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Parte III Texto XI As comunidades cristãs primitivas Época Subapostólica (67-97) - III Este texto é baseado principalmente no livro de Ildo Bon Gass “Uma introdução à Bíblia- As comunidades cristãs a partir da segunda geração", CEB / Paulus-SP, 2011. 8 - Publicação dos Evangelhos Sinópticos e de várias Cartas “Apostólicas”: Se alguma comunidade cristã, no início da época subapostólica, tivesse, graças a um mecenas, todos os escritos cristãos, ela teria: - A coleção de sentenças e milagres de Jesus, conhecida como Fonte dos Ditos, ou Q, do alemão Quelle (fonte), do ano 39, aproximadamente; - As 10 cartas autênticas de Paulo (dos anos 50 a 60); 3 que se perderam e 7 que chegaram até nós (Quesnel, p. 40; Heyer p. 8); - Talvez pequenos textos sobre o querigma (primeiro anúncio), celebrações, hinos, “a história de Jesus”, sentenças e parábolas, lembranças anedóticas, pessoais, “novelas” (narrações mais elaboradas) – Essas formas primitivas de pregação estão subjacentes aos atuais escritos e não foram preservadas. “À época escrevia-se em pergaminho (couro fino de ovelha ou asno), originário de Pérgamo, guardado em rolo. O texto apresentava-se em forma de colunas paralelas, que se tornavam legíveis à medida que o livro era desenrolado” (Konings, Op. cit. p. 168). O que estava escrito desgastava-se facilmente. Tanto a matéria-prima, quanto a produção de livro ou carta eram dispendiosas. Os escritos cristãos eram documentos complementares que pressupunham a pregação oral. Algumas cartas de Paulo eram escritos ocasionais sobre pontos controvertidos e exortações concretas para a vida cristã. Dificilmente uma comunidade cristã teria condições de possuir todos esses escritos, que talvez formassem uma bíblia (livros) de menos de 80 páginas de um livro atual. Provavelmente poucas comunidades possuíam algum documento escrito ou mesmo necessitavam deles na época apostólica. Elas alimentavam sua fé basicamente do exemplo, no modo de vida, das narrativas daqueles que conheceram Jesus de Nazaré e seus discípulos e das Escrituras judaicas. A época subapostólica começa para os cristãos – muitos dos quais judeus-cristãos – sob o impacto da guerra judaico-romana. Vendo a Palestina ser destruída – a terra doada por Deus a seu povo eleito – eles se perguntam: “é o sinal dos tempos? O final do mundo? A parusia esperada pelos cristãos? A destruição que precederia a segunda vinda gloriosa de Jesus, tão esperada pela primeira geração? É a resposta de Deus à prece tradicional dos cristãos ‘Vem Senhor!’ (Maranatha)?”. Como os gentios – gregos e romanos – convertidos viam e conviviam com o conflito ideológico gerado pela guerra judaico-romana? Se a estimativa de M. Carrez (Op. cit. p. 326) for correta, o número de cristãos no início da época subapostólica era de cerca de 40 mil. Considerando a taxa de alfabetização da época, haveria cerca de 2 a 4 mil cristãos alfabetizados, o que criava uma demanda de leitura sobre Jesus de Nazaré, origem desse ramo judaico, o cristianismo, que ganhava sua total autonomia. O Evangelho oral já não era suficiente. Fazia-se necessário compilar as narrativas orais, organizá-las, redigi-las e publicá-las. 8.1. Herança das comunidades de Pedro As comunidades em torno de Pedro foram as primeiras a se articularem para realizarem o trabalho coletivo, anônimo, que gerou um “novo gênero literário na Bíblia: o Evangelho, isto é, uma narrativa da prática e da mensagem de Jesus, incluindo sua paixão, morte e ressurreição, organizada como uma biografia“. A redação final do primeiro Evangelho é, desde o século II, atribuída a Marcos, ou João Marcos, filho de Maria, em cuja casa se reunia uma igreja doméstica, em Jerusalém, a qual acolheu Pedro quando este fugiu da prisão. Primo de Barnabé, que o acompanhou a Antioquia da Síria e participou com Paulo da primeira viagem missionária, “João, chamado Marcos” (At. 15, 37-38) teria sido o motivo de desavença entre Paulo e Barnabé, quando cada um organizou sua própria equipe missionária. Certamente, este Evangelho foi elaborado nos últimos anos da década de 60. Segundo Konings, “por volta de 60-65 e as tentativas de datar Marcos mais cedo não convencem”. Para Gass, “a redação final deve ter sido feita imediatamente depois da destruição de Jerusalém, em 70 (II, Op. cit. p. 14). O Cap. 13 do Evangelho de Marcos é como se Jesus estivesse descrevendo o que estava acontecendo com as comunidades cristãs de origem palestina a quem o Evangelho se destinava: a guerra judaico-romana, a destruição do Templo e a perseguição aos cristãos por parte das Sinagogas. Ele pretende mostrar: - Quem é Jesus de Nazaré para as comunidades; - O que é ser discípulo de Jesus de Nazaré naquele momento em que o Evangelho estava sendo escrito e publicado. À medida que as divergências e conflitos entre os cristãos e os judeus aumentaram (décadas de 80 e 90), o acesso às Sinagogas e, consequentemente, às Escrituras judaicas, tornou-se difícil, senão impossível. É nesse período, fim da época subapostólica, que surge a maior parte dos escritos cristãos. São dois conjuntos de escritos que se inserem nas heranças das igrejas fundadas: - Por Paulo e sua equipe. São eles: a Segunda Carta aos Tessalonicenses; o Evangelho de São Lucas; o livro dos Atos dos Apóstolos; a Carta aos Colossenses; a Carta aos Efésios; a Primeira Carta de Pedro; - Pelos Apóstolos, em Jerusalém e arredores, presidida por Tiago, até sua morte em 62 e a seguir por seu irmão Judas. São escritos dessa comunidade: o Evangelho de Mateus; a Carta de Tiago; a Carta de Judas. 8.2. Herança das igrejas fundadas por Paulo e sua equipe - A Segunda Carta aos Tessalonicenses, considerada por muitos exegetas pseudoepigráfica, ou seja, escrita em nome de Paulo por alguém, anônimo, da comunidade à qual se destina. Retoma a temática da parusia, louva “a firmeza e a fé que vocês mostram em meio a todas as perseguições e tribulações que suportam”, exorta “não se deixem perturbar tão facilmente, nem se assustem como se o Dia do Senhor estivesse para chegar logo”, e ordena, “em nome do Senhor Jesus Cristo, fiquem longe de qualquer irmão que vive sem fazer nada e não seguem a tradição que recebeu de nós”. - As Cartas aos Colossenses e aos Efésios não são propriamente epístolas, mas tratados teológico-pastorais; no primeiro caso cristológico e no segundo caso eclesiológico. São circulares destinadas às Igrejas da Ásia Menor: Ponto-Bitínia, Capadócia e Galácia-Ásia, cuja capital era Éfeso. Revelam um alto grau de enculturação na mentalidade grega, tratando Cristo como um mistério de conciliação de todos os povos com Deus e entre si, através da cruz e ressurreição. - A Carta aos Efésios é uma releitura da Carta aos Colossenses e deve ter sido escrita logo depois desta, por outro discípulo de Paulo. São muito diferentes no estilo. “ A Carta aos Efésios aprofunda Colossenses e a amplia, fazendo uma reflexão teológica sobre o mistério que é a Igreja, vendo as comunidades como um corpo, cuja cabeça é Cristo. Outro ponto em comum nas duas cartas são a lista de obrigações dos membros da família: pais, esposas, filhos e de escravos e seus senhores. Percebe-se como as igrejas, em um ambiente hostil, vão retomando, aos poucos, a forma de vida das famílias patriarcais, tanto da cultura dos gregos e dos romanos como dos judeus. O mesmo se passa com a forma de exercer a liderança nas igrejas, que passam por um processo de hierarquização e controle. O fundador da comunidade de Colossos (de maioria não-judaica), que Paulo nunca visitou, foi seu discípulo Epafras. O autor da carta-circular foi outro discípulo de Paulo, talvez Timóteo. Provavelmente foi escrita em Éfeso, pelo ano 95, antes da Epístola aos Efésios. - A Primeira Carta de Pedro: A carta leva o nome de Pedro, mas foi escrita em 95-96, nos últimos anos de dominação de Domiciano, mais de 30 anos depois da morte do Apóstolo Pedro. A carta é escrita em grego culto e é dirigida a convertidos de várias religiões não-judaicas. Pretende encorajar os destinatários, perseguidos pelos romanos, a suportar o sofrimento e as perseguições injustas. Eram desempregados e sem-teto, emigrantes do norte e oeste da Ásia Menor (hoje Turquia) que, como forasteiros, não tinham direitos de cidadania: não podiam votar, realizar casamentos, ter propriedades e receber heranças. Os autores da Carta, desconhecidos, escrevem desde “Babilônia”, pejorativo usado pelos cristãos para designar a cruel e devassa capital do Império. 8.3. Herança das comunidades de Tiago / Jerusalém - A Carta de Tiago, escrita por um anônimo judeu-cristão, por volta do ano 95, em algum lugar da Palestina, ou mais provavelmente na Síria, quer homenagear Tiago, designado irmão do Senhor, chefe da igreja de Jerusalém, que foi morto pelo Sumo-sacerdote Anã em 62. Não é propriamente uma carta, mas uma coletânea de sentenças de sabedoria, à semelhança dos livros sapienciais, da Fonte “Q” e do apócrifo Evangelho de Tomé. Para Konings, “talvez seja o documento mais importante para nos mostrar como os judeu-cristãos interpretavam o evento Jesus” (Op. cit. p. 148). Os destinatários já estão espalhados pela Palestina e Síria em comunidades com grandes desigualdades sociais, das quais participam ricos comerciantes e latifundiários. “Suas exigências são a prática da palavra, a superação de uma espiritualidade individualista, a igualdade, o respeito pelos pobres, a solidariedade, a fé ativa e a exclusão da exploração, numa forte admoestação aos ricos” (Gass, II, Op. cit. p. 76). A frase mais celebre da Carta de Tiago é: “A fé sem obras é morta”. - A Carta de Judas, como a anterior, foi escrita por um judeu-cristão, à mesma época, em algum lugar da Síria, ou da Ásia Menor. É atribuída a Judas, sucessor de Tiago. Ambos aparecem na lista de familiares de Jesus, cujo clã dirigiu as comunidades de Jerusalém até o ano de 135, quando os Romanos acabaram de arrasar a cidade e quebrar a resistência dos judeus. Não se trata propriamente de uma carta, mas de um bilhete de 25 versículos destinados a alertar as comunidades contra os falsos doutores, que estão aparecendo. “Não conseguimos imaginar suas doutrinas; a carta em vez de expô-las e argui-las com clareza, supõe conhecidas, limitando-se a xingar violentamente os falsos mestres e a exortar os fieis” (Konings e Krull, Op. cit. p. 87). Os Evangelhos publicados no período serão comentados no próximo capítulo.
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