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Parte III Texto X As comunidades cristãs primitivas Época Subapostólica (67-97) - II 5 - Perseguições e massacres: A comunidade judaica em Roma era numerosa e poderosa. Segundo Filon, “o grande setor de Roma, no outro lado do Tibre, é ocupado e habitado por judeus, a maioria dos quais são cidadãos romanos emancipados”, ou seja, ex-escravos que tinham sido levados a Roma. Júlio César (49 a 44 a.C.) e Augusto (63 a.C. a 14 d.C.) foram particularmente benévolos com a comunidade judaica, outorgando-lhes privilégios muito significativos” (Arens, Op. cit. 165,179). Em 49 d.C. o Imperador Cláudio (41 a 54) expulsou os judeus, aí incluídos os cristãos, ainda não diferenciados pelos romanos. Entre os cristãos de origem judaica, que tiveram que deixar a capital do império, encontravam-se Priscila e Áquila. Foram evangelizar em Corinto, onde Paulo os encontrou mais tarde. Anos depois, Nero (54 a 68) revogou o decreto de Cláudio, possibilitando o retorno dos judeus. Assim que podemos encontrar Priscila e Áquila novamente em Roma, quando Paulo escreve a Carta aos Romanos (Rm. 16,3). Em 58-59 Paulo é mantido prisioneiro em Jerusalém e Cesareia. Em 60, ele é levado para Roma e permanece em prisão domiciliar por dois anos. Em 62, Tiago, irmão do Senhor e chefe da igreja de Jerusalém, é apedrejado a mando do sumo sacerdote Anã, da família de Anás. Em 19 de julho de 64, Nero manda incendiar um bairro de Roma para construir no local um suntuoso palácio e coloca a culpa nos cristãos. Estes são perseguidos e Pedro e Paulo são mortos. Em seus Annales, o historiador Tácito (56 a 117 d.C.) afirma: “Para se ver livre do boato (dele ter posto fogo), Nero prendeu os culpados e infligiu as mais requintadas torturas em uma classe odiada por suas abominações, chamadas cristãos pelo populacho... Uma grande multidão foi condenada, não apenas pelo crime de incêndio, mas por ódio contra a raça humana. E, em suas mortes, eles foram feitos em pedaços por cães, ou cravados em cruzes, ou incendiados e, ao fim do dia, eram queimados para servirem de luz noturna”. Domiciano, filho de Vespasiano e irmão de Tito, reinou de 81 a 96. Foi um dos mais cruéis imperadores de Roma. Atribuiu a si mesmo títulos divinos, exigindo culto à sua pessoa. Seus documentos oficiais começavam com as palavras: “Nosso Senhor e Deus ordena que se faça o seguinte…”. As perseguições aos cristãos foram desencadeadas especialmente porque estes se negavam a prestar culto ao imperador. Tudo piorou quando Domiciano emitiu um decreto contra as comunidades cristãs, considerando sua religião ilícita. Isso aconteceu no momento em que os judeus-cristãos foram expulsos do Judaísmo (Concílio de Jâmnia), na segunda metade dos anos 80 (Gass, Op. cit. p.25). As perseguições tornaram-se mais intensas na periferia do império, onde os administradores regionais queriam ostentar seu zelo pelo imperador como divindade. “O fim do séc. I coloca, assim, as comunidades cristãs no isolamento político e social” (Konings, Op. cit. p.137-138). Segundo Blanchetiere, uma sétima parte dos cerca de sete milhões de judeus recenseados no tempo do imperador Claudio residiam na Ásia Menor. Pelo menos dois terços viviam na diáspora, percentagem que cresceu consideravelmente a partir da década de 70 d.C. (Arens, Op. cit. p.159). Estes dados são importantes para se compreender o impacto da Guerra Judaica, não apenas sobre os judeus da Palestina, mas também os da diáspora e sobre as comunidades cristãs, muitas das quais foram implantadas junto a elas. 6 - Guerra judaico-romana: “A resistência contra os romanos vinha crescendo na Palestina e em outros lugares do império, como em Alexandria, no Egito, onde foi violentamente reprimida. Os impostos, os tributos e as taxas continuavam a tirar quase a metade da produção dos agricultores. A incapacidade dos Procuradores Romanos de compreender a cultura e a religião do povo da Palestina, somada à violência da repressão por qualquer distúrbio da ordem, fustigava os brios e a paciência do povo”. O ano 66 inaugura sete anos de acontecimentos “apocalípticos” para os judeus da Palestina. A guerra estourou em Jerusalém quando o Procurador Romano Géssio Floro (64-66) fez um saque de 17 talentos do tesouro do Templo. Diante dos protestos, mandou crucificar alguns rebeldes em Jerusalém. Os zelotes iniciaram um movimento revolucionário nacionalista contra a opressão romana e as elites judaicas locais. No mesmo ano, 66, estouraram revoltas em vários pontos da Palestina, estendendo-se à Galileia. Motins e ações antijudaicas ocorreram também em Éfeso, Cirene e em Cesareia, segundo relata Flávio Josefo, instigada por cidadãos gregos e não romanos. “Em Cesareia (Judeia) houve um massacre de judeus, que provocou represálias sangrentas em várias cidades do norte (Tiro, Filadelfia, Gerasa, Pela, etc.). No ano seguinte, uma sublevação antijudaica, que se estendeu por numerosas cidades da Síria e causou inúmeras mortes, desencadeou um massacre de grandes proporções em Antioquia”(Arens, Op. cit. p.179). Em 68, uma das facções rebeldes da Galileia, de base social campesina, conquistou da facção oposta o domínio de Jerusalém, queimou o edifício dos arquivos públicos, onde estavam arquivados os controles das dívidas dos camponeses. Muitos nobres foram mortos, inclusive o sumo sacerdote. A casta sacerdotal foi morta ou pelos zelotas ou pelos romanos. Muitos judeus foram mortos. Outros, fugindo dos horrores da guerra, saíram de Jerusalém. Os judeus-cristãos que não foram mortos abandonaram a capital e se refugiaram na cidade de Pela (Transjordânia), no norte da Galileia e no sul da Síria. Assim, a Igreja de Jerusalém, em menos de 40 anos, se desfez e o cristianismo, tão cedo, perdeu uma importante referência. “É possível que, depois da guerra, algumas comunidades tenham se reorganizado, mas a Igreja de Jerusalém havia perdido totalmente sua importância no contexto das demais comunidades. Outras cidades do império passaram a adquirir maior relevância, como foi o caso de Antioquia, de Éfeso e de Roma” (Gass, Op. cit. p. 12-13). Em 69, Nero confiou aos Generais Vespasiano e seu filho Tito a repressão à resistência. Com um exército de 60 mil homens, eles conseguiram retomar quase toda a Galileia, obrigando os guerrilheiros judeus a se refugiarem em fortalezas. Nero suicidou-se em 68 e vários generais disputaram o poder: Galba (68), Otônio (69), Vitélio (69), tendo Vespasiano se firmado em 69. Em 70, depois da Páscoa, Tito com 20 mil soldados cercou Jerusalém. Vários guerrilheiros judeus capturados foram crucificados. Em setembro os romanos conquistaram a cidade alta, incendiaram o Templo, transformando-o em cinzas e ruinas. (Em 64 haviam sido concluídas as obras de ampliação do luxuoso Templo, orgulho dos judeus, iniciado na época de Herodes Magno (37-4 a.C.). “O candelabro de sete braços, bem como a mesa dos pães de oblação que estavam no Santo do Templo, foram levados para Roma e exibidos como troféus da vitória no ano seguinte. Quem não foi morto na guerra foi levado para os jogos do circo, ou foi condenado a trabalhar em obras públicas de interesse do império e muitos levados como escravos” (Gallazzi, Op. cit. p.251). Segundo Arens, “cerca de 100 mil judeus foram deportados e vendidos como escravos” (Op. cit. p.165). (Na entrada do foro romano ainda hoje existe o Arco de Tito, que lembra a vitória sobre a resistência judaica e a destruição de Jerusalém). “A vitória de Roma representou o fim para vários grupos, como os zelotas, os saduceus, os sacerdotes, os essênios e muitos samaritanos. Com o desaparecimento da elite sacerdotal, os fariseus saíram fortalecidos da catástrofe” (Gass, Op. cit. p.22). 7 - Rompimento com o judaísmo: No início da Guerra Judaica, os rabinos farisaicos, sob a liderança de Yohanan ben Zakkai e com a permissão dos romanos, saem de Jerusalém, levando consigo os rolos das Escrituras. Refugiam-se na região de Jâmnia (Yavné), a oeste de Jerusalém, onde os escribas constituem um centro de estudos bíblicos. “Aí renasce o judaísmo na forma que atravessará a Idade Média e a Modernidade : o judaísmo sem templo, tendo como ponto de referência a Bíblia e a tradição oral rabínica que dará origem ao Talmude. Seu início é chamado “o judaísmo formativo”. Se antes de 66 a comunidade judeu-cristã vivia em termos de boa vizinhança com as comunidades judaicas, depois de 73 o nacionalismo judaico e a observância farisaica tornaram-se o divisor das águas entre judeus e cristãos. Aos olhos dos rabinos, empenhados em restaurar o judaísmo, os cristãos já não eram verdadeiros judeus. A ruptura entre a Sinagoga e a Igreja é fato consumado. Costuma-se atribuir ao sínodo judaico de Jâmnia, por volta de 80-90 d.C., a excomunhão dos “hereges” cristãos assumida nas “dezoito preces” da oração cotidiana dos judeus”. (Konings, Op. cit. p. 151). “Na oração sinagogal, introduziram também uma prece pedindo a Deus que amaldiçoasse os judeus-cristãos” (Gass, Op. cit. p. 24). A Escola de Jâmnia constituiu-se como sucessora do Sinédrio e referência, como autoridade moral e religiosa, para todos os judeus, inclusive da diáspora. O Evangelho de Mateus reflete o clima de animosidade entre as comunidades cristãs e os judeus, à época, como se vê nas expressões “fariseus hipócritas”, “sepulcros caiados” postos na boca de Jesus. “O julgamento de Deus sobre Israel, mencionado em setenta passagens, é também uma advertência para a comunidade. Mateus mostra como Israel havia perdido sua condição de ‘povo de Deus’ porque havia rejeitado os profetas, João Batista e o próprio Jesus” (Mt. 21,33-46). Os líderes da comunidade deviam preocupar-se com os mais fracos (Mt. 18). Provavelmente essa preocupação era provocada pelas expulsões de judeus-cristãos das sinagogas judaicas, fato que afetava especialmente a comunidade de Mateus. Daí a importância adquirida pelas palavras de Jesus sobre as perseguições e hostilidades contra os seus discípulos. Mateus sempre procura iluminar a situação de sua Igreja com palavras e ditos de Jesus, que ele aplica à situação em que vive. O problema das relações entre Israel e o cristianismo, que é central para o evangelho de Mateus, em Lucas passa para o segundo plano, sendo substituído pela questão da missão e da expansão do cristianismo entre os gentios no Império Romano. (Estrada, Op. cit. p.95,97). “Depois da queda de Jerusalém, a marca mais forte da fase subapostólica é a trágica separação entre cristãos e judeus” (Gass, Op. cit. p. 13).
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