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Parte III Texto II Fontes primárias cristãs I O Novo Testamento, principal fonte de informação sobre Jesus e sobre as primeiras comunidades cristãs, é tradicionalmente apresentado em 27 livros considerados autênticos (canônicos), começando com 4 livros mais extensos, chamados Evangelhos. Contudo, bem antes dos Evangelhos, já existia um primeiro grupo de escritos cristãos, que são as cartas de Paulo, escritas entre o ano 50 e sua morte, por volta de 64 ou 67. Das 14 epístolas atribuídas a Paulo, sete a dez são efetivamente dele. Elas eram conhecidas e circulavam entre as primeiras comunidades cristãs, fato mencionado na Segunda Epístola de Pedro. O primeiro documento do Novo, ou Segundo Testamento que chegou até nós, é a Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses escrita em Corinto no inverno de 50-51. Conhecemos duas das 4 ou 5 cartas que Paulo escreveu à comunidade de Corinto junto a qual Paulo viveu mais de 18 meses. A resposta da comunidade de Corinto, mencionada na primeira carta de Paulo (1 Cor. 7,1) e muitas outras cartas se perderam. Os três primeiros Evangelhos são muito semelhantes, por isso têm sido chamados de sinópticos. Konings, em seu livro “Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da ‘Fonte Q’”, apresenta uma explicação para o filologicamente comprovado parentesco literário dos três primeiros evangelhos: “Nos anos 30-60 d.C. ter-se-iam cristalizado, primeiro na pregação oral depois por escrito, pequenas unidades e breves coleções de sentenças do Mestre Jesus e também de suas principais atividades, sobretudo os milagres que comprovavam a autoridade de sua palavra. Entre essas coleções, uma pôde ser identificada a partir de seu uso em Mateus e Lucas: a fonte que os eruditos alemães chamaram de Logienquelle, ou Quelle (= Q), a ‘Fonte dos Ditos’ (de Jesus), contendo ditos de João Batista e de Jesus. Não continha o relato da paixão, morte e ressurreição, o qual, por outro lado, era devidamente conhecido pela pregação oral e pela celebração eucarística”. “Por volta de 65-70 d.C., Marcos teria redigido por escrito a tradição narrativa a respeito de Jesus. Surgiu assim o primeiro evangelho escrito dentre os que foram conservados. Depois da destruição do Templo, por volta de 80, Mateus e Lucas teriam escrito os seus evangelhos, independente um do outro, porém usando as mesmas fontes literárias, a saber, as duas acima mencionadas: o evangelho de Marcos e a Quelle (Q). Além das duas fontes literárias (Mc e Q), Mateus e Lucas apresentam, cada qual, matérias particulares, que podem provir das tradições particulares ou da própria atividade redacional dos respectivos evangelistas”. A seguir, o mesmo autor apresenta uma síntese da cronologia de fatos e documentos dos 50 primeiros anos após a morte de Jesus (Op. cit. p. x):
- 30 – 50: evangelho (boa notícia) transmitido na pregação oral;
- 51 – 52: primeiras cartas de Paulo;
- 50 – 60: coleção escrita das palavras de Jesus (Quelle);
- 65 – 70: evangelho de Marcos;
- 70: destruição de Jerusalém;
- 80 (+ ou -): evangelhos de Mateus e Lucas.
A fonte ou evangelho Quelle “redigido em grego, foi composto certamente na Palestina, antes da destruição de Jerusalém. Contém apenas ditos e parábolas, não recolhe relatos de nenhum gênero, nem a narração da Paixão ou as aparições do ressuscitado. Estes ditos foram recolhidos provavelmente por missionários itinerantes dos primeiros anos, que continuaram o estilo de vida e pregação de Jesus e que tinham grande interesse em conhecer seu ensinamento. A fonte Q é hoje objeto de atenção preferencial de muitos autores e constitui um dos capítulos mais apaixonantes da investigação moderna sobre Jesus” (Pagola, op. cit. p. 588). A rigor, segundo Crossan, “o Evangelho Q é um documento hipotético cuja existência é postulada de maneira persuasiva para explicar a quantidade de material não-marcano (de Marcos) encontrado com ordem e conteúdo similares em Marcos e Lucas. Este postulado não tem o consenso maciço que a prioridade marcana tem, mas é, com certeza, importante conclusão dos estudiosos” (Op. cit. p. 152). O Evangelho de Lucas é parte de uma obra que abrange o Evangelho de Jesus e os Atos dos Apóstolos. No prólogo do Evangelho, Lucas fala que antes dele muitos já haviam escrito sobre Jesus. O quarto e último evangelho canônico é o de João que apareceu no final do séc. I, provavelmente na região da Síria. É muito diferente dos sinóticos e traz uma reflexão filosófico-teológica sobre a pessoa e a missão de Jesus. “É uma magnifica meditação poético-filosófica, rica em imagens, pondo na boca de Jesus uma complexa teologia que, podemos estar certos, ele não articulou literalmente. Jesus não fez declarações como ‘Pai, chegou a hora: glorificai vosso Filho para que o Filho possa glorificar-vos’, nem se espera que o leitor acredite que ele de fato as tenha feito. João emprega a modalidade de convenção literária de que se valiam historiadores antigos como Tácito…” (Eagleton, op. cit. p.35). A opinião mais aceita é de que João não utilizou, nem conhecia os evangelhos anteriores. Fora dos quatro Evangelhos, o Novo Testamento fornece muito pouco sobre Jesus. Simplesmente por seu volume, a mais provável fonte de informações é Paulo, o único redator de material do Novo Testamento que, como se sabe, pertence à primeira geração de cristãos. Como o núcleo de sua teologia é a morte e ressurreição de Jesus, os fatos e as palavras de Jesus terreno simplesmente não têm grande presença em suas epístolas. II Na pesquisa histórica atual, ganhou relevância o testemunho de outros evangelhos chamados apócrifos, que a descoberta de novos manuscritos colocou em primeiro plano: os evangelhos de Tomé, de Pedro, de Egerton 2, o Evangelho Secreto de Marcos. “Dos evangelhos judeu-cristãos dos Hebreus, dos Egípcios e dos Nazareus, todos perdidos, conservamos apenas citações nos Padres da Igreja”. Há evangelhos apócrifos que contém milagres abundantes e gratuitos que muitas vezes chega a se parecer com a literatura fantástica, em nítido contraste com a sobriedade dos quatro evangelhos canônicos. Jesus aparece como uma criança prodígio, às vezes caprichoso e vingativo. Entre os evangelhos apócrifos contam-se os gnósticos, que contêm revelações privadas e interpretações inéditas sobre o “logos” e transforma Jesus em um ser divino aprisionado em carne e osso, que precisa deixar este mundo, a fim da alcançar salvação. O Evangelho de Tomé é considerado pelos especialistas, atualmente, como o escrito de maior interesse dentre os evangelhos apócrifos. Trata-se de uma compilação de 114 ditos de Jesus: palavras sapienciais ou proféticas, parábolas ou diálogos breves. “Do Evangelho de Pedro, cuja existência era conhecida por textos patrísticos, foi descoberto em 1886-1887 um amplo fragmento com um relato da paixão de Jesus. Um fragmento menor foi descoberto em 1993 e contém um diálogo entre Pedro e Jesus. Sua datação é controversa: os especialistas preferem datá-lo na primeira metade do século II, enquanto Crossan remonta nosso texto a um primitivo “evangelho da cruz”, ao qual determina uma data mais alta, por volta do século I” (Barbaglio, op, cit. p. 69). Frei Jacir de Freitas Faria, especialista no assunto, referiu-se a 88 textos apócrifos do Segundo Testamento na mesa redonda sobre Jesus de Nazaré, na TV Minas, no dia 09.11.2012 (Roberta Zampetti, Programa Brasil das Gerais). A seleção dos documentos autênticos e não autênticos foi complexa, conflitiva e demorada. No século III já havia um Cânone que incluía a maioria dos 27 livros. O cânone atual foi definido no sínodo africano do ano de 399 e por uma carta de Inocêncio I, do ano de 405. No Oriente, a Igreja hesitou por longo tempo em aceitar o livro do Apocalipse. Não existe um consenso entre os ramos da fé cristã, hoje, sobre o que deveria ser considerado canônico e o que deveria ser apócrifo. III É notável a quantidade e a qualidade de documentos fontes de informação sobre Jesus, sua vida, sua mensagem, bem como sobre as primeiras comunidades cristãs. Jesus é, de fato, o judeu mais conhecido, mais documentado de sua época. Pagola, em nota de rodapé, em seu livro “Jesus, Aproximação Histórica”, diz: “De Buda, morto por volta de 480 a.C., só possuímos escritos legendários redigidos pelo menos meio milênio após sua morte. De Confúcio, contemporâneo de Buda na China, restam-nos duas fontes de escassa credibilidade, que distam quatrocentos e setecentos anos do tempo em que o Mestre viveu” (p.587). Algumas observações importantes sobre as fontes e sua utilização: 1 - Os Evangelhos são produções coletivas de algumas comunidades e refletem características e problemas vividos por elas. Como disse Barbaglio “a dificuldade não está no número das fontes cristãs – não poucas e também não tão distantes no tempo de Jesus – mas na sua natureza (…). Como já foi dito, são testemunhos da fé dos crentes das primeiras gerações, interessados não em reconstruir minuciosamente o passado, mas em dar sentido ao presente, referindo-se, porém, sempre, àquele passado vivido como carregado de sentido“ (Op. cit. p.76). 2 - Nenhum dos Evangelhos é uma biografia de Jesus de Nazaré. Dos 34 a 36 anos de vida de Jesus, temos apenas alguns episódios esparsos e desordenados do ponto de vista de um historiador, relativos a dois ou três anos. “A narrativa da infância de Jesus, em Mateus e Lucas, é considerada altamente simbólica e teológica. Os exegetas consideram midraxe, um gênero literário que consiste em ‘investigar’ qual seria o ‘sentido pleno’, ou ‘de atualidade’ de um texto ou tema bíblico” (Konings, op. cit. p. xi). Todos os escritos do Novo Testamento são releituras de fatos e ensinamentos de Jesus à luz da certeza de sua ressurreição. 3 - Algumas epístolas de Paulo certamente não foram nem escritas, nem ditadas por Paulo. Era costume da época alguém escrever em nome de outro, costume estranho para nós habituados a direitos autorais. Este fenômeno, chamado de pseudoepigrafia, era plenamente aceito na antiguidade mediterrânea. “Há também glosas que os escribas introduziram nos textos para melhor responder à situação das igrejas que as liam e, por outro lado, os textos tardios, cuja pseudoepigrafia salta aos olhos; estes últimos, não conservados no cânone cristão, fazem parte dos apócrifos” (Quesnel, op.cit.p.125). O famoso texto de Paulo em que ele teria dito “estejam caladas as mulheres nas assembleias, pois não lhes é permitido tomar a palavra, devem ficar submissas...” (1 Cor. 14,33b-35) é uma glosa do escriba da época patrística. As fontes, por mais sagradas que sejam, têm que ser lidas com critério.
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