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Parte III Texto XIII As comunidades cristãs primitivas Época pós-apostólica (anos 98 a 130) – I
Contexto e herança das comunidades paulinas Este texto está baseado principalmente nos livros de Ildo Bohn Gass: “Uma introdução à Bíblia - As comunidades cristãs a partir da segunda geração”, CEB-Paulus, SP,2011; e de A. G. Hamman – “A vida cotidiana dos primeiros cristãos (95-197)”, Paulus, SP, 1997. Convencionou-se designar como época pós-apostólica o período que vai do final do reinado do Imperador Domiciano, em 96, até o ano 130, quando teria sido escrito o último livro do Novo Testamento, a Segunda Carta de Pedro. Uma ressalva: alguns exegetas, mais recentemente, creem que o Evangelho de Lucas poderia ter sido publicado por discípulos da terceira geração, pelo ano 115 a 120. O livro dos Atos teria sido publicado cerca de 10 anos depois. 1 - O contexto político e as comunidades cristãs O Imperador Domiciano (81 a 96) para manter o Império unido, impôs a religião imperial, oficializada por Vespasiano (69-79 d.C.), a todos os povos dominados, exigindo inclusive o culto ao Imperador. Perseguiu violentamente os cristãos que se negaram a lhe prestar culto. Com sua morte, o Senado, aliviado das ameaças contínuas, retomou seu poder e elegeu Nereu, com 70 anos, filho de família senatorial, para restabelecer a paz. Nereu governou apenas dois anos (96-98), mas preparou para sucedê-lo Trajano, um chefe militar respeitado. O Imperador Trajano governou de 98 a 117. Respeitou o Senado e assistiu aos mais pobres de Roma com um programa alimentar. Mandou construir grandes obras públicas, aumentando a oferta de trabalho. Renovou o decreto de ilegalidade do cristianismo pelo ano 112. Mudou de tática em relação aos cristãos: pelo estatuto legal não se perseguia os cristãos, mas as autoridades romanas eram obrigadas a acolher as acusações contra os cristãos e julgá-los. Se estes se negavam a prestar culto ao Imperador e às divindades do Império, eram considerados traidores e condenados ao exílio, a trabalhos forçados em minas, em embarcações como remadores, à morte por decapitação, cremação, ou luta contra feras em espetáculos públicos. Trajano manteve a “Pax Romana” tradicional que garantia a ordem pública à custa da exploração das colônias e consequente enriquecimento e luxo para as elites romanas. Estendeu, em 114-116, as fronteiras do Império em direção à Mesopotâmia (Iraque), dando ao Império sua máxima extensão geográfica. “No tempo de Trajano, o centro de difusão do cristianismo na Ásia não é Jerusalém, mas Antioquia... Cidade fervilhante, animada, dia e noite... Magnífica, uma das mais belas do Império, com suas ruas pavimentadas, seus templos, seus pórticos. A comunidade cristã, aumentada com os fugitivos de Jerusalém, compõe-se principalmente de fieis de origem pagã, dentre os quais sairá o bispo Inácio (35-110), uma das mais nobres figuras de seu tempo” (Hamman, op.cit.p.14). “Foi no governo de Trajano que Simeão, bispo de Jerusalém, foi martirizado (107). Também Inácio, bispo das igrejas de Antioquia, foi preso, pelo ano 110, por sua liderança cristã. Conduzido a Roma foi ali julgado e martirizado no Coliseu” (Gass II, Op. cit. p. 89). Às vésperas de sua execução, referindo-se à morte que o esperava, disse em sua Carta aos Romanos: “Deixai-me ser comida para as feras, pelas quais me será possível encontrar Deus. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para encontrar-me como pão puro de Cristo” (tradução de Dom Paulo Evaristo Arns). “É nas cartas de Inácio de Antioquia que aparece, pela primeira vez, a expressão ‘igreja católica’ para referir-se ao conjunto das comunidades cristãs espalhadas por todo o mundo conhecido”. Impressiona a ênfase dada por Inácio à hierarquia na igreja: “Segui o Bispo, como Jesus Cristo o Pai. Segui ao presbítero como aos Apóstolos. Respeitai os diáconos como ao preceito de Deus. Ninguém ouse fazer sem o Bispo, coisa alguma concernente à Igreja”. A frase, dita menos de 80 anos depois da morte de Jesus de Nazaré, surpreende e contrasta com a igualdade praticada pelas comunidades de João. “Na virada do século I, a Igreja toma seu segundo fôlego. Penetra no interior das terras da Síria e na Ásia Menor. Plínio, o Jovem, encontra muitos cristãos até nas margens do Mar Negro, a 1.000 km. de Jerusalém e a 2.400 km de Roma”. Uma carta de Plínio, de autenticidade incontestável, descreve a progressão cristã, em 112: os cristãos formam “multidão considerável”… “vilas e campos estão invadidos”. Plínio – “legado para a Província do Ponto e da Bitínia, com poder consular” – preocupado com o estilo e o rigor jurídico, não usa nenhuma hipérbole quando compara a um “contágio” a nova religião que já infestou a Província do Ponto” (Hermman, Op. cit. p. 13). Neste período, surgem os últimos documentos que irão compor o Novo Testamento. São documentos atribuídos às: a) comunidades de Paulo: Cartas aos Hebreus; Cartas Pastorais (duas a Timóteo e uma a Tito); e a Segunda Carta de Pedro; b) comunidades do Discípulo Amado: as três Cartas atribuídas a João, o Evangelho de João e o Apocalipse. 2 - Herança das comunidades paulinas A chamada Carta de Paulo aos Hebreus é curiosa: não é de Paulo, não é carta e não foi dirigida aos hebreus. Escrita pelo ano 100, provavelmente em Roma ou Éfeso, por discípulos, ou admiradores de Paulo, que dominam a cultura judaica e grega. É considerada herança de Paulo pela radicalidade de sua tese central: a salvação pela fé. É uma reflexão teológico-pastoral destinada a encorajar, confortar e animar as comunidades que vivem perseguidas e atemorizadas. Pretende ser uma resposta à tentação de voltar às antigas religiões, inclusive ao judaísmo, como abrigo às perseguições. Como se vê, é uma releitura, atualizada, da Boa Nova, para um público específico, vivendo uma situação especial. Mostra, mais uma vez, que a Boa Nova, para ser boa e nova, tem que ser relida a cada nova situação social. A carta aos Hebreus apresenta Jesus como único sumo sacerdote, rei da justiça e da paz, o que é estranho, porque é o único documento do Novo Testamento que atribui a Jesus o título de sumo sacerdote e por que Jesus de Nazaré era leigo e não sacerdote ou levita. As cartas pastorais: são duas cartas dirigidas a Timóteo e uma a Tito, os quais representam as comunidades destinatárias. Foram escritas por volta de 115, por lideranças das comunidades de Paulo da terceira geração, que, segundo costume da época, atribuem a Paulo a autoria das cartas e homenageiam dois de seus colaboradores mais próximos. São consideradas, hoje, pseudo-paulinas. Desde o século XVIII são chamadas Cartas Pastorais. Não se trata propriamente de cartas, mas de circulares de exortação a viúvas, escravos, diáconos, epíscopos e presbíteros de várias igrejas. As exortações aos servos de submissão aos senhores e o convite às mulheres para que sejam submissas a seus maridos mostram a preocupação das lideranças pelo não enfrentamento dos costumes escravocratas e patriarcais. Num ambiente hostil, em que cristãos podiam ser acusados, julgados, condenados e mortos, os autores recomendam prudência para que não sejam vistos como subversivos da ordem estabelecida. O que está em jogo é a “sobrevivência das igrejas domésticas, que viviam na clandestinidade. Talvez a contribuição maior da Cartas Pastorais está em seu testemunho histórico sobre a organização da Igreja no início do segundo século. A estrutura de cargos administrativos já está mais definida; há presbíteros, epíscopos e diáconos. Em muitas comunidades os cargos administrativos eram eletivos e recebiam salários. Somente a partir do quarto século, tornaram-se em hierarquia sacralizada“ (Gass, Op. cit. 148, 153). A Segunda Carta de Pedro foi escrita em grego culto, por volta do ano 130, provavelmente em Éfeso, por membros das comunidades de herança paulina. O autor se apresenta como sendo o apóstolo Pedro, quando este já havia sido morto há quase 70 anos. A carta tem a forma de testamento de um velho apóstolo, antes de sua morte – gênero literário em voga na época – dando instruções a seus discípulos. Exorta seus leitores: “façam esforço para por mais virtude na fé, mais conhecimento na virtude, mais autodomínio no conhecimento, mais perseverança no autodomínio, mais piedade na perseverança, mais fraternidade na piedade e mais amor na fraternidade” (2 Pd. 1, 5-7).
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