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Parte I Texto XI Curas, exorcismos e milagres Uma série de circunstâncias tornava a situação do pobre especialmente crítica na Palestina do tempo de Jesus. Sob o domínio dos romanos uma elite local é cooptada e desfruta com eles poder e riqueza. Ambas transferem ao povo o ônus de manutenção e enriquecimento do império. Configura-se, então, uma estratificação socioeconômica composta de três camadas:
- um extrato rico e ponderoso, composto pelos membros da família real de Herodes, dos altos dignitários da corte, das famílias da aristocracia sacerdotal e leiga, dos latifundiários, dos grandes comerciantes e dos chefes dos cobradores de impostos. O Templo Sagrado, como santuário e destino de peregrinações e todo o comércio que girava em torno dele, era a principal fonte de riqueza da elite local, ou seja, dos dirigentes de Israel;
- o estrato médio era bastante reduzido e composto de pequenos comerciantes, do baixo clero e dos proprietários de oficinas artesanais e hospedarias;
- os pobres correspondiam à maioria absoluta da população: assalariados, operários e camponeses, pescadores, mendigos e escravos. Havia duas categorias de pobres: o pobre que vivia do trabalho duro, diário e incerto e o despossuído de tudo e que não tinha do que viver.
Durante os 20 primeiros anos de Jesus, a Galileia conheceu pela primeira vez o fenômeno da urbanização. Herodes Antipas fez construir duas grandes cidades a menos de 50 quilômetros uma da outra: Séforis e Tiberíades. Para viabilizá-las houve aumento dos impostos e monetarização da economia com fortes consequências sobre a economia popular: endividamento, perda das terras e consequente concentração de propriedades e renda, expansão da monocultura e desintegração das famílias. Os pobres tornaram-se, então, mais pobres, relegados à condição de diaristas, mendicantes e prostitutas. Se as situações destes era desesperadora, tornava-se pior nas ocasiões de seca e epidemia. É fato histórico inegável que Jesus de Nazaré se voltou especialmente para estes, sobretudo para os mendigos, os cegos e entrevados, camponeses e escravos fugindo dos credores e dos donos, viúvas, esposas estéreis e repudiadas e prostitutas. O povo da rua, diríamos hoje. A situação objetiva dessa camada social era desesperante. Pouco podiam esperar dos governantes e da sociedade em geral. Tampouco da religião como era ensinada e praticada: uma série de normas estigmatizava-os como impuros. Impureza difícil de se livrar, que contaminava os outros, tornando-os impuros ao menor contato físico. A riqueza era considerada uma bênção de Deus. A pobreza, consequentemente, a ausência da bênção de Deus, portanto, abandono, ou pior, um castigo por faltas pessoais ou de antepassados. Não é de se admirar que nesse ambiente onde não se podia ver luz no final do túnel, a ocorrência generalizada de três fortes sentimentos e comportamentos a se misturar: a doença, sob muitas e difusas formas, a revolta e a esperança escatológica. A esperança escatológica se traduzia na expectativa da vinda do Messias, ou de um novo grande profeta, já que havia quatro séculos que não aparecia nenhum na história de Israel. A revolta se traduzia em rancor contra os romanos e contra todos aqueles que colaboravam com eles, a exemplo dos coletores de impostos e principalmente de seus chefes, que eram os que se enriqueciam. Havia também aqueles que pegavam em armas contra os romanos, muitos dos quais, aos milhares, foram crucificados. A história registra que durante os primeiros anos de vida de Jesus, os soldados de Varo, Governador da Província Romana da Síria, crucificaram cerca de 1.000 judeus nas imediações de Jerusalém. O quadro de doenças entre os pobres, sobretudo entre os despossuídos de tudo (eram muitos, os galileus endividados) era extenso e complexo. São muitos os doentes porque são muitos os pobres. Se a saúde como a riqueza é uma bênção de Deus, a doença é um castigo e a cura a volta da bênção de Deus. Sabemos que a doença não é apenas um fato biológico ou, como se costuma dizer, não há doenças, há doentes. Cada um sofre a seu modo e ao modo de seu ambiente cultural. No contexto da Palestina do tempo de Jesus são considerados doentes: os coxos e cegos – os quais, pela tradição de Israel, não podiam entrar na casa de Deus – os paralíticos, os leprosos e os transtornados ou doentes, como descreve o Evangelista Mateus: endemoniados, lunáticos e paralíticos. Era considerado leproso todo portador de doença de pele extensa que tornava a pessoa repugnante. É interessante observar que “até o momento não se descobriu na antiga Palestina nenhum resto arqueológico pertencente a uma pessoa enferma de lepra” (Pagola). Jesus propõe como missão para si e para os discípulos “anunciar o reino de Deus e curar”. A cura para Jesus de Nazaré era uma forma de amar e, curando, ele anuncia o reinado de Deus se fazendo presente. Sua fama de curador se espalha e cria nas pessoas a convicção de que ele traz em si, independente de qualquer ritual, a força curadora. Basta tocar-lhe. Ele próprio parece sentir a presença desta força, quando, no meio da multidão, pergunta “quem me tocou”. Uma força que melhora, alivia, salva ou cura, sem nada cobrar, ou pré-estabelecer a não ser a fé, a confiança em Deus e em si. A cura para Jesus é a porta que se abre para mais vida, vida em abundância, para ver Deus como ele é, um Pai misericordioso. É sinal de um mundo novo. Esta é a conversão que ele pede ou sugere: a conversão à compaixão com relação a todos, como Deus é compassivo. É também fato histórico que Jesus foi um famoso exorcista, que, de acordo com a mentalidade da época, expulsava os demônios. Os exegetas de hoje entendem que a possessão abrangia: epilepsia, histeria, esquizofrenia, e estados alterados de consciência. Os portadores desses males eram considerados possuídos, invadidos por espíritos maus. Jesus parte dos sentimentos daqueles que se acham possuídos e os liberta do mal, com voz de quem tem autoridade, de quem pode e quer expulsar o mal. Há pesquisadores que “suspeitam que o próprio Jesus sofria uma dramática transformação durante sua atuação”, como exorcista, contra o poder de quem ou daquilo que rouba a vida, a liberdade e o convívio do possuído. Familiares seus chegam a pensar “que ele estava fora de si”. A pregação de João Batista estava centrada no perdão dos pecados; a de Jesus de Nazaré no aliviar o sofrimento dos mais desgraçados, em fazer presente o “reinado de Deus”. “Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando a boa notícia do reino e curando todo tipo de enfermidade e doenças entre o povo”. (Mt. 4;22).
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