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Parte III Texto XVII As comunidades cristãs do século II Parte III 4 - O processo de institucionalização Sabe-se que cada um dos Evangelhos reflete as tradições orais de uma comunidade, bem como os problemas que ela viveu durante o período de redação do respectivo Evangelho. Todas elas enfrentaram, à sua maneira, os desafios comuns à estruturação de qualquer grupo social: definir funções internas e externas, aproveitando os dons e carismas dos membros da comunidade, e fixar o papel de cada um. Alguns elementos da formação das diferentes comunidades parecem ter sido comuns: os primeiros cristãos de uma nova localidade eram convertidos por seus hóspedes ou por missionários itinerantes, indivíduos, casais ou duplas de homens. Estes convertidos, quando se reuniam, constituíam-se em “assembleia”. O termo (ekklesia) designava não apenas a reunião eventual, mas o próprio grupo. Embora tomado do ambiente cultural greco-romano, diferenciava-se deste por não excluir mulheres e escravos. Da igreja cristã participavam, como irmãos, homens e mulheres, senhores e escravos, todos os convertidos, em pé de igualdade. A reunião dos membros de várias comunidades de uma mesma cidade era a “ekklesia” daquele lugar. Paulo escreve: “à igreja de Deus que está em Corinto”… “às igrejas da Galácia”. Ser membro da igreja significava ser recebido, como irmão ou irmã, em qualquer outra comunidade. As raízes desse uso, segundo Meeks, estão certamente na expressão bíblica “assembleia do Senhor” (op. cit. p. 216). Na virada do primeiro século, as comunidades cristãs começam a mudar: o termo igreja passa a designar a “casa”, o espaço doméstico onde a comunidade se reúne. Aparentemente uma sutil diferença de terminologia ou ênfase, mas de enormes consequências. Na casa o papel da cada um corresponde rigorosamente aos costumes romanos da época. “A casa greco-romana era uma unidade econômica, patriarcalmente dirigida com rigidez, tendo no topo o ‘pater familias’, membro masculino mais idoso. Para a mulher ele era o marido, para os filhos, pai e mestre, para os escravos, senhor” (Ebner, op.ct.p.33). A mudança de enfoque - “comunidade” para “casa”- significou, na prática, a assimilação da concepção greco-romana de casa/família. O modelo hierárquico da família estava profundamente entranhado na lei e nos costumes. Pode-se visualizar os caminhos que foram percorridos no século II e nos seguintes: 1) assembleia/comunidade --> casa --> “pater familias”--> presbítero + conselho --> bispo monárquico; 2) casa ocasional --> casa(sal) maior permanente -->templo. Por volta do ano 115, as Epístolas Pastorais, atribuídas a Paulo, mostram claramente as comunidades cristãs bastante integradas às estruturas da sociedade romana. Martin Ebner, coautor do livro “História ecumênica da Igreja”, destaca sete “tendências paradigmáticas na evolução dos ministérios”. Elas mostram como se deu objetivamente o processo de institucionalização da igreja cristã no século II: 4.1 - Institucionalização: Segundo Bonneau, “a situação carismática do cristianismo nascente não se opõe a uma forma embrionária de institucionalização, vale dizer, a uma cristalização das atividades frequentemente repetidas” (op. cit. p. 79). Mas o que se passa no século II é diferente: as funções que vinham sendo exercidas tornam-se cargos. Os papéis passam a ser atribuídos e a legitimação institucional vem de cima. “O episkopos (inspetor de várias comunidades) é ordenado para toda a vida mediante a imposição das mãos por parte dos presbíteros (anciãos). Por este ato se lhe confere o carisma ministerial, bem como certa imunidade. Ele deve comprometer-se publicamente com uma determinada tradição, isto é ‘com a doutrina certa’ e o ‘depósito confiado a ele’” (Ebner, op. cit. p. 37). 4.2 - Monopolização: os conflitos entre pregadores itinerantes e lideranças de comunidades locais eram patentes desde o tempo de Paulo. São discordâncias doutrinárias, de estilo, de prioridades e até disputas de poder, como não poderia deixar de ser. Os conflitos se agravam e vencem as lideranças locais. Os pregadores itinerantes vão perdendo relevância ao longo do século II. A Didaqué - conhecida como Doutrina dos Doze Apóstolos, é uma espécie de Catecismo, elaborado com documentos anteriores, provavelmente na Síria. Publicado na virada do primeiro século, antes de alguns escritos joaninos, teve muita influência na catequese. Tinha se perdido e foi encontrada em 1875, em Constantinopla. A Didaqué, com toda sua autoridade, limita a atuação do pregador itinerante e estabelece que o conteúdo de sua doutrina seja aceito se estiver em conformidade com a autoridade local. 4.3 - Profissionalização: Paulo e vários de seus colaboradores eram trabalhadores autônomos que, levando consigo, de cidade em cidade, as ferramentas de trabalho, viviam de seu trabalho manual. Nem por isso rejeitavam que outros missionários fossem sustentados pelas comunidades. O trabalho manual, para Paulo e Barnabé, era um meio de sustento e de evangelização. Vários apóstolos, os irmãos do Senhor e outros pregadores itinerantes levavam suas mulheres e eram mantidos pelas comunidades hospedeiras. Prevalece o princípio: “que o homem da igreja viva a expensas da comunidade” e alguns cargos passam a ser remunerados. 4.4 - Sacerdotização: quando foram excluídas do judaísmo, as comunidades cristãs perderam, juridicamente, sua condição de “religião legítima”. De acordo com a mentalidade da época, os cristãos não tinham religião por faltar-lhes os elementos constituintes: templo, sacrifício e sacerdote. Segundo Meeks, “os cristãos do século I não tinham santuários, templos, culto a estátuas e sacrifícios; eles não promoviam festas públicas, danças, apresentações musicais, peregrinações e, pelo que sabemos, não usavam inscrições” (Op. cit. p. 293). Os não cristãos não podiam entender que o grande diferencial dos cristãos, herdado da vida e pregação de Jesus, era exatamente este: compreender a comunidade dos irmãos e o compartilhamento de bens materiais e espirituais como sagrado, sem necessidade de templo, sacrifício e sacerdote. Contra a acusação aos cristãos de não serem religiosos, segundo Ebner, “o teólogo da epístola aos Hebreus foi o primeiro a tomar a ofensiva, permanecendo ao mesmo tempo fiel ao distanciamento do culto do templo de qualquer matiz: ele descreve Jesus como sumo sacerdote que atua no Templo celeste. Ele é simultaneamente vítima e sacrificador. Por sua mediação, apenas pela audição da Palavra, todos os cristãos têm acesso imediato a Deus – clara superação de todas as tentativas do culto do Templo terreno em Jerusalém”. Ebner arremata: “Uma jogada de mestre, mas que não foi mantida na história da teologia do cristianismo primitivo. Também nesse caso impôs-se o padrão normal” (op. cit. p. 39). A primeira epístola de Clemente (35-97), bispo de Roma, terceiro sucessor de Pedro (88-97), pretendendo resolver conflitos de autoridade em Corinto, assenta as bases doutrinárias de uma grande reviravolta no processo de formatação da Igreja: “Cristo primeiro instituiu apóstolos, que por sua vez instituíram epíscopos e diáconos com a tarefa de, por sua vez, levar adiante essa linha sucessória”. Comenta Martin Ebner, professor da Faculdade Católica de Teologia da Universidade de Muenster: “Estão assim lançados os trilhos para uma mudança na compreensão de ministério: (1) a ideia de sucessão torna-se o critério decisivo para a legitimação dos detentores de ministérios; (2) os servidores do culto são terminologicamente contrapostos a “leigos”, pela primeira vez em 1 Clemente 40,5; (3) a função dos epíscopos na celebração da eucaristia- de maneira análoga ao culto vetero-testamentário – é entendida a partir da realização de um sacrifício, com a consequência de que a própria celebração da eucaristia possa ser compreendida como sacrifício (cf. Justino, Apol. 1,65). O que, por sua vez, se torna base para que, a partir do século III d.C., também ministros cristãos sejam tranquilamente chamados “sacerdotes”. Essa linha histórico-institucional termina no fato de, sob Constantino, o clero cristão ser equiparado às corporações sacerdotais pagãs, isto é, participantes dos mesmos privilégios - por exemplo, a isenção de impostos” (Kaufmann e outros, op. cit. p. 40). 4.5 - Desfeminização: algo que chama a atenção no trabalho missionário de Paulo é a presença feminina: 62 mulheres são citadas nos Atos dos Apóstolos e nas cartas autênticas de Paulo. Muito mais do que o número de homens. Também nas comunidades joaninas as mulheres tiveram papel ativo e diretivo. As Epístolas Pastorais, atribuídas a Paulo, mas escritas 50 anos após sua morte, fecham as portas às mulheres: são proibidas de ensinar (1 Tm 2, 12) e é vedada às diaconisas a ascensão ao já bem propagado episcopado (1 Tm 3, 3-13). 4.6 - Hierarquização: entre as funções existentes nas comunidades paulinas há certa hierarquia que caracteriza subordinação funcional, mas não institucional. É o caso da primazia da profecia sobre a glossolalia. Não há menção a cargos formais nos Atos e nas epístolas paulinas. Na Didaqué aparece uma estrutura hierárquica de itinerantes – apóstolos, profetas e doutores (mestres) - ao lado de uma hierarquia sedentária de epíscopos e diáconos. Estas duas estruturas se fundem no século II. “A solução mais elegante para passar da autoridade colegial para a instituição monárquica consistia em escolher o bispo no corpo presbiteral. Os termos presbítero e bispo foram sinônimos durante algum tempo. Irineu parece empregá-los indiferentemente” (Hamann, op. cit. p. 114). “O degrau fundamental para a formação do episcopado monárquico como tal é apresentado pela tríplice graduação (diácono, presbítero, com um bispo no vértice) que ainda se caracteriza pelo fato de o bispo não só – de acordo com seu título – assumir as tarefas de inspeção, mas também monopolizar em si as demais funções. Essa evolução provavelmente provocou mais controvérsias do que se pode reconhecer em nossos testemunhos escritos” (Kaufmann, op. cit. p. 42). “As cartas de Inácio de Antioquia são o primeiro testemunho da conjunção e consolidação da tripla hierarquia: episcopado monárquico, presbiterato e diaconato. Especialistas em patrística tem considerado em geral que no início do século II o episcopado monárquico era já um fato consolidado admitido na Síria e na Ásia Menor Ocidental” (Cavalcante, op. cit. p. 142.) Outros autores consideram que o episcopado monárquico era, na ocasião (ano 107), mais um postulado de Inácio do que uma realidade geral. Em outros lugares, parece que essa mudança foi algo mais lenta e dolorosa. “No tempo de Clemente, a igreja romana ainda era dirigida por um conselho presbiteral, com um presidente à sua frente” (Hamann, op. cit. p. 115). 4.7 - Resistência canonicamente avalizada: a prática radical do amor, da solidariedade e da igualdade nas comunidades joaninas, sob a inspiração do Espírito, certamente as colocavam em antagonismo com as tendências descritas de institucionalização da Igreja. “Vocês receberam de Jesus a unção que permanece em vocês e já não têm necessidade que alguém os ensine; pelo contrário, como a unção dele, que é verdadeira e não mentirosa, lhes ensina tudo aquilo que Jesus lhes tinha ensinado, permaneçam com ele” (1 Jo 1, 27). Ebner chama a atenção para o paradoxo: o grupo joanino conseguiu salvar sua própria concepção incólume dentro do cânon, colocando-a, ao mesmo tempo, sobre a “proteção” da estrutura ministerial da Igreja Universal (op. cit. p. 43). As comunidades cristãs primitivas vivenciaram um período de forte influência do profetismo da época, tanto judaico, quanto helenista. “A comunidade joanina, à semelhança do conjunto do cristianismo, conheceu inícios carismáticos, deixando um grande espaço ao Espírito” (Bonneau, op. cit. p. 269). A informalidade e a espontaneidade, às vezes com pretensões de “novas revelações”, reforçavam as tendências escatológicas e punham em perigo a disciplina e a unidade doutrinária. O cristianismo de características itinerante, espontâneo, carismático, profético, apocalíptico, de radicalismo ético, foi dando lugar à estabilidade, à doutrina, à instituição, à hierarquia, sem, contudo, negar a liberdade tão cara às comunidades joaninas guiadas pelo Espírito, “que sopra para onde quer”. Segundo Hamann, “o século II foi a idade de ouro dos diáconos, os ministros jovens e empreendedores da comunidade e os mais populares. Sua juventude contrabalançava-se com a idade do bispo. Eram o braço direito do bispo e os principais agentes da Igreja. Em constante relação com os fieis, conheciam-nos e conheciam sua situação material e espiritual. Visitavam os pobres e os doentes a fim de socorrê-los Velavam particularmente pelas viúvas, pelos velhos e pelos órfãos. “Sofreadas na Grande Igreja, as mulheres se recuperavam nas seitas, nas quais profetizavam e batizavam” (Hamann, op. cit. p. 118-119).
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