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Parte III Texto IX As comunidades cristãs primitivas Época Subapostólica (67-97) - I Alguns fatos importantes influenciaram as comunidades cristãs primitivas no período da segunda geração de cristãos: 1 - A impossibilidade de não mais se poder contar com “aqueles que tinham estado com Jesus de Nazaré”; 2 - A necessidade de refazer o entendimento e os sentimentos com relação “à proximidade do fim do mundo” e “a vinda do Reino de Deus”; 3 - A adaptação da Boa Nova anunciada a um grupo homogêneo de camponeses pobres para grupos heterogêneos nas cidades; 4 - Patriarcalização e hierarquização; 5 - Perseguições e massacres; 6 - Guerra judaico-romana; 7 - Rompimento com o judaísmo; 8 - Publicação dos Evangelhos Sinópticos e de várias cartas “apostólicas”. 1 - A impossibilidade de não mais poder contar com “aqueles que tinham estado com Jesus de Nazaré”: Os cristãos desta geração são filhos de famílias que se converteram ou neoconvertidos, fruto do anúncio e da catequese (querigma) feitas por pessoas que não conheceram pessoalmente Jesus de Nazaré. Para se orientarem tinham que contar com as cartas deixadas por Paulo – que passaram a desempenhar função apostólica - e com o trabalho missionário de seus colaboradores entre os quais figuravam os nomes de 62 mulheres. Certamente muitos dos colaboradores de Paulo e de outros apóstolos eram mais novos do que eles e ainda estavam vivos nessa época. Sabemos que as cartas de Paulo, enquanto vivo, serviram de exortação a Igrejas diferentes daquelas para as quais tinham sido originariamente endereçadas. Chegaram a ser compiladas e reproduzidas pela comunidade de Éfeso. Depois da morte de Paulo, a difusão deve ter sido muito maior. Cada vez mais a difusão da Boa Nova dependia do exemplo, do modo de vida dos cristãos e da transmissão de pessoa a pessoa. 2 - A necessidade de refazer o entendimento e os sentimentos com relação “à proximidade do fim do mundo” e “a vinda do Reino de Deus”: Desde cedo os seguidores do Caminho, reuniam-se em pequenas comunidades, fazendo refeições compartilhadas por todos, como irmãos. Na convivência fraterna, na oração, na celebração e na assistência aos mais necessitados, vivenciavam a presença de Jesus Cristo. A parusia (a segunda vinda de Jesus Cristo, o fim deste mundo e a instauração do Reino de Deus) era esperada por eles em breve. Há muito afirmavam com convicção: O Senhor vem! Em aramaico: Maranata. A disposição dos fieis da comunidade de Jerusalém de vender suas propriedades e colocar o resultado a serviço de todos, como narra Lucas nos Atos dos Apóstolos, segundo alguns exegetas, reflete a expectativa da chegada imediata do Cristo e do fim do mundo. Como Ele não viera enquanto “aqueles que o conheceram” estavam vivos, os irmãos da segunda geração, confusos e, talvez até frustrados e decepcionados, procuravam entender melhor o significado de “eu estarei convosco”, “eu voltarei”, “eu enviarei o Espírito”. O tempo corria “sem sinal dos tempos” ou o massacre dos judeus, a destruição de Jerusalém e a perseguição dos cristãos em Roma seriam sinais do fim do mundo? A notícia da morte de Pedro e Paulo em Roma deve ter espalhado entre os cristãos como sinal apocalíptico. As duas cartas de Paulo aos Tessalonicenses mostra como a comunidade esperava vivamente a parusia do Senhor. (O próprio Paulo, o primeiro e maior teólogo, teve que refazer seu entendimento sobre a segunda vinda do Senhor. Ele havia escrito a respeito das “angústias presentes”, reconhecendo que “o tempo se fez curto “e “que passa a figura deste mundo” (1 Cor. 7,26-31). Ainda escrevia aos Romanos : “nossa salvação está mais próxima agora do que quando abraçamos a fé. A noite avançou e o dia se aproxima” (Rm. 13,11-12.). Para os primeiros cristãos, o Reino era um presente de Deus, e não trabalho da história. A história então, efetivamente, chegava ao fim, e os devotos do Senhor deveriam simplesmente render-se à fé no Chistós, cuja aparição era iminente... Não havia lugar, nesta visão do primeiro século, para a ideia de homens e mulheres como agentes históricos capazes de forjar seu próprio destino, ou pelo menos contribuir para tal (Eagleton, Op. cit. p. 25). “Paulo se enganou e Jesus, antes dele, da mesma forma como todos que anunciaram e anunciam esperanças, expectativas, proclamações ou profecias de consumação apocalíptica iminente ao longo da história humana- pelo menos até agora” (Crossan e Reed, Op. cit. p. 165). O tempo pertence a Deus e só a ele. 3 - A adaptação da Boa Nova anunciada a um grupo homogêneo de camponeses pobres para grupos heterogêneos nas cidades: Não era muito fácil entender como viver como irmãos, discípulos fiéis de Jesus Cristo, num mundo helenista – elitista, escravocrata e patriarcal – com valores diferentes, às vezes contrários à sua crença. Nas grandes cidades, como Antioquia da Síria, Éfeso e Corinto, a maior parte da população era de escravos e trabalhadores braçais. As comunidades cristãs provavelmente refletiam esta estratificação social, onde os pobres eram a maioria. Para as comunidades se reunirem era necessário dispor de casas maiores. Algumas dessas casas eram casas/ oficinas, como provavelmente era o caso da propriedade (própria ou alugada) de Priscila e Áquila em Corinto, Éfeso e Roma, ou as casas de Filólogo, de Júnia, de Nereu e sua irmã, de Filemon e Ápia, de Ninfa, de Lídia, etc. (Em Filipos havia uma comunidade só de mulheres com a qual Paulo se reúne, contrariando sua cultura). Eram nestas casas, igrejas domésticas, que se vivenciavam e celebravam a fé, a esperança e a caridade e acontecia a reconciliação. Todos compartilhando, em uma refeição, o que cada um havia trazido de casa, celebrando com alegria como Jesus de Nazaré havia feito com seus discípulos. Nada disso era natural, respaldado socialmente, uma vez que “a moral do mundo romano baseava-se em relações patronais, absolutamente normais”. “Nossa hipótese é que especialmente em Corinto e, talvez, só aí, a igualdade radical cristã horizontal conflitava com a hierarquia vertical da sociedade romana, considerada normal, assim como aceitamos hoje os processos democráticos e a propaganda comercial” (Crossan e Reed, Op. cit. p. 271). Apesar do escândalo de alguns, o modo de vida dos cristãos atraía outros, muitos outros. A grande adesão dos pobres, sem terras, sem tetos e sem cidadania acontecia exatamente porque havia uma nova prática nas comunidades, que contestava a estrutura social. A fé e o amor fraterno, concreto, palpável, rompiam barreiras culturais, de classe e de gênero. 4 - Patriarcalização e hierarquização: Segundo Carrez, por volta de 67 d.C. o número de judeus e prosélitos nos países do Novo Testamento era cerca de dois milhões e de cristãos um quinquagésimo do judaísmo, ou seja, quarenta mil” (Op. cit. p.326). Peter Oakes, estimando a proporção de romanos e gregos em Filipos calculou que na composição da igreja local havia 36% de romanos e 64% de gregos. Segundo Crossan, em nenhuma outra cidade em que Paulo tenha fundado igrejas houve tão grande número de romanos (Op. cit. p. 217). Paulo e seus colaboradores foram os grandes responsáveis pela rápida expansão territorial do evangelho. A estratégia de anúncio da Boa Nova e da fundação de pequenas comunidades cristãs foi traçada por Paulo e Barnabé com aval e apoio da comunidade de Antioquia da Síria. (O título de cidadão romano conferia a Paulo o direito de transitar livremente e com maior segurança em todo território sob domínio de Roma). Coordenando uma equipe de colaboradores, - itinerantes e locais, homens e mulheres, exercendo funções de episcopado, apostolado e diaconato (Fl. 1,1, Rm. 16,1-7) – Paulo empenhou-se nessa missão durante 12 anos, de 46 a 58 d.C. Deram prioridade à criação de pequenas comunidades em grandes cidades portuárias, onde havia colônias de judeus da diáspora. “Pairokia era a condição da maioria dos judeus da diáspora. Os paroikoi situavam-se social e juridicamente abaixo dos que eram cidadãos plenos, mas em geral mais bem considerados que os escravos e os libertos, em razão da importância concedida à sua condição de nascidos livres” (Arens, Op. cit. p.88). Em torno das sinagogas dos judeus gravitavam gentios simpatizantes do judaísmo (tementes a Deus, adoradores e prosélitos) naturalmente mais predispostos a receber a Boa Nova de Jesus Cristo. Nessas cidades havia, principalmente entre os mais pobres – escravos, libertos e demais trabalhadores braçais – gente de todas as províncias do Império Romano. Muitas comunidades cristãs foram criadas exatamente junto a esse segmento social. A multiplicidade, a pluralidade e a diversidade de comunidades, com pouca formação teórica, inexistência de uma estrutura unificada, trazia à nova religião a riqueza da diversidade e a ameaça de perda de unidade. Nos tempos de Paulo, segundo Richard, as comunidades não possuíam uma estrutura mais ampla, não existindo diferença entre clero e leigos, mas uma variedade orgânica de carismas como apóstolos(as), profetas, mestres, evangelistas, profetisas, etc. Os presbíteros ou epíscopos eram simplesmente animadores de comunidades; em todo o Novo Testamento eles nunca são chamados de “sacerdotes” (Op. cit. p.184). Provavelmente o movimento cristão em suas origens era tão plural e diversificado quanto o cristianismo hoje nos grandes centros urbanos do Brasil. Algo a se pensar e talvez valorizar mais! Assiste-se, na época subapostólica, um movimento de patriarcalização e hierarquização que se manifesta nos evangelhos e nas cartas escritas nesse período – algumas pseudopaulinas – e nos Atos dos Apóstolos. Nesses escritos, como veremos em outros capítulos, percebe-se a redução do papel da mulher na vida de Jesus de Nazaré e na história inicial dos discípulos. Inicia-se, igualmente, a organização das comunidades, definindo e hierarquizando as funções e os carismas. Primeiras comunidades cristãs Fonte: Milani, André Luiz et al Introdução ao Segundo Testamento: Eu vim para que todos tenham vida em plenitude, São Paulo: Paulus, 2007.
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