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Parte III Texto XIX Patrística - séculos II e III
Parte I 1 - Introdução Embora os apóstolos, desde o inicio do anúncio da Boa Nova, tenham se preocupado com a catequese, isto é, com o anúncio e o bom entendimento da mensagem, constata-se no cristianismo primitivo uma pluralidade de leituras e releituras dos “fatos e dos ditos” de Jesus de Nazaré. No processo de redação dos Evangelhos, como já se viu, as comunidades cristãs que estão por trás deles releem e refazem suas tradições orais para adaptá-las a seu tempo, de tal forma que os Evangelhos, no final, apresentam versões diferentes a até contraditórias dos mesmos fatos e ditos da vida de Jesus de Nazaré. Prevalece para cada comunidade sua experiência do Cristo, do Messias, do Senhor; cada expressão representando uma faceta da experiência de fé e da vida religiosa de sua comunidade. O tempo qualitativo, significativo, oportuno (kairós) se sobrepõe ao tempo quantitativo (chronos). Para Walter Bauer, “a oposição ortodoxia-heresia se configura muito tarde, no começo do século II”. A primeira teologia sistemática, segundo Eliade, “é consequência das crises, ao longo do século II, que abalaram perigosamente a Grande Igreja” (op. cit. p. 345). São três os desafios que se impõe à intelectualidade cristã na época: a) defender-se de acusações externas aos cristãos - ameaça à pax romana, ateísmo, “superstição perniciosa” (Tácito), etc; b) expressar sua defesa e sua doutrina em linguagem filosófica, aceitável pela intelectualidade greco-romana; c) corrigir interpretações equivocadas, ou erradas: combate às heresias, nos séculos II e III, principalmente o gnosticismo e o montanismo. Este esforço de expressar o cristianismo perante o paganismo, o hebraísmo e a heresia tomou o nome de Patrística. Designa o pensamento cristão no período que se segue à época neo-testamentária (30-120) até o começo da Escolástica, isto é, os séculos II a VIII. Os primeiros padres da Igreja, que tiveram contato com um dos apóstolos de Jesus são chamados Padres Apostólicos. São eles: Clemente, bispo de Roma, terceiro sucessor de Pedro; Inácio, terceiro bispo de Antioquia (70-107), Policarpo de Esmirna (69-155), discípulo de João e Papias de Hierápolis. São também considerados escritos dos Padres Apostólicos, embora se desconheça os autores, a Didaqué e Pastor de Hermas. “Há dois tipos de escritores eclesiásticos dos primeiros séculos: os Pais, ou Padres da Igreja, assim designados oficialmente pela santidade de vida, pela excelência doutrinária e pela ortodoxia; autores beneméritos e ilustres que não foram reconhecidos oficialmente como Pais da Igreja: Orígenes, Tertuliano e Eusébio de Cesareia” (Bento XVI, Os Padres da Igreja, de Clemente Romano a Santo Agostinho, Paulus - SP, 2012). A Igreja Católica, conferindo a Agostinho um reconhecimento especial, dividiu a Patrística em três períodos: pré-agostiniana, de Agostinho e pós-agostiniana. 2 - Tendências da Primeira Patrística / pré-agostiniana A seguir uma síntese Cap. 3 do livro “Espiritualidade cristã na história – Das origens até santo Agostinho”, do professor/doutor Ronaldo Cavalcante, pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. A primeira patrística abrange escritos e escritores cristãos do sec. II e III num momento histórico em que os cristãos vivem constantemente sob ameaça de violência e perseguição cruel intermitente. São três as tendências observadas na patrística: 2.1 - Pastoral-catequético e tradicional-carismático É o retrato da igreja cristã no fim do século I e início do século II; é um período que, embora pioneiro e desbravador, é tradicional e carismático. Tenta-se registrar o essencial dos tempos apostólicos e vivenciar a fraternidade cristã, em clima profético e escatológico. O principal documento desse período é a Didaqué, ou Pregação do Senhor aos povos através dos Doze Apóstolos (descoberta em 1875 numa biblioteca de Jerusalém), uma espécie de catequese de princípios básicos da doutrina cristã. Essa obra representa o período de “transição” entre o ambiente apostólico do Novo Testamento, ainda vinculado ao judaísmo (apesar da luta por emancipação) e o mundo pagão no qual a igreja missionária foi lançada, mundo da cultura, da filosofia, do império, da secularização romanizante. A primeira parte da Didaqué é denominada Os Dois Caminhos: as práticas das virtudes que configuram o caminho da vida e os vícios que levam ao caminho da morte. A segunda parte trata Das Disposições Litúrgico-eclesiais: batismo, jejum, oração. O texto deixa claro que a eucaristia ainda era celebrada dentro de uma refeição comum. A terceira parte fala de Prescrições Disciplinares da Comunidade. Outros documentos considerados “apostólicos”: Epístola de Barnabé; O Pastor de Hermas; os escritos de Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Pápias de Hierápolis. A Epístola de Barnabé remonta ao ano de 140 e tenta uma interpretação alegórica dos preceitos vetero-testamentários. O Pastor de Hermas, um verdadeiro apocalipse apócrifo, é uma obra confusa, mas, como disse Pierini, “a seu modo, popularmente sugestiva, delineia-se em perspectiva o drama da segunda geração cristã numa cidade babilônica como Roma. A teologia de Hermas é a teologia da misericórdia, ‘do bom Pastor, através da Igreja’” (op. cit. p. 76). Observa-se que na Ásia e na Síria prevalece uma visão do cristianismo como união com o Salvador, mediante a qual se alcança a imortalidade; em Roma há uma ênfase na questão ética e, portanto, na vivência cristã. Temos aí uma grande influência da ética do estoicismo em Alexandria e forte presença da filosofia neoplatônica na leitura alegórica do Antigo Testamento. 2.2 - Apologético-testemunhal e teológico-institucional: A partir do século II a igreja teologiza-se e institucionaliza-se. O escritos apologéticos são dirigidos aos pagãos, mas são lidos majoritariamente pelos cristãos. Autores da época: o escritor anônimo da Carta a Diogneto; Taciano, o Sírio; Atenágoras de Atenas; Teófilo de Antioquia; Hérmias, o filósofo; Milcíades e Apolinário de Hierápolis e, sobretudo, Justino, o Mártir. Convertido no ano de 132, provavelmente em Éfeso, depois de empreender várias viagens pregando o Evangelho de Jesus Cristo e defendendo a fé cristã, Justino chegou a Roma no ano 150. Alí ensinou, brilhantemente, por 15 anos. Seu objetivo era mostrar que o que era buscado por todas as filosofias de seu tempo, o encontro do homem com Deus, realizava-se plenamente na doutrina cristã. Foi decapitado no ano de 165. Com sua morte, o cristianismo adquiriu status de cidadania. Outros destaques no período: Inácio de Antioquia e Irineu, bispo de Lyon. Nascido em Esmirna, na Ásia Menor, é, por muitos, considerado o maior teólogo do século II. É difícil encontrar informações mais precisas sobre os sistemas gnósticos quanto as que ele nos oferece. 2.3 - Episcopal-eclesiológico e ortodoxo-exegético: Não se sabe se as igrejas da África foram criadas a partir de Roma. É certo e curioso que a contribuição africana à literatura e à teologia cristãs da antiguidade, sob muitos aspectos, é bem mais relevante que a de Roma. A partir do século III, a África é o centro da primeira literatura cristã em língua latina, produzindo uma teologia de primeira qualidade através de várias personalidades, além de forjar um vocabulário teológico que serviria a toda a igreja oriental. Mantendo vínculos bem estreitos com a sé romana, a igreja da África ajudou inclusive na sedimentação dogmática do primado de Pedro em Roma, reforçando o papel do bispo no processo de institucionalização da Igreja. Paradoxalmente, afloram as novas possibilidades de leitura das Escrituras inaugurando uma nova ciência no seio do cristianismo: é a tendência ortodoxo-exegética. Nesses dois séculos, II e III, existe uma pluralidade de opiniões entre os escritores frente à civilização pagã, as quais convergem quando a confrontação ocorre no campo estritamente religioso, onde se dá uma luta de religiões. Esse confronto se manifesta nas perseguições, primeiro do paganismo contra o cristianismo (século I a III), e depois do cristianismo triunfante, religião do Estado, contra o paganismo residual do século IV. De uma simbiose entre pensamento judaico, pagão e evangélico nasce a primeira teologia cristã e com ela a primeira espiritualidade. A divisão da Patrística em oriental (grega) e ocidental (latina) – já iniciada no século III com os alexandrinos e demais africanos – torna-se definitiva no século IV, favorecida e acentuada com a divisão do Império em oriental e ocidental. As Igrejas Romana, Ortodoxa, Luterana, Presbiteriana e Anglicana acreditam que os Pais da Igreja proporcionaram a interpretação correta da Sagrada Escritura, registraram a Sagrada Tradição e souberam discerni-las das doutrinas heréticas.
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