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Parte III Texto XV As comunidades cristãs do século II
Parte I Este texto está baseado principalmente no livro de A. G. Hamman, “A vida cotidiana dos primeiros cristãos (95-197)”, São Paulo: Paulus, 1997. O século II é marcante na história do Ocidente. Neste período, o Império Romano, o maior, mais sólido e duradouro da história universal, chega a seu apogeu em extensão territorial e vive seu período áureo em termos materiais e culturais. No ano 135, com o fim da segunda guerra judaico-romana, a Judeia é varrida do mapa. Jerusalém mais uma vez é arrasada e os judeus proibidos de voltarem a morar ali. No ano 180, com a morte do Imperador Marco Aurélio, homem correto e culto, encerra-se o período da “pax romana”, iniciado por Augusto César, no ano 29 a.C. A Boa Nova desprende-se do judaísmo étnico-religioso e afirma-se como nova religião, aculturando-se no mundo greco-romano. A nova religião se estende por todas as províncias do Império; sofre perseguições e martírios; consolida sua estrutura hierárquica e seu poder central; enfrenta o gnosticismo e outras heresias; começa a fundamentar sua mensagem em termos filosóficos e participar de debates intelectuais com a elite pensante, em pé de igualdade. Vive-se a primeira etapa da Patrística (dos Pais, ou Padres da Igreja) que pretende mostrar o Evangelho como “a expressão acabada da verdade que a filosofia grega havia buscado”. As fundamentações teóricas dos Pais da Igreja progressivamente irão permear, popularizar e até vulgarizar, no sentido pejorativo, a catequese cristã. No final do século II, como disse o arqueólogo e historiador Paul Veyne, o perfil social de uma comunidade cristã era perfeitamente compatível ao perfil da sociedade em torno dela e os cristãos, ainda assim, se destacavam: 1 - A segunda guerra judaico-romana Adriano, que sucedeu seu primo Trajano, governou o Império Romano de 117 a 138. Buscou consolidar as conquistas territoriais de seu antecessor, visitando todas as províncias e mantendo contato com as elites locais. Passou 12 anos de seu governo fora de Roma. Como grande admirador da cultura grega, foi um dos responsáveis pela propagação do helenismo. Mandou construir em Atenas o templo de Zeus (Olympeon). Procurou consolidar o Império através de investimentos em estradas, melhorias urbanas e difusão da simbiose cultural greco-romana. Adriano não tinha nenhuma simpatia pela cultura judaica, vivida como enclave em muitas cidades em que a cultura greco-romana predominava. Através de decreto, proibiu a circuncisão em todo o império, sob pena de morte. No ano 130 mandou construir uma cidade romana sobre as ruinas de Jerusalém, cujo projeto previa a construção de um templo ao Deus Júpiter no lugar do Templo de Javé. As obras de construção da nova cidade começaram em 131. No ano seguinte, uma insurreição comandada por Simeão explode e espalha-se por todo o país, pegando os romanos desprevenidos. Os colonizadores foram expulsos e o País declarou-se independente. Simeão, que passou a ser chamado Bar Kochba (Filho da Estrela), restabeleceu a Lei Judaica, o serviço do culto de sacrifícios no lugar do antigo Templo, mandou cunhar moeda e iniciou uma reforma agrária, o que lhe angariou mais apoio popular. “As comunidades cristãs do País não aceitaram a pretensão messiânica de Bar Kochba, acreditando ser Jesus o Messias. Tampouco apoiaram a luta contra o Império e, pelos dois motivos, foram violentamente perseguidos pelos seguidores do líder da resistência judaica” (Gass, op. cit. II, p. 92-93). Em meados de 135, o general Júlio Severo, Governador da Bretanha, nomeado para sufocar a rebelião, aprisionou e matou seu líder, Bar Kochba, perto de Jerusalém. Foi o fim da rebelião, cuja repressão devastou o país. A sorte dos vencidos foi pior do que em 70: milhares de judeus foram mortos nas batalhas; muitos morreram pela fome, sede e doenças. Inúmeras pessoas foram vendidas como escravos. A Judeia, que vinha sendo chamada Palestina, ganhou este nome oficialmente e o nome anterior foi banido. A construção de uma nova cidade, Aelia Capitolina, de estilo helenístico, sobre as ruinas de Jerusalém e seu povoamento com pessoas exclusivamente não-judias, sepultava a esperança dos judeus remanescentes de reconstruir o Templo, a cidade e a nação. Ou, pelo menos, adiava o sonho dos judeus para um horizonte imprevisível, assim como os cristãos em relação à parusia. Eliad, historiador romeno, afirma: “A ruína da cidade santa e a destruição do Templo transformaram brutalmente a orientação religiosa dos judeus e o mesmo acontecendo com os cristãos. Privados do santuário, o único espaço santo, onde o culto podia efetuar-se, os judeus viram-se reduzidos às orações e à instrução religiosa” (op. cit. p. 312). “O Sinédrio passou de Jâmnia para Usha, na Galileia, que assumiu a condução espiritual do Judaísmo no lugar da Judeia, agora despovoada” (Gallazzi, op. cit. p. 252). O impacto desses acontecimentos sobre os cristãos de origem judia só não foi maior porque, a essa altura, já fazia 40 anos que eles haviam sido expulsos da sinagoga e da convivência com seu grupo étnico-religioso. 2 - A “Pax Romana” Segurança, ordem e progresso! – este era o significado imediato da expressão “pax romana”, na época. Os exércitos romanos “pacificavam” os opositores do império. A guerra e a vitória eram pré-condições à “pax romana”, vista como um benefício pelas elites das colônias. O general e historiador Plinio, o Velho (23 a 76 d.C.), com entusiasmo, afirma: “a imensa majestade da paz romana, essa dádiva dos deuses que parece ter trazido os Romanos ao mundo para o iluminar”. Na definição de Israel Serique: “a pax romana foi um período de tempo e um conceito ideológico, que o Império Romano massificou em vistas a justificar muitas de suas práticas violentas, discriminatórias e injustas no estabelecimento e fortalecimento da estrutura imperial”. A romanização, segundo Crossan, “obedecia a três estágios sucessivos de construção: estradas e portos, templos e estátuas, aquedutos e balneários. As cidades eram usadas como centros administrativos para supervisionar a produção e distribuição de recursos locais e regionais”. Com isso, geravam impostos pagos a Roma. Nas comunidades urbanas estabeleciam-se formas comuns de vida cívica, com edifícios administrativos, e difundia-se a cultura romana. Essas iniciativas tinham a intenção de despertar a lealdade do povo para com o poder central. Os aristocratas locais assumiam as principais responsabilidades pelas estruturas da vida urbana. Brigavam uns com os outros para patrocinar projetos cívicos e alguns dentre os mais ricos até mesmo gastavam os próprios recursos em obras públicas. Por outro lado, naturalmente, acabavam sendo os principais beneficiários das bênçãos da urbanização romana e recebiam os primeiros frutos da “pax romana”. Os mais influentes patrocinadores eram chamados para ocupar postos importantes nos corpos legislativos, nos escritórios cívicos, ou nos ofícios sacerdotais; tais posições geravam novos serviços de interesse do império; e, em troca, seus ocupantes obtinham terras, redução de impostos e alvarás comerciais. Assim o Império tornava efetivo o domínio político, administrativo, fiscal e judicial. As classes urbanas mais baixas recebiam sua parte dos benefícios da urbanização na forma de amenidades públicas. “Os aristocratas ofereciam-lhes entretenimento como jogos e shows em espaços que construíam para esse fim, distribuíam alimentos, dinheiro, ou loterias”. Entre as amenidades urbanas estavam os banhos, que eram baratos e serviam à higiene do povo. Com suas piscinas quentes, mornas e frias, bibliotecas, salas de leitura, quartos para massagem e exercícios, barbeiros e depiladores, logo se tornaram espaços atraentes e bem frequentados nas áreas urbanas. Os homens reuniam-se diariamente, de tarde, e alguns permaneciam até o início da noite; as mulheres aguardavam ansiosamente seus horários, embora em alguns lugares fossem permitidos banhos mistos. O culto imperial era mais visível do que os banhos, mas esses tornavam mais sedutora a romanização por causa do culto ao luxo. As estradas romanas serviam ao comércio e à comunicação entre as cidades do império e a capital. O sistema rodoviário ligava-se aos portos, muitos deles construídos ou renovados com técnica que começava a utilizar concreto hidráulico inventado na época. “A onda de urbanização romana, talvez a mais abrangente até agora descoberta nos anais arqueológicos, expressava física e visivelmente a gratidão local pelas bênçãos da ‘pax romana’ ou, alternativamente, a exigência de fidelidade ao imperador. Era repetitiva e abundante, mas, afinal, aceita por todos” (Crossan e Reed, op. cit. p. 173,174, 176). Todo este conjunto de obras representava a visão de mundo de Roma e tinha um impacto “ideológico” enorme. A proliferação de estátuas e templos era parte integrante da teologia imperial romana a partir da qual há que se entender a abrangência do termo “culto ao imperador”. A pessoa do imperador e a religião, dois contundentes símbolos imperiais, reforçavam a estabilidade, como o bem maior que se poderia almejar. “Cristãos e pagãos da época elogiavam a era de paz que, de Augusto a Marco Aurélio, favorecia a organização e o cultivo das terras conquistadas, o surto da indústria e da agricultura, os negócios e a riqueza, mas também os intercâmbios culturais e religiosos pelos quais o Oriente se vingou de seu vencedor, levando-lhe sua língua, sua arte e sua religião” (Hamman, op. cit. p. 26). Esta era a perspectiva pelo menos daqueles que se beneficiavam da paz romana, utilizada como meio ideológico também para justificar as arbitrariedades praticadas. Todas as ações tornavam-se legítimas em nome da boa ordem e funcionalidade do império. Muitas autoridades romanas, sinceras e retas, não conseguiam entender porque bons cidadãos cristãos se negavam prestar “culto ao imperador” e dispunham-se a morrer por uma fé que negava este direito ao imperador. Para as autoridades e para o povo, o culto ao imperador era parte integrante e essencial do sistema romano, em outras palavras, da teologia imperial.
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