Quem Somos
Prólogo
Referências
Vídeos
Fale Conosco
Veja Também:
Parte III Texto XXV O século III na história do Cristianismo “O século III revelou-se um momento decisivo na história da Igreja, pois consumou a separação, agora definitiva, entre cristianismo e judaísmo. De agora em diante, ela estará totalmente exposta à cultura helenística e ao mundo romano; buscará formas de aculturação, acomodando-se ao novo lócus” (Cavalcante, op. cit. p. 174). Eusébio de Cesareia (265 a 339), pesquisador erudito e rigoroso, legou-nos em sua História Eclesiástica as informações mais relevantes sobre “a história da Igreja desde os apóstolos” até Constantino, em 324. Ocorrem neste período cinco grandes acontecimentos: 1 - No mundo grego assiste-se a um renascimento filosófico que terá, como representantes, Plotino, entre os pagãos; e Orígenes, entre os cristãos; os dois pensadores marcarão os séculos seguintes; 2 - No mundo latino, o cristianismo conhece extraordinária expansão territorial e cultural e diferencia-se do cristianismo oriental; 3. Entre as modificações culturais destacam-se, pelas consequências organizacional, social e teológica, a sacerdotização da função do bispo e a seguir a do presbítero; 4 - Surgimento de movimentos ascéticos: eremitismo e monaquismo; 5 - Início das perseguições sistemáticas do Império à religião cristã. 1 - Renascimento filosófico: Orígenes nasceu em 185, em Alexandria de uma família cristã egípcia. Teve como mestre Clemente de Alexandria. Foi aluno de Amônio Sacas, fundador do neoplatonismo e mestre de Plotino. Dirigiu a escola catequética de Alexandria e fundou e dirigiu a Escola de Cesareia, cuja biblioteca, enriquecida por Pânfilo, tinha mais de 30.000 manuscritos. Seu grande tesouro era a monumental obra de Orígenes, a Hexapla, edição crítica de todo o Antigo Testamento em seis colunas (texto hebraico em caracteres hebraicos, texto hebraico em caracteres gregos, tradução grega de Áquila, tradução grega de Símaco, tradução grega dos Setenta, tradução grega de Teodocião), escrita de 212 a 245. Uma obra de 6.500 páginas, cujo único exemplar perdeu-se no ano de 638, à época da conquista árabe. Segundo Jerônimo (347-420 – tradutor da Bíblia do grego antigo e do hebraico para o latim, a Vulgata, editada em 400), Orígenes teria escrito 2.000 obras. Ele enumera 800 e Epifânio (310-403) fala de 6.000. Das suas homilias, centenas chegaram até nós. Orígenes distingue três níveis de leituras das Escrituras: 1) o literal; 2) o moral; 3) o espiritual, sendo este o mais importante e mais difícil. Cada um desses níveis indica um estado de consciência e amadurecimento espiritual e psicológico. “Para Orígenes, a questão fundamental do homem é assemelhar-se o mais possível a Deus. E, para conseguir esse objetivo, faz-se necessário que a graça de Deus se some aos esforços humanos nesse caminho ascensional em direção a Deus. O caminho ideal para a perfeição é a imitação de Cristo” (Cavalcante, op. cit. p. 189). Além de seus trabalhos teológicos, Orígenes dedicou-se ao estudo e à discussão da filosofia, em especial de Platão e dos filósofos estoicos. Ele morreu em Tiro, Líbano, em 254. Quasten considera-o “o maior erudito da Igreja antiga”. Plotino nasceu em Nicópolis, Alto Egito, em 205. Aos 22 anos, em Alexandria, como discípulo de Amônio Sacas, converteu-se à filosofia neoplatônica que, à semelhança dos estoicos, era uma escola de vida espiritual. “Sua obra possuí uma tônica de misticismo, que é novo; sente-se aí, como até então não se sentia ainda, o desejo e o esforço de uma alma que quer se encontrar e ao mesmo tempo se perder no Uno universal e inefável”. Plotino não escreveu tanto quanto Orígenes, mas exerceu, por sua espiritualidade, grande influência sobre pagãos e cristãos. Segundo texto postado na Wikipédia (modificado em 26/03/2014), “a influência de Plotino e dos neoplatônicos sobre o pensamento cristão, islâmico e judaico foi representativa para escritores como Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, Santo Agostinho, Pseudo-Dionísio, o Areopagita, Boécio, João Escoto Erígena, Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, Dante Alighieri, Mestre Eckhart, Johannes Tauler, Nicolau de Cusa, São João da Cruz, Marsílio Ficino, Pico de la Mirandola, Giordano Bruno, Avicena, Ibn Gabirol, Espinosa, Leibniz, Coleridge, Henri Bergson e Máximo, o Confessor”. 2 - Expansão: O cristianismo do século III, segundo Markschies, “cresceu numa rapidez exorbitante”, o que é incompatível com o imaginário popular de um cristianismo retraído se escondendo em catacumbas, mesmo por que as perseguições sistemáticas só ocorrem a partir do ano 250. “Por volta do ano 200, nos territórios do Império, deviam viver cerca de 200 mil cristãos, num total de cerca de 60 milhões de habitantes”. Nesse momento, segundo Veyne, “o perfil da comunidade cristã era perfeitamente comparável ao perfil da sociedade em torno dela” (op. cit. p. 69). Para o marxista Kautsky, “até o ano 98, havia comunidades cristãs em cerca de 48 localidades; até 180, em cerca de 74; e, até 325, em mais de 550 localidades. Até meados do século III, a nova fé contava com muito poucos adeptos entre as classes superiores” (op. cit. p. 365). “Um século mais tarde, os cristãos representavam um número compreendido entre 5 e 10% da população do Império” (Potestá, op. cit. p. 35). Tanto no Oriente quanto no Ocidente, a Igreja expande-se visivelmente nos últimos anos do século III, a partir de um sistema hierárquico bem desenvolvido, com grande influência dos episcopados de Roma, Alexandria, Antioquia e Cartago. Com a divisão, no século III, do Império Romano em províncias, o bispo da capital da província passou a ter papel de destaque; os bispos de comunidades menores da província se subordinavam a ele. Registram-se nessa época os primeiros sínodos (reuniões) e concílios regionais em Cartago (218/222), em Alexandria (232), na Itália (250-251) e em Antioquia (268). “Possuímos inclusive as atas de um sínodo de Cartago, realizado em outono de 256 d.C., que remontam a anotações estenográficas e demonstram que naquele encontro, quanto às questões em discussão, seguiam-se os padrões gerais de reuniões das demais organizações da província e do Império” (Potestá, op. cit. p. 69). O bispo de Alexandria ordenava os bispos do Egito e reivindicava para si o direito de destituí-los; reunia e presidia os sínodos da região. Ao longo dos últimos anos do século III a sede episcopal de Antioquia – sem dúvida alguma uma fundação apostólica– atingiu seu pleno reconhecimento. Como se vê, a Igreja do século III encontra-se estruturada e articulada, bem diferente do “cristianismo primitivo com aparência de uma enorme disseminação de congregações locais, cada uma com sua vida à parte, sua própria estrutura constitucional e seus próprios oficiais, recebendo cada uma a designação de ‘igreja’” (Kelly op.cit.p.142). Essa organização ajuda a entender a expansão da Igreja. “O papa Cornélio (251-153), em carta ao bispo de Antioquia, informa que a Igreja romana compreende 46 presbíteros, 7 diáconos, 7 subdiáconos, 42 acólitos, 52 exorcistas (chama atenção o número de exorcistas, maior que o de presbíteros), leitores e hostiários, mais de 1500 viúvas e indigentes oficialmente assistidos” (Pierini, op. cit. P. 99). Os estudiosos calculam que Roma tinha então mais de 30.000 cristãos, os quais sustentavam seus ministros religiosos. “Em 280, Tirídates III, rei da Armênia, converteu-se ao cristianismo, iniciando-se assim a cristianização de um amplo reinado, já fora do âmbito do Império romano” (Pierini, op. cit. p. 122). “No século III começa a manifestar-se uma acentuada divergência entre o pensamento oriental e ocidental acerca da questão do homem e da revelação” (Kelly, op. cit. p. 130). Sobre o relato do pecado original, registrado no Gênesis, Orígenes lhe atribui um sentido de mito cósmico, enquanto os teólogos ocidentais, Irineu, Tertuliano e Clemente, consideram-no um relato histórico. Graças sobretudo aos teólogos Tertuliano de Cartago (160-220) e Hipólito de Roma (170-236 – o maior teólogo do século III) o ocidente foi mais rápido no desenvolvimento de uma cristologia mais amadurecida. A questão central na cristologia era como entender: Jesus é uma pessoa ao mesmo tempo Deus e homem. “Lado a lado nessa pessoa indivisível, podem-se ver divindade e humanidade, espírito divino e carne humana, imortalidade e mortalidade, força e fraqueza”. Opondo-se às tendências alegóricas e especulativo-filosóficas da escola de Alexandria, surge no século III a escola de Antioquia, intensamente dedicada à exegese bíblica. 3 - Sacerdotização da função do bispo e do presbítero: “O regimento eclesiástico de Hipólito, por volta do ano 215, confiou ao bispo todas as funções decisivas na comunidade. A liturgia e a pregação, o poder sobre os penitentes e a direção da comunidade, tudo dependia do bispo, cuja função, daí para frente, vai caracterizar toda a organização da Igreja”. Cipriano de Cartado, por volta de 250, convencido que a unidade da Igreja era garantida pelo bispo, escreveu: “A Igreja tem sua base nos bispos, e toda ação da Igreja é dirigida por estes seus superiores” (Lenzenweber, op. cit. p. 20). Nesse período “o bispo foi sobrecarregando-se cada vez mais de funções pastorais, administrativas, econômicas e magisteriais, e cada vez tinha menos tempo e energia para funções cultuais. Passou-se de uma eclesiologia de comunhão a uma outra que pôs o acento nos poderes dos ministros, preparando assim a passagem do culto comunitário para o culto ministerial, com assistência mais passiva por parte da comunidade. Juntamente com o desenvolvimento da função cultual, deu-se também uma sacerdotização do ministro e do ministério cultual, fruto da enculturação crescente no Império Romano. O sacerdócio batismal dos cristãos foi perdendo força em favor das tarefas cultuais dos presbíteros. A teologia da ordenação, por sua vez, foi-se constituindo ao longo do século III, até cristalizar-se no século IV com o Concílio de Niceia (325), que estabelece os critérios de demarcação do ministério episcopal e presbiteral. “Não resta dúvida”, conclui Juan Antônio Estrada, “que essa evolução teológica deve ser vista no contexto da implantação do cristianismo no Império, como uma religião com ritos, liturgia e ministros específicos. A enculturação desvirtuou o significado do sacerdócio cristão e amorteceu sua ruptura com o sacerdócio judaico como cargo consagrado e posto à parte, com funções de mediador”. É evidente que ocorreu uma rejudaização da concepção cristã do sacerdócio, mais tarde reforçada na Idade Média por uma compreensão sacrifical da vida de Jesus, que havia pago com seu sangue o resgate dos pecados humanos. O estreito vínculo entre bispo, presbítero e comunidade foi mantido durante os séculos III e IV na forma de escolha do bispo por todos, bem como no protagonismo crescente do clero, tanto na escolha, quanto na ausência do bispo. No início do século IV, “o papa Marcelo (308-309) organizou a Igreja de Roma em 25 paróquias, nas quais presidia o presbítero por causa da ausência do bispo” (Estrada, op. cit. p. 375, 379, 383, 387). 4 - Movimentos ascéticos: “O fenômeno do monaquismo surge na segunda metade do século III, tendo como seus primeiros representantes indivíduos solitários ou anacoretas” (Cavalcante, op. cit. p. 223). Vive-se um momento político conturbado, de sincretismo religioso incentivado pelo Império, de discriminações e perseguições intermitentes aos judeus e aos cristãos, o que gera intranquilidade, insegurança e medo quanto ao futuro. A perseguição sistemática e cruel do Imperador Décio (250) pode ter sido o motivo principal do surgimento do movimento, ao qual se soma o desejo de vida solitária, isolada (anacoretismo) e pouco mais tarde o eremitismo, como opção de vida pobre e despojada de bens materiais. Dentre os anacoretas, destacaram-se Antão (251-356) e Macário (300-391). Antão nasceu em Tebaida, Alto Egito, filho de pais abastados. Aos vinte anos (271), com a morte dos pais, distribuiu todos os bens herdados e foi viver no deserto. Sua fama de exímio pastor, grande conhecedor do deserto, homem austero, bondoso e sensato atraiu muita gente e em torno dele foram-se formando colônias de ascetas. Aos 65 anos aceitou que outros viessem morar perto dele, cada um em sua caverna, reunindo-se periodicamente, como uma comunidade, para rezarem juntos. Impressiona até hoje o fato de Antão ter vivido em ambiente extremamente hostil, morando em cavernas (passou 20 anos sem se deixar ver por ninguém), alimentando tão pouco, em quantidade e variedade, fazendo sacrifícios e jejuns e ter vivido 105 anos! Esse isolamento não o impediu de, por duas vezes, dirigir-se a Alexandria para atender interesses da comunidade local. 5 - Perseguições sistemáticas: A instabilidade política, que surge após a dinastia dos Severos (193-235 d.C.), leva as constituições romanas a perderem poder e a Igreja, como principal instituição espiritual do Império, a ganhar poder relativo. Com isso, ela passa a ser vista como uma ameaça à unidade do Império. Neste período intensificam-se as incriminações contra os cristãos em diferentes localidades e a Igreja passa a ser cruelmente perseguida pelo Império; como se verá no próximo capítulo.
Parte I Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
Parte II Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
Parte III Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII
XXIX
XXX
XXXI
XXXII