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IV - Rituais nas comunidades cristãs primitivas “Grande e crescente número de cientistas sociais definem o ritual como sendo uma forma de comunicação. Ele não só inclui certos padrões de linguagem; ele próprio é uma espécie de discurso, de palavra (...) ritual é ação simbólica, representando o que a sociedade (ou um grupo social) considera ser de primordial importância, ou até a estrutura da sociedade (ou do grupo)” (Meeks, op. cit. p. 295). Há consenso entre os estudiosos que os rituais mais antigos que nasceram e se enraizaram nas comunidades cristãs primitivas, ainda em ambiente judaico, foram a Eucaristia e o Batismo. Outros rituais tentaram se impor e não vingaram. Como assinala Theissen, “em Corinto havia esforços no sentido de transformar a glossolalia (falar línguas estranhas) em ritual de iniciação decisivo. E, no Evangelho de João, é visível a tendência de aprofundar a Eucaristia por meio do lava-pés quando não até mesmo substituí-la” (op. cit. p. 173). Não vingaram porque não tinham as raízes profundas que costumam sustentar os ritos. Batismo e Eucaristia ligavam-se entre si e, ambos, tinham fortes ligações com a vida, morte e ressurreição de Jesus. A Eucaristia surgiu do costume de Jesus de comer com todos que o seguiam. Na memória destes, a última refeição coletiva está relacionada com a morte de Jesus. Esta morte substitui, por outro lado, os sacrifícios antigos. O Batismo, desde sua origem em João Batista, traz consigo o sentido de iniciação, de acesso ao reinado de Deus. Os homens e mulheres que acompanharam Jesus de Nazaré em sua missão peregrina de anunciar e tornar realidade, embrionariamente, o reinado de Deus, certamente não se esqueciam das refeições compartilhadas em alegria e simplicidade. Naquele momento, mais do que em qualquer outro, todos se sentiam irmãos. Cada um colocava tudo – às vezes tão pouco – que trouxera, ou ganhara pelo caminho para compartilhar com todos. Era também o momento de alegre confraternização e de se verificar do que cada um precisava. Esta comensalidade de Jesus de Nazaré tornou-se mais forte com a recordação da última, relacionando-a inevitavelmente com a morte de Jesus. Após a ressurreição de Jesus, convencidos de que ele estava vivo entre eles, os discípulos foram criando comunidades em diferentes lugares. Cada uma compartindo suas lembranças, vivenciando novas formas de relacionamento e, provavelmente, revivendo e repetindo gestos de “repartir o pão”, em alegre fraternidade. É mais provável que se tenha surgido simultaneamente e em vários lugares o costume de refeições coletivas, quando o “repartir do pão” e o compartilhar o vinho era acompanhado de orações, cânticos, recordações, exortações e outras manifestações espontâneas. “A tradição mais antiga sobre essa refeição em comum está citada na Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor. 11, 23-26) – uma tradição que relaciona explicitamente essa prática com a história do sofrimento e morte de Jesus”. (Koester, 2, op. cit. p. 112) Outros grupos de seguidores não se referiam à paixão e morte na “partilha do pão “. É o caso das comunidades da Galileia e das comunidades do Evangelho dos Ditos, ou Evangelho Q. Uma tradição diferente, observa Koester, embora igualmente antiga e talvez refletindo mais diretamente a prática da refeição de Jesus e seus seguidores, sobreviveu nas orações eucarísticas da Didaqué. As diferentes tradições contêm três elementos comuns: 1) o cálice - símbolo da aliança; 2) o pão - símbolo da unidade da comunidade, da igreja, corpo de Cristo; 3) a refeição - antecipação do banquete no reino de Deus. As orações da refeição na Didaqué terminam com a exclamação: “Venha tua graça e passe este mundo. Maranata! Vem, Nosso Senhor!”. “A religião cristã primitiva- observa o sociólogo Gerd Theissen – oferece uma oportunidade única para se estudar (...) uma vigorosa transformação da linguagem ritual tradicional: naquele tempo, os sacrifícios foram substituídos por uma nova linguagem ritual – no judaísmo, em algumas correntes filosóficas e no cristianismo. Por razões muito diferentes, nesses três campos, chegou-se à eliminação do culto sacrificial” (op. cit. p. 171). À medida que as comunidades se expandem geográfica e culturalmente, incorporam irmãos, que não vivenciaram a experiência original da “partilha do pão”. Começam, então, a surgir problemas como se vê na Primeira Carta de Paulo aos Coríntios (anos 54-55): “o que vocês fazem não é comer a Ceia do Senhor, porque cada um se apressa em comer sua própria ceia. E, enquanto um passa fome, outro fica embriagado” (1 Cor. 11; 20-21). “Bem depressa experiências desse gênero levaram a separar a Ceia do Senhor do banquete normal e, ao mesmo tempo, aceleram a formação de uma estrutura litúrgica específica” (Ratzinger in Bento XVI, 2, op. cit. p 131). A estruturação do dia do culto ganha força e forma própria na medida em que as comunidades cristãs se distanciam das sinagogas, tradicionalmente local de culto, oração e instrução. A assembleia cristã e depois as igrejas/edifícios substituem o papel sócio religioso desempenhado pelas sinagogas. “No Apocalipse aparece pela primeira vez a expressão ‘Dia do Senhor’ para designar o domingo. No fim do século I, a tradição já está claramente fixada, quando, por exemplo a Didachë (pelo ano 100), como se de uma coisa totalmente óbvia se tratasse, afirma: No dia do Senhor reuni-vos, parti o pão e dai graças, depois de ter confessado os pecados” . “Assim, no início do século II, a formação do culto cristão, nas suas componentes essenciais, estava concluída” (Ratzinger, 2, op. cit. p. 134). A evolução posterior do ritual relativo à Eucaristia se conforma à observação geral de Burkhard Gladigow sobre rituais: “a crescente complexidade dos ritos está intimamente ligada à profissionalização da religião: eles são realizados por profissionais da religião – e, em contrapartida, eles legitimam tais especialistas porque somente eles sabem como um rito é realizado ‘convenientemente’. Contudo, a isso se liga também como motivo autônomo para o aperfeiçoamento do culto uma alegria estética” (in Theissen, op. cit. p. 178). O que não impediu – dado o grande prestígio de certas comunidades fundadas por um dos apóstolos – evoluções diferentes na celebração da Eucaristia. No século II, em Roma, existiam para a população móvel e dispersa vários lugares de culto presididos por sacerdotes. - “No Novo testamento, o termo ‘sacerdote’ era reservado a Jesus Cristo (Hb. 5, 6; 7, 24) e aos fiéis no sentido de um sacerdócio coletivo. Essa posição foi abandonada e o título de ‘sacerdote’ foi aplicado não no sentido metafórico, mas literal, ao bispo ou ao presbítero, como presidente da celebração eucarística. Por causa de sua função no culto, ele se atribuiu qualidade sacerdotal, marcando um afastamento entre ele e o povo na Igreja“ (Tertuliano, Exhort. cast. 7,3, in Lenzenweger, op. cit. p. 21). - “Com o conceito de koinomia-comunio (comunhão), que originariamente expressava a união com Cristo daqueles que nele creem, designava-se a união dos fieis, cujo centro era a Eucaristia. Em contrapartida, excluir da Eucaristia, ou seja, a excomunhão, marcava o rompimento com um pecador ou um herege” (Lenzenweger, op. cit. p. 17). O batismo de João, narrado nos Evangelhos, não era usual entre os judeus. Era um gesto novo, um chamado à conversão e um anúncio escatológico, do tempo em que Deus enviará alguém que “batizará vocês com o Espírito Santo” (Mc. 1, 8). Jesus se fez batizar por João, mas não assumiu a prática do batismo. Não sabemos quando as comunidades dos seguidores de Jesus retomam o batismo. Ao que parece, a prática do batismo é retomada simultaneamente entre os discípulos de João e de Jesus. O primeiro registro do batismo encontra-se, igualmente, na Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, onde o verbo batizar e o substantivo batismo são empregados várias vezes. Também na Carta aos Romanos, escrita no ano 56. O significado do batismo nas palavras de Paulo é quase uma descrição do rito: o batizado em sua relação com Cristo é mergulhado na morte: “somos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim nós vivamos vida nova”. O cristão e toda a comunidade, pelo batismo, estão ressuscitados em Cristo. Este é o fundamento da ética paulina, tornar-se o que já é: um novo homem. O batismo para Paulo “corresponde sempre à fase da morte no itinerário cristão, sendo a ressurreição do crente, pela fé, (a vida) pós-batismal” (Quesnet, op. cit. p. 106). A unção, que desempenharia papel importante nas liturgias batismais posteriores, só é mencionada uma vez nas cartas paulinas. O dom do Espírito Santo nelas mencionado, não indica como esse dom era simbolizado. “O centro da vida das comunidades era a reunião cultual, em que cada fiel se sentia unido com os demais. A ela tinha-se acesso (...) pelo batismo (imersão) em água corrente, ou em caso de necessidade por uma tríplice aspersão. Com orações e jejum, a comunidade acompanhava essa iniciação e a comunhão com o neófito era selada pela celebração eucarística”. “O nível ético do batizado, conforme a Didaqué o descreve segundo o exemplo judaico, tinha de corresponder à pretensão de ser ‘santo’, pois cumpria ‘guardar o batismo puro e imaculado’. A reforçada eticização da mensagem cristã, sob influência também de critérios estoicos, aparece assim como a sequela do renascimento operado pelo batismo” (Lenzenweger, op. cit. p. 16). “No século II, o catecumenato comporta três etapas: aquela durante a qual os audientes são instruídos na vida cristã e exercitam praticando-a. A preparação imediata dos eleitos; por fim, o batismo por tripla imersão, precedido por exorcismos, por uma longa vigília e seguido pela imposição de mãos, verdadeiro sacramento (confirmação)” (Pierrard, op. cit. p. 30). Há numerosos indícios para afirmar que a melodia e o canto normalmente eram partes das reuniões cristãs. A primeira descrição completa do rito cristão do batismo encontra-se na obra de Hipólito, escrita por volta do ano 220: a Tradição Apostólica. Deste culto e eloquente escritor romano – o último a escrever em grego, em Roma -, temos a mais antiga constituição eclesiástica preservada, onde de lê: “Os catecúmenos devem escutar a Palavra por três anos. Se algum deles for dedicado e atencioso, não lhe será considerado o tempo; somente o seu caráter, e nada mais será julgado”. “Os batizandos: escolhidos aqueles que receberão o batismo, examinar-se-á suas vidas: se viveram com dignidade durante o catecumenato, se honraram as viúvas, se visitaram os doentes, se praticaram apenas boas obras. O batismo; ao cantar do galo, rezar-se-á primeiro sobre as águas. Deve ser água corrente, na fonte ou caindo do alto, exceto em caso de necessidade: se a dificuldade persistir ou se tratar de caso de urgência, deve-se usar a água que encontrar. Os batizandos se despirão e serão batizados, primeiro as crianças, depois os homens e por último as mulheres, que deverão estar de cabelos soltos e sem os enfeites de ouro e prata que levaram. (O diácono, colocando as mãos sobre a cabeça do batizando, mergulha-o na água por três vezes). Depois de subir da água, (o batizado) será ungido com o óleo santificado pelo presbítero, que dirá: Unjo-te com o óleo santo em nome de Jesus Cristo. Após isso, cada um se enxugará e se vestirá, entrando, a seguir, na igreja”. - “O papel que a circuncisão representa no judaísmo – sinal de identidade e pertença – o batismo o representa, doravante, no interior deste grupo que assumiu sua autonomia em relação ao judaísmo que o fez surgir, e que merece o nome de cristianismo” (Quesnel, op. cit. p. 107); - “A mais antiga igreja conservada é a de Dura-Europos, na atual Síria. Funcionou como casa de oração cristã entre os anos 233 e 256. É uma casa como as outras, situada na esquina. A Igreja tem uma sala grande de reuniões, uma sala para ágape e um batistério. É de notar que o lugar do culto é voltado para o levante (lá de onde Abraão saíra). Em um dos lados havia uma pequena plataforma e nela a cátedra do bispo, o que corresponde às diretrizes da Didascália” (Hamman, op. cit. p.180).
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