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Parte III Texto XXX O cristianismo no século IV II – O surgimento e desenvolvimento do monaquismo e as grandes mentes teológicas do Oriente: o debate teológico “No século IV, o cristianismo é essencialmente uma religião de cidades e povoados [ lembrando que a população urbana não passava de 15% da população total). Em torno do bispo, movimenta-se um numeroso clero; e, em torno dos padres e diáconos, formigam os clérigos menores, que canalizam as marés de fieis para as basílicas. As pequenas comunidades primitivas se haviam ampliado em favor da “massa. Essa massa, escreve Duchesne, “era cristã como podia sê-lo uma massa superficial e formal; a água do batismo a tinha tocado, mas o espírito do Evangelho não havia penetrado nela “ (Pierrard, op. cit. p. 46). Não mais se exigia os três anos de catecumenato. As homilias dominicais nas grandes basílicas, recém construídas, teria que suprir a falta de conhecimento das Escrituras e da doutrina. A resposta a esses problemas virá de grandes oradores populares, de formação clássica e forte embasamento teológico; as grandes mentes do Oriente e do Ocidente. A questão do “ethos cristão”, ou seja de um comportamento exemplar, era mais complicada. Do exemplo de cima não se poderia esperar muito. “Em torno do Imperador – que frequentemente era um cristão medíocre – fervilhava um bando de funcionários, cortesãos e cortesãs, cuja religião acomodava-se aos costumes decadentes. Ademais certos meios letrados e aristocráticos – notadamente as famílias senatoriais – permaneceram por muito tempo hostis ao cristianismo, que era considerado uma religião bárbara, igualitária, sem poesia. Filósofos, retores, gramáticos e sofistas, ainda por muito tempo tornariam dura a vida do cristianismo: a escola filosófica de Atenas – centro pensante do paganismo – só fecharia suas portas em 529” (Pierrard, op.cit.p.46). A resposta ao comportamento relaxado, pouco evangélico, veio do povo, dos leigos, dos anacoretas e do monaquismo. 3) surgimento e desenvolvimento do fenômeno do monaquismo: O monaquismo surgiu na metade do século III e desenvolveu-se ainda mais no século IV. O primeiro participante de vida monástica, que se tem notícia, é Hieracas de Leontópolis (+ 340) – primeiro exegeta copta e tradutor para o grego – que deu início a uma comunidade monástica em sua própria cidade. Os anacoretas, radicados inicialmente na área do Baixo Nilo, levaram o ideal ascético para a vida solitária. O mais célebre eremita foi Antônio (+356); o testemunho mais próximo dele é dado por sete cartas suas (335-345) cuja autenticidade é hoje quase unanimente aceita. Sua fama se espalhou graças à biografia Vida de Antônio – conhecido como Santo Antão -, escrita por Atanásio, patriarca de Alexandria, onde ele fala, em 357, que “o deserto tornou-se uma cidade. Ao narrar uma história edificante, este e outros livros similares, pretendiam propor figuras a serem imitadas. No momento em que Antônio começava a vida solitária, Pacônio (242-348) dava início aos primeiros estabelecimentos cenobíticos (comunitários) no Alto Nilo. Ele fundou sete mosteiros masculinos, cada um com centenas de monges e dois femininos. Sua irmã Maria fundou vários outros. “O monaquismo desenvolveu-se ainda mais no século IV, depois do período de perseguições, e configura-se como “uma voz de protesto contra a difusão da mundanidade, promovida pelo Estado em união com a Igreja “. Basta lembrar os bispos da corte, tão facilmente deslumbrados pelo favor do Imperador…e as ondas de conversões, muitas vezes superficiais e interesseiras, tanto nas massas como nas elites “. A vida cristã solitária e em comunidade isolada teria origem também entre cristãos refugiados em muitos lugares, ao fugirem de perseguições; o que explicaria a difusão do fenômeno. Após a época constantiana, os exemplos do eremita Paulo de Tebas (228-330) e do anacoreta e monge santo Antônio Abade passaram a ser seguidos por milhares como forma de protesto contra uma Igreja hierárquica que perdia cada vez mais a simplicidade do Evangelho. “Retirar-se para o deserto é uma radicalização do ideal de ruptura e de despojamento: todos os laços são cortados para unificar a própria vida. A palavra monge vem do grego monachos, derivado de monos, sozinho. ” (Meunier, op.cit.p. 31). Quando Pacônio morreu, em 346, “já havia em torno de 5 mil monges que, em diversos mosteiros viviam segundo a sua regra “ (Alfred Schindler in Kaufmann, op.cit.p.170). “Paládio (368 – 431), que, na “Historia Lausíaca, apresenta o primeiro florescimento da vida monástica, ao contar histórias maravilhosas sobre monges no deserto, afirma que, por volta de 430, os cenóbios pacomianos eram nove e abrigavam 70 mil monges “. [ Não foi possível confirmar em outros autores este número surpreendente ]. Pelo menos no início, eles tiveram bastante autonomia em relação aos bispos. Um deles, Atanásio, já havia procurado limitar o andar a esmo dos monges, na tentativa de conter a proliferação das experiências incontroladas (Potestá, op. cit.p.65). Basílio Magno, natural de Cesareis da Capadócia desfez-se de suas riquezas, dando-as aos pobres e instalou-se em um lugar isolado e inóspido, onde, com seu amigo Gregório Nazianzeno, produziu “as duas regras monásticas, que teriam influência decisiva para a vida cenobítica em todo o Oriente e lhe dariam o título de legislador do monaquismo grego (Cavalcante, op.cit. p. 247 ) . [ “Ininterrupta até nossos dias, a corrente monástica – que o mundo ignora ou finge ignorar porque ela é silenciosa – não cessou de alimentar a fonte secreta de uma Igreja constantemente ameaçada pela seca, a corrupção, o jurisdicionismo, o farisaísmo “ (Pierrard, op. cit. p. 50) ]. 4) as grandes mentes teológicas do Oriente e do Ocidente: Da elite intelectual pagã e cristã surgiram os intelectuais cristãos que, de forma brilhante procuraram responder aos problemas da época. Em relação à esta elite cristã, escreve Pierrard, “É notável a semelhança de sua formação e de sua trajetória dentro da Igreja: estudos literários que fazem deles escritores de classe, promissora carreira profana interrompida pela “conversão”, período passado em fortificadora solidão, intensa atividade pessoal acompanhada de forte influência doutrinal “. (Op.cit.p. 47). Homens com muita consciência de estarem vivendo o fim de uma história e o início de outra. Dois grupos, entre eles se destacam pela contribuição ao: Debate teológico - que dividia a Igreja e, até certo ponto o Império, entre ariano e nicenos. O Concílio de Niceia tomou o partido de Alexandre, patriarca de Alexandria, na disputa teológica com o presbítero de sua diocese, Ário (256-336), sem contudo apaziguar as duas correntes opostas e outra que defendia uma posição intermediária. De tal forma que, no século IV, o cristianismo se encontrava dividido em escala mundial, em dois partidos (nicenos X arianos), em torno de um problema teológico: Quem é Jesus? Quais as relações entre Jesus, o Espírito Santo e o Pai? Da discussão dessas questões teológicas, surge a doutrina trinitária dos tres grandes capadócios: Basílo Magno, bispo de Cesareia da Capadócia, seu irmão caçula Gregório, bispo de Nissa e o amigo deles Gregório, bispo de Nazianzo. Nissa e Nazianzo eram pequenas cidades da Capadócia (hoje importante região da Turquia). Eles explicaram com mais clareza a diferenciação das tres pessoas divinas e desenvolveram um sistema conceitual diferenciado para descrever o mistério da Trindade. Conseguiram assim fazer prevalecer, de fato, o Credo Niceniano que é repetido até hoje em todas as missas. Basílio Magno (330-379), Gregório e Macrina eram de família profundamente religiosa, cujas raízes se estendiam pelo menos até duas gerações. Seus avós maternos, Basílio e Macrina, tinham passado sete anos escondidos nos bosques durante a perseguição do Imperador Décio. Basílio estudou em Cesareia, Antioquia, Constantinopla e depois em Atenas. Lá conheceu Gregório Nazianzeno. Com 26 anos tornou-se professor de retórica. Convertido sob influência de sua irmã Macrina, encetou longa viagem à Síria, ao Egito, à Mesopotâmia e à Palestina para conhecer eminentes eremitas. Ao voltar, com 28 anos, doou sus bens aos pobres e instalou-se em Íbora, onde ele e seu amigo Gregório de Nazianzo fundaram uma comunidade para homens, semelhante à que sua irmã, Macrina, tinha fundado para mulheres, em Anessi. Nos seis anos que passaram em Íbora Basílio e Gregório escreveram uma antologia das obras de Orígenes e a Regra, sobre a vida conventual. Junto ao trabalho manual tem lugar o trabalho intelectual e a oração, o maior dever do monge. Aos 32 ou 34 anos ele é ordenado padre e aos 40 é escolhido bispo. “Talvez o que mais chame a atenção na espiritualidade de Basílio seja o caráter engajado e comprometido socialmente de seu ministério episcopal. Dedicou-se a erradicar a miséria de sua cidade, construindo diversas obras no setor mais carente: instituições de socorro aos marginalizados e estrangeiros; albergue e abrigo para pessoas idosas; hospital, com uma ala reservada às doenças contagiosas; igreja; e, mais tarde, alojamentos para empregados e operários. A obra transformou-se em uma verdadeira cidade operária “ (Hamman in Cavalcante, op.cit. p. 249 ). Esta obra passará a se chamar Basilíade. É de uma homilia de Basílio o texto a seguir: E tu que vais ocultando todos os seus bens nas obras de uma avareza insaciável, julguas não prejudicar ninguém, deixando na privação tanto infelizes? Quem é o avarento? Uma pessoa que não se contenta com o que é necessário. Quem é o ladrão? Uma pessoa que tira de alguém aquilo que lhe pertence. E, porventura não és um avarento? Não és um ladrão? Monopolizastes os bens cuja gestão te foi confiada. Aquele que despoja um homem de suas vestes receberá o nome de saqueador. E aquele que, podendo fazê-lo, não veste a nudez do mendigo merecerá acaso outro nome? Ao faminto pertence o pão que guardas. Ao homem nu, o manto que guardas até nos seus cofres. Ao que anda descalço, o calçado que apodrece em tua casa. Ao miserável, o dinheiro que guardas escondido. É assim que vives oprimindo tanta gente que poderias ajudar […] Basílio sabia ser altivo: um alto funcionário encarregado pelo Imperador de dobrar-lhe com promessas e ameaças, ao dizer-lhe: Ninguém se atreveu a me falar nestes termos, Basílio respondeu: “ Talvez isto seja porque nunca tropeçastes num verdadeiro bispo “. Gregório de Nissa (335? -395), irmão caçula de Basílio e de Macrina (Santa Macrina, a Jovem, neta da Santa Macrina Maior e de Basílio, o Velho, conhecido advogado de Cesareia da Capadócia). Casou-se com Teosebéia, “uma jovem muito bela, com quem parece ter sido muito feliz”... Quando ela morreu, ele se tornou eremita e foi ordenado padre. Indicado por seu irmão, Basílio, bispo de Cesareia, para ser bispo de Nissa, ele não mostrou aptidões para funções administrativas. Ele se distinguiu como teólogo especulativo, por sua vida mística e por suas obras místicas, que, até hoje, estão entre as obras clássicas da literatura contemplativa. No Concílio de Constantinopla, em 381, ele, juntamente com Basílio e Gregório ajudaram a esclarecer a doutrina nicena e fazê-la prevalecer de fato. Após o Concílio, “o Imperador Teodócio fez dele um de seus principais conselheiros em assuntos teológicos e Gregório se viu obrigado a viajar para diversas partes do Império, até mesmo Arábia e Babilônia (González 2, op.cit.p.135). Gregório de Nazianzo (330-390): era filho do Bispo de Nazianzo, que também se chamava Gregório, e de sua esposa Nona – pois naquela época não era proibido que os bispos fossem casados. Estudou retórica e filosofia em Cesareia, Alexandria e Atenas, onde tornou-se amigo de Basílio. Quando voltou, aos 30 anos, foi viver como monge na comunidade de Basílio. Ordenado padre, ele abriu mão de suas funções para voltar à vida de monge. Basílio fez dele bispo, a contra-gosto, de um lugarejo sem importância. Após a morte de Basílio, ele resolveu entrar na contenda entre arianos e nicenos, a que seu amigo tinha dedicado tantas energias. No ano de 379 ele cria uma comunidade ortodoxa (de fé nicena), em Constantinopla, cidade onde, naqueles dias, só havia igrejas arianas. Nesta ocasião ele pronunciou seus cinco discursos teológicos sobre a Trindade, que até hoje ainda são tidos por uma das melhores exposições da doutrina trinitária. Quando ele assistia a uma celebração na catedral de Santa Sofia, em companhia do novo Imperador Teodósio, “um raio de sol abriu passagem entre as nuvens e foi cair sobre Gregório. Imediatamente os presentes viram nisto um sinal do céu e começaram a gritar: Gregório bispo! Gregório bispo! E assim o desconhecido monge de Nazianzo tornou-se Patriarca de Constantinopla. Nesta função, ele presidiu, em 381, as primeiras sessões do Concílio de Constantinopla e logo a seguir renunciou ao cargo que nunca desejara. Voltou para sua terra natal e dedicou-se às tarefas pastorais e a compor hinos.
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