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Parte III Texto XVI As comunidades cristãs do século II Parte II Este texto está baseado principalmente no livro de A. G. Hamman, “A vida cotidiana dos primeiros cristãos (95-197)”, São Paulo: Paulus, 1997. 3 - A expansão do cristianismo no período Paulo, como disse Crossan, “foi às sinagogas da diáspora para converter não os judeus, mas sim os ‘adoradores de Deus’, ou seja, não judeus simpatizantes da espiritualidade monoteísta judaica. Esta estratégia fez com que o número de adeptos do ‘caminho’ crescesse entre os povos onde os judeus tinham colônias”. Durante quase todo o século I, a origem judaica da Boa Nova – inicialmente vista como uma seita judaica – e a acolhida e hospedagem dos viajantes nas comunidades judaicas da diáspora favoreceram sua expansão. No século II, já não é a diáspora o elemento facilitador da expansão do cristianismo, mas a globalização e a “pax romana”. Pelo Apocalipse conhecemos algumas das cidades da Ásia Menor onde havia comunidades cristãs implantadas por Paulo na década de 50 e nas décadas seguintes por João e pelos discípulos de ambos. Paulo havia feito de Éfeso, capital da província, um centro difusor do Evangelho. Terá Paulo procurado a região por conhecimento anterior de fornecedores de matéria prima para seu ofício de fabricante de tendas, já que ali se encontravam criadores de ovelhas, fabricantes de tecidos e de tinturas? Terá sido igualmente por afinidade intelectual e espírito aventureiro, já que a população local era conhecida pela excepcional aptidão para o comércio e as disciplinas do espírito? Uma feliz escolha! De lá sairiam missionários cristãos para várias partes do império, inclusive para Lyon, na Gália (hoje França), onde o bispo Irineu (130 a 202), de Esmirna (hoje Izmir, terceira maior cidade da Turquia), tornou-se um dos luminares do cristianismo do século II. No reinado do Imperador filósofo Marco Aurélio (161 a 180), a Igreja entra em nova etapa de surpreendente expansão. A respeito de Marco Aurélio, disse Peguy: “não teve a religião que merecia. É pena que tenha chegado perto dela (religião cristã) sem conhecê-la e que a tenha condenado sem entendê-la”. Quando a varíola se espalhou, entre os anos 165 e 180, e a baixa imunidade às infecções causou numerosas mortes, os cristãos foram valorizados pelo auxílio que prestavam. Enquanto as religiões pagãs raramente ofereciam algum tipo de ajuda, quando os fieis adoeciam, muitos cristãos – mulheres em especial – se dispunham a cuidar dos enfermos e alimentá-los (Blayney, op. cit. p. 63). Em uma geração, no século II, o cristianismo se fez presente em quase todas as províncias do Império. A expansão cristã se dá principalmente na costa africana do Mediterrâneo, com destaque para Alexandria e Cartago. É provável que Apolo, mencionado na Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, tenha se convertido ao cristianismo no Egito. Alexandria era a segunda cidade do Império com, talvez, um milhão de habitantes. A população de Alexandria era tão mesclada, tão colorida como hoje: gregos, sírios e árabes andavam lado a lado com comerciantes, turistas, provincianos, vindos para negócios ou para seguir cursos de filosofia ou de medicina. “O estrangeiro que entrava na cidade pela porta do Sol ficava deslumbrado com o esplendor das avenidas, ladeadas de colunas até a porta da Lua” (Hamman, op. cit. p. 21). “Na cidade de Alexandria, onde a cultura e a filosofia floresciam, o cristianismo assumiu rapidamente aspecto intelectual, tornando-se orgulho da cidade. Ali se revelaram grandes nomes: Clemente, Orígenes, Dionísio, Atanásio, Ário, Cirilo. Desde o século II, pode-se falar de uma ‘escola’ de Alexandria. Pelo ano 180, Panteno, vindo da Sicília, fixou-se em Alexandria, depois de longo périplo que, segundo Eusébio de Cesareia (265-339), levara-o até a Índia. Ele unia o fervor do evangelista à reflexão do doutor. Dirigiu a escola dos catecúmenos, espécie de universidade cristã, na qual Clemente (150-215) encontrou o mestre e a luz que o levaram à fé. A comunidade cristã, já organizada, era governada por Demétrio, bispo de grande estatura, que compreendeu e favoreceu a exigência intelectual da evangelização. Desde então, Alexandria era o farol que se irradiava para o Oriente e para o Ocidente, particularmente para Roma” (idem, p. 23). “Quando o cristianismo chegou a Cartago - voltada para o mar, símbolo de acolhida – a cidade era o centro geográfico, administrativo, cultural e comercial de uma Itália transmarina, rival de Alexandria. As duas eram celeiro de Roma. ‘Nela tudo respira opulência’, diz o africano Apuleto. Era época da grande prosperidade econômica, alimentada pelo trigo e pela oliveira. Tertuliano (160 a 220 d.C.), nascido em Cartago, jurista, notável apologista e polemista contra a heresia, foi o primeiro autor cristão a produzir uma obra literária em latim. Desde o fim do século II, as igrejas de Cartago e Alexandria produzem seus bispos e seus gênios” (idem p. 20). O evangelho difundiu-se rapidamente, de lugar a lugar, de cidade a cidade, entre populações romanizadas do interior. A maioria era formada por pobres e humildes de sangue misturado. O espírito de tolerância, próprio da África, explica, sem dúvida, essa progressão rápida que atingiu todas as camadas da sociedade. No século II, o cristianismo já havia penetrado no interior do país, quatrocentos quilômetros Nilo abaixo, o que explicaria a lenda segundo a qual a Sagrada Família teria ido para lá durante a perseguição de Herodes. Em 180, uma perseguição põe à prova a jovem igreja. Doze aldeões cristãos, cinco mulheres e sete homens, de uma aldeia insignificante, são denunciados, presos e depois decapitados em Cartago. Tertuliano fala com certa ênfase da conversão “de milhares de pessoas dos dois sexos, de todas as idades e de todas as condições”. Em cada cidade, diz ele com certo exagero, “mais da metade dos habitantes são cristãos”, e acrescenta com orgulho que se os cristãos se retirassem, “as cidades ficariam vazias”. No ano 197, Tertuliano escreve: “Somos de ontem e já enchemos a terra e tudo que é vosso: as cidades, o comércio, os lugares fortificados, os municípios, os povoados, os campos, as tribos, as escuderias, os palácios, o senado, o fórum. Deixamos para vós só os templos” (idem p. 21). “Em Marselha encontravam-se a estrada do norte e a via marítima pela qual chegavam as mercadorias como também os missionários da Itália e do Oriente. Da costa podia-se ir a Lyon e a Viena por via fluvial ou terrestre. Toda a nata intelectual da Grécia emigrara para Marselha. Os romanos frequentavam sua escola de filosofia. Sua “faculdade” de medicina era famosa e mantinha relações com Alexandria. A prosperidade de Lyon atraíra numerosa colônia de orientais e da Frígia. Os primeiros cristãos vieram, como seus compatriotas, por razões profissionais. Em 150 as comunidades já eram suficientes para se constituir em “igreja”, tendo as comunidades-mães enviado para Lyon o bispo Potino. Irineu, seu sucessor, governou as comunidades disseminadas da foz do Ródano às margens do Reno. O Evangelho já havia chegado a Trier e Colônia. Em 177, a igreja de Lyon, associada à comunidade de Viena, já era suficientemente importante para suscitar a atenção e motivar a perseguição. Pelo lado oriental, a penetração cristã na Ásia chegou até o país do Eufrates e do Tigre (hoje Iraque). Duas personagens atestam a vitalidade da nova religião na Mesopotâmia: Taciano e Bardesanes. A importância literária de um e outro mostra que o Evangelho já havia sido pregado eficazmente aos sábios e aos filósofos até as margens do Tigre. Taciano, depois de ir a Grécia, dirigiu-se para Roma, onde foi discípulo do filósofo cristão Justino (100-165). Depois da morte de seu mestre, ele voltou para sua terra e ali escreveu “Harmonia dos quatro evangelhos”, o Diatessaron, que ficou por muito tempo em voga na Igreja Siríaca e do qual foi encontrado um fragmento em 1933 às margens do Eufrates. Bardesanes, nascido em 156, em Edessa, foi um dos primeiros poetas a compor hinos litúrgicos em siríaco. Desde o fim do século II, Edessa aparece como foco de intensa vitalidade literária e intelectual, na qual foi forjada a língua siríaca cristã. Em meados do século II, a Igreja de Roma já representava uma das comunidades de maior importância, para onde convergiam alguns dos cristãos intelectualmente mais significativos da época. Apesar de toda sua diversidade, a igreja de Roma continuou sendo, até a metade do século II d.C., uma comunidade helenística, falando grego e mantendo estreito contato com as igrejas cristãs do Oriente. “Só pelos meados do século II podemos documentar algumas conversões significativas entre os romanos de classe mais baixa, que não falavam grego e precisariam da tradução do Novo Testamento em latim” (Stambaugh e Balch, op. cit. p. 150). A primeira Igreja de Roma era tão pouco latina quanto possível. Os cristãos falavam grego. Nela, sírios, asiáticos e gregos apátridas acolheram com fervor o Evangelho. O primeiro núcleo é formado por eles. Seguem-se autóctones e africanos. “O mundo em que a igreja fez um progresso triunfal, embora às vezes doloroso, estava ávido de religião. Dois fenômenos chamam atenção: a extraordinária popularidade das supostas religiões de mistério; e a atração, cada vez maior, que uma interpretação monoteísta do panteísmo convencional exercia em pessoas, tanto cultas como incultas. Apesar de tentativas periódicas (e.g. de Augusto) de reavivar a piedade antiga, os deuses da Grécia e de Roma tinham perdido todo e qualquer poder de transmitir a inspiração do passado. A adoração do imperador ou seu genius, estimulada por Augusto e seus sucessores, tornou-se cada vez mais proeminente e contava com apoio oficial. Contudo, na melhor das hipóteses, isso proporcionava um canal para expressão da lealdade corporativa e o sentimento de que Providência velava pelo império” (Kelly, op. cit. p. 9-10). Por volta do ano 200, nos territórios do Império, deviam viver cerca de 200 mil cristãos, num total de 60 milhões de habitantes. (Potestá e Vian, op. cit. p.35).
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