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Parte III Texto XII As comunidades cristãs primitivas Época Subapostólica (67-97) - IV 8.4. Publicação dos Evangelhos Sinópticos e de Atos dos Apóstolos Este é o oitavo e último dos fatos relacionados no capítulo anterior como importantes pela influência que exerceram na segunda geração de cristãos. Talvez tenha sido o fato mais importante para todas as gerações de cristãos que se seguiram: a publicação dos três livros sobre a “Boa Notícia de Jesus, o Messias, o Filho de Deus” - como inicia o primeiro deles, o Evangelho de Marcos – bem como os Atos dos Apóstolos. Os três Evangelhos – de Marcos, Mateus e Lucas – publicados no período da segunda geração de cristãos são, entre si, muito semelhantes, por isso são chamados Sinópticos. Serão apontadas algumas semelhanças e discrepâncias, à guisa de introdução à leitura dos mesmos, que se recomenda nessa ordem cronológica e não como é apresentado na Bíblia. Pretende-se salientar quatro aspectos sobre este gênero literário tão especial que são os quatro Evangelhos: 1 - Todos estão focados em um e mesmo personagem: Jesus – qual Jesus? 2 - Cada Evangelho é produto de um coletivo específico: um conjunto de comunidades e tradições orais – quais? Com que características? 3 - Cada Evangelho tem função de “feedback”: fala às comunidades que o geraram e as retrata esclarecendo, ensinando, confortando e animando; 4 - Os três primeiros Evangelhos são muito semelhantes – por quê? Quanto se assemelham? 1 - Um e mesmo personagem: A primeira parte do projeto “O melhor de nós” (www.omelhordenos.com.br – blog / site / Facebook) teve como personagem exclusivamente Jesus de Nazaré, objeto de estudo científico. O personagem das narrações dos Evangelhos não é apenas, nem é prioritariamente Jesus de Nazaré. A pessoa é a mesma: o homem Jesus; contudo o foco, o olhar e a compreensão lhe conferem um novo significado. Esse olhar exerce o papel e efeito do “quadro teórico”, que permite ver e compreender os fatos de uma determinada maneira. Tanto os evangelistas, como os redatores finais dos Evangelhos, quanto as comunidades que lhes trouxeram os fatos, os valores, as atitudes, através de transmissões orais, ao longo de 40 anos para o primeiro Evangelho, partiam da certeza, da convicção, da fé de que Jesus ressuscitou. Ele está vivo entre nós. Ele é o Messias! Ele é o Senhor! Ele é o Filho de Deus! Aquele que se dizia “filho do homem”, que viveu entre os nossos pais e por eles foi testemunhado - Ele é o Filho de Deus. A ressurreição de Jesus fez todos aqueles que “viram”, que “sentiram”, que “testemunharam” a ressurreição relerem, reinterpretarem e resignificarem tudo que viram e ouviram de Jesus de Nazaré. Daí que o personagem dos Evangelhos é “Jesus, o Cristo, o Messias, o Filho de Deus e sua Boa Notícia”. Para uma melhor compreensão do personagem Jesus, o projeto “O melhor de nós” entende que, metodologicamente, é importante separar Jesus de Nazaré - personagem histórico construído através de um árduo trabalho intelectual - e Jesus Cristo, ou Jesus da fé, objeto de todos os Evangelhos. O prólogo do Evangelho de João deixa patente a distinção: Jesus, o homem de Nazaré e o mistério desse Jesus “Verbo que se fez carne”. A partir dessa distinção, sabendo que os Evangelhos não são biografias, não são livros de história, no sentido que se dá a este termo hoje, pode-se ler com mais objetividade e proveito cada um dos Evangelhos. 2 - Cada Evangelho reflete um conjunto de comunidades e suas tradições orais: 2.1 - O Evangelho segundo Marcos: como se viu no capítulo anterior, pertence à herança do Apóstolo Pedro, às comunidades que deram origem ao Evangelho de Marcos. O primeiro Evangelho foi, provavelmente, redigido no contexto da guerra na Palestina, da perseguição de Nero e da morte de Pedro, entre 65 e 70. Foi publicado, segundo alguns exegetas, logo após a destruição de Jerusalém, no ano 70. “As comunidades organizaram sua missão nos mesmos moldes do movimento de Jesus. Em equipes missionárias, saíam pelas aldeias curando doentes e expulsando demônios, isto é, procurando libertar de todas as forças que eram contra o Reino de Deu. Como Jesus, eram missionários itinerantes que viviam com simplicidade e desapego. Continuava sendo uma experiência majoritariamente rural, onde conviviam missionários itinerantes e comunidades nas casas das aldeias” (Gass, 7, p.51). Fieis à prática de Jesus, as comunidades da Galileia se reuniam nas casas, fazendo do cotidiano o espaço do sagrado. (A partir do início do quarto século, quando os imperadores romanos oficializaram a religião cristã, o espaço sagrado foi cada vez mais sendo transferido para templos.) Marcos destaca o ministério de Jesus na Galileia, ministério ao qual dedica metade de seu Evangelho. Apresenta organicamente as tradições anteriores e tem como centro o mistério do “caminho” de Jesus e a cruz reveladora do “segredo messiânico”. “O material é composto de aproximadamente 95 narrativas, 11.240 palavras, 1.345 vocábulos. Escrito em grego popular, com semitismos, alguns latinismos, com estilo vivaz, próprio da língua falada. Como se falasse para você, de modo simples e espontâneo, sem maiores cuidados gramaticais ou sintáticos”, como diz Marconi (Op. cit. p. 90). 2.2 - O Evangelho segundo Mateus: foi escrito provavelmente por escribas judeu-cristãos, no final dos anos 80, em Antioquia, na Síria. As comunidades que lhe deram origem viviam anteriormente na Palestina, talvez na Galileia, numa região em que predominavam igrejas formadas por pessoas de origem judaica que viveram inicialmente na Judeia. Elas se veem como herdeiras dos apóstolos, em especial de Pedro e dos familiares de Jesus. O Evangelho de Mateus, como retrata Konings, situa-se na proximidade do novo judaísmo (o “judaísmo formativo”, de inspiração farisaica), que surgiu depois da destruição do Templo em 70 d.C. Mateus é quem mais usa o termo “fariseu” na Bíblia; ao compará-lo com Mc., vemos que Mt. especifica sistematicamente os opositores de Jesus como sendo “os fariseus”, mesmo onde Mc. escreve “os escribas”. Isso indica que Mt. se dirige a uma comunidade que toma distância do novo judaísmo formativo, dominado pelos rabinos farisaicos. Mas nem por isso Mateus despreza a herança de Israel! Pelo contrário, parece ensinar à sua comunidade judeu-cristã, que ela, - e não a nova sinagoga-, é “o verdadeiro Israel”. O Jesus de Mt. é como um novo Moisés, que vem do Egito, que pronuncia cinco discursos em assembleia, como os cinco livros de Moisés. O primeiro discurso se situa solenemente na montanha, lembrando a proclamação da Lei no monte Sinai. Como novo Moisés, Jesus “aperfeiçoa” a Lei, em oposição expressa àquilo que fazem os fariseus e os escribas, Jesus é “o único Mestre”. O acento do Evangelho de Mt. recai na boa formação dos discípulos. É o Evangelho da “sinagoga cristã”, expressão usada para reunião de cristãos na Carta de Tiago (Konings, Op. cit. II, p XII-XIII). 2.3 - O Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos: formam uma só obra, escrita por discípulos de Paulo, no final dos anos 80, em Antioquia, Éfeso ou Grécia. Segundo Konings, “Lucas escreve para as Igrejas do mundo grego que ele mesmo, ao lado de seu mestre Paulo, ajudou a evangelizar. Recorre a indicações de cronologia mundial, diálogos, cenas de simpósio, de viagens etc., como se faz também em obras literárias helenistas. No prefácio de seu Evangelho, Lucas diz visar a averiguação da fé em que seu leitor, Teófilo, foi instruído. Tal objetivo corresponde à cultura helênica que Lucas assimilou e à investigação metódica (em termos daquele tempo) que diz ter efetuado. Ele não se limita a evocar a atividade só de Jesus. A Palavra que gerou a fé de Teófilo passou também pela Igreja. Por isso, a história de Jesus (o evangelho) e a história da comunidade (os Atos dos Apóstolos) são as duas partes de uma mesma grande história da Palavra. Lucas se preocupa em ensinar a viver “a longo prazo”. Se Mc. tinha mostrado que a parusia não era para já, Lc. acentua isso mais ainda. Em vez da oposição bipolar entre “este mundo” e o reino anunciado por Cristo (como “o mundo vindouro”, tempo do Fim), ele periodiza o tempo de modo diferente, como uma “história da salvação”: I) O tempo da promessa (o Antigo Testamento); II) O tempo do cumprimento da promessa (a atuação de Jesus); III) O tempo da vida dos cristãos no mundo, reunidos na Igreja e animados pelo Espírito Santo. “Ora, viver no mundo significa, concretamente, viver no Império Romano (que Lucas trata com respeito diplomático), mas também viver na comunidade dos irmãos, descrita em seu projeto ideal e nas suas dificuldades reais” (Op. cit. II, p. XIII-XIV). 3. Cada Evangelho tem função de feedback: Para Crossan, cada Evangelho atualiza para sua comunidade as palavras, as atitudes e os ensinamentos de Jesus. O que importa para elas é saber o que Jesus tem para lhes dizer naquele momento, naquelas circunstâncias. É também se ver na vida de Jesus. Daí a importância de se compreender a origem e os problemas das comunidades, às quais os Evangelhos se dirigem, atualizando as palavras de Jesus. Provavelmente Ele nunca disse “ai de vós, fariseus hipócritas”, “sepulcros caiados”, mas é o que as comunidades de Mateus gostariam de ouvir de Jesus naquele momento em que as disputas com os fariseus eram acirradas. 4. Os três primeiros Evangelhos são muito semelhantes: Quando os autores redigiram o Evangelho, segundo Marcos, entre 65 e 70, tinham em suas mãos coletâneas de parábolas, curas e narrações da paixão, morte e ressurreição, além da tradição oral das comunidades a que pertenciam. Quinze anos mais tarde, quando os evangelhos que homenageiam Mateus e Lucas foram escritos, as comunidades e seus autores tinham em mãos não apenas o Evangelho de Marcos, mas também um segundo texto, do qual copiaram muita coisa. Esse texto é designado em alemão Quelle (fonte), ou “Q”. Um texto que teria existido e não chegou até nós. Ele ajuda a entender as semelhanças entre os três primeiros evangelhos. “Além de copiar boa parte de Marcos e da fonte ‘Q’, os Evangelhos de Lucas e Mateus ainda contêm material que lhes é exclusivo, isto é, narrativas que somente se encontram em Mateus ou em Lucas, a exemplo da infância de Jesus”. No material exclusivo (ME) de cada evangelho, além das modificações introduzidas naquilo que copiaram de Marcos e da fonte “Q”, podemos perceber as características próprias das comunidades que estão por trás dos evangelhos de Mateus e Lucas. Para ilustrar: os autores de Lucas copiaram, com algumas adaptações, em torno de 430 versículos de Marcos e, como Mateus, 230 versículos da fonte “Q”, os quais são, sobretudo, “ditos e sentenças de Jesus”, salientando seu carinho, sua opção pelas pessoas empobrecidas e excluídas. São 490 os versículos elaborados ou recolhidos exclusivamente pelas comunidades de Lucas, totalizando o número de versículos do Evangelho de Lucas (1150).
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