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Parte III Texto XXVIII O Império Romano, os cristãos e a Igreja III – Perseguições sitemáticas: fatos, reações e consequências O Imperador Caio Trajano Décio (249-251), general muito tradicional, iniciou seu governo com certa desconfiança religiosa em relação aos cristãos e preocupação política em relação ao crescimento da Igreja. Resolveu reprimi-los, ao mesmo tempo que construía novos templos pagãos e reforçava seus cultos e sacrifícios em todo o império, convencido que a prosperidade do Império, com grandes dificuldades internas e ameaças externas, dependia da unidade, ainda que coagida, de todos os cidadãos romanos em torno dos deuses de seus antepassados. Naquele momento, a igreja cristã de Roma vinha sendo dirigida há treze anos por Fabiano, escolhido papa por aclamação do povo e do clero, quando ainda era um cidadão comum, leigo. No mesmo dia, 10 de janeiro de 236, ele fora ordenado diácono, presbítero e bispo. Como papa, ele exercia grande influência, inclusive por seu tino administrativo. Ele havia feito o censo dos cristãos presentes na cidade de Roma e dividira a cidade em sete distritos eclesiásticos; delegou para cada um os seus paroquianos, seu clero e suas catacumbas, como eram chamados os cemitérios. Havia enviado sete diáconos e sete subdiáconos para recolherem atas dos martírios, em todo o Império. Segundo Cipriano de Cartago o Imperador Décio teria dito que preferia um rival no Império a um bispo como Fabiano em Roma. Ainda no primeiro ano de seu governo, Décio determinou através de um Edito que todos os cidadãos do império (a que tinham sido elevados todos os habitantes do Império em 212 d.C.) oferecessem uma supplicatio, um sacrifício de súplica aos deuses do Estado. “A complacência dos deuses deveria ser conquistada e a antiga religião, renovada: assim ficaria garantido o bem estar do Estado, personificado no Imperador “ (Lenzenweger, op.cit. 33 ). “Em dias estabelecidos, explica Donini, os chefes de família dos diversos centros urbanos e rurais, em todo o território do império, deviam apresentar-se perante comissões especiais para obsequiar o culto oficial, oferecendo um sacrifício aos simulacros dos deuses e à estátua do Imperador”. Tinham no mínimo que queimar incenso diante da estátua do Imperador (“ turificati “). Por que não aceitar este ritual vazio? Perguntavam alguns mais tolerantes. “ Em caso de recusa, procedia-se à prisão, à tortura e, em última análise, à execução capital do renitente; aos outros era concedido um certificado (o “libelus”), que comprovava o ato de culto e a lealdade do súdito“ (in Cavalcante, op.cit.p.207). “Uma vez que os judeus estavam excluídos do Édito, as consequências jurídicas atingiam quase exclusivamente àqueles cristãos que não fizessem o sacrifício: se, após admoestações, não mudassem de ideia, eram deportados para os trabalhos nas minas ou executados “ (Kaufmann, op.cit. p. 59 ) . Durante o governo do Imperador Valeriano (253-260), o cristianismo viveu alguns anos de paz. No quarto ano de seu governo, Valeriano (257) inicia uma improvisada, dura e cruenta perseguição dos cristãos. Diante da precária situação financeira do império, o conselheiro imperial (depois usurpador), Macriano, induziu Valeriano tentar tapar o rombo das finanças públicas sequestrando os bens dos cristãos ricos. Em agosto de 257 um novo edito persecutório objetiva eliminar a organização cristã : exílio para os chefes cristãos renitentes , proibição de reuniões e de entrada nos cemitérios , sob pena de morte . Um ano depois, a perseguição se torna mais cruel, levando à morte o clero e os leigos de maior prestígio. Os cristãos das classes mais altas eram ameaçados com o confisco de seus bens. Galieno (260-268), filho de Valeriano e associado a este desde 253, consegue restaurar a ordem no Império, salvando as fronteiras ameaçadas pelos bárbaros. No seu primeiro ano de governo, Galieno promulga um Edito de tolerância, que mudaria a sorte dos cristãos. Devolve às Igrejas os cemitérios e outras propriedades confiscadas. De 260 ao início de 303 o cristianismo vive um novo e longo período da paz religiosa, interrompido, por breve tempo, por uma nova tentativa persecutória, por parte do Imperador Aureliano, no início de 275, ao tentar introduzir um culto comum no império: ao “Sol invictus. Ele se atribuiu o título de Dominus et deus, naturalmente rejeitado pelos cristãos. Os quarenta anos de paz favoreceram o desenvolvimento interno e externo da Igreja. Muitos cristãos ascenderam a altos cargos do Estado e demonstraram-se homens capazes e honestos. As imposições do Edito de Décio (249) e das perseguições posteriores, de Treboniano Galo (253) e Valeriano (257-258), “provocaram reações e diferentes comportamentos, da resistência extrema a formas de compromisso ou de concessão. O dilema era: resistir ou fugir (solução à primeira vista menos nobre, mas para a qual se podia remeter a precisas indicações evangélicas: “os que estão na Judeia fujam para os montes “: Mt.24,16). Por sua vez, as autoridades visavam não eliminar todos os cristãos, mas a enfraquecer as igrejas, dividiando-as, tirando dos chefes autoridade moral, ou atingindo exemplarmente alguns deles “ (Potestá, op.cit.p.54). “Alguns correram a obedecer o edito imperial tão logo se informaram dele. Outros permaneceram firmes por algum tempo, mas quando foram levados diante dos tribunais ofereceram sacrifícios aos deuses. Outros talvez mais astutos, se valeram de artimanhas e do poder do ouro para obter certificados falsos sem ter sacrificado nada. Outros, enfim, permaneceram firmes e se dispuseram a enfrentar as torturas mais cruéis, que seus verdugos pudessem impor “ (González, 1.op.cit.p.140). As consequências das perseguições em Roma foram especialmente duras. Muitos cristãos se refugiaram nas comunidades religiosas do deserto africano. Muitos foram martirizados, muitos renegaram a fé. Não sabemos o número nem de uns, nem de outros. Os papas Fabiano e Sisto foram executados respectivamente em 250 e em 258. Por proibição de Décio, Roma ficou sem bispo por mais de um ano. Estando o imperador ausente, combatendo os Godos, dezesseis bispos, o povo e o clero reunidos elegeram papa o presbítero Cornélio, em março de 251. Exilado por Décio, o papa Cornélio morreu no exílio em 253, com 53 anos. O historiador Eusébio de Cesareia, que viveu nesse período, legou-nos descrições detalhadas das torturas sofridas por cristãos, “aos milhares em muitas regiões, nas casas imperiais de Nicomédia, da Fenícia, do Egito, de Tebaida e Frígia“. Os cristãos, quando não condenados a morrer pela espada, pela fogueira, ou aos jogos sangrentos nos anfiteatros, podiam, homens e mulheres, serem enviados às minas. A duração dos trabalhos foçados era de dez anos. Os condenados eram marcados em ferro e brasa no braço, ou na mão. “Do ponto de vista histórico, observa Cavalcante, “pode-se dividir os muitos relatos sobre os mártires cristãos em três grupos básico: (a) processos oficiais em tribunal, (b) relato de testemunhas oculares, (c) lendas compostas muito tempo depois dos fatos “ (op.cit. p. 197 ). A gesta dos mártires é uma epopeia de coragem e delicadeza, com a jovem e graciosa Blandina sustentando o testemunho de Pôntico, de quinze anos, em Lyon, no ano 197; de delicadeza e pudor das jovens mães Felicidade e Perpétua em Cartago e da corajosa Potamena que, como escreveu o conterrâneo Eusébio de Cesareia, “suportou com nobreza o fim, com diferentes partes do corpo sendo cobertas aos pouco com piche fervente, dos pés até a coroa da cabeça. Isto depois do Juiz Áquila mandar aplicar as mais severas das torturas a ela em todas as partes do corpo. ” Sobre Potamena, escreveu o sisudo historiador: “Pois além das perfeições da mente, também florescia na maturidade dos atrativos pessoais” (op.cit. p. 207 ) . Terminadas as ondas de perseguições, a Igreja teve que enfrentar novos problemas com três novos grupos de cristãos, vítimas das perseguições: a) Os numerosos lapsi (caídos) ou sacrificati, que haviam sacrificado e renegado a fé, mas queriam voltar a conviver na Igreja. O que fazer? Não aceitar nunca? Aceitar com condições; quais? Rebatizar? As controvérsias a este respeito chegaram a um conflito que levou o rigorista Novaciano de Roma a se fazer antipapa contra o “laxismo”do papa Cornélio. Novaciano, como antepapa, era contra a reconciliação dos caídos, para o bem da santidade da Igreja. Ele deu origem a Igreja dos justos; b) Os libellatici, ou seja, aqueles que haviam arranjado um comprovante falso de terem sacrificado; c) os mártires ou confessores: o prestígio dos perseverantes, que, torturados, não cederam, passaram a ser considerados cheios do Espírito Santo e, portanto, com o direito de reconciliar os fracos. A distribuição de cartas de paz por parte destes aos lapsi e libellatici começou a fugir do controle da Igreja. O Sínodo de Cartago (de 251) confirmou: os que haviam sacrificado, os sacrificati, deveriam receber a paz só no leito de morte; os libellatici deveriam receber um tratamento mais brando. Outro concílio, no ano seguinte, decidiu pela reconciliação de todos com uma penitência adequada, já que somente na força do Espirito Santo alguém poderia resistir ao perigo que a todos ameaçava, como disse, então, Cipriano. Ele próprio havia se escondido e depois veio a ser o primeiro bispo africano a ser martirizado, em 258. No início do século IV, nos anos 303 a 311, o Imperador Aurélio Dioclesiano, impôs a última grande e sistemática perseguição dos cristãos, como parte de grandes reformas do Império: administrativa, financeira e social. Com a reforma social, ele não pretendia a integração dos cristãos, mas a eliminação da instituição Igreja. Foi uma perseguição focada e cruel contra os dirigentes, seguida de destruição das igrejas, queima dos livros e confisco dos bens. Os plebeus cristãos eram transformados em escravos. Sua esposa Prisca e sua filha Valéria, ambas cristãs, cumpriram a lei e ofereceram sacrifícios aos deuses. Seu mordomo Doroteu e vários outros da corte sofreram o martírio. A perseguição atingiu a sua máxima intensidade no Oriente, especialmente na Síria, Egito e Ásia Menor, com muitos cristãos, homens e mulheres, sendo condenados a 10 anos de trabalhos forçados. A Diocleciano, que abdicou em 305, sucedeu como "Augusto" Galério, e como "César" Maximino Daia. Este demonstrou-se mais fanático do que Diocleciano. Em 30 de abril do ano 311, no leito de morte, o Imperador Galério promulgou o Edito de Tolerância: …movidos por nossa misericórdia a ser benévolos com todos, cremos justo estender também a eles o nosso perdão, e permitir-lhes que voltem a ser cristãos, e que voltem a se reunir em suas assembleias, sempre que não atentem contra a ordem pública. Em troca dessa tolerância nossa, os cristãos terão a obrigação de rogar a seu deus pelo nosso bem estar, pelo bem público e por eles mesmos, a fim de que a república goze de prosperidade e eles possam viver tranquilos “. “Logo foram abertos os cárceres e as pedreiras, e delas brotou uma torrente humana de pessoas aleijadas e maltratadas, mas em gozo pelo que para elas era uma intervenção direta do alto” (González 1, op.cit.p 174). O Imperador Constantino, com o Edito de Milão, do ano 313, ficou com a glória do fim das perseguições. Tornando-se o único Imperador, em 324, Constantino assumiu o sonho de Diocleciano e Maximino Daza de uma extensa restauração do velho Império. “A principal diferença era que, enquanto estes dois tinham tentado restaurar o velho império, reafirmando a antiga religião pagã, Constantino cria ser possível fazer esta restauração não sobre a base da religião pagã, mas com base no cristianismo. (González 2, op.cit.p. 25). Em 27 de fevereiro do ano 380, o Imperador Teodósio I promulgou, em Tessalônica, um Edito de fé, através do qual o cristianismo é elevado à categoria de religião estatal e se impõe a fé cristã - expressa pelo credo aprovado no Concílio de Nicéia (325) - como lei e toda infração contra o credo deveria ser castigada como sacrilégio.

 

 

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