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Parte III Texto XXIX O cristianismo no século IV I - O fim das perseguições e o favorecimento estatal da religião cristã Para muitos historiadores, o século IV foi o mais importante para a história do cristianismo e de sua doutrina. Cavalcante (op.cit. p. 253) aponta quatro conjuntos de acontecimentos relevantes: 1) o fim das perseguições do império romano contra o cristianismo; 2) o favorecimento estatal da religião cristã a partir de Constantino e reconhecimento do cristianismo como religião oficial do Império Romano; 3) o surgimento e desenvolvimento do fenômeno do monaquismo; 4) o aparecimento das grandes mentes teológicas tanto no Oriente como no Ocidente cristãos. Sobre os dois primeiros itens completamos aqui os fatos sintetizados no capítulo anterior. 1) o fim das perseguições: No início do século IV, o cristianismo era um organismo complexo. Segundo Paul Veyne, arqueólogo e historiador, especialista em Roma antiga: ela era “uma religião, com uma crença, com uma espiritualidade, uma moral, uma metafísica, tudo sob uma autoridade eclesial. Uma igreja, uma máquina de conquista e enquadramento …que o mundo não conhecera nada semelhante “. O cristianismo chegou até aí, graças a um esforço coletivo , especial , que é descrito por Lerry Hurtado, professor da Universidade de Edimburgo, Escócia : “o cristianismo , desde o início tematizou o martírio fortemente , apresentando as mortes brutais de crentes como atos inspiradores de devoção religiosa . Os cristãos se desempenhavam para que os esforços coercitivos dos magistrados romanos passassem a promover a própria fé que eles buscavam destruir! Cristãos escreviam e vigorosamente disseminavam relatos sobre seus mártires, que formavam um importante gênero da antiga literatura cristã que circulava para promover uma fé corajosa através do exemplo daqueles que eram tratados como personagens célebres “ (op.cit. p. 791 ) . O imperador Galério morreu cinco dias depois de seu Edito de Tolerância (311), deixando o Império nas mãos de quatro governantes: Constantino, Licínio, Majêncio e Maximino Dazu. No ano seguinte, Constantino elimina Majêncio. Em 313, Constantino alia-se a Licínio e os dois estreitaram a aliança com o Edito de Milão. No mesmo ano, Licínio elimina Maximiano Dazu, que continuava a perseguir os cristãos. A liberdade de culto, a partir do Edito de Milão (313) passa a ser a norma oficial do Império Romano: …”está de acordo com a estrutura estatal e com a paz vigente, que asseguraremos a cada cidadão a liberdade de culto segundo sua consciência e eleição“. Durante as perseguições a união e a solidariedade entre cristãos e entre as igrejas, que já chamavam a atenção pela coragem e heroísmo, aumentaram e despertaram a admiração dos não-cristãos. Com o fim das perseguições e tendo o cristianismo se tornado religião lícita, ele se expandiu, conquistando adeptos em todas as classes sociais, sem exclusão de intelectuais, entre os quais o paganismo estava em crise. “ A época encoraja a ser cristão por oportunismo: se alguém quer fazer carreira de alto funcionário, por exemplo, vale mais sê-lo…Por este fato, a Igreja registra um grande número de novos pretendentes! Muitos são sinceros, outros não. As instituições catequéticas estão completamente cheias, o procedimento menos exigente …Caminhamos mesmo para uma religião de massa, em uma situação de cristandade”. (Meunier, op.cit. p.29) “A política constantiniana de favorecimento do cristianismo, comenta Cavalcante, continuará por todo o século IV, não obstante a tentativa efêmera de reimplantação do paganismo por Juliano Apóstata (361-363). Todos os outros imperadores seguintes adotaram o cristianismo. O ponto culminante dessa história é, sem dúvida, o governo de Teodósio (379-395), que realmente oficializa o cristianismo ortodoxo como religião do Estado” (op.cit.p.313). O segundo concílio ecumênico, reunido em Constantinopla, em 381, convocado e dirigido por Teodósio, fez triunfar a fé nicena. “ Em 391 foi desautorizada qualquer atividade cultual pagã, mesmo em casa particular. A destruição de templos e santuários pagãos por parte da população, que até então ocorria impunemente, recebia agora aprovação legal, o que levou à destruição do grande Templo de Serapes em Alexandria” (Beenhart Köting, in Kaufmann, op.cit. p. 118 ). (Nos séculos seguintes, V e VI, foram muitas e duras as perseguições contra os pagãos). O costume de empreender peregrinações à Terra Santa, em agradecimento pelo fim das perseguições e súplicas pela paz, estendia-se por todo o ano. Conta-se que Egéria, ou Etheria, uma peregrina, passou mais de três anos (381-384) viajando da França a Constantinopla e de lá para Jerusalém, Jericó, Nazareth, Cafarnaum, Alexandria, Tebas, o mar Vermelho e o Sinai. A seguir viajou para Antioquia, Edessa, Mesopotâmia, ao rio Eufrates, à Síria, regressando a Constantinopla. Ela escreveu um livro sobre a viagem, - o que lhe confere o título de primeira escritora hispânica em língua latina - com valiosíssimas informações sobre a liturgia nos lugares visitados, com pormenores sobre as cerimônias na Igreja de Jerusalém, e sobre a sociedade por onde passava. 2) o favorecimento estatal da religião cristã: Durante o período em que Constantino dividiu o governo do Império com Licínio, ele se limitou a garantir a paz da igreja e a lhe devolver as propriedades que tinham sido confiscadas durante as perseguições. Procurou manter boas relações com os devotos dos cultos antigos e particularmente com o Senado, já que o Império oficialmente era pagão e, como cabeça do Império, ele era o Sumo Sacerdote. Manteve a Academia de Atenas e o Museu de Alexandria, os dois grandes centros de estudo da época, dedicados ao ensino da velha sabedoria pagã. Aos poucos, o apoio de Constantino à Igreja foi aumentando: doou o palácio de Latrão, propriedade da família de sua esposa e proporcionou meios de transportes imperiais para os bispos participarem do Sínodo de Arles, em 314, sem ônus para a Igreja. De 313 até 222, o Império fica dividido entre Constantino no Ocidente e Licínio no Oriente. Com a morte misteriosa de seu cunhado Licínio, em 322, Constantino - estadista e estrategista habilidoso - torna-se o único governante do Império. Por razões geo-políticas (proximidade do inimigo Império persa, ligação entre Oriente e Ocidente, território em que a igreja era numericamente mais forte e distanciamento do Senado Romano e das velhas famílias pagãs da aristocracia de Roma, etc), Constantino resolve, em 324, transformar Byzantium em nova capital do Império Romano Em 325, Constantino convoca e preside, como “bispo dos bispos “, ou bispo para os de fora “- como ele se auto denominava -, o Concílio de Niceia (atualmente Iznik, na região de Mármara, Turquia), onde a Igreja definiu, de forma sintética, o objeto da fé dos cristãos. Deste Concílio ecumênico (universal) participaram cerca de 300 bispos. Contudo, “a primeira formulação dogmática da Igreja, a Profissão de Fé, segundo Nicéia, não restabeleceu a unidade de culto, desejada pelo Imperador Constantino, nem pôs fim à calorosa discussão teológica” (Lenzenwegwe, op.cit.p.64). Deslumbrados com o favor que Constantino evidenciava em relação a eles, não faltaram cristãos que se empenharam em provar que Constantino era o eleito de Deus, e que sua obra era a consumação da história da Igreja. Um caso típico dessa atitude, segundo González, foi de Eusébio de Cesareia– o cristão mais erudito do século IV -, que participou do Concílio e foi muito prestigiado pelo Impetrador (González 2, op.cit. p. 35 ). Em 330, a nova capital do Império, reformada e suntuosamente decorada com monumentos provenientes de templos pagãos, é inaugurada com o nome de Constantinopla. Na ocasião, Constantino nomeou vários cristãos para os mais elevados cargos da máquina administrativa, parecendo favorecer os cristãos em detrimento dos pagãos. Constantino mandou construir em Constantinopla a igreja de Santa Irene, em honra da paz. Helena, sua mãe, construiu na Terra Santa as igrejas da Natividade e a do Monte das Oliveiras. Por ordem do Imperador, ou seguindo seu exemplo, foram construídas igrejas nas principais cidades do Império. (Quase todos os sucessores de Constantino construíram igrejas pomposas para perpetuar sua memória). Constantino recebeu o batismo somente em 336, no leito de morte, pelas mãos de seu assessor, o bispo ariano Eusébio de Nicomédia. Ele poderia ter seguido o exemplo de muitos outros cristãos que postergavam ao máximo o batismo à espera do perdão de todos os pecados. Certamente pesou para Constantino as razões de Estado e seu papel de Imperador: a) ele era cristão (desde 312?), mas Imperador de uma maioria pagã e de uma minoria cristã, e de outras crenças, inclusive o judaismo; b) como autoridade máxima no Império, ele não admitiria ser comandado por nenhuma autoridade religiosa. É certo igualmente que o governo de Constantino significou para a Igreja uma guinada política, a chamada “virada constantiniana, cujos resultados, no resumo de Cavalcante (op.cit. p. 212 ) foram : a) construção de inúmeras igrejas ; b) a dispensa de impostos e da prestação de serviços públicos para os clérigos ; c) a equiparação dos bispos com os altos funcionários do Estado ; d) a autorização de a Igreja receber , por testamento , doações de terras e outros imóveis ; e) e reconhecimento pelo Estado das sentenças dos tribunais eclesiásticos ; f) a instituição , desde 321 , do domingo cristão como dia de descanso . “Como resultado dos eventos do século IV, nos próximos mil anos e mais, se alguém quisesse ser um rei temporal, era necessário aceitar Cristo como Rei eterno “ (Peter Brown, in Rieger, op.cit.p. 44)
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