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Parte III Texto XXI “O caminho” se fez caminhando...
Parte I I - A expansão: plural, unida e universal Primeira cena: Jerusalém, ano 30 d.C., Atos dos Apóstolos, texto em grego: “Eram perseverantes em ouvir os ensinamentos dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. Todos os que abraçavam a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo” (At.2,42-46). A multidão dos fieis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles. E todos eles gozavam de grande aceitação. Entre eles ninguém passava necessidade. “Uma espécie de comunismo ético-religioso, ditado por espírito de sacrifício, alheio a qualquer constrangimento” - comentário de Bihlmeyer, citado por Bento XVI. Segunda cena: ano 197 d.C., Tertuliano, de Cartago / África, texto em latim: “Somos de ontem e já enchemos a terra e tudo o que é vosso: as cidades, o comércio, os lugares fortificados, os municípios, os povoados, os campos, as tribos, as escuderias, os palácios, o senado, o fórum. Deixamos para vós só os templos”. O concílio da África, em 220 d.C., ou antes, contou com a presença de 70 bispos. Pouco mais de 150 anos separam as duas cenas. A primeira, do ano 30, refere-se a uma comunidade pequena, de judeus nativos, que falavam hebraico, ou da diáspora, que falavam também o grego. A maioria, inclusive a liderança, era proveniente de ambiente rural da Galileia, de idioma aramaico. A segunda cena encontra-se em Apologeticum, obra escrita por Tertuliano, um advogado culto, que escrevia bem e muito, em latim e grego, nascido em Cartago, na África, filho de um Centurião romano. O pano de fundo da primeira cena é o majestoso Templo de Jerusalém; da segunda cena, universal, ficam de fora “só os templos pagãos”. O livro Atos dos Apóstolos foi composto pelo final do século I, ou início do século II, portanto, seu autor pertencia à terceira geração do cristianismo. Dificilmente ele foi testemunha dos eventos que descreve. Mais do que descrição de fatos históricos, a narrativa dos Atos dos Apóstolos é uma exortação a um ideal e uma apologia da comunidade cristã perseverante nos ensinamentos, na convivência fraterna, na comunhão de bens espirituais e materiais, na oração e na ação missionária. “A obra de Lucas é a primeira peça de literatura cristã escrita na perspectiva apologética dirigida conscientemente ao leitor pagão. ela assinala o início das tentativas de apresentar a essência da fé cristã aos que não pertencem à comunidade de fieis” (Koester, 2, op. cit. p.52). Escrito em grego, com recursos estilísticos e dramáticos característicos da epopeia greco-romana – emblemática em Eneida de Virgílio - o autor de Atos descreve a criação da nova comunidade cristã. Uma história em que o herói, Jesus, nasce em Belém, cidade do Rei Davi e morre em Jerusalém; esta é a primeira parte, o Evangelho. A segunda parte apresenta a história da comunidade cristã – o termo cristão aparece aqui pela primeira vez entre todos os escritos cristãos primitivos – que, começa em Jerusalém e, movida pelo Espírito Santo, leva, por intermédio de Paulo, a mensagem do Reino de Deus, até Roma, capital do Império. Daí o Reino de Deus se estende “até os confins da terra”. O esquema narrativo do autor o impediu de discorrer sobre outras comunidades cristãs primitivas. É pouco plausível que as primeiras comunidades de seguidores de Jesus não tenham surgido na Galileia, onde se concentrou sua atividade missionária e na Samaria, esta mencionada, de passagem, em Atos. Certamente elas foram anteriores ou concomitantes à de Jerusalém. A principal fonte de informações sobre estas comunidades estaria em um documento que se perdeu. Parte deste documento, denominado “Evangelho Q (Quelle = fonte), ou “dos Ditos”, ou “tradição das palavras”, foi preservado nos Evangelhos de Mateus e Lucas. Ditos, sentenças, milagres, histórias, parábolas, teriam sido transmitidas oralmente e, em algum momento entre os anos 40 e 70, foram coletados, provavelmente por “helenistas” , judeus-cristãos, cuja primeira língua era o grego. Seriam” aproximadamente 225 a 250 versos, ou um texto grego de 3.519 palavras, com um vocabulário total de aproximadamente 760 palavras, conforme o International Q Project” (Hustado, op. cit. p. 293), o que comprova o interesse e o rigor com que o documento vem sendo estudado. Além destas fontes sobre as comunidades cristãs primitivas teríamos o Evangelho de João como fonte de informação, uma vez que a comunidade que ele representa teria originado na Galileia, com forte protagonismo das mulheres e de carismáticos. É certo que Jesus viveu um radicalismo ético, itinerante, no sentido em que renunciou a um lar, família e bens. Seus discípulos mais próximos também. “Se as palavras de Jesus não tivessem sido aceitas e praticadas de uma forma ininterrupta e fossem notoriamente ignoradas, dificilmente elas teriam podido preservar-se além de uma ou duas gerações. Por outro lado, este radicalismo ético, itinerante, não tem como subsistir por muito tempo: “só tem chance na margem da sociedade”, como observa o sociólogo Gert Theissen. “O comportamento recomendado na tradição das palavras (ditos) era praticado em, pelo menos, um lugar do cristianismo primitivo: i.e., era praticado pelos carismáticos itinerantes, pelos apóstolos, profetas e missionários, que eram, não exclusivamente, os portadores da tradição da palavra”. (Hurtado, op. cit. p. 327). Eles devem ter encontrado acolhimento, sobretudo entre aquelas pessoas que estavam, elas mesmas, situadas à margem da sociedade: entre os cansados e sobrecarregados, entre os pobres e famintos, aos quais eles endereçavam a bem-aventurança em suas palavras” (Theissen, op. cit. p. 49). Certamente estes itinerantes, aparecem primeiramente na Galileia e são de estrato campesino: pequenos camponeses, diaristas, arrendatários, pastores e donos de pequenas vinhas. Eles saem a anunciar a Boa Nova em vilarejos e dependem da boa vontade dos outros para subsistir. É evidente que não podiam constituir a maioria, formada por simpatizantes locais, ou chefes de família. Esta existência apátrida de itinerantes carismáticos, a-familiar, perdura até pelo menos o século II, como testemunham Papias e a Didaqué, que vê neles “o modo de viver do Senhor”. As fontes mencionadas, acrescidas das sete cartas autênticas de Paulo – todas escritas na década de 50, ou seja, 20 anos depois da morte de Jesus de Nazaré - sugerem que “o cristianismo do primeiro século era composto por vários grupos, com complexidade e variáveis de elementos e ênfases. Além disso, frequentemente (talvez caracteristicamente) havia dentro de cada grupo uma variedade ou um repertório de crenças, ênfases e modos de expressão cristológica”. “Houve diferenças que dividiam, mas, talvez ainda de forma ainda muito mais característica, houve vários grupos de diversos caracteres policromáticos interagindo em um vivo intercâmbio” (Hurtado op. cit. p. 327). Entre as primeiras comunidades dos seguidores de Jesus, a liderança que mais se destavava era a de Judas, o Justo, irmão de Jesus. Ele presidiu a comunidade de Jerusalém até sua morte, no ano 62. Segundo o historiador Eusébio de Cesareia, as autoridades de Jerusalém “não conseguindo mais suportar o testemunho daquele que, por causa do levado nível que tinha atingido na virtude e na piedade, era considerado o mais justo dos homens, mataram-no, usando como ensejo a anarquia reinante” (op. cit. p. 72). Como judeu, fiel observador da Lei, a maior preocupação de Judas, como se depreende da carta escrita em seu nome (Epístola de Tiago), por algum de seus discípulos, por volta dos anos 80 a 90, “é como manter o equilíbrio adequado entre a devoção à Torá e a fé em Jesus como messias” (Aslan, op. cit. p. 223). As comunidades sob a liderança de Tiago eram bastante diferentes das comunidades de João e, ambas, diferentes das comunidades paulinas. Segundo Justo González (op. cit. p. 25), são escassíssimas as informações acerca de missionários ao estilo de Paulo e Barnabé. Ao que parece, a enorme difusão geográfica do cristianismo não se deveu tanto ao labor de missionários, ou pregadores itinerantes, mas sim aos mercadores, escravos, e outros cristãos, que, por diversas razões, se viam obrigados a viajar e que iam levando sua fé de um lugar para outro. É evidente que este modo de propagação da fé favorecia a unidade de sentimentos, valores e até certo ponto de comportamentos, mas também grande diversidade doutrinária. - 10 anos após a morte de Jesus de Nazaré – um “marginal”, de uma cidade marginal, crucificado como subversivo, numa província marginal do Império – seus discípulos já se faziam notar na capital do Império; - “25 anos após a execução de Jesus na Palestina, pelo Procurador Romano Pôncio Pilatos, a lista de saudações da epístola aos Romanos (c 56 d.C.) atesta a existência de sete comunidades na capital do império mundial” (Martin Ebner, in Kaufmann, op. cit. p. 25); - Até o fim do século I o cristianismo expandiu-se pela Palestina, Síria, Ásia Menor, Chipre, Grécia, Roma, e possivelmente pelo Egito e pela Ilíria, Dalmácia, Gália e Espanha. Quando Atos dos Apóstolos foi publicado, em fins do séc. I ou início do séc. II, os autores registram como estando em Jerusalém, no dia de Pentecostes, representantes daqueles lugares em que a presença de cristãos já era, então, uma realidade: “Entre nós há partos, medos e elamitas, gente da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da região vizinha de Cirene; alguns de nós vieram de Roma, outros são judeus ou pagãos convertidos; há também cretenses e árabes” (At.2,9-11). - No final do séc. I os judeus já não eram maioria entre os cristãos. - Até o fim do século II, o cristianismo já havia chegado à Mesopotâmia, Itália meridional, Gália, Espanha, Germânia e norte da África. “O bispo Dionísio de Corinto dirigiu, por volta do ano 170, ‘cartas católicas’ (Eusébio, Hist. eccl. IV,23,1) a numerosas comunidades, muito além de seu próprio bispado, testemunhando destarte a universalidade da unidade da Igreja antiga” (Lezenweger, op. cit. p. 17). “No decurso do século II o episcopado monárquico impôs-se em toda parte e, nos conflitos que iam surgindo, comprovou ser o eixo da autoafirmação eclesiástica o regimento eclesiástico de Hipólito (por volta do ano 215)”; - “No século III, o cristianismo cresceu numa rapidez exorbitante [.] É bem consistente a tese de que no final do século III, o cristianismo havia se tornado quantitativamente a maior comunidade religiosa fechada do Império” (Markschies, in Kaufmann, op. cit. p. 52). A composição do cristianismo do século III não se diferenciava muito do restante da sociedade. Bem cedo já havia atingido também as camadas mais altas da sociedade. “Por volta do ano 200, nos territórios do Império, deviam viver cerca de 200 mil cristãos, num total de 60 milhões de habitantes. Um século mais tarde, os cristãos representam um número compreendido entre 5% a 10% da população do Império” (Potestá, op. cit. p. 35). “O regimento eclesiástico de Hipólito (por volta do ano 215) confiou ao bispo todas as funções decisivas na comunidade. A liturgia e a pregação, o poder sobre os penitentes e a direção da comunidade, tudo dependia do bispo, cuja função daí para frente ia caracterizar toda a organização da Igreja” (Lenzenwegwe, op. cit. p. 20). Cipriano de Cartago, por volta de 250, escreveu: A Igreja “tem sua base nos bispos e toda ação da Igreja é dirigida por estes superiores” (Lenzenwegwe, op. cit. p. 20). - Até o século IV alcançou a Armênia, Pérsia, norte da Índia, Etiópia, baixa Áustria e Itália setentrional.
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