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Parte III Modo de vida e o cotidiano das comunidades cristãs primitivas Os primeiros seguidores de Jesus não eram “cristãos”. Eram judeus. Não porque a expressão só tenha surgido, de fora para dentro, 15 ou 20 anos após a morte de Jesus. Paulo, que viveu durante algum tempo em Antioquia da Síria – onde pela primeira vez aparece o nome “cristão” – não conheceu o termo ou não o assumiu. O que se quer destacar é que a primeira geração de seguidores do CAMINHO, ou discípulos de Jesus, eram integralmente judeus: tinham o mesmo modo de vida, os mesmos hábitos sociais, civis e religiosos, as mesmas Escrituras Sagradas, as mesmas crenças, com algumas divergências, que vão se afirmando aos poucos. A nova fé, que tem por centro Jesus, sua vida e mensagem, surge e se expressa em uma matriz de modelo social muito enraizada: o judaísmo. Este modelo, em termos de modo de vida, era muito rígido; os judeus viviam, na diáspora, em bairros apartados, uma vez que não recebiam estrangeiros em suas casas e não comiam com eles, por suas exigências religiosas com relação à pureza e à alimentação. Com relação às interpretações doutrinárias – principal divergência em relação aos “nazareus” - os judeus eram bastante tolerantes, haja a vista a longa convivência de fariseus e saduceus, para não falar dos essênios. Aqueles que acreditavam na messianidade e na ressurreição de Jesus eram, para os demais judeus, os “nazareus”, uma entre muitas seitas então existentes. Eles próprios não se consideravam membros de uma nova religião. O primeiro conflito da comunidade cristã de Jerusalém com as autoridades judaicas, narrada em Atos, tem como causa a grave acusação de Estêvão contra os membros do Sinédrio (“traidores e assassinos”) e, como consequência, a morte de Estêvão e a expulsão exclusivamente dos helenistas. Os adeptos de Jesus que seguiam a Lei não foram prejudicados. Os hábitos religiosos dos judeus, cristãos ou não, eram, basicamente, os mesmos: oração três vezes ao dia, voltados para Jerusalém – mesmo depois de sua destruição – leitura da Torá nas sinagogas, a observância do sábado e dos demais preceitos previstos na Lei de Moisés e a comemoração das festas do povo escolhido de Deus. As maiores divergências começam a aparecer quando surgem as conversões de gentios; pessoas de contextos socioculturais os mais diversos, dentro de um ambiente greco-romano, e em alguns casos, bastante homogeneizado, como era o da bacia do Mediterrâneo, onde as comunidades cristãs se expandiram rapidamente. Vinte anos após a morte de Jesus, no ano 49, na reunião em Jerusalém - que passou a ser caracterizada como o Primeiro Concílio da nova “seita” - os não judeus convertidos foram dispensados de exigências fundamentais das Escrituras Sagradas do Judaísmo. Ao favorecer, cultural e religiosamente, a conversão dos “tementes a Deus” e demais gentios, o CAMINHO se tornou mais aceitável para todos os cidadãos do Império Romano. Ao desprender-se progressivamente do modo de vida dos judeus, os seguidores do CAMINHO se integram cada vez mais no ambiente greco-romano. É verdade, como diz Potestá, que “até a metade do séc. II as Igrejas permanecem intimamente imbuídas de tradições doutrinárias, literárias e morais judaicas. Ao mesmo tempo dão prova de crenças e interpretações divergentes e conflitantes com relação a elas e começam a delinear estilos de vida e comportamentos característicos dos cristãos”. Por volta do ano 110, Inácio, bispo de Antioquia, em carta aos cristãos de Magnésia, lembra aos fieis que a práxis do cristianismo não era a mesma do judaísmo. Donde se vê a busca da afirmação dos costumes cristãos e de sua origem judaica. A Didaqué, ou Doutrina dos Doze Apóstolos - “o mais antigo compêndio subsistente de diretrizes da igreja cristã, composto em algum momento ao longo do século II, mas incluindo materiais preciosos do século I, muito provavelmente das primeiras igrejas da Síria” (Koester, op. cit. 2, p. 174) - propõe para os cristãos uma catequese de princípios básicos da doutrina cristã. O “caminho da vida” recomenda: “Não faça a outro nada que você não quer que façam a você (...). Busca a perfeição evangélica do amor de Deus e do próximo: esmolas, comunhão de bens, fraternidade, ausência de inveja, respeito para com os mestres da fé”. O “caminho da morte” é um catálogo de vícios. “É mau e cheio de maldições: homicídios, adultérios, paixões, fornicações, roubos, idolatrias, práticas mágicas, rapinas, falsos testemunhos, hipocrisias, duplicidade de coração, fraude, orgulho, maldade, arrogância, avareza, conversa obscena, ciúme, insolência, altivez, ostentação e ausência de temor de Deus” (in Cavalcanti, op. cit. p. 108), Embora a Didaqué, seja dirigida à formação de catecúmenos (iniciantes na fé cristã) ela lembra o tipo de instrução que era passada para os prosélitos nas sinagogas. No meio do caminho cronológico que vai do surgimento das primeiras comunidades dos seguidores de Jesus à ascensão do cristianismo à condição de religião oficial do Império, surgem fatos que irão balizar, por muito tempo, o modo de vida dos cristãos no Império Romano. Eles representam a consolidação de tendências anteriores que irão direcionar e permear o caminho da Igreja por muitos séculos. Observam-se em meados do século II os seguintes fatos: 1 - Os cristãos gentios passam a ser maioria. É de Justino (100-160), professor de filosofia em Éfeso e Roma, a afirmação: “Já há mais convertidos provenientes dos cultos pagãos do que convertidos judeus e samaritanos “. Deslocado o centro de gravidade do cristianismo do mundo judaico para o mundo greco-romano, os cristãos se veem mergulhados num meio tolerante às religiões, mas carregado de preconceitos em relação a esse estranho grupo acusado de ateísmo, superstição irracional, mau comportamento ético e de oposição geral ao Estado e à sociedade. No decorrer do século II a polêmica vulgar contra os cristãos passou para o domínio literário; surgiram panfletos em que os autores pagãos, do alto de sua consciência cultural helenista, apresentavam sua crítica. Luciano de Samósata, numa sátira, tenta ridicularizar os cristãos. O filósofo Celso escreve um livro contra os cristãos. “A difamação social, moral e intelectual caracteriza o espectro da propaganda pagã (...) e desemboca na denúncia de ateísmo e irreligiosidade. Para os romanos tal acusação era muito pesada, porque na mentalidade do paganismo antigo o bem público dependia do culto aos deuses” (Lenzenweger, op. cit. p. 27). Neste ambiente hostil, os cristãos têm que “competir” em virtudes com os não cristãos e rebater, através de seus intelectuais, as acusações vulgares e eruditas; 2 - O declínio dos movimentos proféticos, que são tratados com desconfiança tanto na Didaqué, quanto em Pastor de Hermas - dois documentos da época fundamentais sobre comportamentos desejáveis dos cristãos; 3 - As expectativas escatológicas começam a se diferenciar, em função da demora da esperada parusia e na necessidade dos cristãos se posicionarem na história. Justino espera que Jesus volte um dia para instalar seu Reino numa Jerusalém reconstruída. Hipólito “calcula” que a parusia irá demorar cerca de 300 anos. Irineu mantém a expectativa do Reino de Deus terreno, depois da vinda do Anticristo. “Entre os séculos II e III, o cristianismo estava ainda amplamente entranhado de expectativas do fim, às vezes espasmódicas, cujas características se percebem pelas críticas dos adversários” (Potestá, op. cit. p. 45). Tanto no âmbito dos lares cristãos como na relação destes com os bispos e presbíteros, a Igreja vive um período de “patriarcalismo amoroso”, suavizando as relações sociais autoritárias dominantes no lar e na sociedade. Desenvolveu-se igualmente “até mesmo um etos de uma acentuada lealdade ao Estado” (Theissen, op. cit. p. 64); 4 - A consolidação da estrutura episcopal monárquica, cuja tríade “bispo-presbítero-diácono” é defendida por Inácio de Antioquia, desde o ano 108: “Realizou-se nos últimos 30 anos do século II uma verticalização das comunidades. O estabelecimento do governo monárquico do bispo não pode ser, portanto, considerado resultado de um processo quase natural de superação do regime de assembleia. Ele se delineia como escolha lucidamente feita ao longo da diretriz Ásia Menor-Roma, provavelmente também para se opor à autoridade de profetas e teólogos (gnósticos) que pretendiam que somente os próprios carismas e as próprias visões, abrissem aos discípulos percursos de salvação”; 5 - A Igreja de Roma passa a representar uma das comunidades de maior importância, para onde convergem alguns dos cristãos intelectualmente mais significativos da época, como Justino, Valentino e Marcião, filho de um bispo do Ponto. No início do século III as igrejas mais importantes são: Roma, Alexandria, Antioquia, Cartago e Lyon. Em 251, segundo o historiador Eusébio de Cesareia, “a Igreja de Roma mantinha, com a oferta dos fieis, 154 membros do clero (bispos, presbíteros, diáconos) e 1.500 viúvas, órfãos e pobres. O numero de pobres era superior ao dos membros de qualquer outra associação citadina” (in Potestá, op. cit. p. 46); 6 - O surgimento do montanismo como reação carismática contra a acomodação e afrouxamento dos costumes, rigidez na hierarquização da Igreja, redução do espaço das mulheres. O montanismo cativou pessoas da envergadura de Tertuliano (166-220). Para G. Frediedrich “o montanismo foi a última grande cristalização da profecia na Igreja. Quando ele foi enfrentado e vencido, a função institucional obteve uma vitória decisiva sobre o carisma” (in Bonneau, op. cit. p. 276); 7 - O início da preocupação com o estabelecimento de um cânon cristão das Escrituras, uma vez que circulavam, por essa época, vários evangelhos, hoje chamados de apócrifos, que, com o nome dos apóstolos, propagavam doutrinas duvidosas e narrativas fantasiosas da vida de Jesus. “Pondo a questão de um cânon bíblico próprio dos cristãos, Marcião abre uma fase nova na progressiva aquisição por parte do cristianismo de um perfil autônomo em relação ao judaísmo” (Potestá, op. cit. p. 41). “Consumada a ruptura entre as comunidades judaicas e cristãs – doravante duas religiões, rapidamente os cristãos manifestam a pretensão de substituir, pura e simplesmente, os judeus na história da salvação”. Marcião, por volta de 140, propõe abandonar a Bíblia hebraica. Justino, por volta de 150, escreve: “A raça israelita verdadeira, espiritual, a de Judá, de Jacó, de Isaac e de Abraão (...) somos nós, nós que este Cristo crucificado conduziu a Deus (...)” (Meunier, op. cit. p. 15); 8 - A superação no plano doutrinal das tendências gnósticas “graças à parcial e eficaz recuperação delas realizadas por dois mestres alexandrinos entre o fim do século II e a metade do século III. Polemizando com autores gnósticos, Clemente e Orígenes reinterpretaram boa parte daquele horizonte doutrinal no qual eles mesmos tinham se formado” (Potestá, op. cit. p. 46). É desta época a Carta a Diogneto, de autor desconhecido, provavelmente de Alexandria, que descreve o modo de vida dos cristãos: “eles não se diferenciam dos outros homens nem por território, nem por língua, nem por vestimentas (...). Habitando nas cidades gregas e bárbaras, como cabe a cada um, e conforme os usos locais no que se refere ao vestuário, à alimentação e ao resto da vida cotidiana, mostram, na opinião de todos, o caráter admirável e extraordinário de seu sistema de vida (...). Obedecem as leis estabelecidas e com sua vida superam as leis (...) os cristãos, estando no mundo são visíveis, mas o culto que dirigem a Deus permanece invisível (...). Os cristãos se casam como todo mundo. Têm filhos, mas não abandonam seus recém nascidos (in Potestá, op. cit. p. 32). “Uma das novidades do Evangelho era a de ensinar a igualdade do homem e da mulher, a grandeza da virgindade e a dignidade e indissolubilidade do matrimônio. Indissolubilidade e fidelidade, restabelecidas, especialmente no tocante ao marido, pareciam exigências inauditas” (Hamman, op. cit. p. 55). O aborto era moeda corrente em todas as classes da sociedade, no Egito, como em Roma. A exposição das crianças não era flagelo menor. No tempo de Marco Aurélio (161-180), a patrícia que desposasse um plebeu perdia seu título de claríssima (“ilustríssima”). Por isso viam-se moças aristocratas vivendo em concubinato com libertos e até com escravos para não perderem seu título. Tertuliano exortava vivamente a jovem cristã a preferir a nobreza da fé à nobreza do sangue. O papa Calisto (217-222) manifestou-se mais compreensivo com essas situações, reconhecendo como legítimos, no foro interno, esses casamentos contraídos mais ou menos na clandestinidade. Hipólito, o maior teólogo da época, em Roma, escandalizado, recrimina o papa, dizendo: “Às mulheres sem marido e na força da idade, ardendo de amor por um homem indigno de seu nível (isto é, de nível inferior ao seu) e não querendo sacrificar o seu, ele (o papa) permitiu como coisa lícita unir-se ao homem, escravo ou livre, que elas escolheram como companheiro de leito, e, sem serem casadas diante da lei, considerá-lo como marido” (Hartmmnan, op. cit. p. 57). Como se vê eram novas e complexas as situações vividas pelo cristianismo numa sociedade sem o marco regulatório da Lei de Moisés, tendo que aplicar os princípios gerais da Boa Nova – como a igualdade entre homem e mulher, entre senhor e escravo, o desapego do dinheiro e do poder, o amor a Deus e ao próximo sobre todas as coisas - às situações concretas de uma nova sociedade que também prezava e zelava pelos seus bons costumes. Pondera o sociólogo e doutor em teologia Gerd Theissen: “Não obstante se tenham originado de um movimento dissidente de animados andarilhos carismáticos, com um etos radical, esses grupos (os cristãos), em tempo relativamente curto, tinham se tornado independentes de suas origens, desenvolvendo-se num etos muito mais moderado. Mas também nesse etos moderado, a radicalidade original continuava a produzir seus efeitos” (op. cit. p. 163).
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