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Parte III Texto VII As comunidades cristãs primitivas Época Apostólica II - Jerusalém e Antioquia da Síria Um dos 27 livros do Novo Testamento (NT) é o Atos dos Apóstolos. Originariamente ele compunha com o terceiro Evangelho uma mesma obra. Desde o séc. II a tradição identifica seu autor com o médico Lucas, que acompanhou Paulo em algumas viagens de difusão da Boa Nova. O autor escreve “para excelentíssimo Teófilo”, destinatário que pode ser um mecenas ou um anônimo "amigo de Deus". A pretensão de Lucas de produzir uma “narração bem ordenada, fruto de um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio”, para o Teófilo verificar “a solidez dos ensinamentos que ele recebeu”, dá à obra um caráter teológico e catequético. O Evangelho de Lucas apresenta o Caminho de Jesus, que começa e acaba em Jerusalém. Os Atos dos Apóstolos apresentam o Caminho dos irmãos - “os apóstolos, algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus e os irmãos de Jesus” - de Jerusalém até Roma, centro do mundo na época. A segunda parte da obra, ao se separar da primeira, passou a se chamar Atos dos Apóstolos. O nome não é adequado no sentido de que o livro menciona os doze; dá algum destaque a Pedro, João e Tiago e fala mesmo de Pedro e Paulo. A grosso modo, pode-se dizer que a primeira parte dos Atos é dedicada à comunidade de Jerusalém, a segunda ao grupo dos Helenistas e a terceira a Paulo. Os Helenistas fazem a ligação das comunidades de Jerusalém e Antioquia. Há que se ter em conta que o obra de Lucas foi escrita em grego, provavelmente entre os anos 80 e 90 e destina-se primordialmente aos Helenistas, ou seja, aos judeus-cristãos de língua e cultura grega. Por essa época, a maioria dos cristãos já era de língua e cultura grega, judeus da diáspora, habitantes de cidades do Império Romano. O Templo e a cidade de Jerusalém haviam sido arrasados. Tanto o Evangelho quanto os Atos refletem uma teologia da Igreja judeu-helenista, elaborada segundo critérios das comunidades do autor. Sua perspectiva teológica é mostrar como Jerusalém é o ponto de partida do evangelho que é levado por Paulo “até os confins do mundo, com a força do Espírito” (At. 1, 8). A comunidade dos primeiros discípulos na cidade santa de Jerusalém, em torno dos Doze Apóstolos, representa o novo Israel, com as Doze Tribos; uma cena com forte conteúdo simbólico. Lucas quer mostrar que o cristianismo tem uma origem comum: a experiência do Espírito a partir de Jerusalém, cidade centro do povo de Deus, onde culminou a vida e o testemunho de Jesus e onde se inicia o testemunho de seus discípulos. Esta comunidade original é apresentada como exemplo de radical fraternidade, comunhão de corações e partilha de bens materiais e espirituais: “Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações... Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas repartiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E a cada dia o Senhor acrescentava à comunidade outras pessoas que iam aceitando a salvação” (At. 2.42-47). O ensinamento (“didachê”, em grego) abrangia duas vertentes: a lembrança dos atos e palavras de Jesus, e a releitura de toda a Bíblia na perspectiva de Jesus. Na comunidade de Jerusalém conviviam dois grupos: os judeus-hebreus, de língua aramaica e cultura tradicional hebraica; e os judeus-helenistas, de língua e cultura grega, originários da diáspora. Embora “a multidão dos fieis fosse um só coração e uma só alma”, surgiram problemas entre os dois grupos exatamente por um comportamento inaceitável: a discriminação das viúvas helenitas no repartir do pão. Então os Doze convocaram uma assembleia geral dos discípulos (At. 6,2) e escolheram Estêvão e outros seis helenistas para cuidar do assunto. Não demorou muito para eles assumirem outras funções: curas, anúncio da Palavra e batismo. Estêvão ao proclamar a Boa Nova se envolveu em discussão com alguns membros da sinagoga dos Libertos (dos judeus de língua grega). Acusado de heresia, Estêvão é preso pelos doutores da Lei e levado ao Sinédrio, onde, com muita coragem, ele expressa sua fé e a justifica com passagens das Escrituras. Acusado de heresia, como Jesus, Estêvão, “cheio de graça e poder entre o povo”, é levado para fora da cidade e apedrejado. Segundo Lucas, Saulo (nome judeu de Paulo) era um daqueles que testemunharam e aprovaram a morte de Estêvão. Nesta ocasião, em torno do ano 35, desencadeou-se uma grande perseguição contra os discípulos de Jesus, fazendo com que muitos abandonassem a cidade e fossem viver nas aldeias da Judeia e da Samaria. E “aqueles que se dispersaram iam de um lugar para outro, anunciando a Palavra”. Felipe, um dos sete Helenistas, dirigiu-se à Samaria, onde muitos foram batizados. Outros Helenistas dirigiram-se à Fenícia, Chipre, Damasco e Antioquia na Síria, onde pregavam a Palavra apenas aos judeus. A comunidade de Antioquia teria sido fundada no ano 38. Convertidos de Chipre e da cidade de Cirene foram para Antioquia e começaram a pregar aos gentios. “Foi grande o número dos que acreditaram e se converteram ao Senhor. A notícia chegou aos ouvidos da igreja de Jerusalém e esta enviou Barnabé para Antioquia” (At. 11, 19-25). Como “ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum, José Barnabé, levita, nascido em Chipre, vendeu seu campo e colocou o dinheiro aos pés dos Apóstolos” (At. 4,36). Depois, a pedido de sua comunidade, ele deixou Jerusalém e foi para Antioquia, onde se destacou como profeta e mestre. Em 39 ou 40, segundo Justin Taylor, discípulos de Barnabé se envolveram em um distúrbio que os romanos caracterizaram como atividades subversivas e as atribuíram aos messianistas, em latim “christiani” de onde teria vindo o nome cristãos, registrado em Atos dos Apóstolos (Op. cit. p.109). Para Stambaugh “os discípulos foram chamados ‘gente de Cristo’ pelos pagãos porque foi em Antioquia que eles, pela primeira vez, se afastaram do judaísmo como seita distinta” (Op. cit. p.137). Saulo, pouco depois da morte de Estêvão – primeiro mártir entre os seguidores do Caminho – quando se dirigia a Damasco para perseguir os membros da Igreja local, passa por uma experiência extática, impactante, que o faz consciente de que Jesus está presente, vivo, naqueles que ele perseguia. Alguns exegetas entendem que Saulo “caiu do cavalo”, como diríamos hoje, num sentido figurado. Saulo tinha 28 anos. Convertido, Saulo é catequisado e batizado por Ananias em Damasco, onde permanece por pouco tempo. Para ele “o batismo não somente assegura a vida nova do crente, mas realiza sua transformação em membro do corpo místico de Cristo. Tal concepção era inconcebível para o judaísmo tradicional” (Eliade op. cit. p.303). A seguir Saulo se retira para o “deserto arábico” – não sabemos para onde – certamente para pensar e refazer suas convicções religiosas/espirituais. Três anos depois, 38 d.C., ele regressa a Damasco de onde foi obrigado a fugir por perseguição dos hebreus. Dirige-se, então, a Jerusalém (distante 200 km), onde foi apresentado por Barnabé aos Apóstolos Pedro e Tiago, os dois únicos que ali estavam. Novamente ameaçado de morte pelos hebreus, seus “irmãos” o levaram para a cidade de Cesareia e daí o embarcaram para Tarso, sua cidade natal. (Até então, os convertidos denominavam-se a si mesmos: irmãos, santos, fieis, seguidores do Caminho ou discípulos do Senhor. Pelos outros, eram chamados galileus, ou nazareus; tidos como uma seita judaica). No ano 42 ou 43, Barnabé foi a Tarso buscar Saulo para trabalharem juntos em Antioquia, distante 460 km de Jerusalém, com 500 mil habitantes, então a terceira cidade do Império Romano, depois de Roma e Alexandria. Ela controlava as estradas que interligavam a Ásia Menor, o Eufrates e o Egito. Gozava de invejável provisão de água, planície fértil para a agricultura e oferecia a segurança de alguma distância do mar (14 milhas), ficando somente a um dia de viagem de um dos melhores portos do Mediterrâneo. A comunidade judia em Antioquia era tão antiga como a própria cidade. Segundo Flávio Josefo “considerável número de ‘gregos’ sentia atração pela sinagoga, pela discussão da Torah e pelo modo de vida dos judeus”. Por muito tempo ela tinha sido próspera, pacífica e aberta (Stambaugh, op.cit.p.134). “A diversidade étnica, a cultura, o poder, o comércio e a religião dessa cidade capacitaram os cristãos que nela viviam a contribuir singularmente para a evolução do cristianismo” (Stambaugh, Op. cit. P.137). “Saulo permanece um ano com Barnabé em Antioquia, onde organizam a primeira comunidade importante de origem pagã e ela se torna o ponto de onde a missão cristã se irradia para o mundo helenístico” (Eliade, Op. cit. p.302). O movimento cristão que, até então era visto pelos pagãos como uma mera variação do judaísmo, uma seita, torna-se um Caminho próprio, autônomo. Paulo, um intelectual culto e poliglota, traduz a Boa Nova, anunciada por Jesus, para os marginalizados do meio rural, para o mundo grego, urbano, das grandes cidades. Em sua primeira carta aos Tessalonicenses – o primeiro documento cristão preservado, escrito durante sua segunda viagem – recomenda o que vem praticando há tempos em cada cidade que chega: “Que seja para vocês uma questão de honra viver em paz, ocupando-se das suas próprias coisas e trabalhando com as próprias mãos, conforme recomendamos. Assim vocês levarão uma vida honrada aos olhos dos estranhos e não passarão mais necessidade de coisa alguma” (1 Ts. 4,11-12).
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