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Parte III Texto III O evangelho antes dos Evangelhos O evangelho, como anúncio da boa nova, o Reino de Deus, foi para Jesus de Nazaré sua missão, razão de ser e motivo de sua morte. Não poucos acompanharam Jesus em seu caminhar pelas aldeias da Galileia e da Palestina. Dos que o acompanharam, alguns, marginalizados pela sociedade, já não tinham raízes, outros se desenraizaram. A maior parte daqueles que aderiram ao que ouviram e viram permaneceram onde estavam: no seu modo de vida simples de aldeões pobres trabalhadores e piedosos. Tão rápida quanto a notícia da morte ignominiosa de Jesus, deve ter se espalhado a notícia de que ele estava vivo, que Deus o havia ressuscitado. Com a notícia de que Jesus não estava entre os mortos, se espalha o sentimento, a convicção e a fé de seu retorno iminente. “A primeira geração cristã viveu durante vários anos, talvez mesmo duas ou três décadas, na expectativa do retorno iminente de Jesus. São Paulo, ainda acreditando nesta vinda imediata, escreve aos Tessalonicenses, menos de 20 anos após a morte de Jesus de Nazaré: ‘Eis que declaramos a vocês, baseando-se na palavra do Senhor: nós, que ainda estaremos vivos por ocasião da vinda do Senhor’ (4; 15-18)” (Gibert, op. cit.p.128). Para Crossan, havia “uma dialética de itinerantes e chefes de família que remonta ao tempo de Jesus histórico. O Reino de Deus fazia-se presente não só nos itinerantes, mas na interação de itinerantes e chefes de família, em uma nova comunidade de cura e refeições de recursos materiais e espirituais compartilhados”. “Carismáticos errantes eram um fenômeno comum no cristianismo primitivo. Quanto ao número, as comunidades locais eram, com certeza, bem maiores” (Gert Theissen, in Crossan, op. cit. p. 393). “Havia dois tipos de pregadores itinerantes cristãos primitivos: os carismáticos itinerantes, surgidos na região da palestina e os organizadores comunitários como Paulo e Barnabé, que surgiram no movimento da missão para o território helenístico. Os dois tipos trabalhavam lado a lado, mas entraram em conflito em Corinto” (Theissen, in Crossan, op. cit. p. 463). As primeiras comunidades cristãs, já que Jesus não deixou nada por escrito – possivelmente, segundo Crossan, ele não sabia escrever – tinham que recorrer à memória individual e coletiva, que é tanto ou mais reconstrução criativa que recordação, das palavras e modo de vida de Jesus. “Relembrar seus ditos e imitar sua vida é o modo principal de continuidade de Jesus histórico para os que andavam com ele e continuaram o caminho depois dele” (Crossan, op. cit. p. 441). A tradição da vida, a tradição de como Jesus viveu predominava entre as aldeias e cidadezinhas da Galileia e da Síria. A tradição da morte é primordialmente associada a Jerusalém, cidade ligada desde cedo, até mesmo antes de Paulo, a outras cidades como Damasco e Antioquia. “A pregação cristã não se limitava ao querigma, isto é o primeiro anuncio da vida, morte e ressurreição de Jesus. Surgiram outras formas literárias, geralmente orais, em função de outras necessidades dos pregadores e de suas comunidades. Nos diversos escritos do Novo Testamento, encontramos traços dessas primeiras formas literárias da pregação cristã (…). A descoberta dessas formas primitivas de pregação subjacentes aos atuais escritos nos mostra a vida e a criatividade das primeiras comunidades cristãs, empenhadas em “cristalizar” a memória a respeito de Jesus de Nazaré, aquilo que as pessoas precisavam saber para se converter a Jesus e para viver em sua comunidade (…). Nas cartas de Paulo descobrimos que, além de uma tradição narrativa da vida de Jesus, existia também uma tradição das sentenças que ele proferiu (1 Cor.7; 10 etc.) ao modo de outros mestres judaicos” (Konings, op. cit. p.126-128). As sentenças consistem em aforismos, parábolas e diálogos sucintos. Encontramos ainda, nas cartas indícios de fórmulas de credo, associadas à catequese e hinos presentes nas refeições compartilhadas, expressão e fonte da convivência fraterna das comunidades primitivas. Pelo que sabemos até hoje, os primeiros escritos cristãos aparecem 15 a 20 anos depois da morte de Jesus. Quase simultaneamente surgem as cartas da Paulo – a carta aos Tessalonicenses, no ano 48, é o primeiro documento cristão preservado – e uma coleção escrita de palavras de Jesus (Quelle). Com o decorrer do tempo essas formas primitivas e dispersas de pregação não eram mais suficientes. Surgiu um modo mais completo de formular o anúncio: os Evangelhos escritos. “Eles não são na origem nem doutrina, nem filosofia, nem historiografia; são querigma – proclamação da trajetória de Jesus, profeta crucificado e ressuscitado, fonte de salvação” (Konings, op. cit. p.126). Os Evangelhos, como os querigmas anteriores, fazem releituras, atualizadas, dos fatos passados, iluminados pela luz da ressurreição e adaptados às necessidades presentes de cada tempo, o que, evidentemente, dificulta a reconstituição hoje dos fatos históricos, como os concebemos hoje. Os Evangelhos começaram a aparecer 35/40 anos após a morte de Jesus de Nazaré. A data relativamente tardia da redação dos Evangelhos, para Pierre Gibert, se explica pelo “estado de pensamento de toda a primeira geração da comunidade cristã: uma comunidade cujo futuro não era sobre a terra e que não teria, portanto, história a escrever em razão justamente da vinda iminente do Senhor” (op. cit. p.129). Outras razões explicariam este tardio aparecimento dos Evangelhos. Escritos são demandas de letrados e foi certamente necessária certa expansão de comunidades cristãs para criar uma massa significativa de letrados. Há que se considerar que a taxa de alfabetização do Império Romano não chegava a 10%. Possivelmente até muito menos, uma vez que a alfabetização na Palestina, no tempo de Jesus, conforme fontes judaicas, não passava de 3%. Nada a admirar se se considera os dados de analfabetismo colhidos por Men Bar-Ilan, de diversas sociedades da primeira metade do sec. XX: Turquia em 1927: 91,8%; Egito em 1927: 85,7%; África do Sul em 1921: 90,3%; Índia em 1921: 90,5% ; Afeganistão, Irã, Iraque, Arábia Saudita antes de 1950: acima de 90% (Crossan, op. cit. p.874). Os escritos dos anos 35/40 – fórmulas de credo, hinos litúrgicos e as sentenças- as cartas de 49 a 54 e os Evangelhos a partir de 65/70 – “não deviam constituir aos olhos das primeiras gerações cristãs novas Escrituras, nem mesmo complementos para as Escrituras. Até o início do séc. II d.C. as Escrituras continuaram para os cristãos as que haviam sido para Jesus de Nazaré e para os primeiros discípulos e que se chamariam mais tarde Antigo Testamento” (Gibert, op. cit. p. 134).
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