Quem Somos
Prólogo
Referências
Vídeos
Fale Conosco
Veja Também:
Parte I Texto XIII Mensageiro da compaixão e da esperança A raiz da palavra compaixão em hebraico tem um sentido de “entranhas”. Remete ao que sente a mulher pelo filho no ventre e sugere “dar a vida”, “alimentar”, “cuidar”. Esta parece ter sido a palavra que melhor expressava a fé de Jesus: Deus é o Pai que tem paixão pelos seus filhos e a quer compartilhada: compaixão. Impregnado de compaixão, certo de que o Pai só quer a felicidade de seus filhos, Jesus sai a anunciar, se faz mensageiro. Um comentário de um dos seus ouvintes registrou a impressão deixada pelo mensageiro: “Ele fala como quem tem autoridade”. Jesus não falava como os escribas, nem como os sacerdotes. Conhecia bem as Escrituras, mas não argumentava a partir delas. Com alma de poeta, convida seus ouvintes a um novo olhar sobre a realidade cotidiana, onde a vida e o amor se fazem presentes. Suas parábolas – das quais 40 chegaram até nós pelos Evangelhos – são peculiares e inusitadas. Não há qualquer registro de uso de parábolas na linguagem rabínica, na época de Jesus, nem a catequese, nas primeiras comunidades cristãs, foi capaz de criar novas parábolas. Sua fala a partir dos fatos cotidianos confere-lhe um contexto, como diríamos hoje, profano, laical, dessacralizado. Ou tudo se faz sagrado? Como as palavras convencem, mas é o exemplo que arrasta, Jesus de Nazaré arrasta muitos, (multidões como dizem os Evangelhos, às vezes com certo exagero) com o exemplo de sua compaixão esperançosa. Esperança é outra palavra chave. Ele sabe que o muito que ele pode fazer é pouco, mas quer mostrar que é possível, que se pode construir o reinado de Deus, um reinado sem rei. Seu modo de mostrar a compaixão de Deus é encarnar esta compaixão, é aliviar o sofrimento daqueles que encontra pelo caminho e aqueles que ele busca nas aldeias: cura, expulsa os demônios, ressuscita quem está dormindo, aproveitando o talento de cura que o Pai lhe deu. Fazer-se amigo dos marginalizados, deixar-se tocar e tocar os impuros, sentar-se à mesa com pecadores, acolher “publicanos e prostitutas “provoca escândalo em muitos “piedosos”. Também estes têm que perceber que o Pai quer “compaixão e não sacrifícios”. O amor de Deus nada tem de discriminatório, condicional ou sufocante. Nem é cobrador; não exige arrependimento ou sacrifício. Se alguém retribuir, melhor ainda; aí se tem compaixão. Sua amizade manifestada na convivência grupal, no repartir o pão de cada dia com os marginalizados, liberta-os da vergonha e da humilhação. Faz todos, qualquer um, sentir-se gente, filho de Deus. Alguém com tal capacidade de acolher, de atrair, de cativar, que acreditava estar vendo a chegada do reino de Deus, só poderia ser feliz e alegre. Sua alegria, certamente, contagiava. Seu senso de humor – refletido em pormenores de suas parábolas – sugere que cantos e boas gargalhadas no grupo de seus seguidores tenham despertado a curiosidade de quem se avizinhava. Jesus viveu num tempo em que a expectativa popular de uma intervenção de Deus era iminente: um tempo escatológico. Um novo tempo estava para chegar. “Em breve o mundo seria radicalmente transformado pelo poder libertador e salvífico de Deus rei” (Barbaglio). Para muitos Deus enviaria alguém para libertar Israel e sujeitar a seus pés os inimigos do povo eleito. Jesus parece ter compartilhado da expectativa escatológica de seu tempo. Só que para ele não era “o fim do mundo” ou fim de um mundo de opressão, sendo substituído por nova forma de opressão. Seu Pai queria que ele anunciasse o advento de um novo mundo, mas a ser construído aqui e agora, ou germinado como uma “semente de mostarda: muito pequena, que cresce e dá lugar a uma árvore, onde os passarinhos vêm fazer seus ninhos. Esta era a missão dele: “Para isso vim, para fazer a vontade de meu Pai”. Esta era a esperança dele: ver o reinado de Deus - reino de vida, de felicidade, de perfeita alegria - expandir-se. Sua esperança era alimentada, dia a dia, em sua caminhada pelas aldeias. Sua acolhida era a acolhida do reinado de Deus. Sua mensagem da compaixão do Pai era um apelo à compaixão pelo próximo. Um converter-se não como introspecção e arrependimento, mas voltar-se de todo o coração para o próximo. Ele não era de muitas citações da Torá (a Lei), nem de recitações das orações, a não ser as de costume, mas ensinou uma nova oração, cuja versão, com sabor aramaico, é muito concreta e onde a tônica é a reciprocidade amorosa: “Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; dá-nos hoje o pão de cada dia; perdoa-nos a nossas dívidas, como nós perdoamos aos nossos devedores e não nos submetas à prova”. Na percepção de Jesus, o amor do Pai pelos seus filhos é incondicional, pessoal e universal. Compaixão para ele não é bem misericórdia, que parece sugerir uma relação de cima para baixo. Não é simples boa vontade, é sentimento exigente, que pede ação; voltar-se para o irmão, sobretudo para os pequeninos, ou, como diríamos hoje, para os invisíveis. Os indigentes, ontem como hoje, são condenados a viver na vergonha. São habitualmente invisíveis, vultos sem nome, que frequentam durante anos portas de Igrejas, sem que os fieis saibam sequer seus nomes. “Podemos dizer, sem medo de equivocar-nos que a grande revolução religiosa levada a cabo por Jesus é ter aberto outra via de acesso a Deus, diferente do sagrado, a ajuda ao irmão necessitado” (Pagola). Para Jesus o Pai estava construindo em sua terra, com seus conterrâneos, um novo reino, através de sua ação. Havia alegria, havia amizade, havia espontaneidade, liberdade, havia vida em abundância, uma nova qualidade de vida. Mas nem tudo eram rosas. Houve momentos também de decepção, de alguns e dele próprio. Ele chegou a dizer para os discípulos mais próximos: “vocês também não querem ir embora”? Sua esperança foi submetida à prova de forma radical quando ele pressentiu a prisão e a morte. Dois anos e pouco de anúncio de uma boa nova, de esperança espalhada entre muitos aldeões, um punhado de seguidores: o que restaria disto com sua morte? Um momento pungente de sua humanidade: o que restará – não de mim, isto é muito pouco – do que fiz e disse? Ele não tinha olhos para si, mas para a missão do Pai; o que restaria do reinado do Pai, apenas começado? Tristeza, dor no coração, mas confiança total na vontade do Pai: Ele sabe o que faz - “seja feita a Sua vontade”.
Parte I Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
Parte II Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
Parte III Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII
XXIX
XXX
XXXI
XXXII