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Parte III Texto V Como ler as fontes cristãs John Dominic Crossan – pesquisador irlandês radicado nos Estados Unidos, conhecido pelo rigor técnico-científico – conta que durante uma palestra em Nova York, em 1995, ele afirmou: “a história de Barrabás foi criada pelo evangelista Marcos”. No debate um ouvinte lhe perguntou a respeito da citada afirmação: “Por que não chama pelo que é: uma mentira?”. Na ocasião Crossan teria dado uma resposta defensiva, mas a pergunta ficou na cabeça dele até encontrar a chave da compreensão: “os amigos e inimigos de Jesus, bem como as palavras e os atos dele, foram atualizados pelos evangelistas para falar às novas situações e problemas, novas comunidades e crises. Foram adotados, foram adaptados, foram inventados, foram criados. Na década de 40, para o Evangelho da Cruz – narrativa da paixão e ressurreição preservada no Evangelho apócrifo de Pedro – os romanos eram completamente inocentes. Então, porque assim apareciam naquela ocasião”. Nenhum evangelho escrito após a guerra de 66-73/74 d.C. dispõe-se a deixar os romanos totalmente sem culpa, como fez o Evangelho da Cruz, no início da década de 40. Não importa o que Pilatos pense, ele fornece os soldados para a crucificação. Marcos culpa toda a “multidão” de Jerusalém. Mateus culpa todo o povo e João culpa “os judeus”. No tempo de João, nos anos 90, esses inimigos são os judeus, excetos “nós, os poucos justos”. Conclui Crossan: “os Evangelhos não são história exata, biografia exata, jornalismo exato. Se entendêssemos os Evangelhos, entenderíamos e esperaríamos isso” (op. cit. p. 558-559). Para Crossan o texto tem que ser entendido no seu contexto e este “é construído a partir da antropologia intercultural, por intermédio da história judaico-romana até a arqueologia romana primitiva na terra judaica” (op. cit. p. 572). É assim que lemos os Evangelhos? Duas leituras de uma mesma narrativa do Evangelho de Marcos: “Quando estava ficando tarde, os discípulos chegaram perto de Jesus e disseram: Este lugar é deserto e já é tarde. Despede o povo, para que possa ir aos campos e povoados vizinhos comprar alguma coisa para comer. Mas Jesus respondeu: Vocês é que têm de lhes dar de comer. Os discípulos perguntaram: Devemos gastar meio ano de salário e comprar pão para dar-lhes de comer? Jesus perguntou: Quantos pães vocês têm? Vão ver. Eles foram e responderam: cinco pães e dois peixes. Então Jesus mandou que todos se sentassem na grama verde, formando grupos. E todos se sentaram, formando grupos de cem e cinquenta pessoas. Depois Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando aos discípulos, para que distribuíssem. Dividiu entre todos também os dois peixes. Todos comeram, ficaram satisfeitos, e recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e também dos peixes. O número dos que comeram os pães era de cinco mil homens” (Mc. 6,35-44). Numa leitura ao pé da letra, textual, o que diz o texto? Exatamente o que está escrito: cinco mil homens (havia mulheres e crianças?) foram alimentados por 5 pães e 2 peixes: um dos milagres de Jesus; extraordinário, irretorquível. Uma outra leitura possível, feita por teólogos e exegetas, respeitados na Academia: Jesus fez repartir o que cada um trouxe, fez os discípulos darem o exemplo. Repartindo o que cada um tinha trazido, todos comeram e ainda sobrou. Era muita gente. O texto talvez contenha alguns exageros: cinco mil homens, mais as mulheres e crianças, teríamos aí quantos? Sobraram dozes cestos de pedaços de pão e peixe? Para a segunda leitura os números pouco ou nada dizem; o doze é claramente simbólico, lembrando as doze tribos de Israel. A mensagem é outra; é aquela que as primeiras comunidades praticavam periodicamente: refeições coletivas, fraternas, compartilhadas por todos, recordando o quer fizera Jesus de Nazaré. Tudo mais simples, sutil e nada espetacular. O verdadeiro milagre operado por Jesus é ter feito todos repartirem o que cada um tinha, de modo a ninguém ficar com fome. Uma mensagem muito atual. Prevaleceu por muito tempo uma leitura que presumia que os fatos descritos no Novo testamento estavam narrados como de fato aconteceram. O que está escrito é real, é verdadeiro, é inquestionável. Tal leitura, ao pé da letra, textual, é inaceitável, indefensável e reforça uma visão mitológica, pré-científica. O que interessa, ontem e hoje, é o que as palavras querem significar para o leitor ou para a comunidade, lembrando sempre que os textos das fontes cristãs – o Novo Testamento – são textos religiosos, teológicos, catequéticos e às vezes apologéticos. “Esta atitude de ver o que o texto significa para a atualidade desvirtuou-se e levou a uma dogmatização da leitura. Teólogos começaram a procurar nas palavras, tiradas fora de seu contexto, argumentos para condenar os adversários. Ao mesmo tempo, a crescente inclinação jurídica do pensamento cristão fazia com que a ética bíblica fosse interpretada no quadro de um legalismo semelhante àquele que Jesus de Nazaré combatera ao preço de sua vida” (Konings, op. cit. p. 180). A reação a esta leitura fundamentalista foi a adoção e aperfeiçoamento da investigação crítica, textual ou documental, histórica e literária. A crítica textual busca a reconstituição do texto ou documento no estado original do momento da publicação. A crítica histórica busca reconstituir, na medida do possível, os fatos, os ditos relatados conforme sua objetividade histórica. Procura-se saber o que aconteceu realmente em relação ao que os textos contam. A crítica literária objetiva descobrir o que o texto quis dizer para seus destinatários primeiros, levando em consideração as circunstâncias e modalidades da produção do texto, o estilo, etc. Mais recentemente, a pesquisa tem procurado acompanhar o processo de releitura e reinterpretação que se deu no próprio surgimento dos textos bíblicos até sua redação final. Pode-se assim acompanhar a gestação e o nascimento do texto (a tradição anterior, a forma literária e a redação) e perceber melhor o sentido assumido pelo autor. Este tipo de pesquisa permitiu descobrir que na Bíblia, muitos textos são “compostos” (obra de diversos autores), produzidos em diversas fases, até com pensamentos inteiramente opostos, etc. (Konings, op. cit. p.181-183). Sabe-se hoje que alguns textos não são dos supostos autores – como várias cartas de Paulo - que complementos piedosos ou apologéticos foram inseridos posteriormente, que há erros de tradução dos textos originais, etc. “Uma justa compreensão dos textos evangélicos, requer a utilização do método histórico-crítico, sem atribuir-lhe a exclusividade” (Pagola, op. cit. p. 584). Muitas vezes os textos bíblicos se leem num sentido que o autor não tinha consciente, mas que não deixa de ser legítimo, porque baseado na mesma compreensão da vida que o texto, em sua profundidade, carrega consigo. Pois, ler é entender-se com o texto acerca da vida. Apliquemos isso à leitura política de determinados textos: Jesus não foi um ativista político, mas sua luta religiosa por libertar o homem para a justiça e o amor fraterno pode ser lida, por nós hoje, em pauta política, por que hoje não se pode encarnar o amor aos oprimidos e excluídos sem articulação política. A hermenêutica amplia, por assim dizer, o sentido original do texto, remetendo a seu significado hoje, com o cuidado de permanecer na mesma lógica, no rastro que o texto abriu. E cuidar disso é tarefa da exegese, que procura identificar o sentido do texto, em seu contexto histórico. Quando se fala de leitura popular da Bíblia, pensa-se antes no sentido hermenêutico, mais acessível a partir da vida do povo, de que no sentido exegético, que exige certa “erudição” (p. 146). “A mútua iluminação da vida à luz da Bíblia e da Bíblia à luz da vida é o que inspira a antiga tradição da leitura meditativa da Bíblia, feita individualmente, em comunidade, ou na liturgia. Essa prática tem suas raízes nas primeiras comunidades cristãs, e seus precedentes, na sinagoga judaica. Os primeiros seguidores de Jesus viram na escuta dos apóstolos e no acolhimento de seus escritos o meio genuíno de se encontrar com Jesus Cristo” (Konings, op. cit. p. 210). Orígenes (185-253 d.C.) escreveu a um de seus discípulos: “que os ato de ler seja feito com acurada aplicação e especial atenção (leitura): que a intenção da leitura seja a fé em Deus e o discernimento de sua vontade (meditação); que para ler e acolher é necessário, absolutamente, orar (oração) e que todo este caminho seja feito na plena confiança em Deus (contemplação). Esta tradição vem sendo revigorada na América Latina sob a denominação de leitura orante em comunidade, que, a partir da consciência da realidade atual, busca estabelecer analogias com as primeiras comunidades cristãs e com os textos bíblicos. Vendo nestas realidades a face de Deus que se revela e apela hoje para a solidariedade e justiça, ora-se e compromete-se com a construção do Reino de Deus. Conclui-se este capítulo, basicamente calcado na obra citada de Konings, com seu feliz comentário: “No sentido utilitarista do termo, a Bíblia não serve para nada. Ela é como um amigo: instrumentalizado, perde a graça. A utilidade não é critério. No caso da Bíblia, exatamente como no caso do amigo, a graça consiste em descobrir a riqueza de sua personalidade, com suas contradições, com as marcas de sua história, suas aspirações e utopias – qual reflexo de Deus no rosto não só de uma, mas de inúmeras pessoas, durante os dois mil anos de tradição que a Bíblia representa. Quem tem experiência de verdadeira amizade ou amor sabe quanto tempo leva a penetrar no espírito de um amigo, e mais ainda o viver no seu espírito. Assim também a Bíblia. Um termo popular exprime muito bem o jeito certo de abordar a Bíblia: é preciso curti-la! Ou, melhor talvez, deixar-se curtir por ela. Deixar sua vida de molho na Bíblia, para que ela penetre, até o cerne, o nosso modo de ser e de agir, como indivíduos e como comunidade” (p. 221).
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