texto XIV Uma quinzena decisiva Não se dispõe de uma cronologia da vida e pregação de Jesus. Os evangelistas não tinham nosso sentido de história, muito menos preocupação em estabelecer uma sequência cronológica dos acontecimentos. Uma série de eventos narrados que ocupam quase um quarto dos três primeiros Evangelhos e metade do Evangelho de João, provavelmente ocorreram na última quinzena da vida de Jesus. Jesus resolve subir a Jerusalém por ocasião da Páscoa, como já fizera algumas vezes, mas agora as circunstâncias são outras. Há algum tempo que ele não peregrinava sozinho pelas aldeias da Galileia e às vezes da Judeia. Ele era acompanhado de discípulos, homens e mulheres. Pobres todos, maltrapilhos certamente vários. Comiam do que tinham ou ganhavam e se hospedavam onde lhes era oferecida pousada. Não havia unanimidade entre os discípulos mais próximos sobre a conveniência deles irem a Jerusalém naquele momento. Alguns achavam que Jesus deveria ir – ele que já era tão admirado como um profeta na Galileia – e se manifestar diante da cidade santa e dos milhares de peregrinos que para lá estavam se deslocando. Vamos nos lembrar que Jerusalém que tinha uma população fixa de cerca de 30 mil habitantes (não há unanimidade entre os especialistas, que falam de 25 a 50 mil) – por essa ocasião, acolhia cerca de 120 mil peregrinos. Barracas em profusão eram armadas ou improvisadas nos arredores e nas cidades vizinhas de Jerusalém. O profeta da Galileia, que ganhara fama ali, poderia ter uma entrada triunfal em Jerusalém. Outros discípulos ponderavam que sua ida não seria prudente. Herodes, tetrarca da Galileia, estaria lá. Pilatos também, com toda a guarda romana, reforçada por ocasião das grandes festas. Era de conhecimento público que Herodes já pensara em prender Jesus e só não o fizera com medo da reação popular contra ele e contra Roma. Ele se tornara mais impopular com a morte de João Batista, o último e promissor profeta, surgido em Israel depois de 400 anos de ausência de Profetas. Jesus resolve ir e não se esquivar ou fugir do povo. Vai direto para Jerusalém e é recebido em clima de festa por aqueles que o conheciam e admiravam e por outros que já tinham ouvido falar de suas curas, de sua atenção aos pobres e da convivência fraternal com seus discípulos. Tudo isto era inédito e atraía a curiosidade popular. Depois de sua entrada - melhor dita antitriunfal - contada pelos Evangelhos quase como uma paródia da entrada triunfal da autoridade romana, que se dirigia a Jerusalém com os melhores uniformes, armaduras, cavalos e acompanhantes. Jesus entra montado num jumentinho. A simplicidade e alegria popular confrontavam com a solenidade, empáfia e orgulho do poder. A autoridade romana, que tudo vigiava, não teria deixado de registrar aquela afronta, motivo suficiente para prender o nazareno. Indo ao templo – lugar sagrado por excelência de Israel – Jesus depara-se, no pátio dos gentios, com a bagunça de um mercado onde conviviam cambistas, vendedores, estes hierarquizados pelo valor do animal a ser vendido para os sacrifícios: ovelhas, cabritos e pombos. Dá para imaginar a balbúrdia deste marcado onde cada um, aos berros, quer vender, ou cambiar seu produto. Como a procura dos produtos aumenta, os preços sobem e os mais pobres são os mais sacrificados. O sangue ferve nas veias de Jesus e o zelo pela casa de seu Pai suplanta a prudência. Ele arma um “barraco”, mais ou menos de acordo com cada Evangelista: vira as mesas, espalha as moedas – moedas de toda parte do mundo que eram trocadas pela shekel, a única moeda aceita no Templo, a mais forte e estável. Considerando-se as enormes dimensões do pátio dos gentios, onde se dá a “expulsão dos vendilhões do templo”, a perturbação da ordem foi circunscrita e bastante limitada. Não quebrou a banca, mas trouxe nervosismo suficiente a uma das mais célebres bolsas de valores da época. Segundo alguns estudiosos, este acontecimento foi a gota d’água que determinou a decisão das autoridades de eliminar Jesus: se sua fama de líder popular era uma ameaça à ordem, a perturbação da ordem no Templo comprometia a autoridade da elite judaica, como avalista da ordem junto aos representantes do Império Romano. (Para outros pesquisadores este incidente teria sido mais amplo, planejado e executado com a participação de outros, no início da vida pública de Jesus. Um incidente que o marcou frente à casta sacerdotal saduceia). De acordo com a narrativa do primeiro evangelista, Marcos, na terça-feira ocorreram três embates entre Jesus e autoridades religiosas, assistidas por muitas pessoas, que o apoiaram. Depois deste “incidente”, Jesus se recolheu em Betânia, na casa de seus amigos diletos, os irmãos Lázaro, Maria e Marta, onde ele costumava se hospedar quando ia a Jerusalém, distante 3 km. Vendo o apoio popular de Jesus, na quarta-feira, há dois dias da Páscoa, as autoridades religiosas começam a tramar uma forma de prender Jesus. Jesus intui ou pressente, como observador arguto dos fatos e da natureza humana, que ele poderá ser preso e que tudo pode acontecer, inclusive a crucificação, se entregue às autoridades romanas. Ele planeja, então, uma refeição de despedida com seus discípulos. Obtém, antecipadamente, o empréstimo de um local grande suficiente para receber muitas pessoas, provavelmente homens e mulheres. Não seria de sua índole e costume excluí-las. O que costumamos chamar de última ceia, foi um encontro de amigos, festivo, alegre, como tantos outros proporcionados por Jesus. Não foi, dizem os especialistas, uma ceia pascal. Os rituais da páscoa judaica não combinam com as narrações dos Evangelhos. À partir de certo momento a alegria dá lugar à melancolia: Jesus anuncia sua morte, fala como quem se despede e anuncia que um dos presentes irá traí-lo. Seu maior recado foi seu gesto de lavar os pés dos discípulos, mostrando que autoridade para ele e seus discípulos é, e tem que ser, serviço. Duas recomendações se destacam: A primeira é uma síntese de sua boa nova: amai-vos como eu vos amei. Jesus não mandava, convidava. Os Evangelhos só registram um único imperativo: “Isto eu vos mando, que vos ameis uns aos outros”. Pelo amor mútuo se darão a conhecer como discípulos. A segunda é um gesto / recomendação, rico em si mesmo, de símbolo. Ele reparte pão e vinho, alimentos comuns, associando-os à sua morte, `a sua presença permanente. Aos olhos de todos a refeição vai se tornando enigmática, ou melhor paradigmática, fora do comum. Tão rica de simbolismo que ela se transformará, no Cristianismo, em cerimônia religiosa, cuja formalidade provoca estranheza hoje. O calor do encontro de discípulos/amigos, expressão de amor capaz de dar a vida pelos outros, o convite a compartilhar pão e vinho, a garantia de sua presença sempre que assim se reunirem – todo este conjunto deu lugar, ao longo da história do cristianismo, a uma cerimônia religiosa, rica de simbolismo, mas opaca para os jovens do mundo contemporâneo… mas esta é outra história sobre a qual voltaremos a falar. Na mesma noite, quarta-feira, ou na noite seguinte, Jesus, acompanhado de alguns discípulos, recolhe-se ao Monte das Oliveiras para rezar. O que ali se passou é uma cena pungente da humanidade de Jesus. Ele geme e chora sob o peso do prenúncio do que lhe vai acontecer: traição, prisão, humilhação, abandono, descrença, torturas, crucifixão e morte. Sua natureza de ser mortal reage visceralmente contra o sofrimento. Apenas dois anos e pouco anunciando o Reino de Deus, convivendo com alegria com os mais pobres, que se enchem de esperança e compreendem quem é o Pai e ele, Jesus, vê a morte pela frente. O que será deste povo que ele resgatou para a vida? Que será de seus discípulos; estarão preparados para dar continuidade ao que ele tomou como sua missão? “Pai, afasta de mim este cálice”. Sofre intensamente como qualquer mortal: ele não quer perder a vida, a vida que ele tanto valorizou e queria em abundância para todos. Vence a misteriosa vontade do Pai à qual ele obedece com amor filial. Numa das interrupções de sua agonia orante, encontra os discípulos dormindo. Solidão sobre solidão. Volta a orar e recobra forças para o que der e vier… Na mesma noite, há dois dias da Páscoa judaica ele é preso e traído com um beijo de um amigo e discípulo. Um fracasso seu? Mistérios da liberdade humana...
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