Quem Somos
Prólogo
Referências
Vídeos
Fale Conosco
Veja Também:
Parte III Texto XIV As comunidades cristãs primitivas Época pós-apostólica (anos 98 a 130) – II
Herança das comunidades do Discípulo Amado As comunidades do Discípulo Amado nasceram plurais, compostas de judeus tradicionais, enraizados nos ensinamentos da Torá e da Sinagoga; judeus marginais – galileus, samaritanos, batistas, essênios e helenistas; e evoluiu para uma composição ainda mais eclética de gentios gregos e romanos. No início, na Galileia, as mulheres tiveram um papel destacado, especialmente Maria Madalena. No final, alguns membros de nível intelectual elevado são incorporados à comunidade. “Um texto tão especulativo como o prólogo do Evangelho atesta a proximidade com círculos intelectuais como os que floresciam no judaísmo de Alexandria” (Blanchard, Op. cit. p.35). A comunidade foi forçada pela Guerra Judaica a deslocamentos geográficos e culturais. Ela desloca-se primeiramente dentro da Palestina e depois da Palestina para Éfeso: de um mundo cultural judaico, rural, para um mundo helenístico, urbano. O Evangelho de João reflete o grande esforço das comunidades do Discípulo Amado de responder aos problemas colocados por diferentes situações sociais e manter-se fiel às suas tradições de liberdade e autenticidade. “As comunidades têm, como centro de vivência, a prática radical do amor, da hospitalidade e da solidariedade” (Gass, Op. cit. II, p.120). Em meio a deslocamentos geográficos e culturais as comunidades passam por conflitos muito impactantes: a) relação com o judaísmo, que passa por três estágios: convivência pacífica entre irmãos, com algumas divergências; conflito doutrinários radicais com os judeus e com a Sinagoga e, por fim, expulsão dos cristãos da Sinagoga o do meio étnico-religioso judaico. O trauma foi tamanho que a palavra “judeu” assume um significado geralmente negativo; Os judeus haviam conquistado, junto ao Império Romano, um status de autonomia religiosa e cultural muito significativa; pelo peso econômico, pela participação demográfica (cerca de 8 a 10% da população do Império) e pela habilidade política. As primeiras comunidades cristãs surfaram nessa onda até a Guerra Judaica, quando os judeus perdem o privilégio da “religião legitima” e, em consequência, os cristãos tornam-se sem religião, uma superstição “depravada, desregrada e contagiosa” (Plínio: 23-79 d.C.), “perniciosa” (Tácito: 55-120 d.C.), “nova e maléfica” (Suetônio: 70-130 d.C.); b) relação com outras comunidades cristãs: “As comunidades das igrejas apostólicas eram hierarquizadas, ao passo que a do Discípulo Amado tinha como único valor o amor que iguala todas as pessoas. Para o evangelho de João, as comunidades apostólicas irão se encontrar com Jesus e poderão segui-lo somente quando abrirem mão de privilégios e posição social para se tornarem um ramo na videira que é Jesus” (Bortolini, Op. cit. II, p. 11); c) relação com o mundo pagão, urbano, culturalmente muito diferente e plural, de estratificação social mais rígida, pouco permeável à convivência igualitária e fraterna. Um desafio novo e difícil! O processo de redação do Evangelho reflete o pluralismo da origem da comunidade, seus deslocamentos espaciais e culturais, bem como a composição eclética de influência grega. ”Sua história redacional é mais complexa do que a representação ingênua de uma redação contínua e homogênea” (Blanchard, Op. cit. p.25). Sua redação demorou cerca de 60 anos. “Há também uma tendência no Evangelho de “multiplicar” visões a respeito de um mesmo acontecimento, sem se preocupar em compatibilizá-las. São leituras indubitavelmente prolongadas no tempo, mas reunidas na superfície do livro” (Blanchard, Op. cit. p. 31). Isto sugere a existência de vários redatores, sucessivos, como uma verdadeira “escola joanina”. O exegeta americano Raymond E. Brown sugere “duas redações sucessivas trabalhando a partir de uma tradição antiga comum e finalmente conjugadas na redação definitiva. À guisa de cronologia, a Guerra Judaica de 70 constituiria a articulação entre as duas redações, ao passo que a edição definitiva não seria anterior aos últimos anos do século I (95-100)” (Blanchard, Op. cit. p. 36). “De qualquer modo há que se reconhecer a importância decisiva de uma personalidade teológica e literária com forte ascendência sobre a comunidade joanina; em outras palavras, aquele que o livro chama ‘o Discípulo que Jesus amava’ e em quem reconhece uma autoridade incontestável” (Blanchard, Op. cit. p. 40). A originalidade do quarto Evangelho - seu caráter especificamente cristão, portanto – dever-se-á à identificação do Verbo divino com o ser humano de Jesus de Nazaré: um ser que depende da história, como sugerem tanto a palavra “carne”, como a referência ao testemunho, humano e datado, de João Batista (Blanchard. Op. cit. p. 94). A palavra “cosmos”, com o sentido de humanidade aparece mais de 70 vezes no quarto evangelho, cuja provável inserção no mundo grego (em Éfeso) torna a comunidade joanina particularmente sensível à universalidade do dom de Deus - Jesus é o Salvador do mundo! “João é, nitidamente, um evangelho mais reflexivo que os outros. Sem deixar de registrar os fatos particulares, aponta melhor que os outros o sentido profundo daquilo que a atuação de Jesus revelou: a radical união entre Jesus e Deus e o amor-caridade como critério de nosso agir” (Konings, Op. cit. II, p. 145). As cartas joaninas: na época da publicação do Evangelho de João o contexto é de perseguição por parte dos judeus e dos romanos e o risco consiste na institucionalização de suas comunidades, ameaçadas pela hierarquização das igrejas de herança petrina e paulina. Quando da publicação das cartas, em torno de 110, o contexto é outro: os adversários estão dentro das próprias comunidades, ameaçadas por divisões. Os companheiros que desencaminham seus irmãos são chamados de anticristos, falsos profetas, mentirosões, sedutores, filhos do demônio. Os cristãos são exortados a permanecerem unidos no amor de Cristo e na comunhão com os irmãos. O autor das três cartas atribuídas a João, escritas por volta do ano 110, em Éfeso, parece ser aquele que se apresenta como “o Ancião”, “o Presbítero”, na segunda e na terceira cartas, que são pequenos bilhetes. A primeira carta é uma espécie de Carta pastoral dirigida a várias igrejas, em forma de instrução, de homilia. Na Segunda, o autor escreve em nome de uma comunidade para uma igreja irmã. Na Terceira, ela é dirigida “à Senhora eleita e a seus filhos”, provavelmente uma das igrejas sobre as quais o Presbítero é responsável. O Apocalipse: “Atribuindo o livro ao profeta João, é provável que os redatores dessa obra quisessem homenagear o apóstolo João. Há uma tradição antiga do historiador eclesiástico Eusébio de Cesareia, falecido em 339, que afirma serem pessoas distintas o João Presbítero e o João Evangelista. Certo é que o redator final dessa obra, escrita em diferentes épocas e contexto, encontrava-se entre os exilados. Era um prisioneiro político por se rebelar contra a dominação romana, por testemunhar a boa-nova de Jesus Cristo. Por isso encontrava-se em Patmos, transformada pelos romanos em um grande presídio para todas as lideranças que resistiam ao culto imperial e à opressão” (Gass, Op. cit. II, p 102). O texto passou por um longo período de redação; a primeira parte (1-2,3) e a quarta parte (22,6-21) correspondem à redação final, datada do início do Sec. II. A segunda parte é a mais antiga, corresponde à perseguição dos cristãos depois do incêndio de Roma, em 19 de julho de 64. A terceira parte corresponde à violenta perseguição imposta por Domiciano (81-96). Como gênero literário o livro insere-se na tradição dos escritos apocalípticos do Antigo Testamento, muito comum no judaísmo desde a resistência dos Macabeus contra o Império Grego, por volta de 200 a.C. e que se prolongou até em torno de 200 d.C. (Gass, Op. cit. II, p. 102). A maior parte dos símbolos encontrados no Apocalipse foi tirada de Daniel, de Isaias e do Êxodo. A palavra apocalipse quer dizer “revelar”, “tirar o véu”. Foi interpretada por muitos como previsão de acontecimentos catastróficos, ligados ao fim do mundo. Hoje o Apocalipse é visto como “profético “, não no sentido de prever, mas de denunciar, de “revelar“; em uma linguagem criptografada, o que não pode ser mostrado às claras, em qualquer ambiente de opressão e repressão. É um livro destinado não a amedrontar, mas a estimular a resistência e a perseverança na fé e na esperança: o amanhã há de ser! Dois capítulos do livro Apocalipse são dedicados a sete igrejas situadas, hoje, na Turquia: Éfeso (centro urbano há mais de 1.000 a.C., quinta maior cidade do império romano, com 450.000 habitantes., célebre pelo Templo de Artemis e pelo teatro com capacidade de 25.000 espectadores); Esmirna (cidade que remonta a 3.000 a.C., onde nasceram Homero e Irineu de Lião, discípulo de Policarpo, que disse ter conhecido o Apóstolo João); Pérgamo (berço da Átalo, martirizado em Lião, era uma espécie de “Lourdes” da antiguidade pagã); Tiatira (conhecida por sua tintura de lã, cidade natal de Lídia, negociante de púrpura, que batizada por Paulo, hospedou-o em Filipos); Sardes (rica em rebanhos e mercado de tecidos); Filadélfia (cidade industrial e mercado de lã); e Laodiceia (conhecida pelas águas mornas– cf. Pamukale hoje - pela produção de lã preta e um tipo de colírio para os olhos). Uma curiosidade sobre o significado simbólico dos números, frequentemente utilizados no Apocalipse: 666- é o número da besta. “Em grego e em hebraico cada letra tinha um valor numérico. O número de um nome era o total do valor numérico de suas letras. O número 666 é do nome Nero-Neron, conforme o valor das letras hebraicas ou César-Deus conforme o valor das letras gregas. É também o número de maior imperfeição: seis não alcança sete, é só a metade de doze, e isto por três vezes! O número 666 é o cúmulo da imperfeição “ (Gass, Op. cit. II, p 107).
Parte I Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
Parte II Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
Parte III Textos
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
XXV
XXVI
XXVII
XXVIII
XXIX
XXX
XXXI
XXXII