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Parte III Texto XVIII As comunidades cristãs do século II Parte IV 5 - O desafio intelectual As fontes externas de que se dispõe sobre as comunidades cristãs primitivas são, evidentemente, das elites, cujas opiniões não são nada favoráveis. A primeira vez que as autoridades romanas se referiram oficialmente aos seguidores de Jesus foi em Antioquia da Síria. Chamaram os participantes de um tumulto na cidade de “christiani”, ou seja, de “messianistas”, com sentido pejorativo de baderneiros. Nero, para abafar o boato de que ele havia incendiado boa parte de Roma – incêndio que perdurou do dia 19 ao dia 25 de julho de 64 -, pôs a culpa nos cristãos, certamente um grupo humano não muito simpático “aos formadores de opinião” na época. As primeiras gerações de cristãos não tinham boa fama entre os seus conterrâneos letrados. “A consciência de ser um grupo minoritário, marginal e clandestino gerou não apenas uma certeza salutar de remanescente fiel (consciência de eleição), mas também um sentimento de inferioridade intelectual que, durante um bom tempo, bloqueou o potencial latente de novas conversões gentílicas” (Cavalcante, op. cit. p. 119). A expansão de comunidades cristãs em grandes centros urbanos e em todas as camadas sociais, inclusive nos segmentos médios e altos, trouxe para suas fileiras mais intelectuais e mais exigências de estudo. Com os intelectuais, vivendo numa cultura de grande efervescência filosófica, vieram também as divergências doutrinárias. No século II, os filósofos gozavam de grande prestígio nas cidades e junto à elite, inclusive junto ao Imperador Marco Aurélio (121-180), ele próprio um intelectual. “A filosofia era a religião mais profunda da maioria das pessoas de inteligência; o mais importante é que seus conceitos proporcionaram aos pensadores, tanto cristãos quanto não cristãos, uma estrutura intelectual para expressarem suas ideias. Os dois tipos de pensamento mais importante neste período têm origem no platonismo e no estoicismo” (Kelly, op. cit. p. 11). O filósofo Celso, discípulo de Platão e talvez de Filon de Alexandria, com bom conhecimento do gnosticismo, escreveu um livro contra as crenças dos cristãos. Este livro teria sido encaminhado a Orígenes, no ano de 245 e mereceu deste brilhante intelectual cristão a refutação de cada acusação. Através do livro de Orígenes - Contra Celsum - conhecemos um pouco mais sobre a visão externa do cristianismo no século II. Há também uma defesa do cristianismo que passou a ser conhecida como Carta a Diogneto – uma joia da literatura cristã primitiva - obra que teria sido encaminhada por Quadrato ao Imperador Adriano (76-138). “A efervescência dos gnósticos e a pululação das seitas ensinaram à Igreja o difícil diálogo da fé com o pensamento. A conversão dos filósofos e dos juristas pôs à Igreja o problema da cultura e do estudo da fé e da filosofia, da linguagem e da comunicação. As letras pagãs não estavam tão infiltradas de idolatria como a cidade? Mas como desprezar a mais nobre das heranças humanas? Como rejeitar, diz Tertuliano (160-220) em seu tratado Da Idolatria, os estudos profanos, uma vez que sem eles não existem estudos religiosos? E como não instruir-se na ciência humana, como não aprender a pensar e agir, se a educação é a chave da vida” (Hamman, op. cit. p. 52). “Homens de letras que se converteram ao cristianismo tornaram-se convictos de que haviam descoberto a verdadeira filosofia, acessado a ‘sabedoria última’. Tentavam elucidar ensinamentos teológicos com o auxílio da terminologia filosófica de então. O que neles encontramos, por conseguinte, é a primeira tentativa de definir, de maneira lógica, o conteúdo da fé cristã, bem como a primeira conexão entre teologia e ‘ciência’, entre cristianismo e filosofia grega. Dessa forma, toda a apologia cristã desse primeiro momento de confrontação intelectual com o paganismo buscava pelo menos três objetivos: a) Procurava responder à acusação de que a Igreja seria um perigo para o Estado. Chamava a atenção sobre a maneira de viver séria, austera, casta e honrada de seus adeptos; b) Expunha o absurdo e a imoralidade do paganismo e dos mitos de suas divindades. A apologia demonstrava, também, que somente o cristão tem uma ideia correta de Deus e do universo. Neste aspecto, a Carta a Diogneto é exemplar; c) Apresentava o cristianismo como a verdadeira filosofia ensinada pelo próprio Logos divino. Dizia que o cristianismo possui a verdade absoluta, porque o Logos, que é a própria razão divina, veio ao mundo por Cristo. Disso se conclui que o cristianismo é incomensuravelmente superior à filosofia grega; mais ainda, que é uma filosofia divina” (Cavalcante, op. cit. p. 119-122). “A forte insistência gnóstica em fundamentar-se na teologia da revelação e na redenção de pecado e culpa contribuiu para formulações da teologia da igreja majoritária” (Markschies, in Kaufmann e outros, op. cit. p. 90). Duas principais heresias – o gnosticismo e o montanismo – nascidas (ou renascidas) no próprio meio cristão, exigiram dos Pais da Igreja (Patrística) tanto o combate e a contestação (apologética), quanto a formulação teórica da doutrina certa, ortodoxa (teologia). Por que rejeitavam as doutrinas explicitamente definidas pela Igreja e deterioravam o conteúdo específico da fé cristã, as heresias foram combativas, com ardor e brilho pelos Padres da Igreja. 6 - Principais heresias O gnosticismo Não existem textos “gnósticos” anteriores ao cristianismo. O termo gnóstico em textos gregos clássicos designa “intelectual”- aquele que tem conhecimento - em contraposição a “prático”. Com sentido de heresia – ensino falsamente chamado “conhecimento” - aparece pela primeira vez em textos de Irineu, bispo de Lyon. O termo gnosticismo não aparece em fontes antigas; foi cunhado pelo filósofo inglês Henry More (1614-1687) para descrever a heresia na Igreja de Tiatira, mencionada em Apocalipse 2-18-29. Nunca existiu um movimento gnóstico, por falta de organização, nem uma filosofia gnóstica, por falta de sistematização. Foram muitos os mestres gnósticos, cada um com seu séquito de seguidores. Pelas características que se pode apreender das várias gnoses, elas são antigas, anteriores ao cristianismo, e aparecem associadas a conhecimentos ocultos, esotéricos, reservados para uma elite privilegiada. Estes conhecimentos especiais, espirituais, sublimes, seriam adquiridos por intenso esforço pessoal, ou aprendidos na iniciação proporcionada por mestres, portadores de tais conhecimentos, sejam eles pagãos, vetero-testamentários, ou cristãos. Não demorou a aparecer na igreja primitiva pretenciosos portadores de ensinamentos esotéricos, secretos, recebidos de Jesus Cristo e prontos para retransmiti-los aos “iniciantes”, “àqueles que progridem” e àqueles que serão “perfeitos”. Algo que se poderia esperar já que havia ocorrido em todas as religiões e crenças. O surgimento de mestres portadores de conhecimento secretos, transmitidos por Jesus Cristo, ou conhecimentos filosóficos reservados a uma elite intelectual, na igreja primitiva, na passagem do hebraísmo para o helenismo, num contexto filosófico efervescente, excitou as mentes cristãs mais brilhantes, dispostos a defender, com todas as garras, a nova religião e sua tradição apostólica (ortodoxia) contra a heresia. Desmascarar “falsos profetas”, portadores de pseudoconhecimentos especiais, era algo mais fácil de se fazer, mas refutar elaborações intelectuais, com pretensões filosóficas, era um desafio maior. Estas elaborações filosóficas pretendiam explicar, de outra forma, questões colocadas pelo cristianismo nascente: as relações entre Deus, a criação, o mundo e Jesus Cristo, o Filho de Deus e o Espírito Santo. Explicações filosóficas contrárias, opostas ao cristianismo, que, em seu sincretismo, alimentavam-se de fontes judaicas, cristãs e pagãs, agrediam princípios básicos da fé cristã: não foi Deus que criou o mundo, mas um “demiurgo”; a matéria, o corpo, é desprezível, o que importa é o espírito, que, através do conhecimento (gnose), tem que se elevar à perfeição, reservada a poucos. Para os agnósticos “existem três classes de homens: os carnais, ou materiais; os psíquicos; e os pneumáticos. Aqueles que são carnais jamais podem ser salvos, enquanto, para alcançar a redenção, os pneumáticos só precisam apreender o ensino de Jesus. A classe psíquica pode ser salva, ainda que com dificuldade, por meio do conhecimento e da imitação de Jesus” (Kelly, op. cit. p.17). O gnosticismo judeu-cristão difundiu-se na Ásia, na Síria e no Egito. Alguns intelectuais de grande destaque: Basílides de Antioquia, entre os anos 120 e 145; Marcião atuante na comunidade romana entre os anos 139-144 até ser expulso. O mais importante dos gnósticos foi Valentino, um dos maiores teólogos e místicos de se tempo. Ensinou em Alexandria e em Roma entre 135 e 160. “A gnose e esoterismo tornaram-se suspeitos aos olhos da hierarquia eclesiástica. Invocando o testemunho de uma tradição apostólica oral e secreta, certos gnósticos podiam introduzir no cristianismo doutrinas e práticas radicalmente opostas ao ethos do Evangelho. Não era o ‘esoterismo’ e a ‘gnose’ como tais que se revelaram perigosos, mas as ‘heresias’ que se infiltravam sob o manto do ‘segredo iniciatório’ ” (Eliade, op. cit. p. 322). “A forte insistência gnóstica em fundamentar-se na teologia da revelação e na redenção de pecado e culpa contribuiu para formulações da teologia da igreja majoritária” (Markschies, in Kaufmann e outros, op. cit. p. 90). A reação da Igreja primitiva, através principalmente dos Pais da Igreja, contra as heresias (apologética) e a construção de explicações teóricas de sua doutrina, em termos filosóficos (teologia sistemática) amadureceu a nova religião para a catequese e para o embate intelectual. O montanismo O montanismo foi um movimento cristão fundado por Montano no ano 156 na Frígia, Ásia Menor, hoje Turquia. Caracterizou-se como uma volta ao profetismo e um reforço da esperança escatológica. Montano afirmava possuir o dom da profecia e que havia sido enviado por Jesus Cristo para inaugurar a época do Paráclito. Duas mulheres que o acompanhavam – Priscila e Maximila – afirmavam que o Espirito Santo falava através delas. Durante os seus êxtases anunciavam o fim iminente do mundo, conclamando os cristãos a reunirem-se na cidade de Pepusa, onde surgiria a Jerusalém celeste, uma vez que uma nova era cristã se iniciava com esta nova revelação divina. Propunham um rigoroso ascetismo, visando a preparação para o momento final. Recomendavam a castidade durante o casamento; proibiram segundas núpcias; instituíram o jejum duas semanas por ano; proibiram comer carne; obrigaram as mulheres a usarem véus nas funções sagradas e recomendavam aos cristãos não fugirem das perseguições e se entregarem para ser martirizados”. “Em 172, na Frígia, Montano foi tomado por crises extáticas. A região inteira ficou abalada, e os bispos já não sabiam o que fazer. Os ‘santos da Frígia’ oravam com afetação e com a ponta do indicador encostada no nariz, o que lhes valeu o apelido de ‘narizes cavilhados’. As localidades de Pepusa e Tímion, berços da seita, foram consideradas cidades santas; a elas as pessoas afluíam em peregrinação e perscrutavam os céus para ver se a nova Jerusalém estava descendo das nuvens. Os prosélitos cumulavam profetas e profetisas de ouro, prata e vestes brilhantes”. Nas margens do mar Negro, um bispo teve uma visão, depois duas, depois três, e pôs-se a realizar predições como se fosse um profeta e chegou à loucura ao ponto de dizer: “Sabei, meus irmãos, que dentro de um ano virá o julgamento”. Os irmãos ficaram tão aterrados que abandonaram sua cidade, sua terra, e a maioria deles vendeu seus bens. “Os próprios Justino e Irineu, espíritos moderados, imaginaram um reino de Cristo na terra, com os justos, o qual duraria mil anos. Esse milenarismo perseguiria o espírito do Oriente e do Ocidente no século seguinte” (Hamman, op. cit. p. 123). A doutrina de Montano se espalhou do Oriente à África, de Lyon ao Danúbio, chegando a conquistar, pelo rigorismo, pessoas como o grande Tertuliano. Algumas cidades foram quase completamente convertidas ao montanismo. Não se pode deixar de ver no montanismo uma reação contra a estruturação, a hierarquização e a redução do profetismo e do papel das mulheres na Igreja. “Nos oráculos de seus profetas, os montanistas viam uma revelação do Espírito Santo que podia ser considerada um suplemento das ‘antigas escrituras’. Por essa razão, a partir daí tornou-se uma questão de imenso interesse para a igreja que o Novo Testamento, conforme ele começava a ser chamado, fosse atribuído o número correto de livros e os livros certos” (Kelly, op. cit. p. 43).
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