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Parte III Texto XXVI O Império Romano, os cristãos e a Igreja I - Discriminações, incriminações, e perseguições não sistemáticas A primeira geração dos seguidores de Jesus, no período designado época apostólica, dos anos 30 a 60, era composta exclusivamente de judeus, da Palestina ou da diáspora. As mortes de Estêvão, judeu nascido na diáspora, no ano de 36, e de Tiago, filho de Zebedeu, em 43/44 e ainda de Tiago, chefe da Igreja de Jerusalém, em 62, mostram os conflitos internos, entre irmãos, e a intolerância em relação à ortodoxia judaica. Os seguidores de Jesus eram considerados e se consideravam judeus - um dos vários grupos existentes na época. Ele vai se tornando um grupo especial à medida que, coletivamente, incorporam comportamentos novos e interpretações discrepantes da Torá. E, progressivamente, vão se distanciando do judaísmo ortodoxo. As relações do Império com a religião hebraica e, por consequência, com as comunidades judaicas e cristãs, estavam bem definidas pelo reconhecimento de “religio licita” (religião permitida), conquistada pelo apoio dos judeus a César na campanha histórica do Egito (48-47 a.C.). Trebilco enumera 5 privilégios para os judeus da diáspora na Ásia Menor: 1) Direito à reunião na sinagoga; 2) Direito de edificar prédios sinagogais; 3) Direito de coletar o imposto do Templo e proteção estatal para seu transporte; 4) Dispensa dos serviços militares dos cidadãos romanos entre os judeus; 5) Direito de observar os sábados, as prescrições alimentares, e de viver de acordo com as leis dos antepassados. Estes direitos constituíam um fato extraordinário porque as comunidades judaicas estavam isentas da “comunhão do culto romano” e permaneciam judeus - reconhecidos como cidadãos leais. Só eram questionados quando havia conflito da comunidade judaica com a comunidade local. Do ponto de vista dos pagãos, com os quais ainda tinham pouco contato, os cristãos eram aqueles estranhos judeus, “peregrini”, “paroquoi” (estrangeiros), que viviam separados. Tanto podiam ser discriminados, algumas vezes incriminados, por serem diferentes, como também admirados pela união, pelo apoio mútuo, pelo estilo de vida e pela fé monoteísta. Em torno das comunidades judaicas da diáspora, sempre existiram não judeus, prosélitos, ou “tementes a Deus”. Não há registro de ódio popular contra os judeus, a não ser a partir da guerra judaica. Das três décadas (60 a 90) após a época apostólica, sabe-se muito pouco. Koester chama a atenção para o fato de que não sabemos um nome sequer de cristão desta época. Entre os séculos I e II, a atitude do império romano em relação aos cristãos foi mais amena que se poderia fazer pensar a lenda neroniana. “No Império estava presente uma imensurável variedade de cultos, permitidos desde que não perturbassem a ordem estabelecida e a autoridade imperial” (Potestá, op. cit. p.52). Sabemos pela Segunda Carta de Paulo aos Coríntios que ele, por três vezes, sofreu o castigo de flagelação, além de “pancadas” e prisões, consequências de tumultos públicos surgidos à sua volta ou vinculados a ele. Outras tribulações de Paulo, como a prisão por um prazo mais longo em Éfeso, deve-se considerar perturbação da ordem pública devido à sua atividade propagandística. Os judeus estavam proibidos pelo Império de fazer proselitismo, o que, evidentemente, se estendia aos cristãos. É possível que os conflitos da comunidade paulina com os judeus, em Tessalônica, estiveram ligados às atividades propagandísticas da referida comunidade. A pregação dos cristãos gerava intranquilidade, tanto para os judeus, quanto para os pagãos, por ameaçar o pacto dos judeus com o Império. Para Lenzenweger, o “Evangelho não se defrontou de forma alguma com um vácuo religioso, antes entrou em concorrência com um sistema politeísta, cuja aceitação, por meio de sacrifícios, garantia, segundo a convicção dos romanos, o bem-estar do Império (salus publica)” (op. cit. p. 12). Segundo o historiador Suetônio (69-141), o Imperador Claudio, em 49, expulsou os judeus de Roma, motivado por uma agitação provocada por judeus crentes em Cristo. Para Kaufmann, “as medidas tomadas confundiram o fato de os cristãos venerarem Jesus como o ‘Cristo’, com o nome do escravo Cresto, denominando o grupo simplesmente de ‘crestianos’, ou seja, bando de escravos” (op. cit. p.45). No ano 64, o Imperador Nero atribuiu a responsabilidade do incêndio da cidade de Roma aos cristãos “que o povo conhecia mal, tendo-os como misantropos, ateus, homens dados a ritos orgíacos. E na noite de 15 de agosto de 64, o circo de Nero, situado no local onde atualmente se ergue a Basílica de São Pedro, assiste a uma das cenas mais atrozes de um reinado fértil em ignomínias: cristãos transformados em tochas vivas, iluminando os jogos e as orgias” (Pierrard, op. cit. p. 27). Supõe-se que Pedro tenha sido morto neste contexto de perseguição aos cristãos. Tertuliano (160-220) afirma que Nero deu um instrumento jurídico à sua ação contra os cristãos, o Institutum Neronianum, cuja interdição essencial era: “Non licet esse Christianos” (Não é lícito ser cristão). Há dúvidas sobre a historicidade desse fato. Koester afirma: “Não conhecemos nenhuma decisão oficial das autoridades romanas do século I em relação ao cristianismo, e não podermos supor que durante esse período membros das igrejas ou seus líderes fossem sempre perseguidos ou punidos apenas por causa de sua fé cristã. Ao que tudo indica, as prisões eram feitas com base em acusações como perturbação da ordem pública, formação de associações ilegais e secretas e recusa a oferecer sacrifícios ao imperador” (op. cit. 2. p. 356). Por volta do ano 90, o nome dos "nazarenos” foi inserido na fórmula de maldição dos hereges, constante das orações dos judeus, o que selou a total e definitiva separação entre a religião hebraica e o cristianismo, deixando este fora dos privilégios concedidos pelo Império à religião hebraica. Apesar disso, os cristãos viveram um período de cerca de trinta anos, de 65 a 94, sem perseguições. Domiciano, nos fins do século I, perseguiu os judeus e cristãos, obrigando-os a encaminharem às arcas imperiais a oferta anual que antes mandavam para o Templo de Jerusalém, uma vez que esse já não existia. Estendeu esta obrigação a todas as pessoas que seguiam o modo de vida judaico, independente de idade. O modo de vida judaico passa a ser designado pelo conceito de asebeia (impiedoso) e caracterizar um crime capital (crimem laesae maiestatis). Acusados de ateísmo e de adesão ao modo de vida judaico, o Imperador mandou executar seu primo Flávio Clemente e desterrar sua esposa Flávia Domicila; os dois únicos mártires romanos que conhecemos pelo nome neste período. Para o historiador Eusébio de Cesareia (263-340), Domiciano foi o segundo imperador a perseguir os cristãos. Ele “parece ter sido o primeiro imperador a perceber que a nova fé representava uma ameaça às velhas tradições romanas” (González, vol.1, op. cit. p. 59). A situação jurídica dos cristãos junto ao Império ficou indefinida até o Rescrito de Trajano (98-117). Respondendo a Plínio, o Jovem, Procônsul na Bitínia, que desejava saber como proceder diante da expansão numérica e geográfica dos cristãos, o Imperador Trajano, no ano 112, fixou as normas de conduta dos representantes do Império: os cristãos são de fato ateus. Se convictos, deve-se puni-los, mas não se deve procurá-los e devem-se deixar de lado as denúncias anônimas. Todo aquele que se arrepender deve ser libertado. Tertuliano (160-220) mostrou a iniquidade do Restrito: ”O cristão é punível não por ser culpado, mas por ser descoberto”. Funcionários honestos, como Licínio Graciano, ficavam perplexos para justificar procedimento que lhes parecia iníquo e autorizava os magistrados a enviar jovens cristãs para o lupanar. (Hamman, op. cit. p. 90). Como se vê, no início do século II a ênfase das acusações se deslocou no sentido de que a própria fé em Cristo passou a ser entendida como religião estrangeira corruptora dos costumes. Mas também a intenção de se evitar perseguições em massa. “Este Rescrito de Trajano iria fazer jurisprudência, ainda que a atitude do poder em relação aos cristãos, ao longo dos séculos II e III, careça de clareza. Os grandes Antoninos, Adriano (117-138), Antonino Pio (138-161) e Marco Aurélio (161-180), nada fariam para agravar a legislação anticristã. Mas aqui e acolá eclodiam chamas de antagonismo e tombariam mártires, devido às pressões do povo sobre o poder local“ (Pierrard, op. cit. p. 28). É o que parece ter acontecido com a comunidade cristã de Scili. Doze cristãos, cinco aldeãs e sete aldeãos, de uma insignificante aldeia do Norte da África, são denunciados, presos e executados em Cartago, no ano 180. O relato destes fatos, escrito em latim, é o primeiro documento conservado da Igreja da África. O livro Atos dos Apóstolos narra amiúde o comportamento hostil da população contra os cristãos. Em At. 19,23, encontra-se descrito: “um grave tumulto a respeito do Caminho, envolvendo ourives, artesãos e o lucro destes, além da fé na grande deusa Ártemis”. “A situação política do Império até meados do século II, tanto em seus assuntos internos como externos, e também com a prosperidade econômica sem precedentes, não justificavam a perseguição a um grupo religioso que observava as normas da paz e da ordem pública e que estava ansioso para provar que seguia os preceitos morais do bom cidadão” (Koester, 2, op. cit. p. 359). “Depois da metade do século II, quando o período de paz e prosperidade chegou ao fim, as autoridades romanas foram sendo progressivamente obrigadas a tomar medidas contra os cristãos, porque a opinião pública os acusava de vários infortúnios e calamidades” (Koester 2, op. cit. p. 359). “O título ‘mártir’ (= confessor) e o termo martyrium aparecem pela primeira vez no relato do martírio do bispo Policarpo de Esmirna, no final do século II. Nesse texto também se atesta pela primeira vez o costume de recolher os ossos do executado e enterrá-los em lugar digno” (Markschies, in Kaufman, op. cit. p. 62). Nos princípios do século III, o Imperador Sétimo Severo conseguiu consolidar seu poder, pondo fim a um período de lutas internas que havia debilitado o Império. Impôs uma série de reformas políticas, econômicas, militares e sociais. Propôs “unir todos os súditos sob o culto do “Sol invicto”, no qual se fundiriam todas as religiões da época, assim como o ensino de diversos filósofos. Dois grupos se negavam a dobrar-se diante do sincretismo: os judeus e os cristãos. Para deter o avanço dessas duas religiões, o imperador, no Édito de 202, proibiu, sob pena de morte, toda conversão ao judaísmo e ao cristianismo. A perseguição concentrou-se sobre os novos convertidos e seus mestres. Foi nesse ano que Irineu, bispo de Lyon, sofreu o martírio. Leônidas, pai de Orígenes, estava entre os mártires alexandrinos da época. Clemente, que há vinte anos ensinava em Alexandria, optou por se refugiar na Capadócia, onde era menos conhecido. O mais famoso dos martírios dessa época, por volta de 203, é o de seis cristãos: duas mulheres, Perpétua e sua escrava Felicidade; e quatro homens, dentre os quais o irmão de Perpétua, um escravo e dois outros jovens livres. Essa história está narrada na Paixão de Perpétua e Felicidade, obra de vários autores. A parte central da obra é o diário de Perpétua, escrito na prisão até as vésperas de seu martírio, em 7 de março de 203, aos 22 anos de idade: o único de uma mulher que da Antiguidade chegou até nós. Todos os seis, a começar pelos escravos, se negaram a abandonar a fé cristã e foram mortos com requintes de crueldade. É impressionante a coragem da jovem mãe, Perpétua, o amor ao filho recém-nascido, a consideração à família, o bom humor e a fé cristã acima de tudo. Às vésperas de seu martírio, ela escreveu no diário: “Agora meus sofrimentos são só meus. Mas quando tiver que enfrentar as bestas, haverá outro que viverá em mim, e sofrerá por mim, posto que eu estarei sofrendo por ele”. O imperador Caracala, que sucedeu Sétimo Severo no ano 211, pretendendo se fazer popular, estendeu a cidadania romana a todos os seus súditos livres, e reviveu as perseguições, interrompidas em 203, principalmente no norte da África. Seus sucessores Eliogábalo (218-222) e Alexandre Severo (222-235) – este considerado amigo dos cristãos – deram continuidade à politica sincretista de Sétimo Severo, mas não obrigaram os cristãos e os judeus a seguirem esse sincretismo. Maximino, o Trácio (235-238), perseguiu principalmente os dirigentes da Igreja em Roma, tendo exilado o maior teólogo da época, Hipólito, e o bispo de Roma, Ponciano, para as famigeradas minas da Sardenha. Para permitir a eleição de novo papa, Ponciano, pela primeira vez, renunciou ao cargo em 28 de setembro de 235. (Hipólito havia se oposto ao papa por considerar que ele afrouxara as regras de penitência para acomodarem um grande número de novos convertidos da religião pagã). De 238 a 244 o Império teve cinco Imperadores e os cristão viveram um tempo de certa tranquilidade. Filipe, o Árabe (244-249), proveniente da Província da Síria, teria sido o primeiro imperador cristão batizado pelo papa Fabiano – escolhido por aclamação pelo povo de Roma no ano de celebração do milênio da cidade (247). Não há confirmação destes fatos pelas fontes oficiais pagãs. “Diversamente do que se pode ver nas imagens populares, o verdadeiro problema dos cristãos dos séculos II e III não consistia na permanente pressão persecutória das autoridades, mas na insegurança de possíveis perseguição e execução realmente poderem vir a acontecer. Até meados do século III dependia da decisão da cada governador perseguir ou não os cristãos por causa de sua profissão de fé” (Kaufmann, op. cit. p. 57). “Durante todo o século segundo e boa parte do terceiro, não houve uma perseguição sistemática contra os cristãos” (González, vol. 1, op. cit. p. 79). Nesse período, as perseguições foram esporádicas e limitadas a certos lugares, começando não raramente sobre pressão da plebe pagã. “Embora o martírio não fosse uma experiência nem constante nem universal dos cristãos nos dois primeiros séculos, era uma possibilidade com a qual todos tinham que contar” (Hurtado, op. cit. p. 791). A situação mudou radicalmente – ao menos juridicamente – durante o período de governo dos imperadores Décio (249-251) e Valeriano (253-260). Orígenes escreveu à época: “as perseguições não são mais isoladas como até agora, mas explodiram generalizadas por toda parte”.
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