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Parte III Texto XXII “O caminho” se fez caminhando...
Parte II II - As estratégias Depois de seus primórdios na Palestina – com itinerantes e comunidades locais, inclusive entre os marginalizados, como os cegos, os leprosos, as prostitutas (tão presentes na vida de Jesus de Nazaré) – o cristianismo torna-se um fenômeno predominantemente urbano. Segundo Meeks: “Há uma década da crucifixão de Jesus, a cultura das aldeias e vilarejos da Palestina havia sido deixada para trás e a cidade greco-romana se transformou no ambiente dominante do movimento cristão. Assim permaneceu ela, desde a dispersão dos “helenistas” de Jerusalém até bem depois da época de Constantino. O movimento havia superado a divisão mais fundamental na sociedade do Império Romano, a divisão entre o povo rural e os habitantes da cidade, e os resultados demonstrariam ser importantes (op. cit. p. 35-36). Esse processo de “urbanização e helenização” do cristianismo foi literalmente entusiástico – “movido pelo Espírito Santo”, como é dito em Atos – mas não simplesmente espontâneo. O caminho percorrido de fato – cujo principal protagonista foi Paulo, pelo sucesso dos resultados, permite supor algumas decisões estratégicas a seguir pontuadas: a) divisão de responsabilidades e funções entre as lideranças mencionadas em Atos (apóstolos, anciãos, algumas mulheres, entre as quais Maria, os irmãos de Jesus, o grupo de helenistas, Judas, Silas, Paulo, Barnabé...), definindo a área de trabalho e o público-alvo de cada um. A reunião realizada no ano de 49, em Jerusalém, provocada por Barnabé e Paulo (dois judeus da diáspora) parece ter envolvido mais decisões do que aquelas relatadas nos Atos. O fato é que: - os irmãos de Jesus, da família de Davi, ficaram em Jerusalém: Tiago, o Justo, dirigiu a comunidade local até sua morte em 62. Simeão, ou Simon bar Klopas (62-107), primo de Jesus e Tiago, sucedeu-lhe e liderou a transferência da maior parte dos cristãos de sua comunidade para Pela – região a leste do Jordão, ambiente das cidades helenistas – antes da primeira guerra judaico-romana em 66, conforme Hegésipo (O Imperador Domiciano (81-96) prendeu dois sobrinhos-netos de Jesus, netos de seu irmão Judas, porque eles eram da casa de Davi, e depois os libertou quando ficou constatado que, apesar de cristãos, eles não passavam de simples camponeses) (Koestes, 2, op. cit. p. 218). Judas de Jerusalém, (-- -135), décimo quinto bispo local, que viu a cidade ser completamente destruída e passar a ser chamada de Aelia Capitolinia, era bisneto de Judas “irmão de Jesus” e foi o último bispo de Jerusalém de origem judaica, conforme Epifânio de Salamina e Eusébio de Cesareia. “As fontes permitiram distinguir três grandes grupos de matriz judeu-cristã: os nazoreus (ou nazarenos) propriamente ditos (na Judeia e na Palestina), ebionitas (= pobres, na Palestina) e elcasitas (na Mesopotâmia). Significativamente, os bispos do séc. II do Adiabene (região para além do Tigre) todos têm nomes hebraicos” (Potestá, op. cit. p. 25); - os helenistas, ou seja os judeus-cristãos que tinham como língua corrente o grego, depois da morte de Estevão, em 42, portanto antes da reunião conciliar de Jerusalém, já haviam se dirigido a Damasco, à Fenícia, à ilha de Chipre, à Cirene e à cidade de Antioquia. Os círculos dos sete assumem uma missão urbana (Samaria, Cesareia e Antioquia), pregando nas sinagogas e nas casas; - Pedro, João e Felipe dirigiram-se a Samaria. Felipe, auxiliado por suas 4 filhas profetisas, atuou na Samaria; fez de Cesareia sua base missionária e depois teria se dirigido a Hierápolis. Pedro teria se dirigido a Antioquia, capital da Província Romana da Síria, onde se tornou o primeiro bispo. Há indícios de que Pedro tenha estado por volta de 52-54 na Babilônia, onde a comunidade judaica era, segundo a Encyclopedia judaica, de cerca de 800 mil; - João – de quem se tem poucas notícias – é provável que, deixando a Samaria, tenha se dirigido à Galileia. Depois, acompanhando sua comunidade, que fugia dos horrores da guerra, João foi se refugiar em cidades da Decápole e, por fim, em Éfeso; - missionários da Fonte Q, em geral “casais trabalhando de casa em casa, constituem, no território compreendido entre a Galileia e a Síria, uma rede de casas isoladas e espalhadas de simpatizantes dentro das menores e maiores comunas” (cf. Martin Ebner, op. cit. p. 27); - Tomé, segundo o historiador Eusébio, teria atuado na Síria, na Pérsia e na Índia; - Bartolomeu/Natanael teria levado a Boa Nova à Índia (onde o filósofo e teólogo Panteno, que dirigiu, no século II, a Escola de Catequese de Alexandria, em viagem pelo país, teria constatado vestígios da atuação de Bartolomeu); - Barnabé buscou Paulo em Tarso e juntos estruturam a comunidade de Antioquia, deixando ali uma equipe bem eclética. Acompanhado de Paulo e João Marcos, Barnabé se concentrou nas regiões de Chipre, Síria e Cilícia; - Paulo, depois de três anos na Arábia (35-38), onde provavelmente concentrou sua atividade em florescentes cidades helenistas como Pela, Gerasa, Filadélfia e Borsa, se junta a Barnabé. Depois, discordando deste, toma como companheiro de missão Silas/Silvano – que já havia cumprido missão junto aos irmãos de Antioquia, Síria e Cilícia – e concentra seu trabalho na Ásia Menor (Psídia, Lacónia e Galácia) e na Europa (Grécia e Macedônia – nas cidades de Filipos, Tessalônica e Bereia). Permanece mais tempo em Corinto e em Éfeso. Paulo, estrategicamente, concentrou sua “missão” nas cidades capitais das províncias do Império, pela sua importância como entroncamento comercial, administrativo e cultural. b) buscar as comunidades judias da diáspora, principalmente aquelas em que a percentagem de judeus era maior. Nas cidades das províncias ocidentais (locais cobertos pela atividade de Paulo e sua equipe) a percentagem de judeus chegava a um quarto da população total, contra uma porcentagem média de 10% no Império. Estas comunidades dispunham de sinagogas – onde podiam falar, uma vez que o Caminho era reconhecido até então, como uma das muitas seitas judaicas – de escrituras sagradas, além da língua comum, solidariedade grupal, apoio mútuo e assistência nas necessidades. O fluxo contínuo de dinheiro, mercadorias, informação e correspondências oficiais (da administração do Templo) e particulares entre estas comunidades e Jerusalém pesava na decisão. Num primeiro momento, os missionários e os convertidos estavam em seu ambiente cultural, podendo ser judeus-cristãos, sem confrontar com outros da comunidade; c) fazer discípulos principalmente entre os “tementes a Deus”, gentios a meio-caminho da adesão total ao judaísmo, com resistência à adoção da circuncisão – considerada por eles, frequentadores de banhos público, obscena e antiestética – e das interdições alimentícias da Torá. Exigências essas dispensadas pela nova modalidade de fé judaica, o Caminho. É provável que a maior parte dos tementes a Deus tivesse um nível de prestígio e riqueza superiores à média dos demais gentios, o que proporcionava aos seguidores de Jesus mais credibilidade junto aos gentios e aos judeus, bem como assistência econômica e proteção política; Outras decisões estratégias podem ter sido mais específicas de Paulo: d) recrutar colaboradores, homens e mulheres, entre artesãos capazes e dispostos a associar viagens missionárias e auto sustentação. Paulo, ele próprio, carregava seus instrumentos de trabalho e tinha orgulho de não depender financeiramente das comunidades. Para Paulo, sua identidade com o trabalhador manual tinha um significado evangelizador; e) recrutar e formar auxiliares para trabalhar em equipe nas viagens missionárias e na consolidação das igrejas em cada cidade. O casal colega de profissão – fabricantes de tendas ou toldos – Priscila e Áquila (o nome dela, estranhamente, vem à frente em varias citações) torna-se muito presente na vida de Paulo. Os dois, judeus, já teriam sido convertidos em Roma, quando Paulo os conheceu, no ano 50. Apolo (Apolônio), fervoroso judeu de Alexandria, “homem eloquente e muito versado nas Escrituras, foi introduzido a um conhecimento mais completo do caminho de Deus por Priscila e Áquila e passou a integrar a equipe de Paulo”. Timóteo, nascido em Listra, a 200 km de Tarso, filho de mãe judia e pai pagão, a quem Paulo chamava “meu verdadeiro filho na fé comum”, deu continuidade ao trabalho da Paulo e teria sido o primeiro bispo de Éfeso, conforme testemunho do historiador Eusébio de Cesareia. Tito, de nome latino e origem pagã, tornou-se um grande colaborador e teria se tornado o primeiro bispo de Creta. Paulo contou com dezenas de colaboradores; alguns arriscaram a vida por ele, outros foram companheiros de viagens missionárias e de prisão. Na carta aos Romanos, Paulo cita, nominal e carinhosamente, 26 homens e mulheres; f) Delegar responsabilidades e funções aos companheiros(as): através da criação das igrejas domésticas, Paulo abre espaço para as mulheres exercerem funções de coordenação, expandindo o papel que lhes conferiam a sociedade judaica e a greco-romana (É verdade que houve uma reação posterior por parte da cultura dominante, cerceando-lhes o poder). Ele permitiu a formação, em Filipos, de uma comunidade (eklesia) só de mulheres, o que era um absurdo na cultura judaica; entregou a Tito a pacificação da difícil comunidade de Corinto e a missão de organizar uma coleta em favor dos irmãos de Jerusalém; fez de Timóteo coautor das cartas a Filémon e aos Filipenses; conferiu a Febe a função de diaconisa da comunidade de Cencreia e a Júnia o título de apóstola (“Andrônico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, apóstolos importantes, que se converteram a Cristo antes de mim” – Rm. 16,7). Alguns manuscritos mais antigos, incomodados com o título de apóstola, tentaram transformá-la em Júnio; g) Introdução da catequese à distância através das cartas, onde Paulo responde a dúvidas, traça orientações práticas e elabora uma teologia temática, de acordo com a necessidade de cada comunidade. Reforça assim a unidade na diversidade; h) Instalação de uma escola catequética, na casa de Tiranos, em Éfeso, onde ensinava diariamente, e um centro reprodutor e divulgador de suas cartas, em reforço à transmissão oral, boca a boca, da Mensagem e ao intercâmbio entre comunidades. (Talvez Paulo tenha morrido antes de ver este projeto funcionando); i) Assentar as bases conceituais teóricas para o Caminho transitar da cultura/linguagem rural, judaica, para a cultura/linguagem urbana, greco-romana; da tradição oral para a tradição escrita – o primeiro texto cristão preservado é de Paulo, do ano 50; do messianismo tribal, judaico, para um messianismo universal. Paulo elaborou um marco referencial teórico da fé cristã tão próprio e sólido que muitos teólogos o consideram o maior entre eles na história do Cristianismo. Aproveitando a “logística” do Império – estradas pavimentadas e rotas marítimas pacificadas, portos e frota mercante adequados, centros administrativos, como ilhas culturais, nas cidades capitais das províncias, uma língua de uso corrente (grego coiné) – o cristianismo expandiu-se rapidamente e manteve-se diversificado e unido. Constata-se alto grau de coesão e identidade de grupo, como também de intercâmbio com outras igrejas, onde o “crente” é sempre recebido como um “irmão”. Essa unidade na diversidade autorizava o bispo Inácio de Antioquia, por volta do ano 110, falar em igreja católica, ou seja, universal. “A primazia de uma determinada igreja local não abolia a consciência da comunhão universal na fé. O ‘novo povo’ (cf. 1 Pd. 2, 9) dos cristãos considerava-se inicialmente como consumação de Israel, mas ultrapassou conscientemente todo limite de nacionalidade. Também o discurso sobre os cristãos como a ‘terceira espécie’ (ao lado dos gregos e dos judeus), fundada pela natureza espiritual de seu culto, expressava a pretensão de universalidade” (Peter Stockmeier e Johannes B. Bauer, in Lenzenwegen, op. cit. p. 17). As divergências doutrinárias e litúrgicas, como a data da Páscoa, forçaram as igrejas a buscar novos mecanismos de entendimento e decisão colegiados: surgem os encontros regionais. Em meados do séc. III, Sínodos foram realizados no Norte da África, com cerca de 100 participantes, entre os quais 70 bispos. Estes sínodos regionais geraram mais tarde os Concílios Ecumênicos para tratar da unidade universal. Fonte: Meeks, Wayne A. Os Primeiros Cristãos Urbanos: O Mundo Social do Apóstolo Paulo - Santo André: Academia Cristã / Paulus Editora, 2011.
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