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Parte III Texto VI As comunidades cristãs primitivas Época Apóstólica I (30 - 49) Este texto é baseado principalmente no livro do biblista Ildo Bohn Gass- “Uma introdução à Bíblia – As comunidades cristãs da primeira geração”, Paulus – SP, 2005. São consideradas comunidades cristãs primitivas aquelas existentes no período que se estende da morte e ressurreição de Jesus até a redação do último escrito do Novo Testamento (Segunda Carta de Pedro), em torno do ano 130. Este período é dividido em três etapas: 1. Época apostólica – período que vai da morte e ressurreição de Jesus, no ano 30, até o ano 67. Corresponde ao período de vida daqueles que conheceram Jesus ou a ele aderiram logo no início do Caminho de seus seguidores; corresponde à primeira geração. A assembleia ou concílio de Jerusalém, no ano 49, constitui um marco na subdivisão do período. Dos vinte primeiros anos (30 a 49) não restou nenhum escrito bíblico; as informações, poucas, estão nos Atos dos Apóstolos ou são “garimpadas” em outros textos do Novo Testamento. De 49 a 67 é o tempo áureo da missão de Paulo e sua equipe de pastoral a partir de Antioquia da Síria e encontra-se bem documentada nos Atos dos Apóstolos e nas sete cartas autênticas de Paulo. 2. Época subapostólica, de 67- quando estoura a guerra dos judeus contra a ocupação romana - até por volta do ano 97. É o tempo da segunda geração de cristãos. 3. Época pós-apostólica, de 97 a 130, época da terceira geração de cristãos. O primeiro ciclo da difusão da Boa Nova nas primeiras décadas é o da Palestina, abrangendo as comunidades da Galileia, da Samaria e, principalmente, de Jerusalém, na Judeia. Estas primeiras comunidades, menos documentadas - exceto a comunidade de Jerusalém - estão na origem do Evangelho de João e por trás do Evangelho de Marcos. O segundo ciclo (de 49 – 67) é a época da abertura da Boa Nova de Jesus aos gentios, isto é, aqueles que não pertenciam à religião judaica. Hoje é ponto pacífico que cada um dos Evangelhos, embora levem o nome de uma pessoa – Marcos, Lucas, Mateus e João – é um produto coletivo que tem por origem e fim um conjunto de comunidades seguidoras de Jesus e portadoras das tradições orais refletidas nos respectivos Evangelhos. A partir desta premissa, há que se entender que os Atos dos Apóstolos não são a única fonte de informação sobre as primeiras comunidades dos seguidores de Jesus. Para alguns estudiosos, os Evangelhos de Marcos (ano 65) e de João, bem como suas três cartas (ano 95), nos proporcionam muitas informações sobre outras comunidades cristãs primitivas não vinculadas a Jerusalém. Uma leitura ao pé da letra dos Atos dos Apóstolos, como se eles fossem historiografia, nos leva a pensar que a primeira comunidade cristã nasceu em Jerusalém em torno dos apóstolos, de algumas mulheres, entre as quais Maria e dos irmãos de Jesus e daí teriam originado todas as outras. Como disse Gass: “Os autores de Atos tinham fortes razões para ‘esquecer’ as comunidades joaninas. A obra de Lucas já é um espelho do processo de patriarcalização e hierarquização das comunidades na época da segunda geração cristã nos anos 80. Por isso, não interessa aos autores dos Atos dos Apóstolos discorrerem sobre as comunidades que se organizaram fora de Jerusalém, de forma igualitária, em grande parte em torno das discípulas de Jesus... Não é exagero concluir que são elas e, de modo especial Maria Madalena, que organizaram as mais antigas comunidades de discípulas e discípulos de Jesus, na Galileia, na Samaria e no Sul da Síria”. (op. cit. p.42-43). Consta dos Atos dos Apóstolos uma única menção à evangelização na Galileia (At. 9, 31). A primeira geração de seguidoras e seguidores de Jesus de Nazaré é constituída por aqueles que o conheceram ou que aderiram a ele ainda nos primeiros anos do Caminho, cujos adeptos viriam a ser chamados cristãos, pela primeira vez, em Antioquia, por volta de 39-40. Embora tenha se difundido uma visão unitária e universal das primeiras igrejas, os estudos mais recentes tem mostrado a riqueza da diversidade dos primeiros grupos que tentaram por em prática a missão que Jesus lhes confiara. É mais provável que a rearticulação do movimento de Jesus tenha ocorrido na Galileia, conforme testemunham os autores dos evangelhos segundo Marcos e Mateus, bem como João, em seu acréscimo. Depois de um período de crise e desarticulação do movimento de Jesus por causa de sua morte violenta, aos poucos foram novamente se reorganizando, sob o protagonismo de mulheres, a partir da Galileia, sua terra de origem, pois Atos testemunham que os primeiros discípulos de Jesus todos eram galileus (At. 2,7). Passaram a se reunir nas casas para, a partir da memória do que Jesus realizara, continuar vivendo novas relações de partilha, de solidariedade. Seus olhos foram se abrindo. E foi crescendo o sentimento de que Jesus continuava vivo lá onde os grupos se reuniam em seu nome para viver seu projeto (Mt. 18,20). E, ao partilhar o pão, veio a certeza de sua presença (Lc. 24,28-32).Assim, já não era possível falar de morte para ele. Sua entrega na cruz era interpretada como a revelação suprema do que é a vida. A grande ênfase está na mesa do pão partilhado nas casas (At. 2,42-46), na refeição solidária chamada ágape, que precedia ou era envolta pelo ritual do pão e do vinho. Uma memória disso ficou nas palavras da eucaristia até hoje (Mc. 14,22-25). O centro do Cristianismo nascente foi a prática da mesa da partilha, aberta às pessoas pobres, doentes, impuras e estrangeiras e a quem se solidarizava e partilhava com esta gente. Fieis à prática de Jesus, as primeiras comunidades, além de frequentarem as sinagogas, nas vilas onde elas existiam, reuniam-se nas casas fazendo do cotidiano o espaço do sagrado e onde o papel das mulheres ganhava relevância. “Cada comunidade podia expressar sua fé de acordo com seu modo de vida. Especialmente as igrejas fora da Judeia não tiveram medo do diferente. Ao mesmo tempo, souberam encarnar a boa-nova de Jesus nas diversas culturas daquele tempo. Havia muita diversidade. A variedade era entendida como expressão do dom do Espírito através do batismo. Nesses vinte primeiros anos das jovens igrejas, ainda não havia a imposição de um modelo único de pensamento, de doutrina. Também havia visões diferentes sobre Jesus. Vivia-se a riqueza e as tensões da pluralidade”. “As primeiras comunidades dos discípulos e discípulas de Jesus foram fortemente influenciadas pela expectativa de sua volta gloriosa. Até mesmo Paulo, por algum tempo, pensou que iria presenciar a volta de Jesus, precedida por sinais bem reconhecíveis. Cada uma das comunidades teve seu tempo para reelaborar sua compreensão sobre a volta de Jesus. Algumas demoraram mais de duas gerações (2 Pd. 3,1-10) para compreender que a forma de Jesus continuar presente era aquela mesma que haviam experimentado com o forasteiro que acolhiam em casa, no pão que repartiam, na partilha da ceia do Senhor, na comunidade que se reunia, nos doentes e presos que visitavam, na força do Espírito. Assim compreenderam que Jesus estava no meio deles” (op. cit. p.25-26). Das inúmeras e variadas experiências cristãs primitivas pode-se destacar: as comunidades do Discípulo Amado (João), as de Marcos, as de Jerusalém e as dos helenistas. São pelo menos quatro grupos que participaram na formação das igrejas joaninas: galileus, batistas, samaritanos e gregos. - Os galileus: eram marginalizados pelos judeus da capital, que se consideravam puros. A partir da experiência da ressurreição, os galileus viram suas expectativas messiânicas realizadas em Jesus como o Mestre, o Messias, o Filho de Deus e o Rei de Israel. Por isso muitos galileus teriam aderido às comunidades lideradas por Marta e por Maria Madalena. - Os batistas: com a morte de João Batista muitos de seus discípulos passaram a seguir Jesus. Como os galileus eles tinham uma postura muito crítica em relação ao santuário e a tudo que ele representava. Também não tinham condições econômicas de observar regularmente os atos de culto e purificação exigidos pelo Templo de Jerusalém. - Os samaritanos: também eram fortemente excluídos pelo Judaísmo oficial do Templo. Mas as igrejas joaninas os acolheram; principalmente as mulheres da Samaria. Segundo o livro de Atos, a evangelização das aldeias da Samaria foi feita por Felipe, um dos sete helenistas escolhidos, em Jerusalém, para o serviço das refeições compartilhadas (At. 6,5; 8,4-25). Ele contou, naquele trabalho, com a colaboração de suas quatro filhas que eram profetisas. A adesão de samaritanos ao evangelho, com sua esperança messiânica própria, e, de modo especial com a liderança das mulheres, foi responsável pela compreensão de Jesus tão diferente das demais igrejas primitivas. Foram os samaritanos que deram um colorido tão especial ao quarto Evangelho. - Os gregos: não judeus que provavelmente já simpatizavam com o monoteísmo judaico, mas que não o aceitaram através do cumprimento da Lei. Eram bem acolhidos nas comunidades joaninas, sem passar pela circuncisão e pelas prescrições culturais sobre alimentos e outras coisas. As comunidades marcanas também organizaram sua missão nos moldes do movimento de Jesus. Em equipes missionárias, saíam pelas aldeias curando doentes e expulsando demônios, isto é, procurando libertar as pessoas das forças que eram contra o Reino de Deus (Mc. 6,7.13). Anunciavam a todos que se convertessem e cressem no evangelho. Como Jesus, eram missionárias itinerantes que viviam com simplicidade e desapego. “O Caminho, mais do que um movimento urbano, continuava sendo uma experiência majoritariamente rural” (op. cit. p.51). (Veja também o texto III, da Parte III – O evangelho antes dos Evangelhos)
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