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Parte III Texto XXVII O Império Romano, os cristãos e a Igreja II – Perseguições sitemáticas: o pano de fundo “Desde São Jerônimo (347-420) comprova-se a existência de um esquema de dez grandes perseguições. Esta estaria destinada a lembrar as dez pragas do Egito. A partir daí o conceito “perseguição” entrou também na pesquisa histórica. Mas, por mais popular que seja, ele é pouco preciso, uma vez que ele designa medidas coercitivas fundamentadas juridicamente com base na iniciativa das autoridades romanas contra os cristãos, ele não é apropriado para circunscrever as experiências dos crentes em Cristo com instâncias estatais pagãs na época. (Stegemann, op.cit. p. 356 ) . Ainda que seja difícil definir o número das perseguições aos cristãos, dada sua dispersão pelo extenso território do Império, é fato indiscutível que, na segunda metade do século III, os cristãos e a Igreja passaram a ser perseguidos sistemática e universalmente pelas autoridades do Império. Porque? Para nos aproximarmos à compreensão desse fenômeno, cuja crueldade nos espanta, convém ter em mente alguns fatos: 1. O papel da religião: no mundo greco-romano e, de modo especial, no Império romano, política, economia, cultura e religião estavam totalmente integradas. Uma das virtudes fundamentais do cidadão romano era a “pietas”, “uma mistura de amor e medo que reinava como ideal na família romana, com as crianças demonstrando pietas pelos pais que, por sua vez, a demonstravam pelo Estado, enquanto este a manifestava pelos deuses”. Uma virtude que interligava o indivíduo, a família, o império e os deuses em uma relação de reciprocidade: “do ut des “ (dou para que dês). As relações com os deuses eram regidas por rituais a serem rigorosamente cumpridos, cabendo ao Estado fazer cumpri-los. “O culto desempenhava um papel ativo na construção do império. Era parte integral de uma rede de poder e criava um espaço para a influência das elites locais sobre a população, de cidades sobre outras cidades e de gregos sobre culturas nativas. Nas palavras de Crossan e Reed, esse culto era a “cola” que mantinha a civilização mundial unida; e mesmo que não fosse o único elemento unificador, era o mais crucial “ (Rieger, op. cit. p. 6). As cidades eram agraciadas com estátuas dos deuses e deusas, templos, procissões e festas sempre cívico-religiosas, em que todos naturalmente participavam; 2. O papel do Imperador: Para os cidadãos romanos o Imperador era a personificação do Império, da sociedade e da pax romana – prosperidade e segurança – tão duramente conquistada. Reverência, gratidão, admiração, amor, adoração, eram sentimentos naturais em relação aos imperadores que, evidentemente, cultivavam estes sentimentos e comportamentos correlatos. O Senado Romano, depois da morte de um grande Imperador, declara-o divino. Outros imperadores, por iniciativa própria, se declararam deuses e exigiram adoração, mas, mesmos estes, continuavam crendo e afirmando a supremacia dos deuses. Era a paz dos deuses, a pax deorum, que garantia a estabilidade e a prosperidade do Estado romano. O conceito moderno de ideologia ajuda a compreender a função da religião e do imperador na manutenção do Império e na conformação do espírito do paganismo. Oferecer sacrifícios aos deuses para o bem-estar do Estado, personificado no Imperador era para o cidadão romano um ato cívico, natural, de exercício da “pietas “, aprendido desde criança. Como se reverenciava os antepassados no altar doméstico, reverenciava-se o imperador. Negar-se a reverenciar os deuses e o Imperador era, aos olhos dos romanos, um ato de impiedade, uma profissão de ateísmo, uma ofensa ao Imperador e omissão da contrapartida do povo à complacência dos deuses (do ut des). A prosperidade do Império dependia da boa vontade dos deuses e esta do reconhecimento e culto dos cidadãos romanos. O culto do imperador era considerado mutuamente benéfico para governantes e governados. Festivais em honra do imperador eram pontos altos na vida da comunidade e o povo participava massiva e alegremente;> 3. Natureza da fé cristã: o centro da nova fé, surgida em meio a muitas outras existentes e aceitas no Império romano, era uma pessoa, Jesus, a quem os crentes denominavam e consideravam, acima de tudo e de todos, o Senhor (em grego Christos). O paganismo não conhecia “ato de fé”. O cidadão romano nascia em uma família que acreditava nos deuses, como acreditava no Imperador, Tudo era perfeitamente natural, como falar grego, ou latim. O cristianismo começava com a profissão de fé: o reconhecimento e aceitação de uma pessoa / Deus, Senhor de tudo e de todos. Não há como se negar que a religião cristã, no Império Romano, era uma força de contracultura, em desacordo com os princípios e os sentimentos reinantes. Por natureza, potencialmente, a religião cristã era subversiva da “pax romana “. Por outro lado, as comunidades cristãs desempenhavam papel de apoio social aos mais fracos em uma sociedade em que “ uma crise econômica, ou revés de fortuna precipitava as classes médias ao nível dos pobres” (Potestá, op.cit. 52 ). A solidariedade grupal supria carências de integração social e confortava os indivíduos quando discriminados, incriminados ou perseguidos; 4. O modo de vida pagão versus modo de vida cristão: as comunidades cristãs, espalhas pelo vasto e diversificado território do Império, estavam naturalmente conformadas ou procuravam se inculturar ao modo e estilo de vida local. Contudo os cristãos eram retraídos em relação ao modo de vida dos pagãos frequentadores dos banhos públicos, dos teatros, das festas cívico-religiosas, etc. Os romanos apreciavam os espaços públicos. Há que se lembrar que o povo passava maior parte do tempo fora de seu reduzido espaço doméstico. Os cristãos não frequentavam nada que estivesse associado ao culto aos deuses e quase tudo nas cidades era associado aos deuses. Procuravam não casar com pagãos (ãs) para mais facilmente manterem seu estilo de vida. ”Na escola dos págens imperiais, um dos alunos, Alexâmenos é cristão. Seus companheiros zombam dele e desenham nas paredes um asno crucificado, com a inscrição: Alexâmenos adorando seu deus! O jovem cristão, corajoso, responde, escrevendo: “Alexâmenos fiel! “. O grafito descoberto no Palatino, foi conservado e pode ser visto em Roma, no museu Kirchner” (Hamman, op.cit.p.94). Havia uma tensão crescente entre o “ethos cristão e o “ethos” pagão; 5. Crescimento do cristianismo e fortalecimento da Igreja: “Publicamente, comenta Stockmeier e Bauer, “era inevitável a impressão de que a comunidade dos fiéis constituía um corpo estranho dentro da sociedade que a comunidade dos fiéis constituíam corpo estranho dentro da sociedade, aparecendo até como contracfação do Estado. Enquanto era visto apenas como um grupo marginal, dava-se-lhe apenas a atenção local, mas com o crescimento das comunidades, oportunamente explorado para fins propagandísticos, o nervosismo das autoridades romanas aumentou. A Igreja abrangente, com suas formas de organização, provocava, inevitavelmente, o conflito com o Estado baseado numa religião “ (in Kaufmann, op.cit.p.31). A minoria étnica dos judeus, embora compusesse o maior grupo religioso, não-pagão no Império, respeitava a proibição de proselitismo. “O cristianismo, pelo contrário, não se deixava delimitar; seu crescimento incessante ameaçava o Império romano e exigia, quase que compulsoriamente, tomar medidas de contenção. Depois das violentas perseguições no começo do século III, houve um período de relativa paz, durante o qual o número de convertidos cresceu surpreendentemente. Este fato parecia dar razão à interpretação de Tertuliano sobre as perseguições sangrentas: “O sangue dos cristãos é semente”. As mortes exemplares dos cristãos comoviam os que as presenciavam e favoreciam a expansão do cristianismo. O historiador Peter Brown observa que já no terceiro e início do quarto séculos “a Grande Perseguição mostrou que a Igreja cristã tinha mudado tanto quanto o Império. A Igreja tinha conseguido poder e unidade (Rieger, op. cit. p. 43); 6. Decadência do Império: “Os três elementos fundamentais da instituição imperial romana – isto é, o principado apoiando-se no exército, a aristocracia baseada na propriedade da terra (senadores) ou no comércio (cavaleiros), o povo como fonte de soberania e como reservatório de militares e trabalhadores – esses três elementos foram aos poucos degenerando, formando-se forças sociais cada vez mais rígidas, mais fechadas, mais parasitárias [ …] A escravidão, raiz das civilizações antigas, tinha contribuído para desqualificar o trabalho manual, o produto artesanal, empobrecendo progressivamente a indústria e o comércio. A escravidão, enfim, tinha desqualificado e empobrecido a estratificação social, contribuindo de maneira decisiva para eliminar gradativamente a pequena e média burguesia, tanto do campo, quanto da cidade, tornando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. A progressiva desagregação interna, a partir do Imperador Marco Aurélio (+180) somou-se a desagregação externa, pela pressão dos bárbaros, pela necessidade de grandes despesas para financiar os exércitos, as fortificações, as contínuas campanhas de guerra: sinal evidente dessa outra situação foi a progressiva acentuação do militarismo na vida do Império, com todas as despesas improdutivas ligadas a esse fenômeno. “ (Pierini, op. cit. p. 125). Por volta do ano 250, os bárbaros além das fronteiras cada vez mais atrevidos em suas incursões dentro do domínio do Império, a economia em crise e as velhas tradições cada vez mais em desuso; 7. Tentativas de restauração das tradições religiosas: Embora os historiadores cristãos tenham caracterizado como personagem cruel, o Imperador Décio era simplesmente um romano de feitio antigo e um homem disposto a restaurar a velha glória de Roma. Para isso era necessário restaurar os velhos cultos. Se todos os súditos do Império voltassem a adorar os deuses, possivelmente os deuses voltariam a favorecer o Império. O que estava em jogo era a sobrevivência da velha Roma dos Césares. O propósito do Imperador não era criar mártires, mas apóstatas. A perseguição sobre Décio durou pouco menos de dois anos, mas foi sistemática, universal, inflexível e cruel. As perseguições posteriores, como objetivo, ou como consequência de tentativas de restaurar as velhas tradições religiosas - sob Valeriano (253-260), Aureliano (270-275) e Dioclesiano (284-305) - não surtiram o efeito esperado. As últimas perseguições sistemáticas do terceiro e quarto séculos resultaram ineficazes como aquelas esporádicas do primeiro e segundo séculos. A limpeza étnica invocada e apoiada pelos intelectuais greco-romanos não fora realizada. Nem o império rejuvenesceu, nem a Igreja foi destruída. As perseguições desgastaram as autoridades diante do povo: muitos mártires, muita crueldade, muitos apóstatas, mas a Igreja continuava firme e os cristãos mais unidos, com novos heróis, os mártires, e com os” lapsi “ (os caídos, apóstatas), arrependidos e penitenciados, de volta à Igreja. Comentando o Edito de Tolerância de Galeno, F. Ruggiero escreve: «Os cristãos foram um inimigo extremamente anômalo. Por mais de dois séculos Roma tinha procurado assimilá-los ao próprio tecido social… estavam fisicamente no interior da civitas Romana, mas por motivos diversos eram-lhe estranhos»; tinham finalmente determinado «uma radical transformação da própria civitas em sentido cristão».